quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ritmos


Julgo que qualquer pessoa é capaz, ao vê-los evoluir, de distinguir a diferença entre um mau dançador e um bom bailarino. Leveza, elegância, entre outros aspectos, os separam. Mas também o ritmo.
Muitos de nós terão assistido a desgarradas. E admirado a capacidade e rapidez de resposta apropriada que os cantadores evidenciam, com maior ou menor imaginação. São os repentistas.
Na arte da poesia, também os há. O encadeamento dos versos e a justa medida saem-lhes naturalmente e com enorme facilidade. Estou-me a lembrar de António Botto ou de Pedro Homem de Melo. Os seus versos abrem-se escandidos e certos, na perfeição. Outro tanto não acontece, quase nunca, com os poemas de Jorge de Sena. Ou, se quisermos ir mais atrás, com a "frauta ruda" de Sá de Miranda. De forma não aprofundada, eu diria que há um ritmo natural e um ritmo trabalhado.
Como se, num caso, o bater do coração conduzisse à medida certa, e, na outra circunstância, houvesse uma original arritmia que só pela razão pudesse vir a ser corrigida, depois, nos versos.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A par e passo 164


Saí de minha casa para espairecer através da marcha e dos olhares variados que ela traz consigo. Quando avançava pela rua onde moro, fui subitamente possuído por um ritmo que se impunha a mim próprio, e que me provocava a impressão de um funcionamento estranho. Como se alguém se servisse da minha máquina de viver. Um outro ritmo veio então acrescentar-se ao primeiro e combinar-se com ele; e aí se estabeleceram não sei que tipo de relações transversais entre estas duas leis (tento explicar-me o melhor que posso). Este combinava o movimento das minhas pernas andantes com não sei que canto que eu ia murmurando ou, antes, que se murmurava por meio de mim. Esta composição tornou-se mais e mais complicada, e ultrapassou em breve na sua complexidade tudo aquilo que eu poderia, racionalmente, produzir segundo as minhas faculdades rítmicas normais e úteis. Então, a sensação de estranheza, de que falei, tornou-se penosa, quase inquietante.
Eu não sou músico; ignoro inteiramente a técnica musical; e eis que eu estava em vias de um desenvolvimento em várias partes, de uma complicação que mesmo um poeta tem dificuldade em imaginar. Dizia-me que deveria ter havido um erro na pessoa escolhida, que esta graça se enganara no ser, porque eu nada poderia fazer desse dom - que, num músico, teria o seu valor próprio, forma e duração, enquanto que estas partes, que se misturavam e delineavam, me ofereciam, inadequadamente, uma produção cuja sequência sábia e organizada me maravilhava, mas desesperava também a minha ignorância.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 139/40).


Nota: na minha leitura, este texto de Valéry tenta tornar consciente e compreensível o fenómeno da criação poética. Nas suas duas formas, de algum modo, inconscientes: do ritmo e também das palavras nascentes.

Catrin Finch : "Solstice"


terça-feira, 12 de abril de 2016

Osmose 82

                                                                                                                                     para a Fernanda 


As palavras entalam-se entre a boca e o coração, sem solução à vista. Todas são pequenas e todas são excessivas para definir esse buraco negro que é a morte. Que é sempre dos outros, porque o silêncio eterno e definitivo nunca permitirá que falemos da nossa.
Os poetas mais dotados serão talvez capazes de a imaginar e antecipar em versos densos, mas indecisos, provavelmente errados, não na rima, mas na conclusão. O silêncio tem sempre pouco a dizer, mesmo que cheio de memórias, que se apagam.
Porque continuaremos a comer, a adormecer, talvez com mais insónias, por entre os pesadelos, a sorrir, talvez com menos vontade, a amar pequenas coisas, na sucessão dos dias. A viver, finalmente, embora com menos verdade - porque chamam por nós, não sei de onde. Talvez da terra.
Mas ninguém regressa, nem se reencontra mais. Por isso são frustes os sinais de afecto entre os sobreviventes: um beijo, um abraço apertado, uma carícia terna. E todas as palavras são inúteis. 

Abrantino, pequeno, mas arranjadinho


Em abono da verdade, eu teria de dizer que, entre mim e os habitantes da cidade, houve alguns equívocos locais. Quando eu saía da igreja degradada, no centro da cidade, uma senhora fulva, que parecia celta, e de cabelos inflamados pelo vento, perguntou-me, sardenta: "Sabe se o Padre está lá dentro?!" Eu respondi, intimidado, e confuso: "Não sou de cá. Só vi 6 mulheres a entoar o Pai-Nosso..." Pouco depois, no Largo a seguir, uma nativa de óculos, interpelou-me, concisa: "Por onde é que eu posso ir à Brancolina?". Envergonhado, voltei a repetir: "Desculpe, mas não sou de cá..."
No fundo, foi uma espécie de paga, porque para chegar ao Museu (afinal, inserido numa bonita igreja do Castelo de Abrantes) foi preciso perguntar a 4 abrantinos a direcção do dito. Dois não sabiam, o terceiro tinha apenas uma vaga ideia; só o quarto me foi útil e preciso, na informação... Lá subi penosamente até à fortaleza e fui dar ao Parque Radical, para crianças, nessa altura deserto das ditas. À esquerda, porém, havia mais escadas que, embora íngremes e de degraus mais altos, eu galguei, esperançado pela recompensa museológica. Depois da sala dos Governadores, lá a tive, finalmente.
A igreja de Sta. Maria do Castelo foi o panteão dos primeiros marqueses de Abrantes. Os túmulos iniciais, sumptuosos, do séc. XV, têm traça gótica a exemplo dos da Batalha. O último, mais discreto, é renascentista. Na igreja se constituiu, em 1921, o museu da cidade. Pequeno, mas cuidado, com algumas imagens em pedra de Ançã, paramentos religiosos e uma vitrine numismática, com moedas que vão da época romana até ao século XIX. Saindo e subindo mais um pouco, vale a pena desfrutar o horizonte magnífico e amplo, do alto do castelo.
Depois, desci. Num dos largos da cidade calhou assistir a uma cerimónia evocativa do Dia do Combatente, lembrando a batalha de La Lys. Tive direito a ouvir o Hino Nacional, o toque a silêncio e o toque de alvorada, executado pelo corneteiro militar. Como se diz, desde as invasões napoleónicas: "Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"...

Adagiário CCXLIX


Uma raposa adormecida conta galinhas nos seus sonhos.

(Provérbio russo.)

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Leonard Cohen : "Boogie Street"

Das singularidades da toponímia


Há poucas horas, o Arpose recebeu uma visita oriunda da Toscânia (Itália), mais concretamente de um lugar que dá pelo nome de: Impruneta. Fiquei a pensar, porque achei o nome muito curioso.
Terras há, cujos nomes desencadeiam desencontradas sensações, não só de ordem cultural, mas também por impressões fonéticas e pelo arrevezado da toponímia que, às vezes, até tem lógica local. Da primeira ordem, eu destacaria, por exemplo, Trieste e Veneza.
Destas recentes vadiagens por terras portuguesas interiores, anotei algumas referências toponímicas, como o Rio Diz, na região da Guarda. O Centro Oeste parece-me, no entanto mais rico. Refira-se, por exemplo: Papagovas, A-da-Gorda ou Toxofal de Baixo. A praia da Areia Branca tem, normalmente, um nome claro e consensual, mas hoje pareceu-me muitíssimo contraditório. Com a força bruta das marés vivas, a areia estava claramente negra...

A tentação da máxima mínima


A arte pode ser uma actividade egoísta, sobretudo para quem a pratica, em relação aos mais próximos. Mas, para quem a vem a usufruir, depois, pode muito bem ser um partilha solidária, uma herança gratuita. E é por aí que se dá o equilíbrio, a reposição ou, melhor, a absolvição do pecado original.

domingo, 10 de abril de 2016

Estado do mar


Carregado, borrascoso e com carneirinhos agressivos ao longe. Mas que não chegam às Berlengas, envoltas num halo vago de penumbra.
O vento estende uma toalha branca de espuma até à praia. Em planos altos de cinco vagas rítmicas constantes. Nem os surfistas se servem...

Nota: a foto não é do dia de hoje.

Em contraponto divagante, moral e coscuvilheiro


Não será frequente, mas também não é surpreendente, encontrarmos subitamente uma sumidade da capital a refeiçoar, tranquilo, o pequeno almoço, em buffet, num pequeno mas cómodo e bem situado hotel de província. Esta gente vem para dar cor às manifestações culturais das pequenas cidades do interior: o lançamento de um livro, um colóquio sobre um escritor local, uma celebração... E, como "santos da porta não fazem milagres", estas personalidades das grandes cidades são convidadas pela edilidade regional para abrilhantar e atrair mais gente aos acontecimentos. Não é coisa nova: foi assim que eu conheci e ouvi Gaspar Simões, Óscar Lopes, Cochofel, no início dos anos 60, pela primeira vez. Convidados que tinham sido pela Associação Académica de Coimbra. E a urbe universitária, até pelo seu espírito conservador, era, na altura, uma mera cidade de província (provavelmente, ainda hoje será). Estes colóquios, devo notar, não dispensavam a gravata aos conferencistas...
Ontem, sábado, matinalmente, surpreendi-me ao ver, em traje muito desportivo, uma destas celebridades da capital a tomar o seu abundante pequeno almoço, que bisou, num hotel da Beira Interior. Figura de proa de quanto é jornal e revista literária, o homem colabora em tudo o que seja Cultura (não sei é onde arranja tempo). Despenteado, de ténis, pareceu-me inicialmente vestir um pijama. Firmei melhor a vista e acabei por concluir que usava um fato de treino. Nem tudo se perdeu, de compostura, felizmente!...

sábado, 9 de abril de 2016

Philip Glass / Allen Ginsberg

As virtudes da Província


Ora eu que nem sabia da saída, quase um ano depois, deste voluminho precioso de cartas de Eugénio de Andrade para Jorge de Sena!... Foi preciso ir ao Fundão, entrar no posto de Turismo da cidade, para HMJ dar por ele e mo apontar. Fiquei pasmado, como é que os jornais literários, as revistas da especialidade e quejandos o ignoraram, sem dele dar notícia, ostensivamente. Será que não era importante, no meio de tanta ninharia que é editada e recenseada?
Culpo também as Câmaras de Gondomar, Fundão e Santo Tirso, que em parceria publicaram o livrinho, em 2015, de não lhe darem a divulgação que merecia. Só por isso valeria a pena termos ido à Cova da Beira. A província tem destas virtudes escondidas, que é preciso descobrir, fora dos holofotes parolos das grandes urbes e das montras exibicionistas das correntes dominantes. Organizado por António Oliveira, com o precioso contributo de Dario Gonçalves, o livro foi-me de extremo proveito e grande prazer de leitura.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Fundamente


Pouco, ou quase nada se passa nestas terras interiores. O andar é comedido, o falar, tranquilo, pelas ruas parece nunca haver pressa de chegar, para que o tempo não sobre em demasia. Por aqui andaram o arquitecto Raúl C. Ramalho (1914-2002) e o poeta Eugénio de Andrade (1923-2005), nas suas juventudes inquietas; e deixaram obra: um, em pedra, outro, em palavras que ainda se podem ler. Mas a, hoje, cidade seria, na altura, estreita para os seus sonhos desmedidos. Talvez por isso, o primeiro rumou a Sul e o segundo, a Norte, para horizontes mais largos e propícios.
À entrada, fomos recebidos pelas cerejeiras já floridas. Nupcialmente - como diria o Eugénio. No horizonte e nos píncaros mais altos, a pedra recobria-se, nas covas, de puríssima neve residual e esparsa - predominava a brancura. Mas no edifício, projectado por Raúl Ramalho, era o cinzento granítico que pontificava, por contraste. Que me pareceu a ameaça de um  destino exíguo e futuro, para sempre. Salvem-se as cerejeiras primaveris na sua ânsia eterna de florir.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Só para marcar o ponto...


É evidente que Vasco Fernandes (1475-1542) domina a cena, com o seu monumental S. Pedro, em Viseu. E tenho que destacar uma magnífica marinha de mar bravo, pintada por António Carneiro (1872-1930). Mas o acervo de Columbano (1857-1929) não é de desprezar, no Museu Grão Vasco. Do atelier (em imagem) aos estudos para as pinturas do Parlamento, mais o excelente retrato de Ramalho Ortigão. E ainda umas 4 tabuínhas, com paisagens de Bruges (?), que me ficaram na retina...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

"Não corras para o mar, Tâmega, tanto..."


Para quem vem de Lisboa, Chaves é um sossego inesperado. Mesmo que se venha em busca de um "Compromisso (...) da Misericórdia", de 1516, que poucos sabiam existir. Existe, realmente, e embora lhe falte uma gravura, encontra-se em razoável estado de conservação. Passados 500 anos.
Ocorreu-me o início do soneto de Jazente (1719-1789), para título do poste, ao saber das quatro pontes sobre o Tâmega, em Chaves, pese embora, por aqui, ele passar pachorrento, como o vi, hoje. Talvez por Amarante e nos tempos do Abade poeta, o rio fosse mais lançado e jovem. Mas cruzam-se assim os diversos tempos, desde a ponte romana até à que nos anos 50, do século passado, foi construída para as gentes de Aquae Flaviae. Como se cruzam no largo equilibrado e simpático, que terá sido Forum romano, os maneirismos tímidos com a renascença clara, mesmo quando absorve uns restos quase apagados do que foi uma igreja românica.
O núcleo museológico é que deixa muito a desejar. Já de si diminuto, ainda se divide por três  pólos distintos, embora próximos: arqueológico, arte sacra e militar, na torre que foi de menagem do primeiro duque de Bragança, D. Afonso. Tirando a parte castreja, o resto é prontamente esquecível, pela banalidade das peças. Valeu-me para memória futura a Vénus de Vidago, tosca escultura insólita, mas pessoalíssima, de algum ignorado artista de outras eras. Destaque para a sua pétrea gravidez, com uma posição de pés, impossível, que o escultor, na sua primitiva liberdade de criação, assim projectou para lhe melhorar a base de sustentação...


Memória (108) : Hermínia Silva (1907-1993)

Segunda melhor classificada no poste anterior, por volta de 1945...

Curiosidades 55


Lembro-me bem que, aqui há uns anos, das artistas de cinema a nível mundial, a mais bem paga era Julia Roberts. Há dias, tive oportunidade de ler e ver os salários mensais mais altos das artistas portuguesas, em meados da década de 40, do século passado. Aqui deixo a lista das 7+  para cotejo e por curiosidade:

-  Madalena Sotto........ 15.000$00.
-  Hermínia Silva...........  7.500$00.
- Mirita Casimiro..........  7.000$00.
- Irene Isidro................  5.000$00.
- Palmira Bastos...........  5.000$00.
- Brunilde Júdice..........  4.500$00.
- Lucília Simões...........  4.500$00.

E, hoje, como será?

terça-feira, 5 de abril de 2016

As palavras do dia (21)


"As off-shores são o cano roto do capitalismo."

Jerónimo de Sousa à Sic-Notícias (5/4/16).


P.S. 1: o cidadão comum terá tendência, depois da revelação dos Panama Papers, para pensar que o mundo está a ser governado por um bando de gatunos.
P.S. 2: vamos a ver quantos dos impolutos cidadãos portugueses, arautos da moralidade a todo o transe, estarão nas listas dos Panama Papers...
P.S. 3: todas estas notícias serão óptimas para a venda de periódicos e para a abertura dos telejornais. Mas serão péssimas para a saúde da Democracia. 

Arquiepiscopal e minhota


D. José de Bragança (1703-1756), irmão de D. João V, e que tomou posse como Arcebispo de Braga, em 1741, pouco depois de assumir funções, incompatibilizou-se com o cabido bracarense. Deixou a cidade e dirigiu-se a Guimarães, onde foi recebido apoteoticamente pelos vimaranenses, que o acolheram muito bem e com orgulho. Primeiro aboletou-se no palacete do fidalgo Tadeu Camões, próximo da Igreja da Misericórdia e, mais tarde, mandou construir a nobre casa que hoje é chamada dos Coutos. Por lá estadiou cerca de dois anos e deixou boas recordações, além do "Guimarães agradecido", antologia em 2 volumes de poesias frustes e medíocres, que o fidalgo Tadeu Camões fez editar, reconhecidamente grato, através do Colégio dos Nobres, em Coimbra.
O palacete do fidalgo vimaranense foi sede e palco de reuniões da "Academia Vimaranense", durante o séc. XVIII, a exemplo da Arcádia Lusitana e de tantas outras agremiações poéticas, que proliferaram por esse Portugal fora, no século das Luzes. 
Relha e velha era já, porém, a rivalidade entre Braga e Guimarães que, na primeira metade do século XX, tomou proporções meramente futebolísticas, na sua forma mais popular de oposição regionalista. De Braga, se dizia em Guimarães, nos anos 50, que vivia dos rendimentos e da cumplicidade com o Poder que se instalara, após o 28 de Maio de 1926, bem como dos favores da Igreja. Porque Guimarães era a cidade laica e trabalhadora: os curtumes, a cutelaria, os têxteis, o calçado... Enquanto Braga só muito tarde acordou para a indústria, com a fábrica da Grundig, que começou a dar emprego qualificado a muitos bracarenses. Até lá, era só comércio e sacristias...  
Andei ontem por Braga, e vi-a de outro modo, já sem os preconceitos regionalistas, que a idade e maturidade me foi fazendo perder. E o que mais me surpreendeu, para além do uso comum do granito, foi a natureza monumental da sua arquitectura, acachapada à terra, mas sólida e impressiva. Mas Guimarães não deixa de ter, na sua laicidade natural e orgulhosa, a elegância aérea de alguns monumentos e edifícios, que falta a Braga, de todo. Nem tudo se perdeu na minha memória das duas cidades minhotas.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O comer vimaranense


À saída, o sr. Florêncio, que obstruía a porta, olhando o horizonte em busca de uma aberta azul sobre a chuva contínua, quando deu por nós, desculpou-se numa frase que eu já não ouvia, há séculos, em toda a sua propriedade e esplendor: "Desculpem-me!, que eu não dei fé..." E, graciosamente discreto, afastou-se, deixando-nos sair para a rua.
Trazíamos, de nossa conta, 6 maviosos e macios pastéis de bacalhau, broa e rosca vimaranenses, uns filetes de pescada com arroz de feijão vermelho que HMJ não chegou a acabar; pela minha parte, matei saudades da língua estufada com as competentes ervilhas, batatas e um arroz branco boníssimo. Só do Minho não foi o Diálogo duriense de 2014, tinto Nieeport. Tudo a preceito.
É bom que se diga que o sr. Florêncio levou grande parte da sua vida, que já vai em oitenta e picos, a construir a excelência do seu Restaurante. Com sucesso. É um must de Guimarães, e fica a cerca de um quilómetro do Castelo, na rua da Senhora da Madre Deus, a caminho de S. Torcato. Assim abençoado de pergaminhos e toponímia...

Revivalismo Ligeiro CXXVIII


com agradecimentos a ms.

Citações CCLXXXIII


Uma minoria pode ter razão; uma maioria está quase sempre errada.

Henrik Ibsen (1828-1906), in Um Inimigo do Povo.

domingo, 3 de abril de 2016

Retro (83)


Exactamente centenário, este postal, sob o ponto de vista de propaganda, era um desafio a que Portugal entrasse na I G. G. contra a Alemanha, ao lado da Grã-Bretanha. Demorámos 1 ano... Mas com consequências desastrosas.

Osmose 61


Abril é sempre um tempo duvidoso. Mas neste pequeno país, há sempre diferenças que se notam.
Não me recordo de Sol a Norte, nesse casulo cinzento em que a meninice se fechava, e que ia de Novembro a meados de Março. E, de Maio, ainda me estão presentes as contínuas trovoadas. Como a luz eléctrica, quase sempre acesa, mas a piscar, no interior dos quartos, salas e corredores.
Daí ter aceite como bálsamo raro, a luz de Lisboa, mesmo de alguns Invernos mais pluviosos e sombrios, em que até o basalto me parecia mais claro, fazendo-me esquecer, sem saudade visível, o tripartido granito, escorrendo água, continuamente, de casa para casa, igreja a igreja, coroadas por nesgas raras, onde o azul mal ameaçava a breve alegria no olhar.
As aguarelas de infância serão, porventura, traiçoeiras e inexactas na memória, mas não deixam de ser um estado de espírito, recomposto pela vida.

sábado, 2 de abril de 2016

Estado das armas


Por infausto acontecimento acompanhei, ontem, um amigo à sua última morada. O funeral teve honras militares. Não refiro a Arma que desempenhou o ritual, por pudor e respeito para com a vergonha dos profissionais da dita. Que dispararam as salvas com metralhadoras G3, em posição tiro a tiro.
A meu lado seguia alguém que, depois, vim a saber que era um pouco mais novo do que eu, mas que também manuseara as Mauser e as G3. Eu adicionara, à experiência dele, o uso das Uzi (israelistas) e da pistola Walther, de que gostava, particularmente, pelo seu traçado elegante.
As três salvas de despedida e homenagem, à entrada do cemitério, foram disparadas por 5 militares, com G3. Da primeira salva, não dei por nada. Mas na segunda salva, apercebi-me que apenas responderam 2 das G3. Na terceira e última salva, só 1 G3 disparou. As restantes quatro tinham encravado...
Eu e o meu colega do lado, pela solenidade do acto, entreolhámo-nos apenas, e sorrimos, ligeiramente compungidos.

Buena Vista Social Club


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Visionário


A ser verdade, e com mais de 40 anos de antecedência, este homem era (é) um profeta...


agradecimentos a C. S..

Inédito


Ao que parece, os media portugueses ainda não se deram conta, mas o jornal Le Monde, de 25/3/2016, noticia que terá sido descoberto, numa velha casa de Neuilly, próximo de Paris, um manuscrito inédito de Eça de Queiroz (1845-1900), composto por cerca de 200 páginas, nunca publicadas, do escritor português. Será que finalmente apareceu o mítico esboço, muito falado, de "A Batalha do Caia"? Oxalá!

P. S.: em nome da verdade, aqui fica exarado, posteriormente, que esta foi a partida ou mentira de 1 de Abril de 2016.

Adagiário CCXLVIII : Abril (7)


1. A aveia até Abril está dormir.
2. Tarde acordou quem em Abril podou.
3. Vinho de Abril é gentil.
4. Dia de S. Francisco (2), semeia o teu milho mourisco.