sexta-feira, 20 de abril de 2012

Jean-Baptiste Lully (1632-1687)


Estatísticas (culturais e de turismo)


O jornal "O Comércio de Guimarães", na sua última edição, informa que no 1º trimestre de 2012, e com o início das actividades da Capital da Cultura - 2012, o turismo na cidade cresceu mais de 500%. Como se sabe, este Governo reduziu, bastante, os subsídios do compromisso orçamental que estava previsto, revelando, uma vez mais, a sua faceta de não ser "pessoa de bem", quanto a honrar a palavra dada.
Mas seria bom que o comissário Viegas, adstrito ao PM, pensasse neste aumento significativo do turismo cultural em Guimarães, e daí tirasse as devidas conclusões e consequências políticas. Só em países, mental e culturalmente, pobres se pode pensar que o investimento em Cultura não compensa...

Guimarães/ Cultura 2012/ Sugestões


Apesar da diminuição e decadência vimaranense no que diz respeito ao dinamismo industrial antigo (anos 50, 60), muitas das antigas fábricas foram adaptadas a equipamentos culturais com soluções inteligentes e esteticamente bem conseguidas. Assim, aqui vão sugestões de visitas (com suporte gastronómico de apoio) para um dia, em Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012:
1. a) deslocação a Covas (a 2 ou 3 Km. de Guimarães) às antigas instalações da fábrica têxtil Asa, transformadas em locais amplos de exposição. Até 20 de Maio, pode ver-se uma magnífica mostra da actividade de Nuno Portas, bem como uma perspectiva do que foi a arquitectura portuguesa na segunda metade do séc. XX. Saíndo, à direita, pode almoçar-se no Restaurante Sequeira. Bastante modesto, mas com cozinha tradicional, bem apaladada e honesta. E barato: prato do dia e vinho da casa, pode-se comer por cerca de 10,00 euros. Atendimento despretencioso e popular. A manhã pode ser, assim, bem aproveitada.
1. b) de tarde, visita ao Museu Alberto Sampaio e Largo da Oliveira. Descer ao Campo da Feira, que tem ao fundo a Igreja dos Santos Passos. Na antiga Fábrica de curtumes de António Martins Ribeiro da Silva, muito próxima da Igreja referida, ver uma exposição de design. O edifício fabril foi muito bem aproveitado. Finda a visita, revigorar forças, no Restaurante etc., com ementa variada e bem confecionada. Doses avantajadas, razoável carta de vinhos. Cerca de 15,00 euros, por pessoa. Comemos, lá, um rodovalho belíssimo, muito bem grelhado. Cuidado com as sobremesas, são enormes...

Citações XCVII : Virginia Woolf

"Eu sinto nos meus dedos o peso das palavras como pedras."
Virginia Woolf.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Zbigniew Preisner, ainda

Cioran sobre o Tempo




"Quanto menos penso na passagem do tempo, melhor me acomodo aos factos. A atenção ao deslizar dos instantes é em tudo um factor «ruinoso» para a saúde. Se se quer suportar a vida, é preciso «esquecer» o tempo."
E. M. Cioran, in "Cahiers 1957-1972" (Gallimard, 1997).

Aniversários : Prosimetron e Botero


O Arpose cumprimenta e felicita o Prosimetron, no seu 4º aniversário natalício. Com a ajuda de Fernando Botero (1932) que hoje completa 80 anos.
Longa vida!

Andarei por aqui...

...por isso, a actividade do Blogue será bissexta. Quanto à produtividade, e atendendo à crise, logo se verá, nos próximos dias...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Adagiário LXXXIX

"As saudades são filhas do amor e enteadas do engano."

Controverso


Homónima, a escritora francesa Virginie Despentes (1969) refere de Virginia Woolf (1882-1941) que ela teria afirmado que, provavelmente, não teria sido escritora se o pai não tivesse morrido quando a escritora inglesa tinha 22 anos. A esta morte, aliás, juntaram-se com curtos intervalos, fatidicamente, as mortes da mãe, da meia-irmã e do irmão. A escritora francesa escreve: "Le deuil, comme un privilège dont on jouit. Tirer plaisir, naître du deuil. (...) Les fantômes sont des amis proches." Creio que é possivel, teoricamente, mas nem sempre verdadeiro na realidade.
O que me deixa mais na dúvida, no entanto, é a seguinte afirmação de Virginie Desportes, que passo a traduzir: "Esquecemos menos facilmente os mortos do que os vivos."

Retro (11)

Ainda os há no Rossio, às vezes, mas já são muito poucos. Como as "manicures", nos barbeiros que, praticamente, já quase se extinguiram. Até nos barcos para Cacilhas havia engraxadores, já velhos, no entanto. Juntavam ao seu parco negócio a venda de lotarias, para ajudar ao sustento. E, para muita gente, era de bom tom engraxar no exterior, lendo o jornal, displicentemente. Alexandre O'Neill perpetuou-os em verso:

- O senhor engenheiro hoje não engraxa?
- Não. Engraxo na Baixa!

Allegro ma non troppo



Não merece, no meu entender, integrar a rubrica dos "Recomendado", nem mesmo a das "Mercearias Finas". Mas tem um rótulo maravilhoso de Pavia, desenho que eu já reproduzi aqui no Blogue. O vinho tem Touriga Nacional, Sirah e Alicante Bouschet, mas acho que tem a mais (9 meses de casco) sabor a resina ( ou aroma a "verniz"), para o meu gosto. Com os seus 14º alentejanos acompanha, mediocremente, um "Ensopado à Pastora" na sua singeleza natural. Já vai um pouco melhor com um queijo de ovelha, cujo sabor e travo a cardo seja ainda notório.
Este tinto alentejano, em favor de bónus da "Revista de Vinhos" de Abril de 2012, custa 6,00 euros. Acho muito. Ainda para mais, quando penso que Manuel Ribeiro de Pavia não vai, decerto nem os herdeiros, receber um tusto de direitos de autor. Ele, que morreu quase na miséria. Mas o seu desenho, no rótulo deste vinho, esta fresca e jovem ceifeira alentejana, são um espanto de alegria e de beleza, para sempre.

Uma louvável iniciativa (7)


Mais um pacotinho de açúcar da colecção de 30, que o Café Chave d'Ouro, em boa hora, resolveu dedicar à difusão de expressões populares ou frases idiomáticas da língua portuguesa. Desta vez esclarecendo o significado da expressão: "Dar um lamiré". Aqui fica, para que conste.

Sena e Carissimi


Giacomo Carissimi, italiano, nasceu a 18 de Abril de 1605 e veio a falecer em 1674.
Jorge de Sena cita-o abundantemente no último poema («Pot-Pourri» Final) de Arte de Música. Poema, esse, que é uma espécie de girândola final de amor à música. Há também indirectas alusões à emigração, que Sena viveu e sofreu, e que hoje está na ordem do dia, quer por conselhos dos nossos excelsos governantes, quer porque as possibilidades de viver em Portugal são difíceis para muitos jovens. É uma espécie de sangria como a que houve nos anos 60 portugueses. Num convite a que leiam o poema integral, aqui fica o início e final do remate de "Arte de Música":

Chegou e disse: - Caríssimo! -
Carissimus, carissimi, compositor de opereta
para violoncelo de igreja. Ergui
- oh - os olhos da persiana, e respondi:
- Cameta adinomata apropictéron -
Sorriu e, lentamente, começou a despir-se.
(...)
Addio! O "Mayflower" apita.
Ouvem-se as fanfarras do Novo Mundo (a sinfonia,
feita com temas do Velho). Vai, não percas
a passagem, as estribeiras, a cabeça:
as pradarias esperam-te.
Pasta nelas.
E, para mim mesmo, murmurei: Carissimi!...

29/2/62

terça-feira, 17 de abril de 2012

DIE WELT - um jornal alemão de incultura e desumanidade

Existem determinados pasquins na Alemanha que, desde cedo, fazia questão de não ler pelo seu nível "abaixo de cão", termo bem expressivo para um jornalismo abjecto. Por acaso, o jornal alemão DIE WELT sempre me passou ao lado, por razões que não vem ao caso. No entanto, há bem pouco tempo comecei a ver algumas notícias inseridas no referido jornal, de jornalismo duvidoso, que despertaram a atenção pela negativa. Longe estava de imaginar que a indigência jornalística chegasse a tanto. 
Eis o título do DIE WELT de 17.4.2012: "As pérolas de Espanha e Portugal são agora uma pechincha". Os fazedores desta enormidade são uns rapazolas, parece que até com prémios, chamados E. Eckert e H. Zschäpitz



A essência do artigo do DIE WELT estrutura-se com base numa eloquente citação do banqueiro Carl Meyer Rotschild, a saber: " Comprar, quando os canhões troam, vender quando tocam os violinos" (sic!) De facto, parece não haver melhor metáfora para caracterizar a desumanidade e incultura do mundo financeiro. Nem sequer poupam a música para a tentar subjugar, de forma abjecta, aos seus interesses mais baixos.
Ora, os dois fazedores de notícias em epígrafe ainda conseguem ultrapassar o mestre Rotschild na intenção do ataque, para não falar do seu domínio rudimentar da língua. Comparam o "troar dos canhões" ao "troar da dívida", sugerindo que o consequente pessimismo - grego, espanhol e português - representa um terreno fértil, a longo prazo, para comprar as tais "pérolas". 
Se dúvidas houvesse, ficamos a saber quem humilhou os "povos do Sul" em proveito próprio.
Recuso-me a traduzir mais pormenores da notícia pelo simples facto de não estar escrita num nível de língua que considero aceitável, inscrevendo-se, antes de mais, num analfabetismo funcional que desconhece, por completo, as regras fundamentais de pragmática de qualquer língua e na ausência de aquisição, em casa paterna, de regras mínimas de boa educação e respeito para com o próximo. 
De facto, a incultura e consequente desumanidade de certos "meninos do coro económico, financeiro e jornalístico", para além da revolta, fazem-me lembrar experiências tristes do passado a que a vontade individual, embora determinada, não conseguiu pôr cobro.
Quando o ensino secundário em Portugal ainda se dividia em quatro ramos - Ciências, Humanidades, Economia e Artes - sucedia, sem generalizar, que os meninos de Economia eram os mais amorfos e fracos, de estrutura e de vontades. Fugiam das Ciências por causa da Matemática (!), das Humanidades pela preguiça de ler e escrever e, das Artes, por falta de "jeito". Ora, esses "meninos do coro da Economia" também não sabiam escrever e como "soe dizer-se, tinham raiva a quem soubesse ou tentasse ensinar" o rudimentar que não traziam de casa.
De todos estes exemplos de fulanos medíocres que atentam contra a humanidade dos povos, na sua arrogância atrevida, fica-me, embora já de uma forma abstracta, uma tristeza profunda. A saber, o falhanço da educação e do ensino no cumprimento da sua função mais nobre: contribuir para a elevação do pensamento e da cultura ao serviço da Humanidade.
Post de HMJ

W. A. Mozart / Cecilia Bartoli

O que os outros fazem por nós


Isento da fobia das alturas, na juventude, não tive a menor dificuldade, durante a tropa em Mafra, em saltar o "galho" ou passear no "pórtico", a cerca de 4 metros do chão, por uma trave estreitíssima. A idade, entretanto, alterou a situação física e, por vezes, nas alturas, as tonturas ameaçam. Por isso, hoje, quando vi 2 ou 3 operários de manutenção, na ponte 25 de Abril, encavalitados num dos tubos metálicos laterais, fiquei perplexo. Não havia rede, como nos circos, e os homens deviam estar a mais de 50 metros sobre o Tejo. Mas também sei que alguém tem que fazer aquilo, para nossa segurança.
Evito, praticamente sempre, deitar coisas para o chão. Penso que o que se deita para o chão, alguém terá que o apanhar para que as ruas se conservem limpas e asseadas, como deve ser. Mas hoje, logo pela manhã, quando fui pôr o saco de lixo doméstico no contentor vi cerca de 20 pilhas pequenas e usadas, espalhadas pelo chão, quando há um depositório próprio para as deixar... Para não falar nalgumas ruas do Bairro Alto que, manhã cedo, estão juncadas de copos de plástico, garrafas de vidro de cerveja e vinho, vazias, abandonadas pelo chão. Deixadas pelos alarves nocturnos da véspera.

Cultura em tempos de crise


Na campanha das eleições presidenciais francesas, a Cultura tem tido um lugar importante no debate dos candidatos. François Hollande cunhou mesmo um slogan motivador: "a Cultura no coração do comprometimento presidencial". Por cá, é o que sabemos.
Em relação com tudo isto, ontem, ouvi um jovem contar uma história sobre Winston Churchill que sublinha bem a visão e estrutura de um grande estadista. O caso foi o seguinte:
No auge da II Grande Guerra, a direita (a que Churchill pertencia) impacientava-se com o PM inglês porque, enquanto os sacrifícios e restrições continuavam a aumentar para todos, no esforço da guerra, o orçamento para a Cultura continuava alto e sem diminuir. No Parlamento britânico, um deputado questionou Churchill por que razão a Cultura não sofria cortes. O PM, lapidarmente, respondeu-lhe também com uma pergunta:
"- Mas, então, estamos a lutar por quê?"

Microclimas e toponímia


Em apodar, eu penso que os portugueses são mesmo originais e criativos.
Deste lado do Tejo, habituado, já não me admiro nem estranho ao passar pela placa toponímica que nos indica: Alcaniça (mesquita, informa Houaiss). O sol ia ralo, quando passamos pelo local, e as nuvens ameaçavam, de cinzentas. Vento, quase nenhum.
O sol abriu, mais um pouco, sobre Lisboa e começou um vento brando, mas ligeiro. No rio, tão liso como um espelho, com manchas alternadas de verde alface e verde azul, barcos deslizavam suavemente. Depois, para não nos perdermos, o percurso era restrito e obrigatório: Vila Verde, Terrugem (Houaiss, não refere), Godigana (não consta, também) e Carne Assada - estas duas últimas, inesquecíveis patronímicos. Mas, logo em Vila Verde, cerrou-se um capacete de nuvens e começou a molha-tolos. Saímos para comprar morangos e batatas, e ficamos como pintos...
Poder-se-ia concluir que andámos de microclima em microclima porque, quando regressamos à zona outrabandista, o sol voltou a receber-nos, radioso e amigo.
Falta dizer que não almoçamos carne assada. A massa tinha ficado a levedar. E a pizza, doméstica e boa, levava salame, cenoura e salsichão, mais um molhinho muito especial. E um tinto leveiro, a acompanhar.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Giacomo Leopardi (1798-1837) dito por Vittorio Gassman (1922-2000)

Bernard Shaw por Oscar Wilde


"Ele (G. B. Shaw) não tem um inimigo no mundo, e nenhum dos seus amigos gosta dele."
Oscar Wilde (1854-1900).

Charlie Chaplin (1889-1977)


Porque passa hoje mais um ano sobre o aniversário do nascimento de Charlie Chaplin.

Instrumentos e emoções


Dar prioridade aos instrumentos musicais é uma sabedoria antiga, mas de cada vez mais difícil execução - imagino eu. E saber interligá-los, pouco a pouco, num crescendo harmónico será decerto ainda mais complicado. Penso nisso, às vezes, quando ouço uma sinfonia, ou me lembro de Mahler.
Mas, na criação, será preciso saber, também, a atmosfera que se quer imprimir à melodia (,será?). As cordas para a melancolia ou os metais, na alegria. O piano e a voz humana saberão assumir qualquer das emoções. E o orgão, na sua quase divina amplitude, poderá simular na perfeição a complexidade humana dos estados de espírito terrenos e até desumanos.

Pinacoteca Pessoal 29 : Rockwell Kent




Não faço a menor ideia da cotação artística, hoje em dia, do gráfico e pintor norte-americano Rockwell Kent (1882-1971) e, embora saiba pouco sobre ele, posso assegurar que tocava de graça e beleza os livros que ilustrava. E foram inúmeros porque, nesse capítulo, tem obra vasta: ""Candide", "Leaves of Grass", "Moby Dick", "The Canterbury Tales"... e o "Decameron" que abordei aqui no Blogue, em 3/7/10 (Bibliofilia 21).
Fez várias estadias em locais pouco povoados (Terra do Fogo, Alaska, Terra Nova e Gronelândia), numa espécie de retiros espirituais que, ao mesmo tempo, o inspiravam para obras de grande solidez arquitectural e pictórica, de grande sobriedade. Terá, na minha modesta opinião amadora, absorvido muito bem e incorporado, muito pessoal e sigularmente, as correntes modernistas da época. Há vestígios de Carrá, Léger, Chirico, mas também do realismo da pintura soviética estalinista, sobretudo no seu traço e volume dimensional dos corpos, nas suas ilustrações e pinturas.
Mas também uma solidão discreta que atravessa, em diagonal, muitas das suas obras.

domingo, 15 de abril de 2012

As agendas


O titulo deste poste poderia ter sido: todos os caminhos vão dar a Roma...
Como um amor antigo ou uma casa que já foi nossa - e que, no presente, já não é -, os seus destinos nunca nos são inteiramente indiferentes. Gostamos de saber deles e, se os encontramos no nosso caminho, é com agrado que os olhamos - quase nunca com frieza ou indiferença.
Também não acredito nas excessivas coincidências: acho que, muitas vezes, são provocadas por alguém. Ou ajustadas para algum desígnio. Por isso parece-me, no mínimo curioso, que num espaço de pouco mais de 8 dias, o TLS, Die Zeit e o jornal Público, pelo menos, tenham abordado (embora por diferentes motivos) a religião católica, centrando a sua atenção e páginas na figura de Bento XVI.
Objectivamente: o que é que as centrais de informação andarão a tramar?

Por entre franças e araganças - René Aubry

para MR, em apenso aos s(m)eus "franceses", com votos de bom domingo!

Osmose (32)


De manhã, as palavras brilham, por instantes. Procuram-se irmãs, umas vezes contentes, outras vezes, aflitas, por entre ritmos diferentes ou caminhos diversos, em direcção ao dia. Mas têm sempre uma pureza sem limites.
Por isso as encontramos orvalhadas, frescas e sinceras, na sua pequenez, vindas da noite. São a única e estreita forma de sairmos de nós. E de nos encontrarmos com os outros.

Mais um soneto (VII) de Jacques Lèbre


Sem que se saiba daquela que parte com passo seguro,
embora eu lhe visse os ombros e sobre os ombros vi...
Mas é preciso deixar adormecer as histórias antigas
ou embalá-las como se faz a uma criança que não dorme.

Aliás é assim que todas as histórias vão adormecendo
até para deixar as conversas mais à solta...
Embora elas possam despertar os mortos, as conversas!
Não é o que elas fazem no dia do enterro?

Não é o que torna imperfeita qualquer necrologia?
É por isso que os mortos nem sempre têm sono,
é por isso que o amor dá voltas no caixão

se os vivos durante a noite se recordam,
porque um vivo pode sentir-se mais morto do que vivo
e da ponte Mirabeau ou da Marie lançar-se para o Sena.

Nota: este soneto (VII) de Jacques Lèbre (1953), tal como o outro (IV), traduzido anteriormente, pertence a um ciclo de 14, publicados na revista "Po&sie" (nº 95, de 2001), com o título "Le coeur, cette pompe", e uma abordagem temática da morte e despedidas. O suicídio, aqui sugerido, é uma referência oblíqua a Paul Celan e a Ghérasim Luca - temas directos do soneto VIII. Neste ciclo, o último verso de um soneto é o primeiro do soneto seguinte. 

sábado, 14 de abril de 2012

Zbigniew Preisner (1955)

Jacques Lèbre (1953)


De Le coeur, cette pompe, o soneto IV

Cada voz é a vaga de um oceano maior,
o poema devia fazer ricochete, até à vertigem,
até ao enjoo que se assemelhasse a este mundo
para que seja sua imagem, reflexo sobre a página.

Mas nenhum poema terá jamais o odor dos matadouros,
nem sequer poderá  receber uma bala no ventre,
e é nisto que é invencível o seu poder
de coisa verbal saída do sopro quente de um corpo

que, em si, como corpo não é invencível,
ameaçado que está por bacilos e priões.
Que o poema não espirre se o poeta tem gripe.

Porque ele não sabe donde vêm estes sonetos,
ele pergunta-se se a poesia não será uma incubação
e se a página não é branca como um leito de hospital.

Jacques Lèbre (2001?).