sábado, 10 de janeiro de 2015

Cosmopolitismos


No coração de Lisboa, cheirava a pão quente, via-se o fumo evanescente das castanhas assadas, uma coladera despropositada contorcia-se em dois corpos jovens e morenos, secundados por instrumentos africanos sob a benção flectida do poeta Chiado, metálico e eterno. Francês era a língua dominante.
Três cavalheiros de aspecto nobre e trajar distinto, embora não tão neutro como os bibes bancários e reconhecíveis, que por lá passam, mais uma tia chanel número 5, graciosamente, distribuiam encartes preciosos, sugestivos de rico grafismo, como o da imagem, por alguns passantes escolhidos.
Coube-me um a mim, que ia de sobretudo digno e de marca, nas minhas cãs enganosas de prosperidade tranquila. As legendas do encarte vinham em caracteres sóbrios e elegantes da língua portuguesa - como manda a lei - mas também em russo, inglês e chinês, fazendo a apologia e louvando a segurança do Golden Visa ERA na compra de mansões milionárias. Foi ontem.
Veio-me Cesário à memória: "Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo..."

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Nomes


Também os nomes e apelidos passam. Têm seu tempo e moda e, depois, apagam-se, muitas vezes, para sempre. Talvez como os de hoje em dia, alguns deles inspirados em telenovelas e em heróis efémeros e mediáticos...
De uma monografia sobre uma pequena aldeia ou vila minhota, recolhi, pelo exotismo a que me sabem, alguns exemplos antigos de nomes e apelidos, então, usados (Século XI). Aqui ficam:
- Salamiro Fafilaz
- Rodrigo Riquilaz
- Pelágio Justiz (filho de Justo)
- Rodorigo (variante de Rodrigo e Rorigo)
- Gundisalvo
- Odório
- (Dona) Aragunte
- Eldega
Todos eles curiosos e estranhos, nos dias de hoje...

W. A. Mozart

Citações CCXVI


Pode acontecer que, quando os anjos na sua tarefa de louvar a Deus, toquem somente Bach. Mas estou seguro, contudo, de que, quando estão juntos, e em família, eles tocam Mozart.

Karl Barth (1886-1968), in Wolfgang Amadeus Mozart (1956).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Simenon na BNP


Aberta ao público hoje, esta mostra da BNP, sobre Georges Simenon (1903-1989) e as suas obras traduzidas para português (a primeira data de 1932), decorrerá até 18 de Abril de 2015.

3 fragmentos para um massacre


Le XXIe siècle sera religieux ou ne sera pas.

André Malraux (1901-1976).
...
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.

Eugénio de Andrade (1923-2005).
...
Por isso, não mandes perguntar
por quem o sino dobra,
que ele, também, dobra por ti.

John Donne (1573?-1631).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Moby : "We are all made of stars"


Palavras do dia (6)


Nem só com tanques se invade um país e se mata uma Primavera. Quem coloca os mercados acima dos Estados e quem faz chantagem sobre o sentido de votos dos eleitores gregos está a invadir a Grécia e está a invadir-nos a todos nós.

Manuel Alegre, in Eleições e liberdade, no jornal Público (7/1/2015).

Não aconselhável aos hipocondríacos, nem aos que se querem, eternamente, juvenis


Os mais novos não saberão e muitos outros, mais velhos, já não se lembrarão, com certeza, que, por volta de 1975, houve uma campanha nacional a aconselhar o consumo de óleo alimentar, em detrimento do azeite que, diziam os slogans, era prejudicial à saúde. O motivo de tanta bondade profiláctica era, no entanto, outro: havia grandes excedentes de óleo, em Portugal, nessa altura. E, hoje, sabe-se (até quando?) que o azeite, componente importante da dieta mediterrânica, é bom para a saúde.
Os medicamentos contra o colesterol fizeram a fortuna de alguns laboratórios farmacêuticos, por esse mundo fora. As modalidades profilácticas anti-tabágicas (cigarro eléctrico e quejandos) são um novo nicho industrial de vendas laboratoriais. Há dias, li que um grupo de cientistas norte-americanos tinha chegado à conclusão de que o tabaco e o meio ambiente adverso não eram a causa mais decisiva e importante para o aparecimento do cancro, no ser humano. O factor hereditário era muitíssimo mais significativo.
E talvez  tenham razão. Quem manda, são os mercados, até ver...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Recomendado : cinquenta e três


Dia de Reis, hoje, não será despropositado falar de religião...
Uma boa parte dos crentes, do Islão ao Cristianismo, estrutura em elementos emocionais ou atávicos a sua fé. Daí, por vezes, uma deriva até ao fanatismo. Em situações normais, no entanto, e quando perdida essa crença, algo fica de residual, no ser humano: uma moral, para não dizer - uma ética.
Por isso, as palavras de Maurice Sachot, que vou citar, fazem sentido, para mim. Vêm numa entrevista que abre o dossiê que o L'Obs/Hors Série (em imagem) dedicou a Jesus Cristo. Ei-las: 
"...o facto de se considerar que, desde a sua aparição (o cristianismo) é pensado, em si mesmo, como uma religião, no sentido que nós damos a este termo, é certamente fonte de numerosas abordagens. Porque isso não é verdadeiro senão com a refundação do cristianismo no mundo latino, a partir do século II. Antes, o cristianismo, tirando a região judaica, desenvolveu-se numa área cultural muito diferente: o mundo helenístico. E, aí, ele construiu-se como uma filosofia. ..."
Aqui fica a chamada de atenção para este número especial de L'Obs, saído recentemente, a quem possa vir a interessar

Revivalismo Ligeiro CVIII


Filatelia XCVIII (em complemento do poste anterior, sobre H. Z.)


Para lá do selo alemão, em imagem no poste anterior, celebrando os 150 anos do nascimento de Heinrich Zille (10/1/1858-9/8/1929), e que foi emitido em Janeiro de 2008, os correios germânicos, no seu todo alargado, já o tinham lembrado, anteriormente.
Os correios alemães de Berlim, na série "Berlinenses famosos", de 1957/8, reproduziram o seu retrato na taxa de 8 pf. E, mais tarde, em 1969, um desenho de Zille, constou da emissão sobre o século XIX (Usos, transportes e profissões berlinenses), no selo com a taxa de 5 pfennige.
A antiga R. D. A. celebrou-o numa série de dois valores, emitida em 20/3/1958, que aqui ficam, também, em imagem, para que conste.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Apontamento 60: Heinrich Zille (1858-1929)



Não sabia que Heinrich Zille, na imagem acima, tinha também obra como fotógrafo. No seu último número, o jornal DIE ZEIT publicou algumas fotografias de um livro, dedicado à obra de Heinrich Zille como fotógrafo, de que retiramos a seguinte:



Os desenhos de Heinrich Zille, litógrafo de formação, conhecia-os pela sua crítica social e, sobretudo, pelo seu olhar sobre a sociedade berlinense, o “Miljöh” como ele se referia ao ambiente que o rodeava.



Heinrich Zille era amigo de artistas como Max Liebermann e Käthe Kollwitz. Os seus desenhos enriqueceram o jornal satírico Simplicissimus, cujo lado irreverente se encontra resumido, perfeitamente, na imagem com que terminamos esta breve nota.



Post de HMJ

A par e passo 121


Pergunte-se, momentaneamente, como pode nascer um pensamento filosófico. Quanto a mim, não ouso responder se me ponho a questão, porque o meu espírito transporta-me, de imediato, até à borda de um mar maravilhosamente iluminado. É lá que os ingredientes sensíveis, os elementos (ou os alimentos) do estado de alma no seio do qual vai germinar o pensamento mais geral, a questão mais entendível, estão reunidos: a luz, o horizonte, o ócio, as transparências e a profundidade...

Paul Valéry, in Variété III (pg. 243).

Glass / Namekawa : Estudo nº 13


Citações CCXV


E, porque acabei há pouco as Memórias..., de José-Augusto França, e vou encetar, finalmente, a leitura da biografia da rainha Victoria, de Lytton Strachey, aqui deixo, em jeito de despedida, umas das últimas palavras desse livro:
"...Telefone portátil tem vantagens e desvantagens, como o chapéu de chuva, e se, levados pelas facilidades, agora descobrimos que temos muitas coisas a dizer uns ao outros, pelas ruas fora, sem tempos de repouso, é também porque somos muitos, senão demais. E também porque, em crises civilizacionais de identidade, o portátil dá a muitíssima gente segurança (ou ilusão), de existir. Ter «blogs», enviar «e-mails» ou chilreios («tweets»), pelo menos neste caso permite supor que quem for capaz de redigir uma mensagem de 140 signos não é inteiramente estúpido. ..."

Eugénio por Eunice


Breve : a visita de Fulano


O Fulano chegou, ontem, ao Arpose através das search words: "josino fernandoes feicibuco" - que dirigiu ao Google.
Aterrou nos postes do mês de Julho de 2013 mas, concretamente, não sei para qual o Google o mandou.
Se fosse eu a mandar, e não o Google, teria remetido Fulano, de volta, para a Escola Primária.

Divagações 79


O poder interrompe-se, ou acaba, quando o símbolo humano desse poder é atingido por uma mera bofetada, um tiro ou até mesmo por uma (outra) aproximação física que desafia a formalidade protocolar. O espaço e a distância são imprescindíveis ao exercício do poder.
O silêncio imposto - quando não escolhido e aceite - pode bem ser uma forma de pressão, mas também de opressão que pode fazer tirocínio até atingir a tirania ou a ditadura. Porque a palavra sempre foi e há-de ser uma forma de liberdade. Exercê-la é um direito, mesmo que possa parecer um desafio.
Dar uma ordem pressupõe a sua exequibilidade e o seu cumprimento, e, por isso, obriga a que seja ponderada antes, maduramente. A haver dúvidas, no seu acatamento, não deve ser dada, porque a desobediência é, no fundo, o melhor espelho da fragilidade do poder - basta a tal bofetada...

domingo, 4 de janeiro de 2015

Johann Kuhnau (1660-1722)


A magnólia de José-Augusto França



Eu julgo que qualquer ser humano tem a sua árvore de referência ou eleição. As minhas primeiras árvores de estima foram uma ameixoeira e uma figueira. Esta última parecia retorcer-se até ao céu, no quintal vizinho do meu amigo Fernando. Por ela, tanta e tanta vez, trepámos!... A outra, muito mais maneirinha, florescia e frutificava no meu pequeno quintal minhoto, até que, um dia, secou e deixou de dar essas, para mim, antiquíssimas ameixas vermelhinhas.
No seu lugar, foi plantado e cresceu, dando frutos generosos, um belíssimo limoeiro que passou a ser a minha árvore preferida e emblemática, para sempre. O branco nupcial da floração e, depois, o verde e o amarelo dos limões deram-me para mais do que um poema... E estão lá, no fundo da memória. Mais os outros dois outrabandistas e presentes, quase bonsais, na varanda a leste.
Ora, para lá do cedro do Príncipe Real e de tantas outras árvores do Jardim Botânico de Lisboa, no segundo livro de memórias (Memórias para após 2000, Livros Horizonte, Lisboa, 2013) de José-Augusto França (1922), ergue-se e destaca-se, em Jarzé (França), uma magnólia. Assim:

"A magnólia mesmo, de há meia dúzia de anos para cá, árvore centenária, aclimatada da Índia, e mal reconhecida de reacções biológicas, especialistas a especialistas, remédios a remédios experimentados, uma muleta que se lhe fiz dar, para suportar o peso da ramagem virada a nascente, mais abundante, mas que se rendilha, perdido o lustro verde das longas folhas e só, ainda, brotando, em Junho e Julho, belíssimas, acetinadas e olorosas flores que são, afirmam os pré-historiadores, as mais antigas do mundo, conhecidas em fósseis e que persistem, ano a ano das nossas eras... Até este «Pavillion» onde vejo (com André) falecer a minha árvore de adopção e referência. Qual de nós os dois, pergunto também, se irá primeiro? Abatê-la, aconselham os sabedores, e dentro de vinte anos outra grande árvore, à escolha, no mesmo sítio terá crescido. Vinte anos? Muito obrigado..." (pgs. 148/9).

sábado, 3 de janeiro de 2015

Regionalismos transmontanos (68)


1. Rinqualho - garoto magro e que se move com desenvoltura. Sapo.
2. Rita - a espuma do leite.
3. Robechar - brincar.
4. Rocão - haste de madeira com um aparelho de folha na extremidade para colher fruta das árvores sem a pisar.
5. Rochete - o m. q. colarinho.
6. Rodaixa - rodela (de chouriço, de queijo, de nabo, etc.), fatia, coisa arredondada e fina.

Recuperado de um moleskine (10)


O novo ano começa a criar raízes, na normalidade dos dias que se vão sucedendo. Das ofertas não suficientemente exploradas até aos restos de bolos e doces que ainda ocupam as mesas enfeitadas, o passado recente começa a ganhar forma estática e futura.
A magia vai-se perdendo, a pouco e pouco, a infância volta ao seu lugar cativo, no fundo da memória, a família dispersa-se, novamente. O diário trabalho da sobrevivência regressa com os seus constrangimentos.
Reinstalamos o piloto automático no comando dos dias. E, ao contrário do passado, já quase nem se celebra o dia de Reis, que vem próximo. Com ligeira melancolia, movo Gaspar, Melchior e Baltazar para mais próximo da cabana do Presépio, como se esta fosse a única realidade que ainda subsiste.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Música e Poesia LXI


Pinacoteca Pessoal 90


O motivo, fantasioso, foi a lenda que terá tido origem nos monges de Santa Cruz (Coimbra), para glorificarem D. Afonso Henriques. Que, se a batalha de Ourique existiu, é altamente duvidoso que Cristo, na ocasião, tenha aparecido ao nosso primeiro rei. Mas foram precisos muitos anos, até a palavra forte e honrada de Alexandre Herculano vir desmontar a fantasia hagiográfica do chamado milagre de Ourique.
O quadro homónimo, de Domingos Sequeira (1768-1837), foi pintado antes, entre 1791 e 1794, segundo Maria de Lourdes Riobom, e foi para o Brasil, com a família real portuguesa que fugia à invasão dos exércitos napoleónicos, no início de oitocentos. A pintura andou perdida, como se perdeu (para sempre?) "A morte de Camões", de Domingos Sequeira.
Já no século XXI - creio - este "Milagre de Ourique" (em imagem) foi redescoberto, identificado e localizado no Museu Louis-Philippe, de Eu (Normandia). Teria pertencido (dote?) a  Isabel de Orleans e Bragança (1911-2003), neta do imperador Pedro II do Brasil, que casou, em 1931, com Henrique, conde de Paris, pretendente ao trono de França.

Ajuda, Xavier!


Não será bem uma PPP, mas o pequenino secretário Xavier, não o grande Santo da Índia, sabe-a toda...talvez por ser da Cultura, a sua pastazinha. Aprendeu, pelo menos, a armadilhar o Futuro.
Pagou um pequenino sinal, e o porvir que pague o grosso da factura. E como o futuro a deus pertence, não há, assim, nada a temer.
Ora atente-se, através dos sublinhados que fiz no Diário da República, na desproporção das prestações.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Uma fotografia, de vez em quando (53)


Pioneira das fotojornalistas, a norte-americana Toni Frissel (1907-1988) aprendeu a profissão, muito cedo, através dos ensinamentos do irmão. Colaboradora freelancer da Vogue, da Look e de outras revistas de Moda, notabilizou-se, também, pelas inúmeras fotos que tirou durante a II Grande Guerra.
A segunda fotografia, abaixo, é de 1951 e foi captada em Londres, na Victoria Station. O retrato de Winston Churchill é um dos últimos do grande estadista britânico, e foi tirado no início dos anos 60 .


Para o primeiro dia...

O primeiro dia do ano de 2015 amanheceu luminoso e muito frio, mas também cheio de silêncio, pelas ruas desertas de Lisboa. A luz é tanta que o rio mal se vê, e a Outra Banda parece ter uma existência fictícia, apenas pressentida, e de memória...
Os alemães tem um ditado que refere: "Aller Anfang ist schwer" (Todo o começo é difícil) - pois seja. Daí estas improvisações de Haim Shapira sobre Bach que, parecendo ligeiras, não deixam de ser bonitas. E alegres, para se começar o ano de 2015.

Adagiário CCX : Janeiro (9)


1. Ao luar de Janeiro, se conta dinheiro.
2. A 20 de Janeiro, S. Sebastião primeiro.
3. Em Janeiro nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro.
4. Por S. Vicente (22), alça a mão da semente.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

De John Donne, as palavras eternas


Considerado o maior poeta inglês, dos chamados "metafísicos", John Donne (1573?-1631) é sobretudo conhecido pelo que muitos julgam ser um poema, que começa assim: "No man is an island..." Clérigo, de exercício, essas suas palavras, no entanto, são apenas o terceiro parágrafo (em prosa) da chamada Meditation XVII. Já no século XX, foram glosadas por Hemingway, em título de livro famoso - For whom the bell tolls.
Respeitando a tradição, aqui tentamos uma versão livre, em verso português, das suas perenes palavras:

Nenhum homem é ilha,
inteiro em si mesmo.
Cada um faz parte do continente,
pequena parte de um todo.
Se um pouco da terra for banhada pelo mar,
a Europa não o será menos.
Como tudo aquilo que é teu
será também do teu amigo.
A morte de um único homem
diminui-me, porque estou ligado
a toda a humanidade.
Por isso, não mandes perguntar
por quem o sino dobra,
que ele, também, dobra por ti.