domingo, 2 de outubro de 2016

Revivalismo Ligeiro CCXXXVIII


Uma fotografia, de vez em quando (87)


O Museu Käthe Kollwitz, em Colónia, sendo relativamente pequeno, é muito agradável, bem projectado e rico de conteúdo quer pela obra gráfica, quer pela escultura e pintura que acolhe, da artista alemã homónima.
Presentemente, inaugurou no seu espaço uma mostra da obra fotográfica de Annelise Kretschmer (1903-1987), artista que integrou o movimento Neue Sachlichkeit (Nova Objectividade), tendo sido uma das mulheres pioneiras a gerir o seu próprio  estúdio, em Dortmund, com 26 anos apenas.


Ipsis verbis


Duas coisas não sabia eu: que René Magritte (1898-1967) tinha pertencido ao partido comunista belga; e que tinha uma grande exposição no Centre Pompidou (Paris), nesta altura - foi L'Obs que me elucidou...

sábado, 1 de outubro de 2016

Má língua, em oblíqua oriental


Dizia-se, à boca pequena, nos tempos altos do comunismo vicejante, que os soviéticos costumavam usar os búlgaros, para fazerem os trabalhos mais sujos. Lembram-se da pista búlgara de Ali Agca, no atentado ao papa João Paulo II?
Pois agora, é a czarina Merkel e o grão-duque Juncker que seguem o velho exemplo da nomenclatura soviética. Não há nada que me comova mais do que o respeito por uma bonita e antiga tradição!... Mas parece que também houve um peão de brega, Mário David (português? judeu? búlgaro de segunda?), que ajudou à corrida. Ou será este o mercenário do trabalho mais sujo?

Nino Rota / Marino Formenti


Adagiário CCLX : Outubro (7)


1. Outubro sisudo, recolhe tudo.
2. Outubro muito chuvoso torna o lavrador venturoso.
3. Em Outubro semeia e cria, terás alegria.
4. Logo que Outubro venha, procura a lenha.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Miró em Serralves


All's well that ends well

William Shakespeare (1623).

Eduardo Chirinos (Peru, 1960-2016)


Uma formiga, com esforço,
leva consigo uma folha.
                    A folha é enorme,
várias vezes o seu próprio tamanho.
Trata-se porém de um dever inevitável,
uma pura obediência atávica.
                   Na sua retaguarda
idênticas formigas vão fazendo o mesmo
com diversas folhas. Amanhã vão repetir
um ritual cuja razão totalmente ignoro.

Em breve, vou completar cinquenta anos.
Penso na formiga,
na sua cega dança até à morte.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

E. M. Cioran, sobre o poeta Paul Celan


7 Maio (1970)

Paul Celan atirou-se ao Sena. Encontraram o seu cadáver na Segunda-feira passada.
Este homem encantador e impossível, feroz com acessos de ternura, de quem eu gostava e de quem eu fugia, com receio de o ferir, porque tudo o fazia sofrer.
De cada vez que o reencontrava, punha-me à defesa e controlava-me de tal modo que ao fim de meia hora me sentia exausto.

E. M. Cioran, in Cahiers / 1957-1972 (pg. 806).

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pequena história (43)


Eu creio que as mulheres, de uma forma geral, são mais discretas sobre os casos e o seu passado amoroso; e os homens, mais gabarolas...
Ao ler A América dia a dia, de Simone de Beauvoir (1908-1986), fui verificando que as alusões directas a Nelson Algren (1909-1981) são mínimas e muito pouco explícitas. O escritor norte-americano, posteriormente ao caso que os reuniu, deu com a língua nos dentes, de forma algo desabrida e até desagradável. O amor, quando corre mal, transforma-se, por vezes, em ódio ou desencanto grosseiro.
Foi a irmã, Hélène (1910-2001), que deu a notícia, a Simone de Beauvoir, da morte de Algren. A escritora francesa não terá reagido, nem manifestou emoção alguma, aparentemente, na altura. Mas, ao que dizem, quando foi a sepultar levava ainda no dedo o anel que Nelson Algren lhe tinha oferecido, em 1949.

Desabafo (16)


Há religiões que obrigam a um constante aggiornamento. Ler (e falar d)o último best-seller das livrarias ou referir e ver com extrema devoção o filme recentemente mais oscarizado, comentar a última tirada moralista do Papa, apontar o dedo ao escândalo Saraiva-Gradiva, dar palpites sobre os exames de Guterres para SGNU, opinar sobre quem venceu o debate Trump-Clinton... E os Blogues são um bom exemplo desta sujeição ao efémero. São, no fundo, os coros cacofónicos da net. Onde pouco ou nada se diz e tudo se repete. Para prontamente se esquecer.
Até que ponto conseguirei eu evitar esta epidemia, este contágio avassalador?

Do tom


Os encómios, de leituras minhas recentes, que convergiam para A Ilustre Casa de Ramires, como obra preferida de V. S. Pritchett e Costa Pimpão, da bibliografia de Eça de Queiroz, levaram-me a repegar no volume e retirá-lo, da estante da biblioteca, levando-o para a mesinha de cabeceira. Até porque era o único romance de Eça de que eu não tinha a certeza absoluta de ter lido até ao fim. Depois, aquele carimbo circular da Livraria Académica, de Manaus, só poderia ter vindo do meu Tio Jorge, que andara pela Amazónia dos Brasis, em tenra e, muito provavelmente, difícil juventude... 
Foi, efectivamente, o reencontro confirmado. Com aquele atmosfera bem disposta, de gozo e de ironia, que faz reconhecível o tom ou estilo do "pobre homem da Póvoa de Varzim". Tal como a ambiência melodramática é a marca de água da escrita de Camilo, embora temperada, algumas vezes, por uma ironia mais sofrida. Para não falar do tom pungente de algumas obras de Raul Brandão, mais anoitecido ainda na prosa minhota de Tomaz de Figueiredo. Em contraponto com a algarvia claridade do tom de Teixeira Gomes, sulista e solar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Idiotismos 36


Na rubrica Idiotismos (nº 7, de 5/12/2012), abordei a expressão cortar na casaca. Por essa altura, e por associação de ideias, em parceria com um amigo, tentámos descobrir, também, a origem e razão da expressão virar a casaca que, de uma forma geral, se aplicava a pessoas que se adaptavam a novos tempos, mudando de opinião, partido e modos de ser, para melhor aproveitarem e se servirem de novas conjunturas políticas. João Abel Manta (1928), muito inspiradamente, pouco depois do 25 de Abril, num cartoon muito sugestivo (em imagem, a encimar este poste), exemplificou de forma humorística, os viracasacas, oportunistas que, tendo servido o antigo regime com devoção, se tentavam integrar, disfarçadamente, na nova ordem democrática.
Mas nem o meu amigo nem eu, nessa altura, conseguimos deslindar o mistério da origem do virar a casaca. Recentemente, porém, no livro Origem de várias locuções, adágios, anexins, etc. (Elvas, 1928), de António Thomaz Pires (1850-1913), preto no branco, tudo era explicado claramente. Acontece que Carlos Manuel (1562-1630), duque de Sabóia, tinha um carácter dúplice e oportunista, que o fazia apoiar ora a Espanha, ora a França, na guerra em que os dois países andavam envolvidos. Consoante os benefícios que, daí, poderia colher. E para não ter que mandar fazer duas fardas de cores diferentes (branca, cor da França, e vermelha de Espanha) mandou fazer um casaco branco por um lado e vermelho, do outro. Podendo assim igualmente servir dos dois lados, e ambos os países inimigos, conforme fosse a ocasião e opção escolhida. Assim se começou a usar a expressão: virar a casaca.

para A. de A. M., afectuosamente.

A par e passo 175


Descartes acertou as suas contas com a filosofia, - dos outros. Definiu ou determinou o seu sistema de vida. Ele tinha confiança plena no seu conjunto de modelos e ideais matemáticos e podia, no seu presente, sem necessitar de ir ao passado, sem olhar a nenhuma tradição, empenhar-se na sua luta que seria a sua vontade de clareza e de organização do conhecimento contra a incerteza, o acidental, o confuso e o inconsequente que são os atributos mais prováveis de grande parte dos nossos pensamentos.
Posiciona-se numa primeira certeza; afirma "que é necessário rejeitar como absolutamente falso aquilo que podia provocar a menor dúvida, de modo a descobrir se não existiria, depois disto, alguma coisa na sua crença que fosse inteiramente indubitável". E alega, fundando-se na sua experiência que nós temos sonhos, e que tudo pode ser talvez apenas sonho. Só a sua famosa proposição: Je pense, donc je suis, lhe parece uma verdade indestrutível, que é preciso tomar como primeiro princípio, e que lhe revela, por outro lado, que é, em si, uma base donde toda a essência se pode pensar, independentemente do corpo, do lugar, de toda a coisa material.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 229/30).

domingo, 25 de setembro de 2016

Nino Rota / Borislava Taneva : alguns dos "Prelúdios"


... uma atençãozinha especial ao Prelúdio nº 13, que começa por volta do 6º minuto do vídeo...

Do rifoneiro castelhano (6)


Más son los amenazados que los acuchillados.

(São mais os ameaçados do que os esfaqueados.)


Nota pessoal: este ditado espanhol fez-me lembrar, indirectamente, o provérbio português - "Cão que ladra, não morde."

sábado, 24 de setembro de 2016

Exposição, hoje, em Almada


Discreta e emigrada desde 1970, em Amesterdão, Maria Beatriz (1940) inaugura, hoje, em Almada e na Casa da Cerca, uma mostra subordinada ao tema Trabalho de Casa. O uso da colagem tem sido uma constante da sua obra, mantida, ao longo de dispersas exposições, que tem feito em Portugal. A artista está representada no C. A. M. (Gulbenkian).


Presente passado


Ler um jornal atrasado tem algumas peculariedades singulares, sobretudo porque nos desaproxima da emoção das notícias, deflaciona os acontecimentos, redu-los, muitas vezes, a cinza fria.
Será, de algum modo, a mesma sensação que perpassa pelas novelas de Somerset Maugham, quando o escritor britânico descreve a leitura de "The Times", duas ou três semanas depois de publicado, às mãos dos administradores do Império, na Índia, em Singapura... Provavelmente, impressões semelhantes que experimentavam os administrativos portugueses, nas colónias, quando recebiam, por exemplo, o DN, com semanas (?) de atraso. Isto, antes da Internet baralhar os dados, através das auto-estradas de informação.
Havia em tudo isso uma vantagem, porque o tempo resolve algumas coisas, remedeia outras, reduz os acontecimentos a uma mumificação do passado, com o seu valor mais relativo. E poupa-se na leitura. Hoje, ao folhear um jornal de há doze dias, fiz, natural e mecanicamente, uma triagem salutar. Ficaram as crónicas intemporais, uma entrevista que podia ser de ontem, duas ou três informações de interesse e pouco mais. A maior parte das notícias, até as de primeira página, tinham perdido o picante, a importância (que lhes tinha sido dada), a actualidade fremente, enfim, pela banalidade que o tempo introduzira nos seus desenvolvimentos.  

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Leonard Cohen

Iconografia moderna e laica (25)


Eu sabia que se me lembrasse do apelido, recordaria certamente o nome. Mas não consegui. O sonho, depois, consubstanciara-se apenas por impressões fragmentárias, intensas mas fluidas, em temas de remotas discussões de cariz profissional, onde a agressividade rondava mas não se revelava inteiramente; em que as ameaças, como um céu carregado, se perfilavam apenas, sem desencadearem um duelo mortal que definisse a situação futura, concreta. Nem o resultado final. Talvez a ironia dominasse as faces, num sorriso enganador - aliás, como eu o lembrava, trinta anos atrás.
O cenário era também improvável: o chão adocicado de fruta escorrida, e pegajoso, escorregadio ao mesmo tempo; juncado de lenços de papel usados e panos diversos muito sujos, já servidos. Por diversos compartimentos contíguos, circulavam protagonistas fardados entoando cantilenas diversas, como se de uma tragédia grega se tratasse, mesmo que ninguém o admitisse. E essas vozes, num coro e destino fatal, de súbito faziam-se grupo reordenado em fuga. Como se da terra procurassem a Arca, desesperadamente. Para escapar, sobreviventes por um pequeno tempo, ao Dilúvio.
Que a ficção não iria senão adiar o fim. Esse, sim, real.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Do cancioneiro tradicional espanhol (4)


Porque adormece sozinha
gelada amanhece
a água.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Divagações 116


É o anoitecer que colhe, o mais das vezes, a preferência do viandante. Seja sobre o Adriático ou sobre o Tejo, essa nostálgica despedida do olhar, que a memória quer trazer por sobre as águas.
Depois, o enquadramento dará algumas pistas sobre quem esteve por trás: o movimento fixado, as coisas, a ordem ou a desarrumação, a quietude que se pretendia para a noite a começar.
Ao amanhecer, não se peça uma opção definida e clara. Em todo o caso, podemos sempre convocar Turner...

Beethoven


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Apontamento 93: Passeios por Lisboa - 4


Afazeres vários desviaram-me, por uns dias, de pequenos percursos citadinos. Por vezes, são desvios, alongando ou modificando o caminho normal. Hoje, por desfastio e numa tentativa de esquecer um contacto bancário desagradável, resolvi descer a Rua da Emenda e encontrei, a meio caminho, esta figueira, frondosa, no meio da cidade. Fiquei com simpatia pelo proprietário que, assim, resolveu embelezar a sua entrada.


  [Foto de Sérgio Dias]

Descendo, a cidade deu-me a conhecer o Pátio do Pimenta, uma pequena reentrância ao fundo da Rua da Emenda. Espaço curioso e que tem um apontamento explicativo numa página chamada: Toponímia de Lisboa.
[https://toponimialisboa.wordpress.com/2015/09/25/que-pimenta-deu-nome-ao-patio/]

O meu fito era visitar a minha peixeira do Mercado da Ribeira, comprando um peixinho para o almoço de amanhã. Não sendo freguesa frequente, sou, no entanto, recebida com toda a simpatia e profissionalismo, porque a Teresa sabe arranjar, e muito bem, uns filetes de pescada.

A volta pelas bancadas, comprando pão e azeitonas, deu para encher o olhar das flores e dos frutos em exposição. Depois, no Jardim de D. Luís, sentei-me junto de um quiosque para tomar um café. A “fauna humana” daquelas paragens é que não se recomenda !


E, como já vai sendo hábito, a subida do regresso é com o apoio do 758 da Carris.

Post de HMJ

Boas novas


Não é todos os dias que nos podemos congratular com boas notícias. E, desta vez, foram duas que surgiram quase em simultâneo.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu oficial e garantidamente que o sarampo e a rubéola foram erradicados em Portugal. É o resultado de uma política de saúde consistente e perseverante, ao longo de várias décadas, mas também um objectivo alcançado pelos agentes, diversos, do Serviço Nacional de Saúde português.
A outra boa nova prende-se com a Cultura e o Património nacional. E interrompe dois séculos de desmazelo, ao ser anunciado o projecto de conclusão do Palácio Nacional da Ajuda que, segundo foi dito, ficará concluído em finais de 2018. O custo (15 milhões de euros) será suportado pelo Ministério da tutela e pela Câmara de Lisboa (através da taxa turística, que tanta polémica provocou, quando foi lançada...).

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ad usum delphini (5)


Hoje, manhã cedo (7h36), recebi uma prestigiante visita, ao Arpose, oriunda da Secretaria Geral dos Negócios Estrangeiros. Disse cá para comigo: Como amanhece cedo nas Necessidades!...
O diplomata (?) interrogava-se sobre Philip Larkin photograph. O Google, na sua inocência algorítmica, zarolha e mecânica, remeteu o(a) visitante para um poste (21/7/2012) em que eu traduzi um poema do poeta inglês - fraca consolação, por certo, pensei.
Entretanto, decidi documentar-me e cheguei à conclusão que a Fotografia era o hobby preferido de Philip Larkin (1922-1985). E que até houve um incidente um pouco grave, numa altura em que o poeta andou a tirar fotografias, a torto e a direito, pelo Soho. Minudências, decerto, do conhecimento cosmopolita do diplomata visitante e madrugador...

Citações CCXCVIII


A História é algo que nunca aconteceu, escrita por um homem que não estava lá.

Anónimo

domingo, 18 de setembro de 2016

Philip Glass : "Labirinto"


Filatelia CXV


O Bloco (filatélico), propriamente dito, aparece, pela primeira vez em 1923, emitido pelos correios do Luxemburgo. Destinava-se principalmente aos filatelistas, muito embora os selos pudessem ser destacados da folha ou no conjunto, que aliás em língua inglesa se denomina Miniature Sheet, e virem a ser usados como franquia postal em correspondência ou para envio de encomendas.
Os CTT emitem o primeiro Bloco português, em 1940, muito embora venha nele inscrita a data de 1939. Destinava-se a celebrar a Legião Portuguesa. Teve uma tiragem de apenas 10.000 exemplares e, sendo raro, tem hoje o valor mais alto dos blocos portugueses: 1.200,00 euros ( Catálogo Mundifil, 2016), novo e com goma íntegra, no verso.


Os Estados Unidos da América emitiram o seu primeiro Bloco em 1926, para comemorar a Exposição Filatélica Internacional de Nova Iorque. O Bloco em imagem, de 1947, que se mostra, é o oitavo na sequência cronológica, porque as emissões desta temática eram parcimoniosas e usadas apenas para difundir acontecimentos importantes ou datas históricas de relevo. Em cerca de 20 anos foram emitidos somente 8 Blocos pelos correios norte-americanos.



O Reino Unido, que sempre foi conservador na sua política de Correios, até tempos recentes - exemplo seguido por Portugal até 1976 -, emitiu o seu primeiro Bloco apenas em 1980, como se mostra. A partir dos anos 90, do século passado, políticas comerciais desenfreadas e oportunistas dos correios mundiais fizeram da emissão de Blocos não um acontecimento de celebração e excepção, mas um motivo de regra mercantil e lucro fácil, graças à conivência de muitos cegos e generosos, para não dizer perdulários, filatelistas. Assim se foram banalizando os Blocos...