domingo, 10 de maio de 2015

Divagações 87


Aqui há 40/41 anos atrás, era rara a semana em que "Le Nouvel Observateur" não trouxesse um artigo sobre Portugal. A revista acompanhava, com grande simpatia, os desenvolvimentos do 25 de Abril. E o facto enchia-me de orgulho e dava-me alegria. Ser português, nessa altura, era um motivo de regozijo. Ao contrário de em anos anteriores...
O último L'Obs (nº 2635), depois de anos e anos, sem que Portugal merecesse notícia detalhada, dedica à situação do país nada menos do que quatro páginas. Mas não pelos melhores motivos. A reportagem centra-se em dois temas fulcrais: o ermamento do interior e a diáspora. E ainda sobre uma perspectiva pessimista do futuro, como se Portugal tivesse regressado ao passado de há 50 anos atrás.

sábado, 9 de maio de 2015

Levar o fio à meada


Regressado que foi o bom tempo e as temperaturas amenas, retomo, na varanda a leste, por entre os 4 limõezinhos recém-nascidos do limoeiro novo e as flores brancas das sardinheiras, a leitura de "Guerra e Paz" de Tolstoi. Abandonada que fora, há meses (Novembro de 2014), a obra, na página 247 do segundo volume, que vai a mais de meio, reabro de novo o calhamaço. Ao lado, e à mão, tenho, porém, Baltiques, de Tomas Tranströmer - gentilmente emprestado por H. N., em mais um rasgo atento de boa amizade - para o caso de o tédio vir a ser grande, na leitura da obra-prima (sem ironia, MR!) do escritor russo.
Re-constato as inúmeras gralhas, imperdoáveis, desta tradução portuguesa, da Inquérito, do já longínquo ano de 1957.
São quase sete horas da tarde, ainda há luz na varanda, e o céu, quase limpíssimo de nuvens, está nitidamente azul. Acabei a página 272...

Mercearias (muito) Finas 102


Registe-se, a título de curiosidade e para memória futura, que, na passada quinta-feira, 7 de Maio de 2015, nos salões da casa leiloeira Sotheby's, em Londres, foi vendido um Vintage bicentenário, pela quantia de 5.000 libras, o equivalente a 6.800 euros. Tratava-se do celebrado Vinho do Porto Ferreirinha de 1815, cognominado Waterloo, por pertencer à colheita do ano em que Napoleão foi definitivamente derrotado, em terras, hoje, da Bélgica, e na batalha de nome homónimo.
As caves da Sogrape-Ferreirinha albergam ainda no seu interior, em Vila Nova de Gaia, mais 49 garrafas deste precioso néctar. Pobre de mim!, que o mais antigo Vinho do Porto, que bebi (em 1979), decantado que foi, pertencia a uma reserva particular de 1871. Mas era boníssimo, também...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Ao fim do dia : "Often a bird", de Wim Mertens (1953)


O minuto final deste vídeo é todo ocupado com aplausos, o que desiquilibra a sua audição.
Mas dentro das várias opções que havia no Youtube, a maior parte dos vídeos eram servidos por imagens delicodoces, indigentes, quitches ou pimbas ao extremo, a acompanhar esta obra (Often a bird), que reputo de belíssima, do flamengo Wim Mertens.
A visão de uma orquestra, simplesmente, é muitíssimo mais digna e escorreita. Ao piano, o próprio autor: Wim Mertens.

Filatelia CIII


Sinal dos tempos, também o fim da II Grande Guerra foi celebrado, filatelicamente, nos países beligerantes. A primeira série britânica, de 1945, com a efígie do rei Jorge VI, aponta para a reconstrução e para a Paz. Dos Aliados, também os Estados Unidos da América emitiram vários selos, em 1945, com motivos alusivos de maior simbolismo patriótico, louvando o exército americano na libertação de Paris, a batalha de Iwo Jima e a sua marinha nacional.
Enquanto isso, na Alemanha derrotada, com as suas infra-estruturas destruídas, Correios desorganizados e emissões paralizadas, cada cidade, vila, lugarejo, aproveitava restos dos últimos selos do nazismo, para franquear a correspondência, apondo-lhe, muitas vezes à mão, sobrecargas manuscritas. Estas estampilhas constituem o que, hoje, se chama: Lokalausgaben (Emissões locais). E, nos selos base, a efígie de Hitler era obscurecida a tinta, num exorcismo artesanal, mas bem revelador do pragmatismo germânico...


Apontamento 67: 8 de Maio de 1945




A data assinala a capitulação do exército alemão e o fim da 2ª Guerra Mundial. A foto mostra a destruição de Colónia, cidade quase fantasma já que uma parte considerável dos habitantes tinha fugido, dos ca. de 770.000 restavam, no final da guerra, uns 40.000.

Post de HMJ

Retro (69)


Implantado no coração de Lisboa, muito perto do Chiado, o Teatro da Trindade abriu as suas portas em Novembro de 1867, sob a égide e direcção de Francisco Palha (1824-1890), vocacionado inicialmente para o teatro sério e os saraus de música, principalmente, erudita. Acolheu assim grandes nomes de intérpretes, quer da arte musical, quer da arte de Talma. No entretanto a sua vocação de sala de espectáculos foi-se diversificando até abranger acontecimentos mais populares.
Sob a responsabilidade da Fundação Inatel, o Teatro da Trindade, com uma capacidade para 495 espectadores, foi recentemente palco de um pronunciamento político que perturbou e apressou a estratégia dos políticos representantes da direita portuguesa.
O encarte publicitário, que ora se mostra, através da capa e duas páginas centrais, data do início dos anos 40 e até contém publicidade às emissões radiofónicas de propaganda da Alemanha nazi ("Berlim - a Alemanha fala"), para o mundo português. O pequeno folheto teve uma tiragem de 500 exemplares, que eram distribuídos gratuitamente. Já por essa altura o Trindade apresentava espectáculos populares e de agrado geral para o público alfacinha. Não fosse o prato de resistência da Fantasia-Revista (Aleluia) contar com o desempenho do celebrado Vasco Santana...


com os melhores agradecimentos a A. de A. M..

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lisboa-Nova Iorque-Lisboa


Por entre as vicissitudes da diáspora e o pequeno meio editorial lisboeta dos anos 60 portugueses, surge esta correspondência, entre José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e José Saramago (1922-2010), que começa por ser quase só de teor comercial, mas que se vai alargando para os limites das letras e chega a atingir o tom cordial da amizade. Director (?) literário da Estúdios Cor, Saramago vai dando notícias, números de venda e enviando cheques (direitos de autor) a Miguéis que, em Nova Iorque, quase sempre amargurado e sedento de novas do seu país, apesar do sucesso das suas obras (Leah, Escola do Paraíso...), lhe vai dando conta da sua via crucis, por terras americanas. A correspondência cessa em 1971, altura em que Saramago se demite da Editora, quando os donos lhe impõe, como chefe e directora literária, a escritora Natália Correia.
A franqueza entre os dois predomina, nesta conversa de homem para homem, pese embora alguma reserva de Miguéis, nas suas cartas iniciais. Saramago é mais frontal, chega a desabafar, por vezes:
"...Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como o Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há uns tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes duma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-de província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?... Assim estamos nós, descendentes de Afonso Henriques e Albuquerque, de Cabral e Camões... Desculpe o excesso de a-propósito da ironia!..." (pg. 106)
Editado em 2010, é um livro que vale a pena ler, até porque nos traz, ressuscitado, o panorama literário de Portugal, que se vivia nos anos 60 do século passado.

Uma fotografia, de vez em quando (60)


Uma boa parte do acervo fotográfico do italiano Federico Patellani (1911-1977) é constituído por fotos da II Grande Guerra. 
Mas o melhor do cinema italiano do século XX, bem como das suas personagens mais icónicas, também ficou fixado, para sempre, por este talentoso fotógrafo.


Franz Schubert/ Dietrich-Dieskau/ Alfred Brendel : "Der Lindenbaum"

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Adorno sobre a música de Schubert


Esta é a natureza da dialéctica de Schubert: ele conduz-nos até às empalidecidas imagens da objectividade existencial pelo poder da interioridade subjectiva.

Theodor Adorno (em 1928). 

Revivalismo Ligeiro CXIX


terça-feira, 5 de maio de 2015

Osmose (52)


Há sempre um lado bruto, até nas pessoas mais sensíveis. Mas é preciso e importante percebê-lo. O ser humano não é uma peça única - exige compensações, na sua harmonia geral. O equilíbrio, muitas vezes, é feito de excessos que se anulam, entre si.

Comic Relief (106)


Sendo, como é, uma publicação séria, o TLS raramente acolhe brejeirices nas suas páginas. Quando muito, um ou outro colaborador dá um ar da sua graça ou exprime algumas considerações levemente irónicas.
Mas, no penúltimo jornal, há uma libertação alargada de pequenas anedotas, na sua última página. Contadas por J(ames?) C(ampbel?), a propósito, e retiradas, do livro Freud Verbatim: Quotations and Aphorisms.
Aqui seguem algumas, em tradução simplista:

- O que é um canibal que comeu os seus próprios pai e mãe? (Pausa) Um órfão! E se tiver comido a sua família inteira? O único herdeiro!
- Um negociante de cavalos recomendava, assim, a um provável comprador, o equino em transacção: Se mercar este cavalo e se partir de sua casa, às quatro horas da manhã, vai ver que chega a Pressbourg antes das seis e meia. Resposta do comprador interessado: E o que é que eu vou fazer a Pressbourg, às 6 da manhã?
- Um médico, ao abandonar o quarto da mulher doente, vira-se para o marido e diz: Não gostei nada da cara da sua esposa... Ao que o marido responde: Pois eu, ao longo de toda a nossa vida em comum, também nunca gostei!

Convém acrescentar que todas estas pequenas histórias humorísticas, se não eram da autoria de Freud, eram, pelo menos, contadas por ele, aos seus pacientes e amigos.

Amor com amor se paga


Haverá, decerto e no mínimo, duas formas de ver o país que nos acolhe: ou apreciamos ou criticamos. A terceira via será sempre mais tímida e desinteressante - dar uma no cravo, outra na ferradura.
Ao que parece (não li o livro), João Magueijo (Évora, 1967), professor catedrático no Imperial College, que vive na Inglaterra há cerca de 20 anos, no seu livro Bifes mal passados (Gradiva, 2014), traça da Grã-Bretanha um retrato desfavorável, um pouco na senda de J. Rentes de Carvalho, com o seu Com os holandeses, em relação ao país das tulipas.
Há alguns pontos de contacto nestes dois livros, no que à crítica diz respeito: a rudeza dos habitantes, a péssima gastronomia, por exemplo. É possível, também, que neles exista excessiva acrimónia...
Seja como for, tanto bastou para que o TLS (nº 5847), excepcionalmente, trouxesse uma crítica a um livro em língua estrangeira, onde se faz a defesa da dama (Inglaterra). E, em desforço, apareçam, no texto da recensão de Jonathan Keates, umas ferroadas soezes a João Magueijo...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Edward Elgar (1857-1934) : "Sospiri"


Um poema do sueco Tomas Tranströmer


Criptas românicas

Na penumbra da vasta igreja acotovelavam-se os turistas.
Uma cripta dava a outra cripta uma visão incompleta.
As chamas de uns quantos círios oscilavam.
Um anjo sem rosto veio abraçar-me
e sussurrou-me por todo o corpo:
"Não te envergonhes de ser homem, orgulha-te!
Dentro de ti uma cripta leva a outra cripta, indefinidamente.
Nunca estarás completo e assim deve ser."
Cego pelas lágrimas
fui empurrado até à praça incendiada de luz
juntamente com o sr. e a sra. Jones, o sr. Tanaka e a senhora Sabatini
e, dentro de cada um deles, uma cripta
dava para outra cripta, indefinidamente.


Nota: o poeta Tomas Trantrömer (1931-2015) foi Prémio Nobel da Literatura, em 2011.

A par e passo 134


Logo que morre um grande homem, de imediato, como a própria carne que se altera bruscamente também a própria ideia que ele dava de si mesmo se vai modificando. As forças da sua presença viva faltam logo. A morte deixa o morto sem defesa contra aquilo que ele parecia ser. Os medos reverenciais desaparecem. As recordações (e temos de pensar que nem sempre são as mais dignas) saem das memórias maliciosas; reformulam, devoram o que seria de esperar do valor, dos méritos, do carácter do ausente. Produz-se uma espécie de abuso da verdade que não é mais enganador do que os fragmentos. Cada parcela do real alaga o espírito e excita-o para que produza uma falsa personagem.

Paul Valéry, in Variété IV (pgs. 22/3).

domingo, 3 de maio de 2015

Circunstância


Voltou-se o Domingo ao Inverno, se calhar, arrependido...
E a Primavera, jovem e tímida, parece ter-se intimidado, depois de, pressurosa, ter puxado pelas hortênsias, ter acordado os brotos no limoeiro e estimulado as tenras alfaces, recém-plantadas, a crescerem na floreira artesanal, a leste.
Tudo parece voltar e obedecer a ritmos caprichosos, desdenhando das obrigações de Maio ou do tempo que, classificado e marcado pelo Homem, não se arbitra pela lei da Natureza.
Até as andorinhas se precatam de voar, muito menos altas, por causa das pequenas gotas de chuva, circunstância do acaso e humor das estações volúveis. E, cautelosas, voltam de regresso, em voo rápido, aos aconchegados ninhos dos beirais.

Citações CCXXXV (temáticas)


Toda a arte da política é servir-se das conjunturas.
Luís XIV (1638-1715), in Mémoires.

O mundo é tão cego que raramente se dá conta das mistificações políticas mais grosseiras.
Ferdinand Bac (1859-1952), in La Flûte et le Tambour.

A política é a arte de se servir das pessoas.
Henri de Montherlant (1895-1972), in Carnets, 1930-1944.

Breve


Vai, em parte, com iniciais, este poste, para eu me poupar a escrever os nomes da vergonha...
Porque há, no mínimo, qualquer coisa de obsceno, neste elogio do PM, feito há dias, em Aguiar da Beira, ao ex-conselheiro de Estado, que tinha integrado a cúpula do BPN/SLN.


Eleni Karaindrou : "Waltz of the Bride"


Fora de portas


Sendo embora de 1563, data que ostenta orgulhosamente na fachada, e matriz, a pequena igreja era modesta, na sua arquitectura exterior, e incaracterística de estatuária interior. Só os azulejos lhe proporcionavam alguma nobreza, sendo que de traço quase banal.
O minúsculo templo enquadrava-se bem, no entanto, no pequeno largo da vila, cuja parte velha se mantivera harmoniosa, na sua estrutura antiga. Em contraste, não muito longe, com a volumetria desproporcionada e moderna do povoado, que o século XX lhe foi acrescentando, barbaramente.
Viera o padre de Roma, para oficiar, assegurado que fora, com mil cuidados, o percurso de voo, por entre as greves laicas dos pilotos. Talvez por isso, duplamente vindo do céu, se fartou ele de falar do irmão Francisco, na sua prédica - excessivamente longa, quanto a mim - aos jovens nubentes.

sábado, 2 de maio de 2015

O açúcar da diáspora


Diz-me pouco, o Uruguai, mas 467 portugueses, numa população de pouco mais de 3 milhões e meio de habitantes, será uma comunidade emigrante pequena, embora significativa.
Taprobana, no tempo de Camões, depois, Ceilão se chamou, e agora dá pelo nome de Sri Lanka, que é mais exótico. Ao que parece, os portugueses desembarcaram lá, na grande ilha do Índico, ainda no início do século XVI, mais precisamente, em 1505. Mas, hoje em dia, este pequeno grupo de 5 portugueses deve sentir-se bem isolado. Malhas que o Império tece e os políticos canhestros vão favorecendo, no presente...

Regionalismos transmontanos (79)


1. Ucharia - coisa redonda (Valpaços). Fartura.
2. Ulear - uivar.
3. Urca - estômago, barriga. Égua grande e robusta. Mulher alta e feia.
4. Urgueira - o mesmo que urze.
5. Ustir - aguentar, suportar.
6. Uveira - qualquer árvore ou arbusto que serve de suporte a videiras. Videira.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Escultura inglesa : uma exposição na Tate Britain


O TLS (nº 5846) faz-se eco de uma exposição (Sculpture Victorious) na Tate Britain, até 25/6/2015, que eu gostaria de ver. Não tanto pelas obras inovadoras que mostra, mas pela época - pouco propícia a inovação - que representa. A minha curiosidade, no entanto, centralizar-se-ia, sobretudo numa obra (A Royal Game) escultórica de William Reynolds-Stephens (1862-1943). Que retrata, imaginativamente, a rainha inglesa Isabel I a jogar xadrez com Filipe II, de Espanha, e cuja imagem fica a encimar este poste.

Glosa


"...O mundo condena os mentirosos que não fazem senão mentir, até sobre as coisas ínfimas, e vai premiando os poetas, que só mentem sobre as coisas grandíssimas." 
Umberto Eco, in Baudolino (pg. 46).

Depois de Pessoa, é muito difícil dizer, ou mentir, melhor. Ruy Belo tentou, Gamoneda também, talvez com mais autêntica sinceridade, mas não foi longe. Sem o dizer, fazendo da mentira seu voto de castidade poética, Herberto Helder experimentou uma segunda via, com alguns resultados menores, embora de poesia maior. Os melhores poetas são, em última instância, grandes fantasistas, oscilando entre o malabarista talentoso da metáfora, e o mágico truque para consumo doméstico. Buscam um equilíbrio subjectivo por compensação externa. Por extremo, sendo bem sucedidos, conseguem criar uma nova linguagem. Ou uma outra realidade virtual, mas possível.
Se eu disser: o Polo Norte há-de vir a ser o sexto continente - talvez esteja a admitir uma verdade provável. Mesmo que esteja a mentir, no presente. Com o aquecimento global, esta constatação é, apenas, uma mentira menor. E sem grande qualidade poética.

Azul


Com e sem George Gershwin (1898-1937): "Rhapsody in Blue".

Maios


Afinal, hoje, até havia jornal. Já não há respeito por nada: aqui há 40 anos, vi-me aflito para almoçar, no primeiro dia do mês. Tive que me contentar com uma sandes ressequida, no foyer do cinema Monumental - era o que havia...
Maio era o mês dos morangos, pequeninos e saborosos, que a minha Tia me mandava, num pequeno cesto de verga, pelo aniversário; agora, até chegam muito mais cedo, são enormes e não sabem a nada - senão à memória deles, no passado, e dizemos: fazem lembrar morangos!...
Era também o mês das fortes trovoadas, em que se invocavam S. Jerónimo e Sta. Bárbara, virgem, quando a luz se ia abaixo. Agora, que há apagões todo o ano, já ninguém lê hagiografias, nem conhece o nome dos santos patronos.
Valham-nos as favas!, que costumavam vir por Maio, e se davam aos cavalos, para os robustecer. Ainda vêm e até já as comemos. Mas, congeladas, também se podem comprar em qualquer mês do ano. Vai sendo cada vez mais difícil cumprir as tradições, na altura certa e competente...

Adagiário CCXIX : Maio (6)


1. Quanto Maio acha nado, tudo deixa espigado.
2. Em Maio a quem não tem basta-lhe o saco.
3. Maio come o trigo, Agosto bebe o vinho.
4. A quem em Maio come sardinha, em Agosto lhe pica a espinha.