quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ideias fixas 52


Há duas formas extremas de terminar a leitura de um livro. Ou ler as últimas páginas muito devagarinho, porque estamos a gostar e queremos que dure esse prazer, ou apressar o ritmo de leitura, por já estarmos fartos do livro. A situação normal e mais frequente é conservarmos a velocidade natural com que iniciámos a obra. Há ainda uma quarta via, que não tem final: o abandonarmos o livro a meio e para sempre, sem o acabar de ler.
É por aqui - medindo o ritmo - que, em caso de dúvida, eu me apercebo, de forma cabal, se aderi e gostei do que li, ou não. Porque, às vezes, subsistem dúvidas e só mais tarde chegaremos a uma conclusão definitiva sobre o gosto e utilidade da leitura ou a pura perda de tempo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Bach / Koopman

Um CD por mês (4)


Quando eu era criança pensava que o Órgão era o instrumento musical mais próximo da voz de Deus.
O seu troar, no interior das igrejas, infundia-me, simultaneamente, prazer e respeito. Posteriormente vim a travar conhecimento com a música de Bach e Buxtehude.
Em Agosto ou Setembro de 1963, comprei em Bona (Alemanha), dois singles com Fugas de Bach, da Telefunken, interpretadas por Anton Nowakowski (1897-1969) e gravadas num órgão de uma igreja da Dinamarca. Ouvi estas gravações dezenas e dezenas de vezes, sempre com muito gosto.


Só mais tarde vim a escutar execuções de Albert Schweitzer e, pelo início dos anos 80, as magníficas interpretações do holandês Ton Koopman (1944). Talvez tenha ouvido, pelo caminho, também Karl Richter. Mas é de Koopman, meu preferido organista, hoje em dia, a gravação do Archiv Produktion que adquiri por volta de 1986 e cuja capa de CD abre, em imagem, este poste.


As obras musicais de Bach, incluídas neste CD, supõe-se que terão sido escritas por volta de 1720.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

História e diplomacia


Tenho vindo a ler ( a princípio, imaginei que fosse fastidiosa...), com crescente curiosidade e interesse, a correspondência diplomática de J. F. Borges de Castro (1825-1887), representante português na corte de Turim, endereçada para as Necessidades, durante os anos sessenta do século XIX. Esta correspondência diplomática, publicada, termina em 4/10/1870. É uma época crucial para a mini-Itália recém criada, que ainda não tinha englobado o Veneto (pertença ainda do império austro-húngaro) nem os territórios pontifícios de Pio IX. Mas já Garibaldi e os seus guerrilheiros ameaçavam estes últimos.
A correspondência foi coligida e seleccionada por Eduardo Brazão (1907-1987), para a revista Biblos (vol. XXXVIII, 1962), com cuidadosa inteligência. E ocupa 534 páginas da publicação da FLUC.
É também por esta altura (1862) que se começa a tratar do casamento de Maria Pia, filha de Vitor Emanuel II (1814-1878), com o nosso rei D. Luís. E a Itália, apesar de muitíssimo endividada (como hoje, aliás...), ainda ajusta um dote de valor considerável para a nossa futura rainha. Procurando insistentemente o apoio da Prússia e de Bismarck, para equilibrar a defesa aguerrida que Napoleão III, da França, faz do Papa e seus territórios, Vitor Emanuel II desenvolve, cumulativamente, uma rede de contactos com a Rússia e a Inglaterra.
Os relatórios e correspondência de Borges de Castro são de uma meridiana clareza, em todos os aspectos, definindo até as individualidades italianas que deveriam ser agraciadas com comendas portuguesas, por altura do casório régio (dantes como agora, muitas...). E ainda mais umas quantas, quando, 2 anos depois, os reis portugueses vão a Itália mostrar ao avô Emanuel, o seu neto Carlos de Bragança, nosso futuro rei.
Mas o que mais me surpreendeu, foi o retrato que Borges de Castro traça de Garibaldi (1807-1882). Um autêntico antecessor de Che Guevara e já incómodo, na sua irrequietude belicosa, para os políticos conservadores italianos. Um pouco como depois Guevara terá sido, algo incómodo, para Fidel... A história repete-se, com algumas semelhanças, nos comportamentos humanos.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Policialmente falando


Já tive mais paciência para ver uma série policial na televisão, mas às vezes reincido.
Por outro lado já li o que havia para ler de S. S. van Dine, e não era muito. E de Conan Doyle. Os Maigret, de Simenon, também já foram todos. Estes são para mim os escritores de primeira água. Quanto à segunda divisão, classifico Stanley Gardner, Ellery Queen, Rex Stout e Agatha Christie.
Desta última Senhora, nunca consegui suportar a voz adamada e os tiques afectados da representação estereotipada de David Suchet, nas séries televisivas. Em cinema, creio que o melhor Poirot ainda foi Albert Finney.
Mas ontem, por mero acaso, na Fox Crime, deparei-me com John Malkovich na figura do detective belga. Sempre achei este actor de segunda ou terceira categoria e não me merece grande entusiasmo. E a série é uma adaptação em três episódios do romance The A. B. C.  Murders, de Agatha Christie, que foi traduzido para a colecção Vampiro, portuguesa, sob o número 167, com o título Os crimes do ABC.


A representação dos actores é banal, Malkovich incluído, que compõe um razoável Poirot, sem tiques de maior e alguma sobriedade. A re-criação televisiva alterou algumas coisas da trama original do romance policial. Nesta versão, o inspector Japp, da Scotland Yard, já morreu, após breve reforma. Neste primeiro episódio, pelo menos, o capitão Hastings, fiel amigo e companheiro de Hercule Poirot (qual alter ego do dr. Watson), também não apareceu.
Mas nota-se a marca e o dedo miraculoso da roteirista Sarah Phelps, que permite boas expectativas.
Por isso, no próximo domingo não vou perder, às 22h00 na Fox Crime, o segundo episódio da série.

domingo, 4 de agosto de 2019

A casa que foi de Malhoa, a Picoas


Uma filigrana, quase perdida entre algumas torres feias de betão, a casa, hoje, cuja planta foi encomendada pelo pintor José Malhoa (1855-1933) ao arquitecto Norte Júnior (1878-1962), teve o prémio Valmor em 1905. Foi adquirida em 1932, pelo oftalmologista Anastácio Gonçalves (1855-1965) que haveria de ter como seus pacientes da vista Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, bem como Calouste Gulbenkian que também gostava de ver as preciosidades que o médico tinha em casa. Como o quadrinho de Delacroix que Anastácio Gonçalves tinha pousado sobre a sua secretária, representando um cavalo.


Por testamento a casa, já na posse do Estado português, veio a abrir ao público em 1980. Em anos recentes, foi objecto de remodelação que finalizou este ano de 2019, pelo mês de Abril. E eu, que de há muito a queria ver, fui a meio da semana visitar a Casa-Museu Anastácio Gonçalves, finalmente. Interessava-me sobretudo ver pintura, que o pequeno museu possui ainda significativos acervos de porcelana chinesa, mobiliário e ourivesaria.
Como seria natural vi telas de Malhoa, mas a obra de Silva Porto pareceu-me mais representada. Lá está também o célebre "Convite à Valsa" de Columbano e uma delicada aguarela de D. Carlos,  "Praia de Cascais", que me deixou encantado.


Discreto e mal iluminado, no patamar intermédio das escadas que dão para o primeiro andar, há um grande quadro, "Narciso" que, atribuído timidamente a Courbet, não dão por garantido...
Nota dissonante e incompreensível, uma grande parte das telas, que talvez estejam um pouco mal arrumadas pelas paredes, não tinham qualquer identificação dos pintores, nem dos títulos.
Não sei como se terá havido um família chinesa que, paralelamente, me acompanhou na visita à Casa-Museu Anastácio Gonçalves. Nem se percebe que o IMC e o Ministério da Cultura não corrijam esta incongruência ou desleixo continuado.
Por isso, não lhe posso dar nota máxima...

Para acordar o Domingo

sábado, 3 de agosto de 2019

Recomendado : oitenta e um


Não sendo fruto de historiadores consagrados, alguns artigos do último número de L'Obs (nº 2856) propõem-nos, ao menos, uma temática original. Abordando a importância decisiva do ano de 1519, na história da Humanidade. E em que se fala, também, de Portugal. Os textos não chegam para contrariar a sólida argumentação do historiador inglês Arnold Toynbee (1889-1975), mas, que diabo!, estamos a atravessar a silly season e, por isso, há que ter complacência mesmo com opiniões ligeiras. E leituras despretenciosas.
Venho, assim, chamar a atenção para este número recente da revista francesa.



p. s.: a imagem superior representa, parcialmente, o portulano de Jorge Reinel.

Citações CDXII


Uma dificuldade para a Inglaterra é sempre uma oportunidade para a Irlanda.

Daniel O'Connell (1775-1847), in Tribune (19/1/1846).

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Filosofia de bolso


Terei que ficar grato aos 26 visitantes que, ontem, frequentaram o Arpose ou lamentar os 87 que faltaram para completar os 113, da média habitual mais recente?
E terão ido à praia, ao campo ou para o estrangeiro? Ou ter-se-ão cansado, desgostados com o humor insólito de 3 postes mais acerbos que lancei, ultimamente?
Talvez estejam ocupados a fazer as malas e sem tempo para minudências internáuticas.
Por isso, boas férias aos ausentes. E que tenham uma silly season à sua medida.

Do que fui lendo por aí... 30


Em 2018, Alberto Manguel (1948) foi agraciado com o Prémio Gutenberg. Recentemente saído, o Gutenberg-Jahrbuch de 2019 transcreve o discurso de aceitação do escritor argentino em que ele refere, naturalmente, Jorge Luis Borges, mas também Franz Kafka e a Bíblia. Despertaram-me a atenção algumas considerações que Manguel tece a propósito de leituras, de que vou transcrever um pequeno extracto que me pareceu curioso e mais significativo. Segue:

O ofício da leitura é misterioso. Ninguém sabe (certamente nem os próprios leitores) como é que as palavras da página, captadas pelo olhar, se transformam em experiência, reflexão, memória e, algumas vezes, até em novas criações. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Giovanni Battista Viotti (1755-1824)

Das ferramentas


Do clip publicitário de Scream and Scream again (1969):

Os dentes são de uma vital importância no equipamento de um actor de cinema. Eu tenho em casa cerca de 30 escovas de dentes e conservo sempre um bom suprimento delas em estúdio.

Peter Cushing (1913-1994).

Adagiário CCXCIX


Bem sabe a burra diante de quem zurra.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Comic Relief (150)


Casaquinho

A ursa polar fez uma promessa à filha: se tirasse boas notas, oferecia-lhe um casaquinho de pele de menina para as noites mais frescas de verão.

Caçador de Estrelas

Há meses que o miúdo tentava, em vão, alvejar estrelas com uma pressão-de-ar.
Preparava-se para desistir quando, após um novo tiro pouco convicto, uma estrela cadente riscou o céu.

Pedro Monteiro (1969), in Galáxia de Berlindes (2012).

terça-feira, 30 de julho de 2019

Desabafo (47)


Já sabemos como o Google é popularucho. Mas, ao menos, podia ter o sentido das proporções.
Por motivos futuros e objectivos, quis ter uma perspectiva visual da obra do pintor caldense José Malhoa (1855-1933). Usei, assim, o motor de busca. Resultado: por cada quadro que vi do Pintor, tive que suportar, bem à vontade, cerca de 10 fotos de um cantor pimba nacional, que usa o mesmo nome...
Irra!

Pinacoteca Pessoal 153


Nascido a 5 de Março de 1938, em Montpellier, a obra do pintor francês Vincent Bioulès, sobretudo a partir de 1970, por um seu lado, que eu chamaria camaleónico, tem o condão de me parecer convocar outros nomes de pintores do passado, numa assimilação actualizada de técnicas e estilos, alheios. Vêm-me à ideia, ao ver as suas telas singulares e aparentemente ingénuas, os nomes de Seurat, Dufy e até mesmo Chirico. E fico-me por aqui, para não parecer excessivo e injusto...


Em 1970, Bioulès abandonou definitivamente a abstracção, iniciando uma nova fase de arte figurativa e, em conjunto com um grupo de artistas, fundou o grupo Support/Surfaces. Em 1982, integrou a Escola de Belas Artes de Nîmes como professor.
A sua obra desdobra-se sobretudo em motivos paisagísticos e retratos. Mas a arquitectura também aflora algumas das suas telas como fonte inspiradora.


E é por aqui que me lembro de Chirico...


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Os Opa Tsupa



Ultimamente tem-me dado para uma certa deriva musical, uma terceira margem do rio, como cunhou em título feliz de um conto o grande Guimarães Rosa (1908-1967).
Os Opa Tsupa são um quinteto de cordas, radicado em França e que esteve activo, pelo menos, entre 2000 e 2015. Apontam-lhes inúmeras referências, desde o swing até um certo revivalismo cigano.
Ao que parece, as suas aparições eram rodeadas de um certo ambiente burlesco e de bom humor, que eu, no entanto, só vejo nas fotografias que capeiam os seus vídeos no Youtube.
Deixo por aqui e de amostra uma valsa, Mamma Mia, de que gostei, particularmente.

Mudanças


Verifico, com grande surpresa, que terei lido o primeiro livro de E. M. Cioran (1911-1995) em 1966,  pela marca de posse e data manuscrita, mas não consigo lembrar-me como cheguei até ele. Creio que comprei Précis de Décomposition (1949), na 111, ao Campo Grande. Emparelhado com Camões, o ensaísta franco-romeno viria a servir-me de epígrafe (La joie n'est pas un sentiment poétique) no meu primeiro livro, em 1984. Não sei se por bonomia ou malvadez, os franceses apelidavam-no de filósofo de rua. Seja como for desde longe que Cioran me continua a acompanhar...
Ainda que muitas vezes por oposição ou para me forçar ao contraditório pelo seu excessivo pessimismo ou provocatório niilismo. Não me deixa nunca indiferente e é sempre estimulante a sua leitura. Mais agora, ainda, que um fastio pela ficção se me instalou, de há uns anos a esta parte, e a história, a poesia e o ensaio são meus únicos territórios de gosto e prazer. Assim, resolvi passar até de uma segunda fila, escondida, os livros de Cioran para a primeira linha para os ter à vista e mais à mão.
Sacrifiquei a exemplar e amena ficção de Maurice Genevoix (1890-1980), de que ainda gosto, para a retaguarda da estante, e dei o lugar ao pensador romeno. Uma mudança que ele merecia, aliás.

domingo, 28 de julho de 2019

Revivalismo Ligeiro CCXXXVI

Bibliofilia 178


Nos meus tempos de frequentador assíduo de leilões de livros, ficou-me a lembrança de algumas figuras características, nas suas preferências apaixonadas, da singularidade de alguns comportamentos humanos, no aceso das almoedas. Se uns licitadores eram discretos, outros mostravam a sua exuberância ruidosa, outros ainda o seu mau feitio e birras. Quanto a temáticas, havia um discretíssimo licenciado em Farmácia que se abalançava, tenso, a livros quinhentistas, um general na reserva que não perdia uma camoniana, um industrial corticeiro que comprava muito e diverso, um alfarrabista sorumbático que não perdia nunca um lote de livro raro que começasse a licitar...
Quanto a camilianistas, lisboetas, nunca dei por nenhum muito importante, mas havia os que vinham do Norte, quando o leilão era significativo, como este da Soares & Mendonça, que foi organizado pelo alfarrabista portuense Manuel Ferreira. E que tem um gostoso prefácio do bibliófilo e grande jornalista Raul Rêgo (1913-2002), que aqui deixo em partilha, pela sua qualidade intrínseca.


Não faltavam nesta riquíssima almoeda de Fevereiro de 1968, as muito raras edições originais camilianas de A Infanta Capellista (1872) ou do célebre folheto Matricidio sem Exemplo..., (capa em imagem, abaixo) que terão feito porventura as alegrias dos afortunado arrematadores.
Não tive oportunidade de assistir a este importante leilão, porque me encontrava, em Mafra, a cumprir o serviço militar, mas vim a adquirir, mais tarde, o catálogo desta almoeda da Soares & Mendonça, por 9 euros, no meu alfarrabista de referência - em boa hora.

para MR, obviamente, e com estima.

sábado, 27 de julho de 2019

Meteorologias


Manhã orvalhada, de presságios tristes para quem escolheu Agosto como seu tempo livre.
Saio para a rua, ridículo, em camisa e de guarda-chuva preventivo, irmanado com outros avisados transeuntes matutinos. A menos que haja um milagre, lá se me vão as leituras na varanda a leste...
Desasado, até a bica no Café me sabe a Outubro.

Citações CDXI


Entre o bom senso e o bom gosto há a diferença entre a causa e o seu efeito.

Jean de la Bruyère (1645-1696).

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Moszkowski / Bolet

arte menor (29)


Insónia


Acordado a desoras, não sei bem
como ocupar o tempo
que me sobra.
Eram para ser minutos sossegados
de um silêncio adormecido
no vazio, mas não foram.

Ocupo-me de pequenas coisas inúteis,
tento não fazer barulho,
nem acordar a morte
a quem estes minutos pertenciam.


Sb., 16/6/2019.


para A. de A. M., fraternalmente.



quinta-feira, 25 de julho de 2019

Mauriac


O título desta obra de François Mauriac (1885-1970) serviu-me muitas vezes para classificar, sucinto, figuras excessivamente dogmáticas, com alguma ironia; e, outras, para apelidar comportamentos demasiado puritanos. Quarta-feira passada, porém, na nossa habitual tertúlia cordial da semana, o livro veio à mesa na voz de H. N., que o recomeçara a reler, por mero acaso, no meio de uma entediante função de vigilância, rural, de que a família o tinha investido, por rigoroso e sabedor.
O romance de Mauriac logo se lhe impusera pela qualidade narrativa, sobretudo em cotejo com o que vai aparecendo por aí... Vieram-me à memória, por associação, os densos ambientes das minhas leituras passadas dos livros do romancista católico e francês, mas também a obra de Graham Greene (1904-1991) que tinha a mesma confissão religiosa, mas cenários geográficos mais alargados de configuração romanesca. Creio que não é apenas, por cronologia, mas Mauriac está mais esquecido.
Injustamente, creio. Se o inglês Graham Greene, pelos vários continentes, instala no Homem um inato pecado original ou sentimento de culpa que ele carrega inexoravelmente, talvez sem lhe saber a causa, Mauriac é sobre a Mulher que se debruça, quase sempre. Provinciana e prepotente, dominadora e malsã. Manipuladora de famílias e sentimentos num perímetro que se situa, com frequência, em redor de Bordéus. Como se essa geografia trouxesse consigo a raiz do Mal, como marca de um destino fatal.

para H. N., com as melhores lembranças.

Divagações 151


O supérfluo pode ser o que os norte-americanos chamam: a pain in the ass, com propriedade.
Mas os redundantes com frequência nem se apercebem da sua incontinência ou dos seus despropósitos, que nada acrescentam ao que foi essencial. A auto-crítica não faz parte do seu ADN.
A sra. Charlotte Johnson Wahl (1942), pintora inglesa, poderia ter-se limitado a pintar os seus quadrinhos e ficar na história apenas como mais uma artífice estimável.
Mas não quis ficar por aqui. Também teve 4 filhos. Um deles ainda mais incontinente do que ela. E como incontinente vai levar a cabo o Brexit, mesmo sem condições...
No entretanto, o Boris vai fazendo comentários e declarações - supérfluos, despropositados, redundantes. E nós a termos que ouvi-lo.


Livrinhos 26


O pequeno livro cujo título, de forma simples e doméstica, se poderia traduzir por "Dicionariozinho de Mitologia e de Cultura Clássica" foi editado em Florença, em finais dos anos quarenta. Com 168 páginas, tem as dimensões de 10,5 por 7,5 centímetros e, inicialmente, custava 5 liras. Em 30/3/1951, terá sido vendido por Esc. 10$00, em Portugal, ao sr. João Rodrigo Narciso Furtado, que nem chegou a abri-lo inteiramente. A obrinha teve como autor Enrico Bianchi, é ilustrada e foi impressa pelo editor italiano G. S. Sansoni, em reedição. A impressão original era de Outubro de 1917.




terça-feira, 23 de julho de 2019

Sentimentos



Tenho reparado que os cães aguentam até à última, ainda que com grandes peladas e escanzelados, mas também reconhecem os donos, na agonia. Homero, na Odisseia, deixou um bom exemplo desse facto. As pombas retiram-se para um canto, e ali ficam para morrer, já com muita falta de penas e sem dono.
Mas não deixa de ser comovente ver a matriarca do jardim zoológico de Amesterdão, Mamma (com 59 anos) recolhida a um canto também para acabar os seus dias, reconhecer o seu amigo, Jan van Hoof (de 81 anos), e expressar o seu afecto e grande alegria, pelo reencontro. Mamma morreu uma semana depois.

Curiosidades 75


Até 11 de Agosto de 2019, a Tate Gallery expõe a mostra Van Gogh and Britain.
O título da exposição poderá colher desprevenido quem não saiba que o pintor holandês passou em Londres dois anos da sua vida, de Maio de 1873 até 1875, antes de se dedicar à profissão por que é mais conhecido. Aí trabalhou na Goupil & Cie, firma de origem parisiense, que pertencia a um tio de Van Gogh (1853-1898) e que se situava muito próximo da Tate Gallery, instituição que Vincent visitava com frequência. A loja produzia e vendia gravuras e litografias de arte muito diversas.
Pelas cartas ao irmão Theo, e não só, se nota e destaca o gosto de Van Gogh por dois quadros que ele refere frequentemente. Um do pintor neerlandês Meindert Hobbema (1638-1709), The Avenue at Middeharnis, de 1689; o outro, do inglês John Everett Millais (1829-1890): Chill October (1870).
Ambos de paisagens, e que se reproduzem no início e final deste poste, para que constem.