quarta-feira, 16 de julho de 2014

Duchamp, Manguel e o Louvre


"...É por causa do autoritarismo manifesto da arquitectura do Louvre que Duchamp, nos seus dias finais, dizia que há mais de vinte anos não mais lá tinha entrado, porque as suas colecções eram arbitrárias e arbitrário, também, o valor que se lhes atribuia; que todo o tipo de quadros poderiam substituir aqueles que se acolhiam nas suas paredes veneráveis e que ele não queria, com a sua presença, caucionar a validade dessa escolha oficial. ..."

Alberto Manguel, in Oeufs de dragon et plumes de phénix.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Bibliofilia 106


Não creio que este livro de Alberto Pimentel (1849-1925), com assinatura de posse manuscrita de Nuno Rodrigues dos Santos (1910-1984), lhe tenha sido oferecido pela Companhia do Caminho de Ferro de Benguela, cujo cartão achei entre as páginas 202 e 203. Mas vai-me fazer jeito e servir de marcador, quando o começar a ler... E o índice dos capítulos de Histórias de Reis e Príncipes, que não serão bem histórias de fadas, promete. A obra foi impressa no Porto, em 1890, pela Livraria Gutenberg-Editora (Cancella Velha, 66).
E um dos factores, apesar do seu estado, que me fez comprar este livro usado, é que tem na capa o dístico da Livraria Académica (Porto) que me traz maravilhosas recordações, mas do tempo em que era gerida pela Família Guedes. Agora, não. Que os brilhos das encadernações flamejantes de dourados, aqui há uns anos, quase me cegaram a vista. E os preços, o raciocínio. Para paz do meu espírito, terá sido o simpático e sabedor livreiro sr. Guedes que recomendou e vendeu o livro ao sr. Santos, talvez em meados do séc. XX.
Esta manhã, adquiri a obra por 6 euros. E estou seguro de que não me vou arrepender, quando a ler.

Adagiário CLXXXIV


Por uma curiosa coincidência aconteceu que, ao fim da manhã, calhou ter lido a dedicatória de José Saramago (A Pilar, minha casa) a sua mulher, no romance "As intermitências da morte" (2005). E, algumas horas depois, se me ter deparado o provérbio inglês: Home is where heart is. Em português, qualquer coisa como: "A casa é onde está o coração".

Memória (89) : Jorge Fallorca


Jorge Fallorca (1949-2014) completaria, hoje, 65 anos e 1 mês, mas desapareceu a 3 de Abril, sem que os jornais se tivessem preocupado em noticiar a sua morte, informando, também, sobre a sua vasta obra (poesia e traduções, sobretudo) de difícil classificação. Não era um artista do "arco da governação"...
Fui, cerca de 3 anos, visitador fiel do seu blogue "O Cheiro dos Livros (nemsemprealapis)", que ficou suspenso e congelado, talvez por doença, a partir de Março de 2014. Mas ainda lá vou, de vez em quando, para matar saudades da sua palavra viva e irreverente.
O vídeo, que se segue, foi a última música que ele postou, no Blogue. Aqui fica para o lembrar.

Onírica e cultural


Como se poderá atravessar a manhã, um falcão adestrado sobre a luva de couro grosso, até chegar à "Norma", improvável? Enquanto a brisa ligeira ilumina de brancura trémula as colinas (ou serão cortinas?) transparentes, que esvoaçam.
Para trás, o sonho lento da chegada, até dar com os conhecidos-amigos espectantes, ao de cima, no quinto andar, na realidade, há muito abandonado. Mas sei que levamos algo connosco, talvez livros bem pesados, dicionários, súmulas bibliográficas.
E, por isso, embora obstinado, o monta-cargas vai lento, criando em nós a dúvida da chegada, uma angústia leve de olhos semi-cerrados, para dizermos, alegre e simplesmente: bom dia!

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Joseph Haydn / Kódaly Quartet


A par e passo 98


"Todo o fundador, no domínio de uma ordem espiritual, deve preocupar-se em torná-la irresistível. Uns procuram e tentam envolver-nos pelo encanto; outros cativam-nos pelo rigor; Descartes comunica-nos a sua vida de forma a que, na sequência das suas impressões e pelos seus actos, nos faça introduzir nos seus pensamentos através do mesmo caminho natural de acontecimentos e imaginação que ele teve desde a sua juventude, e que se assemelha bem a muitos outros caminhos, ainda que nem sempre eles conduzam aos mesmos pontos de vista."

Paul Valéry, in Variété II (pgs. 13/4).

A sábia Natureza


A Natureza e os seus elementos mais bravios são imprevisíveis, para os humanos, na sua tendência para as compensações e equilíbrios ambientais.
A propósito deste vídeo, que AVP teve a gentileza de me enviar (e que agradeço), lembrei-me dos recentes e vários protestos de diversificadas organizações, que representam diferentes interesses corporativos (cinegéticos, ambientais, agrícolas...), relativamente à decisão de reintroduzir o (ex-)lince da Malcata, no Alentejo...

A propósito e na sequência de uma crónica jornalística


No seu pragmatismo objectivo, a direita portuguesa nunca teve pejo, nem preconceitos, em coligar-se, na intenção de conquistar o Poder. Ao contrário, as esquerdas portuguesas, tirando a excepção do consulado de Jorge Sampaio ( que nem é, sequer, um "perigoso" esquerdista...), na Câmara de Lisboa, nunca o fizeram, de forma visível e clara. Nas suas desconfianças de vizinhos próximos, nas suas ortodoxas e aristocráticas ideologias frustes de cúpulas rigidamente egocêntricas, as esquerdas portuguesas "falam, falam", mas nunca se conseguem entender. Sobra a isto, muitas vezes, um eleitorado frustrado.
A propósito da erosão lenta, mas real, e da implosão previsível do BE, Rui Tavares, na sua crónica (A chave) de hoje, no jornal Público, fala desta fatal pulverização dos partidos de esquerda portugueses, mas diz também uma coisa bem simples e verdadeira. Passo a citar:
"...A maior parte dos eleitores de esquerda estão no meio, procurando pela realização de um país em que as desigualdades sejam combatidas e a pobreza erradicada, onde haja um acesso universal às provisões públicas, e onde uma economia mista e diversificada possa dar hipóteses justas de progresso social e pessoal aos portugueses. ..."

domingo, 13 de julho de 2014

Uma louvável iniciativa (35)


Oriunda do turco que, por sua vez, a terá ido buscar à língua persa, embora haja quem defenda que provém do swahili, a palavra "quiosque" definia, originalmente, uma pequena construção facetada e aberta para os 6/8 lados, no meio de jardins.
Tiveram grande voga, como pontos de venda multímodos europeus, no final do séc. XIX e início do XX, tendo ressurgido recentemente em Lisboa, em praças e lugares emblemáticos, sendo, de algum modo, um ex-libris da Capital, hoje em dia.
Justifica-se, talvez, por isso a sua inclusão, nesta colecção de pacotes de açúcar da RAR, como símbolo de Portugal, embora um pouco forçadamente.

Transmigrações


A vida do poeta alemão Gottfried Benn (1876-1956) está envolta em controvérsia, desde o momento em que foi o médico que acompanhou o pelotão de fuzilamento, na Bélgica, da enfermeira inglesa Edith Cavell, em 1915, no decurso da I Grande Guerra, até à sua simpatia e sequente inscrição no partido nazi, em 1933. Mas isso apenas ensombra um pouco a alta qualidade da sua obra literária. Se devemos julgar, ou não, um artista pelos seus actos e tomadas de atitude, como homem, e penalizar a obra, é um outro problema que, aqui, não vem para o caso. Mas não deixa de ser verdade que, quase sempre, a biografia exsuda para a obra, sobretudo, quando poética, pelo menos ao nível dos sentimentos e emoções, ainda que de uma forma transfigurada e posterior.
Sem preocupações excessivas de fidelidade canina ao texto original, dou conta de uma tradução um pouco livre, que fiz, com a preciosa ajuda de HMJ, do poema Verhülle Dich, de Gottfried Benn. Segue:

Apaga-te por trás de máscaras, e da caracterização
teatral, e pisca os olhos para dar ideia que vês mal,
nunca dês a perceber o quanto és céptico
e bem triste, lá no fundo, dessa face rotunda.

Na luz crepuscular dos jardins, ao entardecer,
o céu é ainda uma brasa incandescente e a noite
pode encobrir as tuas lágrimas e a dureza
já não se pode ver na face esmaecida.

Os desencontros, feridas, transições
no mais íntimo onde a destruição te confronta,
disfarça, faz como se as canções distantes
viessem duma gôndola visível e autêntica.

E, porque em todos os homens, há sentimentos semelhantes, ao traduzir este poema de Gottfried Benn, vieram-me à ideia, por aproximação, os versos de Eugénio de Andrade (do livro "As Palavras Interditas") e que começam assim:

Cansado de ser homem o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água...

Se não transcrevo, por inteiro, o poema de Eugénio é porque alongaria excessivamente este poste. Mas também por desafio às visitas, para que o procurem e o leiam por inteiro. Estou certo que não darão por perdido, o seu tempo...

Pascal Comelade : "Tango del Rosselló"


sábado, 12 de julho de 2014

Recuperado de um moleskine (7)


O intermédio de uma vida é sempre o mais difícil de explicar, ou justificar.
Se a infância e a velhice comportam, em si, atenuantes ou debilidades, a maturidade não as consente.

Comparar o incomparável


Em matéria de emolumentos, eu creio que é possível (quase) meter no mesmo saco o CEO Granadeiro (pela PT, Oi!) e o seleccionador Scolari (pelo Brasil, Ui!). Mas também compará-los porque, nos últimos dias, ambos fizeram burricadas das grandes...
Será que algum deles irá ser despedido?

Regionalismos transmontanos (45)


1. Graelo - saraiva, granizo.
2. Greiro - grão pequeno (no Minho é usado, sobretudo, em relação ao arroz).
3. Grolo - mal assado. Mal cozido.
4. Guinalda - vadiagem, vida airada.
5. Heréu - herdeiro, proprietário.
6. Hóstia - bofetada, lambada.

Os algoritmos, ou as parvoíces mecânicas


 A fazer fé na definição sucinta e comum, o algoritmo é uma "sequência finita de instruções definidas e não ambíguas, que podem ser executadas mecanicamente".
Ou seja, e por palavras minhas, é uma ordem dada, eventualmente a um robot ou motor de busca que, na sua estandardização ou generalização abusiva, e na sua inerte mentalidade (?) alternativa, está eivada de boçalidades subjectivas e mecânicas.
Só assim eu posso compreender que, quando eu clico "Youtube", o painel que abre me recomende duas ou três audições indigentes de André Rieu, que é uma espécie de Quim Barreiros da música clássica mais rasteira; ou, pior ainda, que desde a véspera da visita de Letizia e Filipe VI, a Portugal, e sendo eu republicano, me inunde de "recomendados" do canal CasaRealTV (espanhola), com que não sinto a menor afinidade...
Arre!, que são burros, estes algoritmos!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Adoniran Barbosa (1910-1982)


Comic Relief (92)

Com agradecimentos bem humorados e amigos a C. S. .

Novas temáticas, em livro



Um pouco em sequência temática do bem sucedido "Dicionário de Lugares Imaginários" (1980), de Alberto Manguel, a designer gráfica Dinah Fried editou, recentemente, na Harper Design, uma obra intitulada Fictitious Dishes : An album of literature's most famous meals. Baseando-se em descrições gastronómicas colhidas em obras de autores clássicos (Carrol, Salinger, Scott Fitzgerald...) a Artista cozinhou, compôs mesas e fotografou algumas refeições célebres da literatura universal.
Damos em imagem a reprodução de uma refeição de "The Great Gatsby" e o chá de "Alice no País das Maravilhas". Parece-me, à partida, uma ideia imaginosa, como temática. E original.

Uma fotografia, de vez em quando (42)


Nascido em Zurique, em 1933, o fotógrafo René Burri, que vive presentemente em Paris, começou por trabalhar, como documentarista, nos Estúdios Disney, nos anos 50. Em 1959, passou a dedicar-se, por inteiro, à fotografia, colaborando nas revistas Paris Match, Look e Stern.
São conhecidas as suas inúmeras fotos de Che Guevara, tiradas em 1963, numa sessão intensa de 3 horas, que ele diz que foram uma espécie de bailado que fez, em volta do revolucionário cubano, que fumava sucessivos charutos, sempre irrequieto na cadeira...
Mas tem também sugestivos retratos de Callas, Bardot, Giacometti, Picasso e Le Corbusier, bem como de gente anónima, que Burri fixou para sempre.

Sobre a ironia, a verdade e a memória


Creio que não há maior malogro do que ter de explicar uma ironia, que foi nossa, a um interlocutor menos atento. Até porque a ironia pode ser, por extremo, uma forma de melancolia que se não confessa inteiramente. Ou, então, uma reacção agressiva tímida e amortecida que, a não ser percebida, cria um halo ou casulo defensivo de uma certa solidão.
Como a verdade incómoda, depois de dita, pode vir a tornar-se num remorso que vem à tona, ciclicamente, para nos inquietar. Porque a memória se rasura a si mesma, ou censura, em perspectivas que não controlamos de todo, na sua extensão emocional. Há que ter em conta a sua misteriosa autonomia.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Kurt Weill / The Doors : "Alabama Song"


Os pirilampos


Eu teria de recuar à infância e a Santo Estevão de Briteiros, e a uma noite de um ano longínquo, para situar o maior cardume ou bando de pirilampos (a que o povo chama, pitorescamente, caga-lumes) que vi, em toda a minha vida. E, nessa altura, criança ainda, o fenómeno teve, para mim, aspectos de magia, ao ver essa nuvem de luzinhas vagueantes, acendendo e apagando. Porque, nessa época, a aldeia de Briteiros ainda não tinha luz eléctrica e o escuro da noite era pleno.
Louvavelmente, o Parque Biológico de Gaia levou a efeito as chamadas "Noites dos Pirilampos", em que, para além do natural passeio pedestre, previamente, há uma pequena sessão de esclarecimento sobre estes insectos coleópteros, que são mais activos no mês de Julho, pois estão em fase de acasalamento. Há, pelo menos, 10 espécies de pirilampos, em Portugal - facto de que tomei conhecimento através do prospecto (parcialmente, em imagem) que um Amigo me mandou, do Porto.

grato reconhecimento a A. de A. M. .

Uma louvável iniciativa (34)


Ora, aqui está um "Bom Dia" dado pelo Café Nicola, em pacotinho doce de açúcar.
Como as editoras, a banca, também as firmas transformadoras de  café se juntaram em grandes conglomerados, absorvidas umas pelas outras - é assim a voragem capitalista gulosa de crescimento desmedido. E o café Nicola, que foi o meu preferido anos e anos, já não é escolhido, provado e comprado pelo velho (e já falecido) sr. Albuquerque que, quase artesanalmente, combinava 50% de grãos de Robusta, com 50% de Arábica. Creio que é a Nestlé, hoje, quem faz isso, mas industrialmente.
Se bem compreendi a ideia desta colecção de 30 pacotinhos, ela destina-se a celebrar a diáspora portuguesa pelo mundo. Este 22/30 dá os bons dias aos 450 portugueses que vivem (e trabalham?) na Argélia. Se for essa a ideia, é uma louvável iniciativa...

Teorias


As teorias perdem-se no tempo. Provavelmente, a primeira foi entretecida por Eva, para seduzir Adão. A Bíblia, através da maçã, marmoreou a ingenuidade do Homem, para sempre, perante a perversidade pragmática da Mulher. A serpente foi um mero acidente de percurso, simbólico. Adiante...
A Mabília (bem raro, este nome em Portugal), brasileira, almoçou com a Sílvia, portuguesa e ligeiramente mais velha, que foi sua formadora. Como o restaurante estava quase cheio, sentaram-se ao meu lado e falaram do seu trabalho, nas grandes superfícies.
Pelo que ouvi, há duas teorias sobre a exposição, nestas catedrais de consumo:
1. Corredores, topos de gôndolas e prateleiras atafulhadas de produtos, para que o cliente tenha que esbarrar com eles, ou contorná-los, sendo que, por impulso, acabe por comprar alguns, para além daqueles que levava, na lista manuscrita trazida de casa.
2. Amplos e abertos corredores, topos de gôndola elegantes e esteticamente compostos, prateleiras sempre repostas, mas não sobrecarregadas. Assim o cliente passeará tranquilamente, sentir-se-á leve e bem, e talvez lhe apeteça comprar mais uns artigos...
O sr. Teófilo (assim tratado pela Mabília, que não pela Sílvia), chefe das duas jovens, é adepto - percebi eu pela conversa - fanático da primeira das teorias. Mas também entendi que é um sedutor e um pouco promíscuo com as suas subordinadas...
Posso dizer, que tive um almoço instrutivo, ontem, porque aprendi alguma coisa sobre as técnicas das grandes superfícies que, aliás, evito frequentar...

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Kurt Weill / Bertolt Brecht / Lotte Lenya : da "Ópera dos três Vinténs" (Dreigroschen Oper)


para HMJ.

Das crónicas, estatísticas e retrocessos


Se a riqueza mundial fosse redistribuida equitativamente, caberia a cada ser humano um salário mensal de 760 euros. Mas, nos últimos 15 anos, o desequilíbrio acentuou-se bastante entre os muito ricos e os muito pobres, retrocedendo para as estatísticas injustas da Belle Époque.
Na sua crónica (O camião-fantasma) de hoje, no jornal Público, Rui Tavares refere a possibilidade de, no futuro, a profissão de camionista vir a desaparecer. Fundamenta essa hipótese no facto da Daimler e da Volvo estarem a testar camiões automáticos que prescindem da existência de condutores humanos. A profissão poderá, por isso, vir a tornar-se obsoleta.
Dá a ideia que as regras, objectivos e filosofia da Economia actual se pautam pela necessidade de substituir os humanos e, ao mesmo tempo, contribuir para o desemprego... É legítimo pensar no grande número de profissões que foram desaparecendo, durante o último século ou, pelo menos, foram reduzidas, drasticamente, em número de postos de trabalho.
Que me lembre, nos últimos 50/60 anos, só terão sido criadas 3 novas profissões: os CEO, os Editores e os Curadores, estas duas últimas relacionadas com a Cultura. Todas elas de topo e no sector dos Serviços.

Citações CLXXXV


Os Mercados são inteligentes, enquanto que os Governos continuam a ser estúpidos, e a substância de muitas das teorias económicas, aplicadas à Política, desde os anos 70, continua a basear-se nesses postulados.

Duncan Kelly, in TLS (nº 5804).

terça-feira, 8 de julho de 2014

Apontamento 49: O descrédito nas siglas



Nunca apreciei, verdadeiramente, o uso de siglas sem o devido desenvolvimento para que o leitor comum, sem ser especialista numa determinada área, compreendesse o que se ocultava através de poucas letras. Confesso que o abuso das siglas acompanha bem a tendência geral do discurso político-financeiro na sua tentativa de afastar e enrodilhar, com linguagens pretensamente esotéricas, embora cada vez mais pobres de substância, o cidadão até à exaustão e ao afastamento do essencial, i.e., o de participar activamente na vida democrática do país, seja ele qual for.

Contudo, a educação – familiar e institucional – transmitia, desde cedo, algum respeito por “grafemas” que, à partida, não nos diziam nada: ONU, EU, UNESCO, etc. O processo próprio de crescimento, físico e mental, lá foi enriquecendo a “paleta do mundo”, nem sempre com a mesma consideração inicial, porque o aperfeiçoamento e a autonomia do pensamento a isso obriga. Outras siglas, aparentemente anódinas como a OCDE, revelaram-se, definitivamente e como o FMI, em agentes ao serviço de entidades e estratégias que nada devem ao essencial da Democracia e da Humanidade.

De nada vale o Estado querer introduzir uma pretensa “cadeira ou disciplina” para explicar aos “jovens” o mundo financeiro, quando, no fundo, se pretende esconder o essencial, i.e., o fim último de um discurso tortuoso, enrodilhado e cheio de siglas.

E, se alguma dúvida restasse, tivemos hoje uma prestação exemplar. Veio o Secretário-Geral da OCDE, em pessoa como na imagem acima, explicar, num “portunhol” indigente, as conclusões de um relatório encomendado pelo próprio Governo de Portugal, i.e., pago pelos contribuintes. Ora, o que se esperava ?

Basta a qualquer criatura do Ensino Primário usar o seu bom senso, e sem “saber de finanças” ou de “actos ilocutórios”, para perceber o alcance de um “sermão encomendado”.

Post de HMJ


Pinacoteca Pessoal 80


Da famosa pintora francesa Élisabeth Louise Vigée LeBrun (1755-1842), o retrato do compositor italiano Giovanni Paisiello (1741-1816) não será, porventura, das suas obras mais conhecidas, mas tem uma história bem curiosa. O quadro terá sido pintado entre o Inverno de 1790 e a Primavera de 1791. A fazer fé nas palavras da Pintora francesa neo-clássica, a feitura da tela terá acompanhado a criação do Te Deum, de Paisiello, que, no retrato está sentado ao clavicórdio. E há quem refira que os olhos do compositor estão humedecidos...
O primeiro quadro, em imagem, é um auto-retrato de Élisabeth L. Vigée-LeBrun.