terça-feira, 9 de novembro de 2010

Mercearias Finas 21 : perdizes em Aldoar



Não sei se elas terão vindo do Alentejo (nem o António sabia), como veio o tinto Cartuxa de 2006, mas vieram morrer, maneirinhas, à mesa, lá para as bandas de Aldoar. Não estavam sozinhas: foram acompanhadas de túbaras, lardeadas de bacon, com batatas às rodelas e pequenos cogumelos - eram muitíssimo boas, as perdizes, neste Outono do ano da graça de 2010. Foram, para nós, as primeiras desta época.
Antes, e para fazer boca, umas vieiras, em pequenos cilindros vestidos de (quase laminadas) courgettes, tendo por cima umas pequeníssimas bagas de pimenta rosa que, pela côr, mais pareciam framboesas. Eram lindíssimas mas, rapidamente, se foram, pelo gosto que tinham. Casaram-se com o E. A. branco, também alentejano (Antão Vaz, Perrum e Roupeiro) da Fundação Eugénio de Almeida. Excelente.
Quase no final chegou à mesa o celebrado Toucinho do Céu que, com as Tortas, há quem diga, nasceram da doçaria conventual vimaranense; no entanto, este toucinho era tripeiro de gema, e feito pela mão cuidada da Isabel - na perfeição, ponto e gosto. Depois do café, para coroar tudo isto, a suprema Adega Velha, da Aveleda, elegante na sua garrafa alta e estreita, e de sabor divino.
Obrigado, Amigos!

Memória 45 : Hedy Lamarr


Hedwig Eva Maria Kitsler, austríaca de ascendência judaica, nasceu a 9 de Novembro de 1913, em Viena, e morreu nos Estados Unidos, em 2000. Naturalizada americana (1953), ficou conhecida, no cinema, pelo nome de Hedy Lamarr, e era célebre a sua beleza. O seu filme com mais sucesso terá sido "Sansão e Dalila", em que contracenou com Victor Mature. Poucas pessoas se lembrarão deles, hoje em dia. Eu ainda me lembro do filme.

Nota: o cromo reproduzido, na imagem, pertence à minha velha colecção artesanal, dos anos 40, de que já mostrei 2 fotos de Sonja Henie.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A vinha de enforcado, minhota


Da carta a António Pereira, senhor de Basto, escrita por Francisco Sá de Miranda:

...Estas terras e penedos
fazem-se-vos vistas feias;
já torceis o rosto às aldeias,
dizeis dos vinhos azedos
o que já disse Cineas.

A quem nos convites dado
a provar, se lhe aprouvesse,
depois nos olmos mostrado:
- Nunca vi - disse - enforcado
que a forca assim merecesse (...)

Ali não mordia a graça,
eram iguais os juízes,
não vinha nada da praça,
ali da vossa cachaça,
ali das vossas perdizes. (...)

Ó ceias do paraíso,
que nunca o tempo vos vença,
sem fala trocada ou riso,
nem carregadas de siso,
nem danadas de licença! ...

Desgarrada Minhota

... embora as que eu ouvi tivessem sido muito melhores...

Por falta de palavras e de tempo...


...e para um cenário dos meus últimos dias.

O dia, às avessas


Eu sei que não consegui explicar ao Zé Carlos a alegria que ainda sinto, quando olho este Augusto Gomes, de 1953, quase "botticelliano" - como gosto de o adjectivar. Estes traços, a tinta da China, provavelmente indecisos de propósito, ajudaram-me, muitas vezes, em dias mais pesados, desde Janeiro de 1976 (data em que o comprei), a encarar a luz ou o dia seguinte. E, isto, não se consegue transmitir, facilmente, encostado ao balcão de um bar, com CR&F à mistura, tendo por cenário, ao fundo, um vale verdejante, minhoto, delimitado por pinheiros altos.
Falávamos dos preços de Resende (Júlio): óleos e aguarelas, e dos anos mais procurados - cinquentas, sessentas. E eu chamei-lhe "marchand", mas com amizade. O Sáa sorria, o Paulo, sempre muito sério, abanava a cabeça, e o Fernando, meu primeiro grande amigo ( e mais antigo), na sua autenticidade, apoiava-me convicto. Já a Ró tinha feito, loira e cordial, uma visita guiada, excepcional, ao Museu Alberto Sampaio - onde eu aprendera muitas pequenas coisas.
O Carlos S., maestro deste encontro, circulava pelas mesas, imenso de gratidão à vida, e aos amigos que tinham vindo, pelos seus recentíssimos 70 anos. Foi bonito! Até com desgarradas...
O que é que eu posso fazer?, senão mostrar em regozijo manso e funda alegria, esta rapariga simples e contente, talvez um pouco marota, de Augusto Gomes, neste Outono de melancolia, semeado por gotas intensas de chuva...

P. S.: para Carlos S., em Guimarães. E para a Maria José.

domingo, 7 de novembro de 2010

Citações L: Diogo de Paiva de Andrade


"...E pois nas que passam os limites, assim de feias, como de formosas, há tantos males de que fugir, tantos perigos, que recear, e tantos exemplos, com que se possam escarmentar os que estão de fora, bem se infere que o parecer do rosto, que os homens devem procurar, não há-de ser tão formoso, que os meta em cuidado, nem tão disforme, que lhes cause fastio, ..."
Diogo de Paiva de Andrade, in Casamento Perfeito ( Sá da Costa, 1982), pg. 93.

W. A. Mozart : Contradanças

Cecília Meireles


Dois dias separam apenas as efemérides capitais da brasileira Cecília Meireles: nascida a 7 de Novembro de 1901, morre em 9 de Novembro de 1964. De ascendência açoriana, através da avó materna, a sua poesia é, das brasileiras, aquela onde mais se sente um ritmo e respirar português. A ausência ou perda, o amor e a morte são seus temas mais recorrentes, nesse balouçar elegíaco ondulante entre a vida e o seu fim. Transcreve-se o poema Retrato:
Eu não tinha este rosto de hoje
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Desmanchar a regra


O pensamento é muito mais raro do que a emoção. E a exteriorização de um e de outra, quando singulares ou contra a corrente, manifestação raríssima. O silêncio é vasto, por timidez, atavismo rústico, ignorância crassa. Excepcionalmente, por extrema sabedoria. Já Eça falava do Pacheco, deputado, de calva luzidia e impenetrável silêncio. A afirmação de uma vontade raramente se faz voz, daí a irrelevância da sociedade civil portuguesa e o cinzentismo nacional. Caracterizado por uma resignação hipocondríaca no seu comodismo neutro e medíocre.
Por mero acaso, hoje, tive conhecimento de um Mestre pintor desconhecido vimaranense, do séc. XVI, autor de algumas obras (poucas), singulares e muito pessoais, ao arrepio da época em que viveu. Um dos seus quadros integra a exposição de Primitivos Portugueses que se fará em Lisboa. Na intimidade, os estudiosos e historiadores de Arte chamam-lhe o "pintor delirante de Guimarães". Voltarei a ele, provavelmente, em breve.

P.S. : que o António de A. M. me desculpe o roubo de um seu verso para título deste poste.

sábado, 6 de novembro de 2010

Mimetismos


A re-visitação de fotos antigas, a evocação de factos quase esquecidos e a reconstituição dos puzzles incompletos, pelas achegas dos outros intervenientes permitem, muitas vezes, rematar, de forma definitiva, os acontecimentos do passado, com maior rigor.
Por momentos, voltamos a essa idade e a esse local, de memória, acrescentando-lhe palavras, recompondo os pormenores, ajustando-lhe alguma razão, esclarecendo um gesto, percebendo uma atitude ou decisão que, na altura, foi tomada.
Depois, tudo regressa, mais completo, à gaveta da memória - que se volta a fechar.

George Steiner : Cultura e barbárie

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A memória perdida


Os anos, quando vão sendo longos, dão para conhecer muita gente. Anónimos uns, na maioria, mas outros que o tempo tornou notórios por exemplares aplicação à vida ou pela distinção na actividade que exercem ou exerceram. Sendo que, na época em que os conhecemos, eram tão anónimos quanto os outros.
Depois, há os familiares, ou muito próximos, a quem não demos a devida atenção, na altura própria, e que já partiram. Eram o nosso elo de ligação para o passado, a transmissão de memória que perdemos para sempre. No dia a dia, digo para mim mesmo, X sabia responder-me à dúvida, podia esclarecer-me este facto, lembrar-me a data...mas já morreu: nada a fazer, ou perguntar. E ficamos sem resposta. Não há remédio.
Finalmente,há aqueles seres humanos que conhecemos durante pouco tempo, que gostaríamos de ter conhecido mais cedo, porque nos acompanharam por um brevíssimo espaço de vida, apenas. Que recordamos pela sua nobreza de espírito, pela sua harmonia humana, pelo seu saber. Com saudade.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Transições


De Alcântara para a 24 de Julho, caíu, subitamente e com nitidez, a noite, como se fosse uma cortina. Nunca me apercebera, assim, desta mudança de luz para sombra. E creio que, nas cidades, esta transição do dia para a noite é muito mais perceptível.
Não pude, por isso, ver ainda os estorninhos nas suas nuvens compactas sobre o Tejo, que se pressentiam já em finais de Outubro, embora em pequenos grupos dispersos. Da janela alta, apenas um ruído de besouro sobre as águas já escuras que, da ponte, eram de azul cobalto. Um helicoptero, ruidoso, a treinar decerto para a reunião da Nato. Em nome da segurança nacional e internacional. Mas o sindicalista dos polícias queixou-se no telejornal que não havia coletes à prova de bala, suficientes. Valham-nos deus e os homens de boa vontade.
Amanhã, levantar cedo. Talvez o melro matutino do Jardim Farrobo se despeça, em serenata, de nós, que vamos para o Norte. A essa hora, ainda os estorninhos não dão sinal de vida.

Leilões...


Nos últimos tempos já quase não vou a leilões de livros, ou outros. Só a alfarrabistas. Uma boa parte dos livros que queria, já os comprei, os que ainda gostaria de ter, são de tal modo caros, que já não cabem no meu orçamento.
Ainda assisti a leilões tipo "ancien régime" que só começavam às 21,30 hrs., eram lentos, e davam direito a café e aguardente velha, conhaque ou whisky. A partir de 1977, tudo se foi modificando um pouco. O primeiro leilão de que tenho apontamento de preços de venda data de Maio-Junho de 1976, da biblioteca do Coronel António Osório da Cunha Pedroso, numa sala exígua da Liga dos Amigos dos Hospitais, ao Príncipe Real. Que foi organizado por Arnaldo Henriques de Oliveira que casara com a filha do Livreiro Coelho. Hoje, Livraria Antiquária do Calhariz, nas mãos do meu estimado José Manuel Rodrigues. Depois da calmaria post-Prec, começaram a aparecer caras novas e jovens licitadores: Marcelo Rebelo de Sousa, Helena Roseta e o marido, que tinha sido meu colega de tropa, Jorge Couto, hoje, director da BNP, e tantos outros. De trás, permaneciam, por exemplo, dois velhotes bem humorados e sábios, que tudo comentavam (em voz baixa) e tudo ensinavam das edições dos livros em presença (para quem os pudesse ouvir) - pareciam os jarretas da frisa dos "Marretas". E que tinham também alcunhas ou nomes de código para os licitadores mais típicos. Um engenheiro de crâneo rapado e brilhante, anguloso de feições, muito magro, que licitava indescriminadamente, sempre que ninguém licitasse o lote, chamavam-lhe o (peixe) "limpa-fundos", por exemplo.
Uma presença constante e resmungona era o falecido alfarrabista Castro e Silva que, não raro, obrigava a que o lote voltasse à praça, porque afirmava, alto e bom som, que tinha feito sinal de licitação, antes do martelo bater na mesa, para fechar os lances. Não fora a voz e palavra autorizada do pregoeiro, Sr. David Pedro, tudo seria muito mais complicado. O seu tom de voz, forte, e autoridade natural no seu pequeno corpo, impunham, sempre, respeito, seriedade, ordem e até, por vezes, alguma nota de humor.
De uma vez, na Casa da Imprensa (leilão promovido por José Manuel Rodrigues), ficou-me ao lado o Mário Cesariny de Vasconcelos, de eterno cigarro nos dedos já trémulos, que fora assistir à venda do raríssimo "Cidade Queimada" (1ªedição de 1965). Ficou sorridente com o preço atingido pelo lote.
Salas da Imprensa, o espaço exíguo da Liga dos Amigos dos Hospitais, Amazónia Lisboa Hotel, à beira do Jardim das Amoreiras, e outras, tantas vezes, arenas de confronto, onde as emoções e a vanitas, subiam alto.
De todas as licitações que fiz, se tivesse de escolher a que me deu mais prazer foi uma, de Janeiro de 1976, num leilão da Afra Filhos (lote 19). É um desenho a tinta da China, de Augusto Gomes, datado de 1953, e que representa um busto de rapariga, com o indicador à flor da boca, quase "botticelliano", na sua pureza e alegria contagiante. Custou-me Esc. 402$50, num leilão onde se venderam Cargaleiros a 30 contos. Famílias que se desfaziam das coisas, nas suas idas para os Brasis... Mas este Augusto Gomes ainda me traz alegria quando o olho. E boas recordações.

Recomendado : Cinco - A. Camus






Lá encontraremos a alegria da luz mediterrânica que atenua a pobreza. E o mar não longe de casa, quase ao pé da porta. Porta de uma casa de sombras e de silêncio. Nas sempre raras palavras de uma Mãe, na mudez de um Tio, no tartamudear de outro. Como é que Albert Camus (1913-1960) não havia de ser um homem de palavras? Para dizer, por todos estes seres silenciosos, o que eles não puderam ou não quiseram dizer. Por todo este silêncio acumulado.
Também lá está essa indiferença de L'Étranger, neste caso quando o filho vai, da Argélia para França, ver a campa do Pai, que não conhecera, morto prematuramente, na I Grande Guerra. Mas também perpassa neste Le Premier Homme uma sugestão de sopro bíblico, naquele casal jovem que logo a princípio (a exemplo de Maria e José), ao cair da noite, por entre a natureza hostil da tempestade, procura o abrigo para a mulher dar à luz.
Não é um romance acabado, a biografia corre paralela ("...je vais parler de ceux que j'aimais."), nem tão exemplar como La Chute mas, apesar disso, é de recomendar, vivamente.


P. S.: para MR, por amplas razões.

Pavana de Alonso Mudarra

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

René Char: algumas palavras



"...Dura, a fim de poder amar ainda melhor, um dia, aquilo que as tuas mãos de outrora não conseguiram senão aflorar sob o olival demasiado jovem."
Poèmes, 1969, pg. 22.

"Seremos mais tarde semelhantes a estas crateras onde os vulcões não voltam mais e onde a erva amarelece sobre o caule?"
"Acumula, depois partilha. Sê a parte mais densa do espelho do universo, a mais útil e a menos aparente."
Hypnos, 1990, pgs. 60 e 64.

Salão de Recusados XXIX : Umberto Eco



O jornal Le Monde, de 12 de Outubro de 2010, publicou uma entrevista de Umberto Eco (1932) sobre diversos assuntos. Dela retirei 2 respostas que passo a traduzir:
1. Sobre a Internet: " A Internet é o escândalo duma memória sem filtragem onde não se distingue o erro, da verdade."
2. Sobre livros: "Há o amor do objecto. Se eu vou à minha cave e reencontro o meu Pinocchio de quando eu tinha 8 anos (...) regressam-me as emoções que eu não encontro numa disquete que contenha o texto do Pinocchio."

P.S.: para H.N., com agradecimentos.

Comic Relief (15) : cães com insónia


Jorge de Sena e o cinema


No número 59 (Abril de 1968) de O tempo e o modo, que lhe é, quase inteiramente dedicado, em entrevista, Jorge de Sena refere os seus 10 filmes preferidos:
1. Limelight, de Charlie Chaplin
2. Zorba, o grego, de Cacoyannis
3. Oito e meio, de Federico Fellini
4. Blow-up, de Antonioni
5. Personna, de Ingmar Bergman
6. Les Enfants du Paradis, de Carné
7. Rocco e i suoi fratelli, de Visconti
8. The Quiet Man, de John Ford
9. Umberto D, de De Sica
10. Citizen Kane, de Orson Welles.

Bibliofilia 34 : Jorge de Sena (II)



O primeiro livro de poesia, Perseguição, publicado por Jorge de Sena (1919-1978), data de 1942, editado pelas Edições Cadernos de Poesia, e inclui poemas de juventude que vão de 1938 a 1942. A tiragem terá sido pequena, com certeza, até porque se tratava de uma estreia literária.
Em 1946, Sena publica, através da Lello & Irmão, o seu segundo livro de poemas, Coroa da Terra, que dedica à cidade do Porto (onde terá escrito a maioria das poesias do volume). O seu primeiro livro inicia-se por uma epígrafe de René Char: "Apprends-moi à tuer, je t'apprendrais à jouir".
Ambos os livros, na imagem, foram comprados em Lisboa, nos anos 80. O primeiro, Perseguição, custou-me Esc. 2.200$00 (cca. 11,00 euros), o segundo comprei-o por Esc. 750$00.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Carta de Jorge de Sena


Esta carta de Jorge de Sena (2/11/1919 - 4/6/1978) vem a público, pela terceira vez. Da primeira, no Jornal Letras & Letras, do Porto, em Abril de 1990; da segunda vez, via JAD, no amigo blogue Prosimetron (11/9/2009). Finalmente, hoje, na data de aniversário do Poeta, no Arpose. É a segunda carta, da breve correspondência que trocámos, tendo como motivo o poeta Cavafy. Intercâmbio curto que eu, na irreverência própria da juventude, iniciei.
A primeira carta nunca foi publicada, porque Mécia de Sena (quando me autorizou a publicar a segunda) mo pediu. Por causa das pendências decorrentes, na altura, da polémica causada pela discussão do Acordo Ortográfico.
O estado de espírito de Jorge de Sena, aquando desta epístola, julgo ser o mesmo do poema "Sabendo da morte de 4 estudantes em Kent State University", incluído , a pgs. 113, no livro Visão Perpétua, das Edições 70 (1989).





Frédéric Chopin / Mª. João Pires

In Memoriam : 1910 (1989) 2010



Equilíbrio, pg. 13.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Revivalismo Ligeiro XXXI : Adamo, 66 anos, hoje


1 de Novembro, Atouguia



Nos anos de mais próxima memória, ao regressarmos, havia um halo, ou melhor, um clamor de luzes e neblina fumegante de onde houvesse campos santos minhotos, a ladear a estrada. Mesmo quando, de portões cerrados, vivos ausentes e muros altos, o dia já anunciava o seu crepúsculo. As minhas últimas experiências de acertar a visita, pontualmente, para o dia 1, em direcção à Atouguia, foram deprimentes. As grisetas, as pequenas velas industriais, a parafrenália estandardizada no seu quitche globalizado e à americana, a romaria melodramática deixaram-me estarrecido, enjoado e farto.
Passei a diferir, prudentemente, e por respeito a uma memória juvenil distante, mas forte, compassiva e saudável. À ida, as ceiras de jarros e crisântemos, e mais flores de que não recordo o nome, para acompanhar as delicadas e elegantes avencas rendilhadas que ficavam sobre as campas. E o regressar a pé, descendo a rua, à frente com a Fernanda, a trincar castanhas assadas ainda quentes, nesses inícios de Novembro frios do Norte. A ciciar os nossos namoricos inocentes, de memória fresca, ou as nossas pequenas mágoas, com os adultos atrás, em compostura grave - e nós também, para não destoar.
Era pelo Toural que nos dividíamos. E, nunca, tristes. Ambos reconciliados com a Vida que a Morte nos ia ensinando.

P. S. : para a Fernanda, com o afecto de sempre.

Favoritos XLI : Albert Finney


Teria preferido colocar algumas imagens de "Debaixo do Vulcão" de John Huston, baseado no livro de Malcolm Lowry, porque se ajustariam melhor ao dia de hoje. Mas não encontrei nada que me agradasse, inteiramente. Mas esta pequena cena de Albert Finney (1936) mostra, à saciedade, o grande actor que ele é.

Trio de Beethoven

Adagiário XX : Novembro


1. De Santos (1) ao Natal, Inverno natural.
2. Pelo S. Martinho (11), semeia fava e linho.
3. A cada bacorinho, vem S. Martinho.
4. Pelo S. Martinho bebe o vinho, deixa água para o moínho.