sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Retro (95)


Um jornal diário tem, hoje, uma existência efémera - deita-se fora amanhã.
Mas, em tempos recuados e mais poupados, guardava-se e, com outros, vendia-se ao quilo, aos homens do papel e trapo velho, que os levavam, primeiro, em carroças, depois, em camionetas de caixa aberta. Também cheguei a ver peixes do rio serem vendidos embrulhados em papel de jornal.
Actualmente, só os hebdomadários, às vezes, se conservam em casa, para ir lendo ao longo da semana, quando são extensos. Não deixam, no entanto, de ser efémeros. 



Passada, porém, a actualidade do seu conteúdo informativo, um jornal pode vir a ganhar, com os anos, um valor histórico e arqueológico, ressurgindo como uma curiosidade interessante e sociológica, se a época em que foi produzido e composto vier a ter alguma importância no futuro ou se tiver sido recheada de acontecimentos importantes.
Há tempos, comprei usados uns livros que, muito bem dobrados, continham dentro dois jornais O Comércio do Porto (1854-2005), do imediato post-II Grande Guerra (27/10 e 27/11/1945). Do suicídio do presidente Getúlio Vargas (Brasil) ao julgamento de Nuremberga, havia notícias muito interessantes, colhidas a quente, na altura.



Havia até uma pequena local a informar que, na véspera, o sr. Presidente do Conselho (Salazar) tinha trabalhado com o sr. Ministro das Finanças. Aliás, era costume dar as notícias do estadista português sempre depois de terem acontecido. Nunca se dizia, por exemplo, que ele ia a tal sítio, mas que tinha ido, ou esteve. Justificando o seu trabalho aturado e, provavelmente, prevenindo a sua segurança. E foi assim que ele ganhou a alcunha de: Esteves...

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Previsões


Temas de que se vai ouvir falar e repisar, na comunicação social portuguesa, à falta de melhor assunto ou na ausência de imaginação por parte dos nossos jornalistas e comentadores, nas próximas duas semanas, e invariavelmente:

1. Coreia do Norte.
2. Catalunha.
3. Compra e venda de imobiliário em Lisboa.
4. Futebol, para não se perder o hábito.

Mas que tédio!...

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Em tempo


Não sendo eu grande apreciador de arte sacra ou pintura com motivos religiosos e hagiográficos, abro,  no entanto, algumas excepções. E não sou entusiasta destas temáticas, pela pouco originalidade que encerram e pelas encomendas pouco inspiradas de que foram objecto. Tal como aqueles versinhos provincianos comemorativos que se fazem e fizeram muito, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. Ora, dessas pinturas de motivos religiosos, normalmente medíocres, estão as nossas igrejas cheias. Para isso, prefiro os ex-votos que, na sua rudeza ingénua, têm, pelo menos, uma bruta autencidade original.
Não é o caso desta Nossa Senhora da Madressilva, que se guarda no Museu de Aveiro. Que me fascinou, nesse meio caminho entre o gótico e a Renascença, vinda de Itália (Oficina de Siena) e pintada que foi, a tábua, por volta de 1500. Terá sido comprada e trazida por D. Catarina da Silva (daí a invocação: Madressilva), quando por lá andou a acompanhar a futura imperatriz D. Leonor para casar com Frederico III. Mais tarde, D. Catarina veio a professar no Convento de Jesus, e a belíssima pintura veio com o dote da fidalga. Das obras que enriquecem o Museu de Sta. Joana, é uma das que eu não podia esquecer. Pela sua quase perfeição.
Aqui fica, em preito de homenagem e admiração estética.

Produtos Nacionais 23


Os frutos, inteiramente portugueses, eram de Sabrosa (Trás-os-Montes); o engenho e a arte foram de HMJ, pela sua transformação doméstica em uvada, ladrilhos de marmelo em calda e figos de compota. Ficou um resto para irmos petiscando, ao natural e em cru (excepto os marmelos...).
Faltaram os Covilhetes de Vila Real (já tinham ido todos...) e as Cristas de Galo vilarrealenses, recheadas a Toucinho do Céu, dentro de envólucros, que pareciam de massa tenra. E, esses, vieram, por oferta amiga, da Pastelaria Gomes, que eu recomendo, indubitavelmente. Se lá forem.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Modest Mussorgsky / Maya Plisetskaya : de "Khovanschina" (Dança das Escravas)


para MR, com as melhores lembranças.

Os capatazes dos jornalecos


Um director barbado de gauche, dissimulador, dum dos jornais portugueses de referência, que já atribuiu a Lobo Antunes um verso que era de Sá de Miranda, tem, como se poderá imaginar, uma memória muito curta. E não guarda, ao que parece, muito respeito ao PR piador e penúltimo. Há dias, até lhe desfechou uma frechada, para disfarçar. Mas tenta fazer-se esquecer de assessor, que foi, venerador e obrigado de tal criatura - deus lhe pague!
Hoje, afirma no seu couto privado: O futebol entra a pés juntos sobre a democracia - em palavras atiladas de virgem ofendida. Como se fosse a primeira vez que isto acontece... Será que, com aquele sorriso de yuppy serôdio, ele não se atirou, também, de mergulho, da prancha carunchosa do cavaquismo, para a piscina voluptuosa e mirífica das grandes superfícies tablóides? Porque, valha a verdade, o Público já foi outra coisa, em tempos mais limpos e remotos...

Com ambições de Máxima...


Talvez seja, racional e coerentemente, tão difícil explicar algumas opções, ao longo da nossa vida, como justificar, razoavelmente, a existência de Deus.

Sacro e profano (2)


Não seria decerto como nas igrejas da antiga Goa, em que os espaços para as diversas castas indianas eram estanques. Mas da casa senhorial, neste caso, havia um passadiço por onde as gentes do palacete acediam, ao alto, na capela. Criados e povo entravam pela porta da rua, chapeada, para ouvir missa. Quando lha abriam para o serviço divino.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sacro e profano (1)


Em três manchas rochosas acachapadas à terra, bem perto da Sabrosa vinhateira e do pequeno centro xistoso evocativo de Miguel Torga, marca terreno, em toda a sua rudeza, o chamado Santuário de Panóias. Pelas inscrições romanas e gregas se fica a saber ter sido mandado fazer, entre os séculos II e III D. C., pelo senador Gaius Calpurnius Rufinus. Para celebrar os Deuses Severos, que tinham em Serápis, o nome maior. As aberturas geométricas, nas rochas, destinavam-se à imolação dos animais, para aplacar a ira dos deuses. E por ali correu sangue de pacíficas vítimas, sacrificadas pelos humanos primitivos.
Eramos apenas 4 os visitantes, a calcorrear o terreno agreste. Que a horda dos turistas, na sua algazarra babélica e lumpen, se tinha ficado, felizmente, pela invasão desordenada de Aveiro e dos seus moliceiros, com passeios fluviais de 45 minutos, a 10 euros. E o silêncio sagrado abençoava Panóias. Também nas redondezas se tinham acabado de colher as uvas brancas: a Formosa, a Viosinho, a Fernão Pires, a Códega do Larinho... Mas as tintas, esperavam e espreitavam ainda, por entre as parras verdes, através do que pareciam os seus olhos de cachos negros: Tinta Roriz e Touriga Nacional, principalmente.
Também nós viríamos a sacrificar, à mesa, mais tarde, e em Vila Real, alguns nacos de vitela, civilizadamente. Acompanhados por um divino e aromático branco duriense da região, bem fresco. Em ágape solene, fraternalmente amiga, mas laica...

sábado, 9 de setembro de 2017

Reincidente, Tom Jones...

Citações CCCXXV


Ela não era uma mulher de muitas palavras; porque, ao contrário das gentes, em geral, procurava estimular-lhes, sobretudo, um grande número de ideias.

Jane Austen (1775-1817), in Sense and Sensibility.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pinacoteca Pessoal 128


Dele nos diz Manuel Telles da Silva, no seu Vida e Feitos de D. João II, que: "Foi de estatura um pouco elevada e de corpo delgado até à adolescência, mas depois obeso; o rosto comprido e formoso, entre o branco e o corado; os olhos negros e agradáveis, mas, quando se irava, raiavam-se de sangue e incutiam temor; o nariz de justa medida. Os cabelos eram densos e arruivados, e, embora tivessem embranquecido precocemente, não deixou arrancar as cãs."



Tiveram vida breve os dois filhos de D. Afonso V (1432-1481). Se D. João II (1455-1495) ultrapassou em pouco mais de 5 meses, os 40 anos, sua irmã mais velha, princesa Sta. Joana (1452-1490), finou-se com 38, em Aveiro. Da iconografia existente verifica-se uma parecença física notável. A boca, o rosto alongado e provavelmente a cor dos cabelos, para além dos olhos. Mas também a obstinação de carácter os irmanava. D. Joana na recusa em casar-se, D. João II na forma desapiedada e firme com que consolidou o seu poder pessoal e régio.
O retrato da Princesa, considerado da escola de Nuno Gonçalves, é um dos ex-libris do Museu de Aveiro, homónimo. Em Sevilha, na Fundação da Casa Ducal de Medinacelli, está o retrato de D. João II, cópia de um retrato perdido do Príncipe Perfeito, pintado talvez em 1490, de autor desconhecido.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Direito ao contraditório


em remake, e com agradecimentos ao autor.

Sem título

Há dias que não têm remate nem ponto.
Irresolutos, ficam a pairar. Talvez venham, quando muito, a solucionar-se de forma aberrante nos sonhos, ou numa nova ruga que nasce inesperada, no rosto castigado dos anos.
De forma inteira, nem sempre conseguimos explicar-nos aos outros. Nem obter um consenso amigo.
É da natureza humana a diferença. Esse estrebuchar que pode ser amor à vida. Ou para lembrar Sá de Miranda, na sua infinita sageza, entoar, humildemente:

Comigo me desavim,
sou posto em todo o perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
...

Ravel / Sokolov

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Preferências, povos e culturas


Não sei, francamente, se nos anos 60/70 portugueses chegou a haver uma acentuada divisão entre quem adorava Londres e quem idolatrava Paris. Naquela acentuada ferocidade entre sportinguistas e benfiquistas, que hoje existe. Como, hoje, a juventude se divide entre Berlim e Nova-Iorque, porque se esquece ou se envergonha do que é terrunho e nacional.
Embora haja uma devoção portuguesa, inquebrantável, pela cultura francesa, (muito superior à que existe em relação à inglesa) que já vem, pelo menos, desde o séc. XVIII aristocrático, de quando estive em Paris, não guardei grandes recordações dos franceses. Gostei, sim, do Louvre e das baguettes.
Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), PR da I República e homem político que tinha mundo e gosto, parece também ter preferido a capital inglesa, em detrimento de Paris. É o que se depreende destes 2 pequenos fragmentos, do seu Londres Maravilhosa:

Emquanto a «enfeitada» Paris - modelo de todas as mais marafonas modernas - só cuida de nos chegar aos lábios os bicos, ungidos de capitoso mel, das suas tetas sovadas, mas engrinaldadas, ...

Nos seus arrebiques, como nas suas arguciosas pesquisas, «Paris» tudo tende a espiritualizar e tudo por lá resulta matéria; em «Londres» a imensidão da matéria só pode ser sentida por espiritualizações delicadas. Toda a gente gosta de discretear a respeito de «Paris»; eu prefiro lembrar-me de «Londres». ...

Memória (117)


O Vouga, de quem Rúben A. dizia ser o rio mais tímido que há em Portugal, e o Douro, estão na mira de deambulações, esta semana. Mas se, para o primeiro, o objectivo há-de ser museológico, no segundo se irão provavelmente enquadrar aspectos mais prosaicos, como sejam as vindimas.
Delas, as recordações também a Norte, são muito longínquas. E de uma camioneta grande e de caixa aberta em que, com o meu amigo Fernando, rumámos às Taipas, para colher as uvas tintas de uma pequena quinta, que quase bordejava o Ave. Da sequência é que já não me lembro...
Mas, de tempos remotos, recordo a primeira e única vez em que pisei uvas, num enorme lagar vimaranense. Meu tio Jorge pontificava, soberano, e dando indicações. Ainda hoje, esse cheiro intenso a mosto me chega às narinas, vindo da infância, quando o chamo à memória.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Apontamento 106: A cor e a qualidade do jornalismo



Ontem, acompanhei, um pouco, a “jornada épica” do debate televisivo entre A. Merkel e M. Schulz, candidatos, respectivamente, da CDU (da direita) e do SPD (da Internacional Socialista) a um lugar de chanceler da Alemanha, nos próximos anos.

Procurando informar-me sobre o desenvolver da campanha eleitoral da Alemanha, com a devida distância, e a reflexão “intramuros”  sobre as autárquicas,  o estado da política e a consciência dos eleitores, não posso deixar de sublinhar que um debate, entre candidatos, de 90 MINUTOS, é um “assassinato por entusiasmo” !

Primeiro, porque os eleitores já não têm uma capacidade tão prolongada de concentração. Segundo, porque os jornalistas não pretendem, objectivamente, colocar-se ao serviço do bem comum da informação, o que impede que as pessoas estejam atentas com o objectivo de serem esclarecidas. A agenda dos jornalistas já não coincide com a essência da sua razão de ser, a saber, o seu mister de informar, esclarecer e contribuir para o bem comum. Foi, aliás, o que se viu, mais uma vez, ontem.

Sucede, no entanto, que os nossos jornalistas ainda são mais alinhados nesta “agenda” oculta da política. Enquanto nos vários jornais da Alemanha ainda se discutia quem tinha sido o vencedor da noite: MERKEL OU SCHULZ, por cá os jornais principais já tinham a “caixa” preparada. MERKEL GANHOU.

Ora, como a SENHORA MERKEL poderá ser a próxima “chefe ideológica” máxima do jornal para que trabalham os nossos jornalistas, convém posicionar-se cedo. 

Felizmente, e por enquanto, ainda entendo outra língua e outros jornais de referência. 

Post de HMJ

Pascal Comelade e Enric Casasses

Desfaçatez


Há a modéstia da inteligência, mas também o ornear dos cromos. A discrição dos sábios, no seu silêncio dourado, e os gargantas do império que, mesmo depois de asneiras sucessivas, continuam a ser uns fala-barato, incontinentes e despudorados.
O povo tem, para isto, um ditado caridoso: Quem não sabe, ensina.

Da leitura (23)


Menos equilibrado e coerente do que Danúbio, este Alfabetos (Quetzal, 2013), de Claudio Magris (1939), é de boa e agradável leitura, ajudado por uma tradução de Antonio Sabler, que me parece bem feita, no seu português corredio, limpo e claro. O livro é constituido por crónicas escritas para o Corriere della Sera, prefácios para livros de conhecidos e amigos, e intervenções públicas. Os últimos capítulos são uma espécie de exéquias saudosas e evocativas a alguns confrades, falecidos, do escritor triestino.
Se Danúbio é o itinerário físico e fluvial de memórias associadas ao rio, Alfabetos é mais um percurso espiritual sobre escritores da Mitteleuropa, em que se destacam Kafka, Canetti, Svevo, entre muitos outros. Onde também sobrenadam filamentos autobiográficos de convívios fraternos acontecidos, nesse caminhar que é a vida. A Itália não está excluída e, muito menos, Trieste, território matricial de Magris. E gostaria de chamar a atenção para o capítulo As mãos de Paulo VI, em que, com grande subtileza, se evocam dois olhares: o do Papa e o de Alberto Cavallari, seu interlocutor.
Eu creio que é necessário ser um grande escritor, para falar de vários assuntos e pessoas que mal conhecemos, e nos manter interessados e atentos, a nós leitores, da primeira à última página de um livro. É o menos que eu posso dizer desta obra de Claudio Magris.

domingo, 3 de setembro de 2017

Geometrias


Ao encaminhar-se, gradual mas persistentemente, do Crescente para Cheia, ao longo de sete dias, a Lua parece perseguir uma geometria perfeita. Ao olhar descuidado do homem primitivo, essa forma terá, provavelmente, originado o sentido mental da circunferência, nessas noites de escuridão absoluta e total. Como também, embora de forma nebulosa, a equidistância do centro. Quem sabe?, se da própria simetria.
Mas, depois, o novo caminho da Lua, ao longo de mais duas semanas, até à sua desaparição total (Lua Nova), poderá ter engendrado nesse nosso antepassado longínquo e primitivo, os rudimentos de uma noção de magia. Que o transcendia, de todo. Talvez tenha sido por aí que, na ausência de uma explicação empírica e linear, ele tenha sentido necessidade de criar a astrologia. E, numa fase mais avançada, imaginar a primeira crença. Depois, até à primeira religião, deve ter sido apenas um pequeno passo. Os rituais, é que vieram depois...

Especulação imobiliária e consequências


O penúltimo TLS (nº 5968/9), a propósito da recensão crítica ao livro Big Capital, de Anna Milton, referindo o pavoroso incêndio da Grenfell Tower de North Kensington (Londres), ocorrido a 14 de Junho de 2017, em que houve 79 vítimas, elenca a evolução da especulação imobiliária, na Grã-Bretanha, iniciada, com a política do Right to Buy, no consulado de Margareth Thatcher, em finais dos anos 70. Lembrei-me, por associação, da legislação sobre o imobiliário e rendas, que a ministra Assunção Cristas fez aprovar em anos bem recentes...
A colaboradora, do TLS, Katherine Hibbert, ao recensear o livro referido acima, exemplifica, de forma linear, mas expressiva, o deprimente espectáculo de uma cidade (Londres) em que: os bimilionários vão expulsando os milionários das suas casas, os quais, por sua vez vão comprando as casas dos ricos que, por seu lado, vão ocupando as casas dos pobres, remodelando-as. Até que, finalmente, os pobres, já sem casa na cidade, vão habitar a periferia e os subúrbios, em habitações de bairros sociais ou enormes torres de deficiente construção, com grandes vulnerabilidades de segurança...
Em Lisboa (e no Porto?), esta especulação sucessiva do imobiliário já se vai notando. Não virão a ser os mesmos os perigos e o futuro em Portugal?

Palavras mágicas


As expressões Shazam e  Abracadabra perderam, há muito, a sua força encantatória. Agora, são as workshops, as startups e quejandos, que fazem sonhar. Para alguns, ditas estas palavras, logo eles entram em transe hipnótico de felicidade tecnológica e alumbramentos de alma.
Graças aos economistas, aos comentadores espúrios, aos CEO, aos informáticos mono-aculturados e a alguma juventude pária, o linguajar português transformou-se, pouco a pouco, numa incaracterística manta de retalhos, talvez semelhante à "linguagem meada de ervilhaca" de que falava Camões, na sua carta da Índia.
Penso até que não devíamos perder mais tempo com a CPLP, por causa do A. O.. Melhor seria encetarmos negociações, pragmaticamente e desde já, com a administração norte-americana. E criarmos, cheia de futuro, uma nova sub-língua, neste rectangular espaço europeu à beira-mar plantado. 

sábado, 2 de setembro de 2017

Da Janela do Aposento 66: O Mundo do Espectáculo



Mesmo distante deste frenesim do “Regresso às Aulas”, não consigo evitar uma sensação de repulsa íntima pelo desenfreado consumismo que tomou conta da educação. Ano após anos, lá estão as escolas a fazer listas de uma material de uso corrente, alimentando uma ideia nociva e colaborando com este mundo aparvalhado.
Quem olhar com alguma seriedade, já não falo de estética, para o “vasto mundo, ó, Raimundo”, das mochilas, com “moçoilas” todos os anos renovadas, pergunta, afinal, o que resta para o espaço da educação.
Ao que parece, e pela imagem acima, até já as Gramáticas não escapam a este universo de afectos.
Posta em sossego, dou-me por feliz de poder centrar-me neste lugar do silêncio e da dedicação a assuntos úteis e sérios. 

Post de HMJ

Uma fotografia, de vez em quando... (92)


É óbvio que, à excepção de uma parte dos grandes fotógrafos ainda vivos (Sebastião Salgado, por exemplo) ou dos casos de vocação estética de comprovada qualidade, depois das polaróides, quase toda a gente comum fotografa a cores. Dizia e bem, Derek Jarman (1942-1994) que O uso do preto e branco anula, de algum modo, o lado decorativo e intensifica a concentração. Eu acrescentaria que não perdoa nem o amadorismo, nem a vulgaridade, que se tornam mais evidentes e notórios. Para lá dos temas formatados e habituais.



Não será o caso da espanhola Cristina García Rodero (1949) que, maioritariamente, se desafia no contraste imperdoável e vital do preto e branco, sem atenuantes, abrindo apenas excepções para retratos régios (rainha Letizia, e pouco mais), de personagens que não abdicam destas fulgurações coloridas e banais, para um aplauso da geral, raramente criterioso e ainda menos fundamentado.



Privilegiando instantâneos do mundo rural, em muitas das suas fotografias se esboçam sinais discretos de um humor inocente, mas inteligente, sobre cenas tradicionais do seu país, evitando embora o traço vincado da caricatura crua e dura. Cristina Rodero integrou a Agência Magnum, em 2005, -  atestado seguro de que a qualidade da sua obra é reconhecida internacionalmente.

Uma questão de géneros...


com agradecimentos a ms.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Gide sobre Simenon


No seu Diário, a 13 de Janeiro de 1948, André Gide (1869-1951), após ter acabado a leitura de um romance de Georges Simenon (1903-1989), escreve as seguintes notas pessoais:

Acabado de ler Touriste de Bananas, um dos menos conseguidos de Simenon. É uma pena, porque ele desperdiça um tema surpreendente; por precipitação, e, poder-se-ia dizer: por impaciência. As personagens de Simenon têm muitas vezes um interesse psicológico e ético profundo; mas insuficientemente expresso, como se ele não se desse conta da sua importância; ou como se ele esperasse ser compreendido apenas por meias palavras. Mas também é por isso que ele me atrai e retém. Ele escreve para «o grande público», sabemos. Mas até os sofisticados e mais exigentes podem encontrar-lhe interesse desde que o tomem a sério. Porque ele faz reflectir e por pouco não atinge o melhor da arte; quão superior ele é em relação a esses romancistas maçudos que não nos provocam a graça de um pequeno comentário. Simenon expõe um facto particular, de interesse geral talvez. Mas defende-se de o generalizar: isso é um problema do leitor.

André Gide, in Journal 1939-1949 ( Bibliothèque de la Pléiade, 1955).

Revivalismo Ligeiro CCLXXI

Esquecidas as peripécias caprichosas da atribuição do Nobel e de menino mimado que se fez caro, na melhor esteira de uma Ópera bufa de terceira qualidade, será tempo de recordar Dylan, naquilo que ele tem de melhor: como um grande cantautor judeu e norte-americano, apesar da sua voz a cair da tripeça, que tem em Marceneiro um precursor luso e notável.

Adagiário CCLXVIII : Setembro (9)


1. Por S. Simão e S. Judas, colhidas são as uvas.
2. Em Setembro tem Deus a mesa posta.
3. Em Setembro, ramo curto, vindima longa.
4. Chuvas verdadeiras, em Setembro as primeiras.