sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Lembrete 31


Anuncia-se para hoje, na RTP 2, às 22h51, um clássico de John Huston : Relíquia Macabra (The Maltese Falcon). Baseado no romance policial, homónimo, de Dashiell Hammett, conta no elenco com Humphrey Bogart e Peter Lorre, tendo o filme sido realizado em 1941. A ver, ou rever.

Quem dá aos pobres, empresta a Deus


Os que podem, aos que precisam... Ou as ironias generosas do Sul.

Revivalismo Ligeiro CXXVII

Uma louvável iniciativa (49)


Creio que só me faltarão 4 lendas de terras portuguesas, das 20 que o Café Chave d'Ouro fez registar nas embalagens de açúcar da sua marca, que distribui. Concretamente, os números: 5, 8, 13 e 15/20. Porque, ontem, chegaram-me mais duas: a relativa à Serra da Estrela (14/20) e a referente a Vila Viçosa (20/20). Ambas falam de pastores. Um, que dialogava com uma estrela, outro, que descobriu uma imagem da Virgem, nas cercanias de Vila Viçosa...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Livros de arte, catálogos de exposições, preâmbulos


Hoje em dia, é muito raro eu comprar um livro de arte, sobretudo com predominância iconográfica. São normalmente luxuosos, em novos, e muito caros; usados, são muitas vezes vendidos ao desbarato, porque perderam a actualidade. Nos anos 70, eram postos displicentemente em salas de visitas, nas casas de novos-ricos, a dar um toque de fingido requinte...

Na segunda metade do século XX, era também frequente, cá dentro e lá fora, poetas e escritores fazerem pequenos textos introdutórios em catálogos de exposições de pintores. Alguns muito felizes. Estou-me a lembrar de Eugénio de Andrade, com textos belíssimos sobre a pintura de Carlos Carneiro, Resende, Angelo de Sousa, Armando Alves, José Rodrigues... Mas também Pedro Tamen e Vasco da Graça Moura, por exemplo, assinaram belas prosas para o mesmo efeito.
Esta semana, o meu alfarrabista de referência tinha duas mesas grandes coalhadas de catálogos de exposições. Desde os anos 20 da Sociedade de Belas-Artes (modestos), até aos da Galeria S. Mamede, passando pelos de Manuel de Brito, da Galeria 111. O acervo não chegava, porém, ao século XXI, que agora não se vende tanta pintura, e os catálogos são pobretes, muitas vezes não passam de uma folha de fotocópia, com uma ou nenhuma reprodução. 

Catei, naquela floresta, textos que me interessassem, mas a colheita foi pobre em quantidade, embora válida de qualidade. Trouxe para casa um catálogo de uma exposição de Cargaleiro, na S. Mamede (1981/1982), com uma imaginativa prosa de Agustina. E outro, da Fundación Juan March (1991), sobre uma retrospectiva de Vieira da Silva, riquíssimo de iconografia. Com um poema de René Char e que integra, também, um retrato de Árpad Szenes, tendo como modelo a Mulher, que deixo em imagem final, para quem o não conheça. E porque gosto muito dele.


A par e passo 159


As questões de filosofia e estética estão tão ricamente obscurecidas pela quantidade, diversidade, pela antiguidade da pesquisa, das disputas, das soluções que foram produzidas no contexto de um vocabulário muito restrito, de que cada autor explora as palavras segundo as suas tendências, que o conjunto destes trabalhos me dá a impressão de um bairro, especialmente reservado a espíritos profundos, nos Infernos da antiguidade. Há por lá Danaides, Ixions, Sísifos que trabalham eternamente para encher tonéis sem fundo, fazer subir a rocha deslizante, isto é, redefinir a mesma dúzia de palavras cujas combinações constituem o tesouro do Conhecimento Especulativo.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 131/2).

Wim Mertens : "Yes, I never did"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Femininas e alentejanas


Se fores ao Alentejo,
trazei-me uma alentejana,
pequenina e bem feita,
que caiba na minha cama.

...

Todas me lavam a cara
do meu amor ser ganhão.
É bonito, gosto dele,
é honrado e ganha pão.


Nota: as quadras populares foram recolhidas da obra "A sul do Tejo" (1965), de Manuel Mendes.

Citações CCLXXVIII


O conformismo começa na definição.

Georges Braque (1882-1963).

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Ora, adivinhem quem é!?...


Hoje, num blogue a que raramente vou, mas às vezes visito, aparece um cândido retrato de Maria de Belém, a encimar um poste de apologia discreta à ex-candidata presidencial, e de condolências sentidas, pelo mau resultado obtido.
Há dias, a mesma Senhora economista, que também é criadora de livros de orações e de receitas de cozinha, para verberar uma tirada infeliz e machista de Jerónimo de Sousa, encimara outro poste, no seu blogue, com facinorosa imagem, deste político.
Eu sei que raramente somos isentos, em política ou futebol. Mas também não precisamos de ser tão primários...

Um grande clássico, para acompanhar o dia


Por curiosidade, neste recital de Toronto, em 1970, estava previsto como pianista, para o Concerto nº 5 (Imperador), de Beethoven, Arturo Benedetti Michelangeli. Que adoeceu e, à última hora, acabou por ser substituído por Glenn Gould (1932-1982). Creio que nada se perdeu, na execução desta obra-prima.

Nota: um reparo - é possível que, por volta dos 17 minutos de audição do vídeo, apareça um anúncio palerma a interromper, momentaneamente. Foi o que me aconteceu... Cliquei para o fechar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Anne Stevenson (Cambridge, 3/1/1933)


Depois da Queda


Adão: Senhora
         não tive sequer um momento de amor
         desde que fui expulso.
         Deixai-me entrar.

Eva: Senhor
         nunca mais tive um minuto de descanso
         desde o tempo em que fui costela.
         Devolvei-me ao lugar!


Anne Stevenson, in After the Fall (1999).

Adagiário CCXLV : Fevereiro (8)


1. Em Fevereiro, mete obreiro.
2. Quem andar a gosto, não sai de casa em Fevereiro.
3. A Fevereiro e ao rapaz perdoa-se quanto faz.
4. Quem quiser alho cabeçudo, planta-o no mês do Entrudo.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Apontamento 78: É sempre bom saber ...



A existência de ideias fixas ajuda, por vezes, reencontrar o que parece mais adequado e se revelou acertado ao longo de uma vida. Tenho por mim que “nem toda a criação tem o selo de inocência”.
A História da Alemanha, sobretudo no período após o Nazismo, tinha uma versão oficial, até com cambiantes ideológicos para todos os gostos, sem, no entanto, revelar tudo sobre a postura de determinadas figuras públicas, tanto da área de política-social como de cultura.

Sucede que me deram a conhecer, no ensino oficial, alguns artistas e escritores, olvidando, de forma inocente ou premeditada, a sua afeição, convicção ou até colaboração com o “Terceiro Reich”. Ora, quando descobri o engano, não gostei, como não gosto de logros de qualquer espécie. Daí que comecei a ligar mais à biografia dos criadores, numa dúvida metódica quanto à sua inocência relativamente ao seu perfil ideológico, designadamente na sua vertente cultural e social.

Tudo isto me veio novamente à memória no dia em que descobri mais uma pista, porventura cheia de enganos. Tal como Heidegger, parece que a “filosofia alemã” continua a alimentar a extrema direita. Actualmente, a criatura em imagem acima, é o filósofo que orienta a sua versão considerada “mais civilizada” e que dá pelo nome de AfD [= Alternative für Deutschland, i.e.: alternativa para a Alemanha], com uma crescente aceitação devido à sua postura xenófoba e profundamente troglodita.
Ora, o “filósofo” Marc Jongen parece que já foi assistente do professor Peter Sloterdijk. Vieram-me, novamente, à memória todas as minhas dúvidas metódicas sobre a “inocência” da criação e, sobretudo, a necessidade de uma permanente vigilância relativamente aos “criadores”.

Por enquanto, não encontrei, ainda, nada que me fizesse rejeitar o professor Peter Sloterdijk, embora o censure pela escolha do seu assistente. Deixo, para finalizar parte de uma texto de Sloterdijk, naquilo que considero um olhar oportuno sobre o mundo em que vivemos:

“According to his diagnosis, the human beings of our time are basically bored. And to be bored means that if you look into yourself, what you find is the profound absence of a driving conviction.”

Post de HMJ

As cidades e as serras


A actual ficção portuguesa é, retintamente, urbana. Talvez pela negativa. Houve tempo em que eu pensava que, prosa e poesia, lusas, seriam eternamente bucólicas, campestres, verdejantes ou acastanhadas pelo Outono. Mas o neo-realismo excedeu as medidas, saturou, numa obrigação ideológica que pouco tinha de natural. Entretanto, as populações foram abandonando o campo e as serras interiores, para os trocarem pela terra prometida das cidades. Seminários e Escola do Exército (Academia Militar) forneciam, também, o trampolim necessário ao desígnio dos mais ambiciosos e inteligentes, embora fatidicamente pobres: assim, Aquilino, assim, Vergílio Ferreira...
Ficaram, no entanto e actualmente, em alguma da literatura portuguesa, vestígios residuais: um lado muito provinciano de ver a vida, um apetece-me estar em paraísos artifíciais, uns piercings caracterizantes de mais nada, um ronceiro hábito de cafés cosmopolitas, uma fome de séculos, uma miopia de civilização natural, um lado patego e irreal de imaginar as metrópoles mais emblemáticas. E uma enxúndia barroca de palavras que ainda cheira a estrume e folhas mortas, na sua origem, agora artificial, irrealista, irrelevante. Porque não era assim, dantes, nem lembrava o falso, quando de cenários se falava, ou de viver se escrevia.

Uma fotografia, de vez em quando (78)


Até 21 de Fevereiro de 2016, o Museu Alberto e Victoria (Londres) leva a efeito uma retrospectiva da obra de Julia Margaret Cameron (1815-1879).
Pioneira da arte fotográfica, e nascida na Índia (Calcutá), a partir de 1860 radicou-se na ilha de Wight, com o marido, advogado, e seis filhos. A oferta de uma máquina fotográfica, por uma das filhas, despertou-a, com um entusiasmo persistente e consistente, para esta actividade recente, na altura, que veio a cultivar até à morte, com sucesso público justificado.
Interessava-lhe sobretudo o retrato e, particularmente, o rosto dos modelos que abarcaram desde empregadas e criados de casa, até celebridades da época: Charles Darwin, Alfred Tennyson, entre outros. Menos preocupada com o perfeccionismo técnico do que com a encenação simbólica dos instantâneos, a obra da fotógrafa inglesa é vasta e ainda hoje muita apreciada.
A última fotografia, em imagem, teve como modelo a criada Mary Hillier, protagonizando uma encenação da poetisa grega Safo, e foi tirada em 1865.


sábado, 30 de janeiro de 2016

Divagações 107


Tem vindo o Google, muito recentemente, a propor sob o seu logotipo figuras e acontecimentos, dia após dia, à memória e à devoção dos seus utilizadores. Nesse seu tique, muito regionalista e provinciano, de que o que é bom para a América, é bom para o mundo... Na minha grande ignorância, uma boa parte desses episódios e figuras célebres, não os conheço de lado nenhum. Em última instância, deixam-me indiferente, ou melhor, não mexem sequer um milímetro com a minha emoção e sensibilidade. Hoje, é proposta à devoção, pelo Google, uma vaga pintora Amrita Sher-Gil (1913-1941), filha de pai indiano e mãe húngara, judia.
Assim se passa também com acontecimentos históricos que não vivemos e de que não tomámos parte, ou até mesmo que ocorreram longe de nós, como se de outro mundo se tratasse, ao terem acontecido. Bem como a dilação no tempo provoca o distanciamento emocional e a frieza do conhecimento, sobre eles. Posso, por herança cívica e transmissão histórica, passar aos meus filhos a minha experiência sobre o 25 de Abril, mas devo ter em conta que a sensação deles será quase nula. Ouvir-me-ão, apenas, afectuosamente, com alguma atenção. Grande parte destas coisas são pessoais e intransmissíveis.
A ténue emoção com que vivi a queda do Muro de Berlim, porque distante, é outro exemplo significativo do que acabei de dizer. Hoje, é apenas um dado histórico. Nem sequer aureolado da bondade de que se rodeou ou foi incensado pelos meios de comunicação. Pergunto-me, muitas vezes, se a Guerra Fria, com o seu equilíbrio de mentores e pastores, não era um tempo e um mundo muito mais  tranquilo e pacífico para os seres humanos. Como me questiono sobre a utilidade prática das Primaveras Árabes, a médio prazo, que os media tanto aplaudiram, acriticamente.
Vivência, emoção e conhecimento, tudo deve ser pesado ao milímetro. Com prudente e saudável cepticismo. É um mau princípio embarcar logo na corrente dominante.
Só a Música, a verdadeira música, escapa ao crivo da razão. E, aí, não há nada a fazer...

Da leitura (9)


Esta fase da minha vida, no que diz respeito a leituras, tem-se caracterizado por um grande fastio em relação à ficção. Para ser exacto, no entanto, terei de dizer que encetei, há dias, com agrado a novela O Cisne Negro (Estúdios Cor, 1957), de Thomas Mann. Não sei se o interesse se irá manter até ao fim, veremos.
Alberto Manguel, em Uma História da Curiosidade (Tinta da China, 2015), usa, para itinerário dos seus discursos capitulares, passagens de A Divina Comédia, de Dante. O livro parece-me irregular: capítulos interessantes alternam com outros menos agradáveis, talvez demasiado prosaicos, eruditos e com abundantes citações. Num dos capítulos, de que gostei particularmente, o escritor argentino fala de um professor (Lerner) que teve um efeito benéfico e influência grande, no aconselhamento de obras e autores que ainda hoje o fascinam. Vou transcrever uma pequena parte desse capítulo:
"...Quando somos adolescentes, somos únicos; quando crescemos, percebemos que o ser singular é, na verdade, um mosaico composto por outros seres que, em maior ou menor medida, nos definem. Reconhecer essas identidades espelhadas ou aprendidas é uma das consolações da velhice: saber que certas pessoas há muito transformadas em pó continuam a viver em nós, tal como nós viveremos em alguém cuja existência talvez nem conheçamos. Compreendo agora com 66 anos, que Lerner é um desses seres imortais. ..." (pg. 61)

Ao longo da minha vida, tive também pessoas que me aconselharam livros e leituras. Recordo duas, especialmente. A primeira foi um professor de Inglês, de nome Fabião, no meu 4º ano de Liceu, que me abriu caminho para Somerset Maugham, aconselhando-me a ler The Moon and Sixpence. Vim a encontrá-lo mais tarde, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde era leitor de neerlandês. O segundo conselheiro foi Eugénio de Andrade que me recomendou João Guimarães Rosa, na altura da minha ida para a tropa. E, porque falava muito de Juan Ramón Jiménez, acabei por vir a ler, também, o poeta do Moguer, com grande entusiasmo. São três autores recomendados que ainda hoje me dão prazer de leitura.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Eugen Doga (1937)


Curiosidades 52


Que salário (ordenado) vem do latim salarium, muita gente saberá, porventura. O que eu não sabia até há pouco tempo, é que, no Império Romano, o pré dos soldados era pago, no todo ou em parte, através de sal. Que era necessário para a conservação da carne e outros alimentos. Daí o significado de ordenado, com o referente do pagamento em espécie.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Bibliofilia 131


Quase poderia dizer que descobri Vergílio Ferreira (1916-1996) através de "Manhã Submersa" (1954), primeiro livro que li do escritor português, e ainda hoje uma das obras dele de que mais gosto. Li-o pela primeira edição, que um amigo me emprestou. Por isso, só muito mais tarde, vim a comprar o romance e a relê-lo, com o mesmo agrado inicial, aliás.
É apenas a terceira edição, de 1968, esta que tenho, mas pertenceu a Ruben A. (1920-1975), tendo a particularidade de ter uma afectuosa dedicatória de Vergílio Ferreira, que só enriquece o volume. Por aqui fica, em imagem. Hoje, dia em que se completa o centenário do nascimento do Escritor.




para MR, em geminação com o Prosimetron.

As gentilezas da democracia


Teve pouca divulgação mediática, pelo menos por cá, e ainda menos repercussão comentada, a notícia de que as autoridades italianas tinham decidido mandar tapar uma parte das estátuas de nus, em Roma. Este pudor gentil e amorável, muito caridoso e cristão, destinava-se a não chocar S. Eminência, o presidente do Irão, na sua visita à capital italiana, quando passasse por esses locais.
O incauto e não informado turista, que por lá andasse, haveria de pensar que se tratava de mais uma instalação ou intervenção do artista búlgaro Christo (1935) que, no passado, já tinha embrulhado o Reichstag, em Berlim, e a Pont-Neuf, em Paris. Porque, se estivesse ao corrente das verdadeiras razões, teria de concluir que o ditado "Em Roma, sê romano!" deixara de fazer qualquer sentido. Graças às gentilezas italianas da democracia.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Uma louvável iniciativa (48)


De Belas (19/20), que me convoca, histórica e cronologicamente, D. Pedro I, D. Duarte e António Nobre, para não falar da extinta romaria do Senhor da Serra, na Quinta dos Marqueses da dita vila, até à "piscosa" Sesimbra (10/20) que acabou a referenciar uma edição de "Os Lusíadas", passando pela suburbana Damaia (7/20) de pouca beleza actual e desordenada arquitectura, por aqui anda margem para lendas e sonhos de terras portuguesas. Que raramente excluem o amor, das narrativas. Pretexto que foram para o exercício da imaginação popular, na arte de contar, e que o Café Chave d'Ouro registou, e muito bem, em pacotinhos de açúcar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Retratos (16)


Eram figuras típicas de uma Guimarães antiga, dos anos 50. Invariavelmente, faziam o périplo do centro histórico vimaranense, várias vezes durante a tarde, palrando alegremente. Do que falavam, não sei.
O João S., solteiro inveterado, terratenente de várias quintas no minifúndio minhoto, apascentava também uma vaga carteira de seguros, onde predominava a L'Urbaine, companhia gaulesa de créditos firmados; o Coimbra, viúvo e sempre vestido de fatos pretos, que tinha voz metálica e grossa, e o cabelo cortado à escovinha, creio que tinha várias casas, que alugava. O Martins Chapeleiro (o segundo apelido era alcunha), casado, era o mais velho dos 3, mas parecia o mais menino e frágil, com o rosto enfezado de grão-de-bico e as lentes garrafais dos grossos óculos. Também usava chapéu, normalmente cinzento. E era o único que tinha loja aberta: uma retrosaria fantástica, como já não há, com milhares de botões, elásticos, meias, lenços, fitas de nastro, carrinhos de linha, novelos de lã das mais diversas cores, cintos, incontáveis chapéus...
Era vê-los, ao bater das 14, a entrar no Café do Toural e a ocuparem lugar na sua mesa reservada, sempre. E, cerca de meia hora depois, a sairem para a rua, em amena cavaqueira. Ao que parece, era o Martins que dava as notícias mais recentes, provindas da loja, muito frequentada, sobretudo por senhoras freguesas da cidade. A boa disposição dos três era proverbial, nos passeios intermináveis em círculo, pela cidade e que duravam, sobretudo no Verão, até cerca das 19h00.
Uma coisa os unia, talvez na felicidade: eram os únicos vimaranenses, que eu conhecia, que viviam dos rendimentos...

Falla / du Pré / Williams


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

À guisa de explicação


Comecei a notar, de uns tempos a esta parte, que, em 100 visitas ao Arpose, cerca de 80% se dirigiam, invariavelmente, a postes antigos do arquivo do Blogue, sobretudo dos anos de 2010, 2011 e 2012. Antiquíssimos, portanto, tendo em vista a idade do Arpose, e a duração média de vida dos blogues na net.
Depois, se as as visitas são numerosas, q. b., a quase totalidade não tem voz. Ou opinião...
A constatação do facto deu-me uma inefável tranquilidade de espírito e dei-me também a pensar que poderia viver dos rendimentos, no futuro. Sem grandes trabalhos e preocupações de maior.

Pinacoteca Pessoal 108


Não tendo a magnitude estética, nem a seriedade clássica de "O Grupo do Leão" (1885), pintado por Columbano, nem sequer se aproximando dos murais de "A Brasileira", esta obra de Rainer Ehrt (1960), muito menos ambiciosa, que fez capa do penúltimo TLS (nº 5885), surpreendeu-me agradavelmente. Do pintor e gráfico, apenas sei que é alemão e que também pratica o cartunismo. O seu traço não terá a graça satírica de David Levine, mas a similitude dos retratados parece-me excelente.
Poderemos, facilmente, identificar os irmãos Mann, Bertolt Brecht, Joseph Roth, Anna Seghers, Walter Benjamin. E, prováveis, o pintor japonês Foujita, Stefan Zweig e Alfred Döblin. Não descortinei os restantes... Rainer Ehrt reuniu-os numa improvável e inexacta sincronia temporal (com data imaginária: 1933). Todos eles expatriados, alguns judeus, que passaram por França, entre os anos 20 e 50 do século XX. Muitos deles fugindo ao nazismo, e alguns que se fixaram em Paris, para sempre.
O título da obra é bilingue, apropriadamente: Café des Exilés ou Der Engel der Geschichte. Seja, em português, Café dos Exilados, de um francês pragmático, ou O Anjo da História, num alemão mais simbólico.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Apontamento 77: Regresso ao Passado


Curiosamente ou não, nos últimos tempos, vieram-me à memória as imagens do país cinzento e culturalmente uniformizado que conheci nos inícios dos anos 70 do século passado.

Com a reserva e a estima pelas pequenas ilhas de pensamento elaborado e de cultura – universal e popular – que se respirava em casas de Águeda, Lisboa e Almada que me acolheram logo nos primeiros anos, confesso que guardei, quanto ao resto, a lembrança de um certo “mofo” intelectual, físico e vivencial.

Talvez, por metáfora abrangente da uniformização do pensar, viver e agir, de uma certa classe média do regime, com frequentes ligação ao chamado “Ultramar”, sirva uma imagem de decoração mais expressiva, a saber, a “mesa credência” em talha dourada no “hall” de entrada, reproduzida na imagem.

Ora, no “regresso ao passado” existem figurantes que, de repente e com roupagens novas, vão surgindo e, curiosamente, activam uma memória que se julgava adormecida, até pelos lugares e conivência que escolhem pela representação. Curiosamente recuperam a mesa de credência há muito esquecida.


No entanto, a memória teima em não querer apagar o sentido de gestos e posturas matriciais de determinados actores, até um Martinez (de Direito) renovado e em segunda geração.

Post de HMJ

Uma coutada, na Faculdade de Direito de Lisboa


Depois da eventual avalanche, o que vou escrever é um mero pormenor. Mas significativo e que pressagia equívocos futuros, do meu ponto de vista.
O uso de uma Faculdade de Direito (?), por parte de um candidato a PR, como se fosse uma sede de campanha, para aí aguardar os resultados eleitorais e ouvir as ovações finais, indicia uma instrumentalização espúria de uma instituição pública ao serviço de interesses privados. Que anuncia um oportunismo de intenções e equívocos maiores. E outros abusos prováveis e futuros.
Glosando um lugar comum, terei de acrescentar, humildemente, que: em democracia, cada povo tem os chefes que merece.

Enquanto esperamos, porque não ouvir uma mirandesa, erudita, mas também popular?...