quinta-feira, 12 de março de 2015

Mercearias Finas 98 (e pré-pascais)


Já eu me aprontava e aperitivava para Campo de Ourique, quando - parcas do destino! - o telemóvel me vibrou do bolso e me fez gorar o objectivo. Um pouco desasado enumerei, por local e proximidade, as hipóteses de almoço. Na Adega do Dantas, a ementa desiludiu-me, As Zebras, bem próximas, estavam coalhadas de turistas... Rumei, assim, ao Sinal Verde, que é quase sempre uma alternativa segura. Estava quase vazio o restaurante, e arrumei-me tranquilamente, numa mesa para dois, junto à janela que dava para a rua, buliçosa, àquela hora.
Estava eu a bater-me, meticuloso por causa das espinhas e do espaço no prato, com três linguadinhos fritos, ladeados por um arroz de cenoura (e açafrão?) e uma salada, quando o casal se sentou na mesa ao lado. Ia eu no segundo trago de um branco de Figueira de Castelo Rodrigo, desconhecido mas delicioso, seco e lotado com Síria e Malvasia Fina, das Beiras. O cavalheiro da mesa ao lado era prolixo, contrastando com a calada companheira. Fiquei assim a saber - mesmo que não quisesse - o itinerário da sua futura Páscoa, acompanhado pela filharada.
Saída matutina para Coimbra (Museu Machado de Castro), com passagem pela Igreja Velha de Sta. Isabel, depois, Braga (Igreja de S. Frutuoso), finalmente, Póvoa de Varzim (S. Pedro de Rates) - parecia uma hagiografia! Os três Santos fizeram-me concluir que a paixão do cavalheiro era pascal e francamente católico-apostólica, de intenções. As criancinhas - informou o palavroso cavalheiro - teriam direito, no museu conimbricense, a uma visita guiada, pedagógica, a 12 obras de arte, de reconhecido gabarito e autenticidade.
Como nota final, posso informar que o casal comeu peixe cozido e bebeu água de Penacova, embora não estivessemos ainda na Sexta-feira Santa...

450 anos, há dias


Não será sequer um crime de lesa majestade e muitos hão-de considerar o facto e o aniversário (1 de Março de 1565) como uma insignificância histórica. Mas a omissão é um bom exemplo de pouca importância que, em Portugal e nos dias de hoje, a cultura e a história ocupam nos jornais e até nas instituições. Em 1965, o quarto centenário da fundação da cidade do Rio de Janeiro, pelo português Estácio de Sá (1520-1567), em Portugal teve divulgação condigna e interessante.
A 1 de Março passado, completaram-se 450 anos sobre o facto. E eu soube da efeméride, vejam lá: pelo TLS! Que destaca o dinamismo com que o Real Gabinete Português de Leitura tomou a seu cargo uma série de iniciativas para celebrar essa data. Aqui deixo, ao menos, a informação.

Curiosidades 39


Na sequência do tema da inauguração (6/6/1775) da estátua equestre de el-rei D. José (Curiosidades 38, de 25/3/15), dê-se notícia que a peça escultórica pesava 643 quintais (ou 2.572 arrobas) e que, dado o seu volume, o transporte até ao Terreiro do Paço, obrigou ao alargamento de ruas e à desmontagem de alguns arcos, para que passasse, ao longo do percurso.
Em relação à Ceia festiva, acrescentem-se mais algumas, das muitas vitualhas que nela foram servidas, bem como os respectivos preços. Assim:
- Café, 5 arráteis..................................................... 54$620 mil réis.
- Chocolate, 29 arráteis e meio............................... 21$880.
- Coelhos 15 e 17 lebres..........................................  4$200.
- Frangos 194.......................................................... 21$985.
- Ovos, 4.145 dúzias.............................................. 337$025.
- Patos, 62............................................................... 21$000.
- Vitela, 118 arráteis.............................................. 234$312.
- Vinhos nacionais e estrangeiros........................ 2.068$130 mil réis.  

                                                                                                                   (continua)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Postais de Arte (7) : a Seda


É este o último postal da série temática que tenho vindo a colocar no Arpose.
As pequenas cidades de província têm, sobre as grandes urbes, a vantagem de proporcionar aos seus habitantes, e desde a infância, uma aprendizagem local dos ciclos da Natureza. Quer se trate de usos regionais, quer da Flora e seus tempos próprios, como também da vida dos Bichos e suas particularidades evolutivas, através das Estações do ano.
Por isso, este sétimo Postal de Arte, de Louise Deletang, não me desperta apenas simpatia estética, mas também memórias, muito afectuosas. Entre os 7 e os 12/13 anos, eu tive criação de bichos da seda, em casa. Acompanhei o crescimento deles, fui buscar folhas de amoreira, às árvores do Mercado, para a sua alimentação; limpava-lhes o tabuleiro onde viviam. Observava a minuciosa e lindíssima construção dos casulos onde se encerravam. Para, passado algum tempo, deles saírem, magicamente, transformados em borboletas que não voavam, mas sabiam procriar e pôr ovos (imensos) nos panos de linho. Que eram guardados, religiosamente, em local seguro e escuro, de um ano para o outro.
E depois, impacientemente, aguardava os meses até chegar de novo a Primavera. Para ver surgir os pequenos bichos da seda - a nova geração - dos minúsculos ovos que tinham sido postos pela geração anterior.

com fraterno agradecimento a A. de A. M..

Arnold Schoenberg (1874-1951)


Divagações 82


Onde é que se rompe o equilíbrio, ou até onde, não se sendo especialista, um simples admirador ou amador pode reconhecer ou classificar de (boa) estética(mente) uma obra de arte?
Se se pode admitir que o ser humano é o único animal que é sensível ao belo, também é certo que o homem pode ser insensível à obra de arte, sem deixar, no entanto, de possuir qualidades e características humanas.
O reconhecimento humano seria fácil, pelo menos, até finais do século XIX. Enquanto música e pintura, por exemplo, tendiam para uma representação e harmonia que, de imediato, seriam reconhecíveis. Mas, hoje, em que essas artes vão para além da representação do real ou se aproximam da dissonância?
Porque, sendo ainda indispensáveis, a imaginação, o pensamento e a emoção, os três elementos de avaliação da obra de arte, acabam por se transformar em bússolas cegas ou doidas, muitas vezes, nos dias de hoje.

terça-feira, 10 de março de 2015

A par e passo 128


Para os antigos, o minuto e o segundo não existiam. Artistas como Stevenson, como Gauguin, fugiram da Europa e chegaram às ilhas sem relógios. O correio ou o telefone nunca incomodaram Platão. Os horários dos comboios nunca apressaram Virgílio. Descartes perdia-se a sonhar pelos cais de Amsterdão. Mas os nossos movimentos, hoje em dia, regulam-se por pequenas fracções exactas de tempo.

Paul Valéry, in Variété III (pg. 268).

Marcadores 26


Sucinto, essencial e mínimo, este marcador de livros da já desaparecida Galeria Quadrante que, livraria também, tinha um dinamismo considerável nos anos 60 do século passado. Fui encontrá-lo entre as páginas de Tédio Recompensado (1968), de Ruy Cinatti (1915-1986). Poeta estimável, de que passou, anteontem, o centenário do nascimento. Aqui fica o marcador, em imagem, e a nota breve sobre o Poeta que tanto amou Timor.

segunda-feira, 9 de março de 2015

René Aubry : "Steppe"


Uma fotografia, de vez em quando (57)


O tempo acaba, muitas vezes, por acrescentar uma mais valia à insignificância daquilo que é, ou parece ser momentaneamente, contemporâneo.
O que avulta de expressivo, neste instantâneo, provavelmente dos anos 90, é a acrobacia gestual deste empregado de mesa, num restaurante ribeirinho já desaparecido no tempo. Bem como o sublinhado, motivo e instante, de quem o fixou - por importante.
Lisboa, ao longe, é unicamente um acessório.

Comic Relief (104)

Quem nunca foi vítima de um ataque de riso incontinente, em momento(s) impróprio(s), que atire a primeira pedra. Que, muitas vezes, pela ausência de motivo suficiente acaba por ser extremamente contagioso.
E creio que nem Bergson, que abordou o riso de forma filosófica e ampla, terá conseguido explicar essa inconveniência humana da situação.
Erupção espontânea, o facto atesta não só a independência da emoção, como também a transgressora tentação do politicamente incorrecto - é esse, pelo menos, o meu entendimento pessoal.

domingo, 8 de março de 2015

Citações CCXXVI


Toda a identidade é uma proposição activa. Comunica o seu ser ao mundo circundante através de uma série de sinais mais ou menos claros, distintivos e complexos.

George Steiner, in Extraterritorial (Relógio D'Água, 2014).

Addinsell e Lisitsa, para retemperar este domingo soalheiro


Recuperado de um moleskine (11) : com "aggiornamento"


O nosso cosmopolitismo é de fachada - muitas vezes para tentar impressionar os outros -, o sentido crítico português é quase nulo, a filosofia lusa pouco sobe além do nível da conversa de tasca de província. Depois, é certo, temos o sol e a poesia. Mas sobre esta última, há muitos que se obstinam em cegamente confundir alhos com bugalhos e metem na mesma antologia versinhos e desgarradas, juntamente com Poesia. Não há nada a fazer, porque este estado de coisas arrasta-se há muito... Basta ler o que alguns espíritos esclarecidos portugueses escreveram, nos últimos séculos.
Porque, às vezes, o pessimismo também toma conta de nós para condenar, fatalmente, o nosso futuro, se o pensarmos. Hoje, no jornal Público, o articulista Vasco Pulido Valente finaliza, assim, a sua crónica: "...Portugal acaba com certeza por se transformar num «filme negro» (anos 40), sem Bogart, nem Bacall. E, nós, pachorrentamente, assistimos na nossa cadeira." Neste momento, eu até carregaria mais nas tintas pretas: somos uma espécie, alastrada pelo território nacional, de uma aldeia de província ocupada em conversas de soalheiro. E que absorveu, mal, a modernidade.
Como disse Eugénio de Andrade, citando Aquilino: "o melhor de Portugal cheira a estábulo."

Regionalismos transmontanos (74)


1. Taniça - cordel delgado.
2. Tarecada - acção ou dito de mulher buliçosa, traquinas.
3. Tarracho - homem baixo e atarrecado.
4. Tato - tátaro, gago, tartamudo, tatibitate.
5. Tenente - homem a quem a mulher é infiel.
6. Terçar - lavrar a terra pela terceira vez.

sábado, 7 de março de 2015

Pinacoteca Pessoal 93


Para quem o aprenda cedo na vida e o vá praticando, o xadrez pode ser um jogo fascinante. Só os 4 primeiros lances de uma partida permitem, nada menos, de 318.979.584.000 opções combinadas (G. Steiner dixit). Fernando Pessoa e Cavafy dedicaram-lhe 2 poemas célebres e o jogo de xadrez entre o Cavaleiro e a Morte preenche uma boa parte de um conhecido filme de Ingmar Bergman.
O pintor neerlandês Lucas van Leyden (1489?-1533) era um nocturno, quanto a hábitos de trabalho. Tanto, que sua mãe frequentemente lhe ralhava por ele gastar tantas velas, durante a noite, enquanto jovem. Mas devia, também, apreciar imenso os jogos. Além de um quadro sobre o jogo do Gamão e outro com jogadores de Cartas, pintou uma obra intitulada "Jogadores de Xadrez" (em imagem), por volta de 1510, que hoje se guarda no Staatliche Museen, de Berlim. Parece-me uma pintura notável e tem a particularidade de ser uma das primeiras, se não a primeira - tanto quanto sei -, dedicada ao nobre e fascinante jogo do xadrez.

Para acompanhar o chá das 5, de MR


Parabéns, MR!
Este "Postal de Arte" sobre o chá, para lhe desejarmos um feliz aniversário e um futuro ano promissor.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Do florir


Anda por aqui, ao alto, um anil já firme, diferente em tudo do anémico azul de Janeiro. As frésias já acordaram do torpor friorento, para um perfume inebriante, e a flor do cardo silvestre já tinge de lilaz a verdura dos campos, em volta. Os botões de rosa, minuciosamente, devem estar a preparar, num espelho interior, a sua melhor feição, para florirem. Porque até os narcisos egocêntricos ousaram já dar sinal. As andorinhas hão-de chegar, em breve, para coroar tudo isto...

Não sei se estarei de acordo...


A fazer fé na recensão de Anna Katharina Schaffner, no TLS (nº 5838), ao livro Twee, de Marc Spitz (1969): "Desde a II Grande Guerra, argumenta Spitz, que tem vindo a impor-se uma «revolução suave» nas nossas sensibilidades, estética e gostos, provocada por um ethos de gentileza e uma busca de pureza, num mundo impuro. Sendo inicialmente um fenómeno circunscrito, a estética e a ética dos Twee acabou por infiltrar-se na mainstream do cinema, na moda, literatura, música e alimentação. Spitz define as questões-chave como uma celebração incontestada da beleza, o fetichismo celebrado da infância de par com uma sexualidade cautelosa, bem como a glorificação do estranho e do excêntrico." Daí se explicaria o culto de coisas e pessoas tão diferentes como os Peanuts, o filme "Música no Coração", os livros de Salinger, a slow food, Sofia Coppola, Walt Disney, Anne Frank...
Tenho sérias dúvidas sobre esta tese de Spitz. Se a globalização ajudou imenso a um determinado tipo de padronização de comportamentos, que se podem encontrar tanto na América, como na Europa, não é menos verdade que tem havido - parece-me - uma tentativa deliberada para retardar o crescimento e maturação do ser humano. Através da escola, dos pais, dos meios de comunicação, cerceando-lhe, pela tentação da facilidade rósea e do "conforto" doméstico, a independência desejada e desejável, em nome de um salutar equilíbrio e desenvolvimento. E isto pode observar-se quer na Inglaterra como em Portugal. O império da criança e da juventude acaba por criar, por outro lado, uma vassalagem e uma menoridade mais fácil de manobrar. Perigosa, no entanto, e francamente desequilibrada. Não me parece haver por aqui um progresso, uma "revolução", mas um lamentável retrocesso civilizacional.

Citações CCXXV


Para começar, Deus fez os idiotas. Isto, para ganhar balanço. Depois fez os revisores.
...
Porque será que nos regozijámos com um nascimento e lamentámos um funeral? Porque não estamos envolvidos, fisicamente, em nenhum dos dois.


Mark Twain (1835-1910).

quinta-feira, 5 de março de 2015

Falemos, agora, a sério


O olhar e a memória são, para mim, duas das qualidades essenciais para o sentido crítico do ser humano.
Tive, durante a Escola Primária, 3 professores. Dois deles eram excelentes e ensinaram-me muito.
Durante o Liceu, e segundo as minhas contas, devo ter tido cerca de trinta professores, e guardo boas recordações de mais de uma dúzia deles. Eram exigentes, mas compreensivos da natureza humana dos seus alunos, além de serem, na sua maior parte, competentes profissionais do seu ofício.
Quando passei para a Universidade, acreditei que iria passar para um mais alto patamar de competência pedagógica. Puro engano: dos cerca de 25 Mestres, encontrei qualidade, apenas, em meia dúzia deles. O que me fez concluir que, nem sempre os mais altos cargos são ocupados pelos melhores ou pelos mais capazes.
A recente observação e audição das Comissões Parlamentares (BES, PT...), na TV, ajudaram-me a confirmar, reforçadamente, a fraquíssima qualidade, profissional e humana, a mediocridade, o flébil pensamento estruturado desta nata nova de gestores portugueses, ao seu mais alto nível - uma miséria franciscana! E até evito ir mais longe e mais alto, ou seja, até Belém...

Curiosidades 38


Na noite de 6 de Junho de 1775, dia em que se inaugurou a estátua equestre de D. José I, no Terreiro do Paço, o Senado da Câmara de Lisboa ofereceu, à Casa Real e Corte, uma abundante Ceia. O copeiro Brás Troiano encarregou-se das compras de vitualhas. De que o livrinho, em imagem, nos dá conta pormenorizada da página 46 à 53. Assim, alfabeticamente, segundo as quantidades e os custos respectivos (em mil réis):
- Aguardente, 46 canadas e meia... 44$890.
- Amêndoas, 19 arráteis................. 41$010.
- Arroz, 50 arráteis......................... 49$520.
- Açúcar, 350 arráteis................ 1.018$510.
- Azeite, 72 litros.......................... 173$560.
- Bacalhau, 55 arráteis................... 66$600.
- Batatas, 13 arráteis...................... 15$970.
- Baunilha, 16 arráteis..................... 2$000.
                                                                                                     (há-de continuar...)

Nota: um arrátel correspondia a 459 gramas.

com os melhores agradecimentos a H. N..

Para começar bem o dia, com os Adiafa

Para quem não saiba, é meu dever informar que carrapatos tem o mesmo significado que carraças.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Idiotismos 29


Os anos que eu levei até saber que o curioso toponímico Marateca (concelho de Palmela) poderia ter-se originada na simples expressão: Mar até cá...
Das cores dos cavalos, entre outras, conhecia eu, baio (crina e rabo pretos), de cor isabel (entre o branco e o amarelo). Mas quando dei pelo poema de Alberti, cantado por Ibañez (poste de 1/3/2015), estranhei o verso: "/Galopa, caballo cuatralvo/". Esclareci a dúvida num competente dicionário espanhol. Um cavalo assim, teria as quatro patas em pelagem branca. Quanto ao termo português (Quatralvo, que eu não conhecia) os 2 dicionaristas, que eu consultei, não coincidem inteiramente. Se Houaiss regista como cavalo com pintas brancas nas quatro patas, já Moraes refere: "diz-se do cavalo malhado de branco até aos joelhos". A Coudelaria de Alter, talvez melhor que os dicionaristas, pudesse resolver com rigor esta questão... 

Postais de Arte (5) : a Lã


Se os dias assim continuarem, em temperatura, daqui a pouco estaremos a trocar a lã pelo algodão, no nosso vestuário. Por isso, há que aproveitar, antes que chegue a Primavera, para colocar este postal (de arte) dedicado à lã. E que, tal como os anteriores, é original, singular e pedagógico, também.

terça-feira, 3 de março de 2015

Um poema de Rafael Alberti (1902-1999)


O soldado sonhava, aquele soldado
das terras interiores, escuro: - se ganharmos
hei-de levar-te daqui para veres as laranjas,
até ao mar que nunca viste,
para que o teu coração se encha de barcos.

Mas veio a paz. E era uma oliveira
de sangue interminável pelos campos.


Rafael Alberti, in Entre el clavel y la espada.

Revivalismo Ligeiro CXIII

Anotações


Como sobre qualquer facto ocorrido há muito, em que as memórias dos intervenientes não coincidem inteiramente - assim, os sublinhados nos livros.
Ao lermos um livro usado, e anotado pelo anterior proprietário, normalmente verificámos que, para nós, os pontos altos ou dignos de registo para memória futura, não seriam os mesmos.
Ainda que o anterior leitor e o presente se possam dar bem e até possam ter, coincidindo, um mesmo entendimento da Vida.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Pequena história (33)


São-me gratos os arminhos, sobretudo, pelo quadro de Leonardo da Vinci, que se guarda no Museu de Cracóvia. Mas também não sou indiferente à memória de Laurence Olivier (1907-1989), que sempre considerei um grande actor. A história, um pouco cruel por sugestiva e insólita, colhi-a do livro de Alberto Manguel (Journal d'un lecteur), que ando a ler.
Terão perguntado um dia a Laurence Olivier como fazia ele para conseguir dar um grito tão impressivo, na peça de Sófocles (Édipo Rei), ao representar. Ao que ele terá respondido que tinha ouvido falar que, no Árctico, para caçar os arminhos, espalhavam sal pelo gelo, e os animais acorriam para vir lambê-lo. A sua língua gelava, então, e ficava presa ao gelo. Olivier terá pensado nisso, para expressar o lancinante grito de Édipo.

A par e passo 127


O homem moderno embriaga-se pela dissipação. Abuso de velocidade, abuso de luz, abuso de tónicos, de estupaficientes, de excitantes... Abuso de frequência nas impressões; abuso de diversidade, abuso de ressonância; abuso de facilidades; abuso de maravilhas; abuso destes prodigiosos meios de produção, pelo artifício daqueles efeitos que são postos à disposição de um dedo de criança. Toda a vida actual é inseparável deste abuso. O nosso sistema orgânico, submetido cada vez mais às experiências mecânicas, físicas e químicas sempre inovadoras, comporta-se em relação a estes poderes e a estes ritmos que lhe inflingem, quase como se fosse perante uma intoxicação insidiosa. Acomoda-se a este veneno, e logo o exige. Cada novo dia acha que a dose é insuficiente.

Paul Valéry, in Variété III (pg. 265).