sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Jean-Roger Caussimon (1918-1985)

A todo tempo, em geminação com MR, no seu Prosimetron.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Desabafo (17)


Fui quase sempre comedido nos meus desejos. Talvez por isso o meu animal doméstico de estimação foi o canário - cabia-me em casa, sem grandes complicações.
Mas sempre achei graça aos burros; o seu tamanho, porém, é que nunca me permitiu tê-los ao pé...

De E. M. Cioran, em jeito de balanço


Cristalizei algures entre a poesia e a prosa, sem poder optar por uma ou por outra; dos poetas, tenho o ritmo, dos prosadores, a insistência. Creio bem que não fui feito para a palavra.

E. M. Cioran (1911-1995), in Cahiers / 1957-1972 (pgs. 209/10).

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Miscelânea bibliográfica e poético-canora


Quando, em Dezembro de 1963, a Portugália fez sair, na sua prestigiada colecção Poetas de Hoje, os Poemas de Edmundo de Bettencourt (1889-1973), o poeta madeirense não seria conhecido de muitos leitores portugueses. O seu nome, um pouco a exemplo recente de Bob Dylan, era mais reconhecido como cantor, nesse particular, de fados de Coimbra. As Saudades de Coimbra, de sua autoria, e Samaritana eram gravações de êxitos que lhe estavam associados.
Mas o elogioso prefácio (Relance sobre a poesia de Edmundo de Bettencourt), de Herberto Helder, com um apologético apoio e explicação dos singulares Poemas Surdos, contribuiram para que o livro fosse procurado e se esgotasse. A insularidade de ambos os poetas talvez explique esta aproximação, à partida, pouco provável.


Afora poesias avulsas, esparsas e intermédias publicadas em revistas, Edmundo de Bettencourt fora colaborador (e, depois dissidente, com Torga e Branquinho da Fonseca) da revista Presença e publicara apenas e sob a  chancela deste movimento, 33 anos antes, um único livro de poemas intitulado O Momento e a Legenda (1930). O meu exemplar, adquirido não há muito tempo num alfarrabista de Lisboa, fora dedicado a Mário Coutinho (1899?-1984) e incluia, solto, também um poema passado à máquina, assinado, que teria sido publicado na Revista de Portugal, segundo indicação manuscrita de Edmundo de Bettencourt.


Não ficaria de bem comigo se não juntasse, a este poste, uma das gravações, antigas, do poeta-cantor de Coimbra, pese embora a deficiente gravação do fado conimbricense que, para mim, é um dos mais bonitos que conheço. Talvez valha a pena informar que o fado "Samaritana", em causa, no período do Estado Novo, era proibido, pelo tema provavelmente beliscar a moral católica. Pude, no entanto, ouvi-lo, na República Baco, clandestinamente e entre amigos, no início dos anos 60, em Coimbra. E aqui fica ele, pela voz de Edmundo de Bettencourt. Que era também poeta. Como o Bob Dylan.



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Karl Jenkins : da "Cantata em Memória" do desastre de Aberfan (Gales)

Excertos de um diálogo


Simone de Beauvoir - Era essa, precisamente, a pergunta que lhe queria colocar: porque prefere os jovens? Há gente que detesta os jovens, Koestler era um, e Merleau-Ponty também não os apreciava muito. Você, pelo contrário, é-lhes favorável. Porque é que lhe agrada estar com eles?
Jean-Paul Sartre - Porque sobre um grande número de coisas, eles não têm o seu pensamento, a sua vida, completamente definidos; por isso discutimos como duas pessoas que têm vagas opiniões e tentam conciliar os seus pontos de vista; enquanto com os velhos é muito diferente. Têm opiniões definitivas, e eu também; ...

in La cérémonie des adieux (Paris: Gallimard, 1981).

domingo, 13 de novembro de 2016

Um poema de Gérard de Nerval, traduzido por Jorge de Sena


A Prima


Tem seus prazeres o Inverno; e ao domingo, às vezes.
se o sol pousa na neve dos jardins burgueses,
a gente sai com a prima a passear...
- E não se esqueçam lá da hora do jantar -

- é o que a mãe diz. E quando nós já vimos todos
os vestidos em flor passando entre o arvoredo,
a menina tem frio... e lembra com bons modos
como a névoa da tarde vem chegando cedo.

Voltamos para casa recordando o dia
que tão rápido foi... e que tão pouco ardia...
E do fundo da escada cheira-se esfomeado
o perfume, lá em cima, do peru assado.


in Poesia de 26 Séculos (Inova, 1972)

Do rifoneiro castelhano (7)



Ni barbero mudo ni cantor sesudo.

(Nem barbeiro mudo nem cantor sisudo.)

sábado, 12 de novembro de 2016

A par e passo 178


Um livro tem valor a meus olhos pelo número e pela novidade de questões que levanta, anima ou reanima no meu pensamento. As obras que impõem ou postulam a passividade do leitor não são do meu agrado. Eu espero das minhas leituras que elas me provoquem observações, reflexões, daquelas paragens súbitas que suspendem o olhar, iluminam perspectivas e despertam a nossa curiosidade profunda, os interesses particulares das nossas investigações pessoais e o sentimento imediato da nossa presença de estarmos vivos.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 269).


Nota pessoal: terminámos, hoje e por aqui, as transcrições e traduções de excertos, que temos vindo a fazer, desta obra de Paul Valéry. Bem como, pelo menos, esta fase da rubrica "A par e passo".

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen (1934-2016)


Sete anos de pastor Jacob servia...


Ao dar contas, vêm chegando os números:
quase 9.000 postes, ultrapassados os 300.000 visitantes, nestes 7 anos que hoje o Arpose celebra.
Veremos o futuro, agradecendo a quem nos vai visitando!

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ravel / Grimaud


Pinacoteca Pessoal 118


A meio caminho entre a Renascença e o Barroco, quanto à expressão pictórica, o artista flamengo Jan Gossart (1478-1532), também conhecido por Jan Mabuse (da sua terra natal), deixou-nos uma obra pessoalíssima de ressonâncias difíceis de classificar. Do Auto-retrato (1515-20) que faz lembrar Dürer, aliás seu contemporâneo, até ao singular Neptuno e Anfitrite, de 1516, passando por Danae (1527) fecundada pela pródiga poalha divina de Zeus, o seu exercício criativo marca um percurso charneira muito singular nos primórdios da melhor pintura do século XVI.

Nota: Jan Gossart está representado na Fundação Medeiros e Almeida (Lisboa) por um quadro intitulado "Cristo coroado de espinhos".



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Do cancioneiro tradicional espanhol (5)


A desconversa e o absurdo não são único apanágio da poesia oriunda dos altos expoentes culturais (Prévert, O'Neill, Ionesco, surrealismo...). Ora atente-se nestas 2 quadras traduzidas do Cancioneiro tradicional Castelhano, em apoio do que disse:

1.
Chega-te a essa vergonha
cara de pouca janela,
e dá-me um copo de sede
que venho morto por água.

2.
Um cão caiu a um poço,
outro cão o tirou dele,
só para dar a entender
que os sonhos sonhos são.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Divagações 118


Li algures, mas não há muito tempo, que as relações dos vivos com os seus mortos estão sujeitas a variações. Sou levado a crer, pela minha própria experiência, que a afirmação tem o seu quê de verdadeiro.
Por outro lado, há muito que não tinha o gosto de ler dois livros seguidos, e em sequência, que tanto me agradassem. Acabei de ler A Biblioteca à Noite, de Alberto Manguel, e encetei, da Guerra e Paz, "Jorge de Sena / Eugénio de Andrade - Correspondência..." (2016) , situando-me, de momento, na página 52. O agrado é talvez ainda maior, que o do livro anterior, na leitura desta troca de correspondência entre dois bons amigos.
Por mero acaso, fui, hoje, dar ao blogue de J. Rentes de Carvalho (Tempo Contado), em que ele faz uma apreciação sucinta sobre este mesmo livro que acabou de ler. Rematando assim: "A vaidade de Eugénio de Andrade enfastia."
Muito francamente, pelo menos até à página 51 não dei por nada.

Domenico Scarlatti (1685-1757)


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A queda do anjo


Um desastrado turista brasileiro, em busca de um melhor ângulo fotográfico, no MNAA, ontem, ao recuar fez cair uma preciosa escultura do séc. XVIII, representando S. Miguel. Sendo de madeira, policromada, embora bastante danificada pode vir a ser recuperada, mediante um restauro competente.
Assisti a uma situação parecida, era criança, no Museu Soares dos Reis (Porto), pelos anos cinquenta do século passado. Um rapaz turbulento e buliçoso, em correria desenfreada, deitou abaixo, partindo, o braço direito de Ismael, da bela escultura de  Augusto Santo (1868-1907). Felizmente, era a cópia de gesso...
Na altura, ficaram com o nome dos pais da criança, que não sei se vieram a pagar o restauro. Seria moralizador e um bom exemplo, que o adulto brasuca viesse a pagar o estrago que causou, para aprender a saber andar pelos museus, com mais atenção...


Obras capitais


Poderia ser fumo, nuvens de fumo de alguma queimada de Outono, mas não é. É poeira de cimento pulverizado de um enorme prédio que vai sendo descascado por dentro, para manter apenas a embalagem arquitectónica por fora. Meia Lisboa se remexe, revolve e envolve nestas poeiras de ruas e prédios vetustos que vão ganhando novos contornos, ainda que, nalguns casos, apenas interiores.
E como o movimento é, normalmente, fonte de prazer, o melhor é assistir com bonomia a estas movimentações da Capital.

domingo, 6 de novembro de 2016

Exposição Retrospectiva (1971-2016)


Na Galeria do Torreão Nascente da Cordoaria (Lisboa), inaugura na próxima Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016, às 19h00, a exposição retrospectiva, Corpo a Corpo com a Pintura, da obra de Pedro Chorão (1945).

Para celebrar a reaparição de Robert Zimmerman


Bibliofilia 148


Durante mais de dois séculos, The Encyclopaedia Britannica foi uma espécie de Wikipedia do mundo letrado. É certo que com uma triagem de verbetes muito mais exigente e com a colaboração de especialistas nas matérias, acima de qualquer dúvida ou suspeita. Era obra séria, em suma, e credível.
Para se ter uma ideia da sua importância e popularidade, bastará dizer que, da sua 9º edição (1875-88), se venderam cerca de 250.000 conjuntos completos dos seus volumes.
Editada pela primeira vez em 1768(-71), em Edimburgo, era composta por 3 tomos. A minha edição é a décima quarta, de 1929(-33), e conta 24 volumes. Comprei-a na última década do século XX, usada naturalmente, por vinte mil escudos. E tem-me sido útil, apesar de datada no tempo.
Creio que a mais recente edição de The Encyclopaedia Britannica é de 2007, mas foi anunciado pelo seu editor, em 2012, que a impressão em papel ia deixar de ser impressa. Percebe-se inteiramente e porquê...

sábado, 5 de novembro de 2016

Do que fui lendo por aí... (2)


A pergunta "O que é a arte?" é um tipo de cliché muitas vezes referido sem esperança de uma resposta, e que na maioria dos casos seria preferível nem sequer ser perguntado de todo. Esta edição do TLS centraliza-se na contribuição de artistas diversos que vão do reconhecidamente moderno J. M. W. Turner, John Piper e Pauline Boty, até ao pré-moderno Jan Gossart e aos anónimos artistas da América Central (...) O tema fez-se actual por causa de uma pergunta com  ele relacionada, que se pôs, "O que é a literatura?", a propósito do ingresso de Bob Dylan no panteão dos vencedores do Nobel. Daniel Karlin fornece uma firme contribuição, nestas páginas, para o caso: "o elemento que falta na forma como avaliamos um artista como Dylan não é tanto o facto de ele cantar as suas criações, mas o facto de estas exibições terem sido preservadas e se terem orientado, através do tempo, como de textos literários se tratassem" (...) E o prémio (tão arbitrário; tão inexplicável) ter falhado canonicamente tantos grandes escritores. Será importante que Bob Dylan, com a sua voz de falsete e os seus clamorosos insucessos dos anos 80, tenha atingido as alturas que foram negadas a Vladimir Nabokov ou a Marcel Proust? (...)

Stig Abell, no editorial do TLS (nº 5925).

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Impromptu (29)


para ms e japs, reflexamente.

Recomendado : sessenta e quatro


Com curadoria de Margarida Elias (1970) e integrada na Molda 2016, das Caldas da Rainha, inaugurou recentemente, no Museu da Cerâmica da mesma cidade, uma mostra de temática zoomórfica sobre cerâmica caldense, seleccionada da colecção de João Maria Ferreira (1932). Até 4 de Dezembro de 2016, esta exposição, muito bem organizada e documentada, merece ser visitada.

Wim Mertens : "Earmarked"


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Citações CCCII


Quanto a ser General, já na idade de quatro anos com chapéus de papel e espadas de madeira todos somos Generais. Somente que muitos de nós nunca conseguem crescer para além isso.

Peter Ustinov (1921-2004), in Romanoff and Juliet (1956).

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Osmose 85


O Outono tem destas fraquezas, mescladas de melancolia amarelecida a tender para o silêncio...
A infância é muitas vezes um universo reconstruído, em que parte das personagens se vão afeiçoando à nossa imaginação posterior. Há, por isso, se querermos ser sinceros ou exactos, de usar de algum pudor. Podemos, embora, ter gasto ternura e afecto, com razão bastante, justificadamente, por figuras que se nos colaram à memória; mas são muito raros os vilões que ainda aparecem na fotografia, e surgem apenas para dar credibilidade ou constituir o necessário contraditório da veracidade das histórias que vamos recontando a nós mesmos, no íntimo aposento da melancolia outonal.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A propósito de uma encadernação, bonita


As encadernações são, com frequência, caras, e só muito raramente eu mandei encadernar livros. A última vez que o terei feito foi há mais de 15 anos. Justificava-se, porque a obra estava desencadernada e, não sendo muito valiosa, era um pouco rara. Mas também aprecio uma encadernação bem feita, e tenho algumas, bonitas, compradas usadas, em alfarrabistas.
É o caso da que aparece em imagem e que tem o ex-libris do  seu primitivo possuidor, o advogado Francisco de Mascarenhas Gentil (1906-1948).


Uma familiar, Isabel Maria Gentil (1912-1979), firmou também a sua posse manuscrita, em 1937, na folha de rosto desta obra menor de G. B. Chesterton (1874-1936), L'Auberge Volante (1936), em versão francesa. Não sendo uma edição preciosa, este romance deve ter agradado aos seus possuidores para o terem mandado encadernar em tão boas condições. E foi pelo esmero da apresentação que me tentou a compra do bonito volume.

Nota: julgo que o casal, referido acima, foram os pais de Helena Mª Vaz da Silva (1939-2002).

Grieg / Stella

Adagiário CCLXII : Novembro (7)


1. Pelos Santos (1), semeia trigo e colhe cardos.
2. Novembro pelos Santos, neve nos campos.
3. Se o Inverno não erra o caminho, tê-lo-ei pelo S. Martinho (11).
4. No dia de S. Martinho, vai à adega, abatoca e prova do teu vinho.