terça-feira, 28 de junho de 2022

Contiguidades

 

Fernando sempre me foi um nome agradável. Desde tenra idade. E o contraponto feminino, também.
Penso seriamente que a geração espontânea não existe, e a ligação ou associação mental (em arte, sobretudo) é recorrente, fecunda e muitas vezes sugestiva.
O pintor colombiano Botero (1932) e o francês Léger (1881-1955) privilegiaram de algum modo, na sua obra, a obesidade humana ("gordura é formosura", dizia-se...), para além de terem o mesmo nome de baptismo. As luxuriantes e nédias flamengas de Rubens podem também inserir-se nesse excesso carnal.
O pintor inglês William Roberts (1895-1980), sendo mais comedido e nem tendo o mesmo nome, não deixa de os lembrar, neste quadro de 1939. Que a leiloeira Christie's pôs à venda, aqui há uns bons anos, por uma estimativa entre 10 e 15.000 libras.


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Citações CDXXXVI


É um idealista: ele nunca gostou de vinho, de amor ou de tabaco.

Jean Cassou (1897-1986), in La Clef des Songes.

domingo, 26 de junho de 2022

Ideias fixas 68


Por entre Setúbal, a Ucrânia e o sequente oportunismo televisivo, no que diz repeito ao género humano, não há lugar para grandes expectativas ou mudanças. E dispensam-se, em absoluto, as nuvens cor de rosa, os psicólogos caritativos, os ex-inspectores reformados da PJ, bem como os ex-ministros venais, pagos à hora, e os comentadores chulos e palavrosos, que se plagiam uns aos outros numa cacofonia desbragada.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Fisális (Phisalis)



Não fora a Irene que, da sua banca, nos ofereceu 5 fisális do seu quintal, eu desconheceria este pequeno fruto, de sabor ácido, e que parece um tomate pequeno alaranjado, originário da América do Sul.
Detentor de múltiplas propriedades, ao que parece, purifica o sangue, alivia as dores de garganta, fortalece o sistema imunitário e abranda o colesterol. Ainda, segundo a Irene, acelera o funcionamento intestinal.
Que mais havemos de querer, de um fruto tão pequenino?!...

quinta-feira, 23 de junho de 2022

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Mercearias Finas 179



Pequeno almoço e lanche eram, sem dúvida, modestos de conteúdo, mas suficientes (sobretudo para quem tinha muito pouca actividade física diária): chá ou café com leite, uma carcaça e um pacotinho de manteiga, para barrar o pão. A matéria prima era boa e bastava.
Dos quatro utentes do espaço, creio que apenas o Julian (romeno?) era um pouco esquisito com o comer, e demasiado estridente quando falava ao telemóvel. Ismael, o angolano com anterior vivência de Liverpool, era discreto, comia e calava; o alentejano Mário, o mais velho e mais entubado de nós, que trabalhara com granito, na sua vida profissional, nunca se queixou, embora bicasse muito pouco às refeições.
Nada augurava a boa razoabilidade do sustento. Assim, tomei nota das viandas e ementas hospitalares, nos dias em que por lá estive. Segue:

Segunda-feira
Jantar
Sopa de Cenoura
Filete e meio de Salmão com 5 batatinhas novas acompanhado por grelos salteados
Banana, à sobremesa.

Terça-feira
Almoço
Sopa de Legumes
Feijoada de Chocos acompanhada de Feijão Verde
Triângulos pequenos de Ananás, para o final.

Jantar
Sopa de Nabiças
Vitela estufada com arroz, ervilhas e cenouras
À sobremesa: 2 Kiwis.

Na Quarta-feira, como pratos principais, ao almoço, previam-se como opções para os pacientes instalados: Bacalhau à Lagareiro ou Jardineira de Frango - boas expectativas, pelo menos. Eu iria no bacalhau, se não tivesse optado pela alta antecipada e por uma refeição caseira. Com sal e vinho...

Em suma, eu diria que, tirando o muito pouco sal e a falta de vinho a acompanhar, as iguarias simples eram apaladadas e faziam meças a qualquer gastronomia de uma pensão de província. Honesta e sadia.
Remato: o SNS trata bem e recomenda-se.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Últimas aquisições (40)



Os escaparates de exposição destes livros, editados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, não são famosos, nem práticos, no interior do supermercado. Obrigam a malabarismos para ler as lombadas e ver se os temas nos interessam. Por outro lado - e isto é um aviso! -, com a ganância dos coleccionadores de marcadores de livros, muitos deles já foram surripiados dos voluminhos. Há que verificar livro a livro.
Mas os assuntos são normalmente bem abordados e por quem sabe, e o preço é módico: 3,15 euros. Hoje, trouxe da média superfície o nº 97 dos Ensaios, sobre As Plantas... (em imagem acima), do biólogo Luís Mendonça de Carvalho, livrinho editado em 2019. Espero vir a gostar de o ler. E de aprender alguma coisa.

sábado, 18 de junho de 2022

Um poema de João Rui de Sousa (1928-2022)



 Piscina

da prancha é o mergulho imaginário
até ser só o tronco ou só os membros
e desfazer em água a morte toda
que em poros transportamos sem sabermos

até que liquefeita a morte toda
possamos não mentir ao declarar
que somos peixes vivos voadores
sabemos destruir e transformar


in Corpo Terrestre (pg.105).

Adagiário CCCXXXVII



A água de Junho, bem chuvidinha, na meda faz farinha. 

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Jean-Louis Trintignant (1930-2022)




Seria difícil excluir o afecto das memórias que Trintignant me despertava, por alguns dos filmes que dele vi. Mas destacaria dois, particularmente: A Ultrapassagem (1962), do realizador italiano Dino Risi, e do polaco K. Kieslowski, o filme Vermelho (1994), com o actor francês, que faleceu hoje.

Uma fotografia, de vez em quando... (160)



Talvez estranhemos, mas acontece. De longe a longe, há um artista estrangeiro que se apaixona por Portugal e nos dedica um afecto duradouro que acaba por alastrar para a sua obra. Foi o caso de Neil Slavin (1941), fotógrafo norte-americano.




De 1968 a 1971, e insistententemente, ele percorreu e fixou o quotidiano português, de uma forma original e talentosa para a época. Ficam estas duas imagens a dizê-lo.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

A globalização da Saúde

 


A primeira página do jornal Le Monde, de 3 de Junho de 2022, titulava assim sobre os hospitais gauleses.
As harpias portuguesas lobistas da medicina privada, capitaneadas pelo bastonário da Ordem dos Médicos, é claro que já não sabem ler francês... talvez só americano mascavado. Se soubessem, poupariam, ao menos, na histeria televisiva de criticar o SNS português, bem como a nossa ministra da Saúde.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Máxima ?

De pouco nos serve o mundo, se o não guardamos no bolso. 

(agradecendo a sugestão a Eugénio de Andrade.)

Desabafo (68)

É com particular emoção que todos os dias vejo algumas instituições da Net proclamar  solene e acrisoladamente o desvelo com que se preocupam com a nossa privacidade e segurança. Ele é o Google, o pimp do Zuckerberg marcano (cujo rosto me lembra sempre aqueles franquenesteins foleiros dos filmes do Ed Wood), ele é o Youtube, o Gmail e toda essa tropa fandanga que nos visita e nós visitamos, às vezes.

É tudo no entanto uma floresta de enganos e de farisaísmo. Ainda hoje, na minha caixa de Gmail, sem que eu desse o meu código ou password me apareceram mensagens de publicidade das seguintes marcas:

- Worten
- Meo com Visão
- Google Ads
- italki
- CUF
- Galp Solar.

Não me dirão como é que estas toupeiras chegaram ao meu email?

terça-feira, 14 de junho de 2022

A falta de rigor das generalizações ou o risco das opiniões ligeiras



Numa recensão ao livro Meia vida, de V. S. Naipaul (1932-2018), o escritor sul-africano J. M. Coetzee (1940) refere, entre outros aspectos:
"A Índia de Naipaul é abstrata, e a sua Londres, um rascunho, mas a Moçambique que ele nos descreve é apresentada de maneira convincente. A Moçambique dos tempos coloniais não produziu escritor nenhum de alguma estatura. O escritor moçambicano mais conhecido dos dias de hoje, Mia Couto, pertence à geração pós-independência, e de qualquer maneira é influenciado demais pela voga do realismo mágico para merecer confiança como cronista do passado do seu país."
A generalização parece-me abusiva e, para contraditá-la, socorro-me de um nome: José Craveirinha (1922-2003). Mas poderia citar ainda Eugénio Lisboa (1930), Rui Knopfli (1932-1997), Alberto Lacerda (1928-2007)...

Scarlatti / Belder

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Info.

 

Objecto de uma avaria, o meu computador apesar de reparado parcialmente, não consegue responder com eficácia às tarefas do dia a dia, desde há cerca de uma semana. É possível que a situação se prolongue. Bem como as sequelas resultantes.

sábado, 11 de junho de 2022

Da leitura (51)


Há uns anos atrás, dizia-me um romancista meu amigo, que toda a ficção que se preze teria de ter alguma palha convencional, sobretudo se a obra quisesse passar do conto ou novela para a consistência e volume de um romance. O problema seria o leitor ter que ultrapassar o frete ou vir a fazer batota na leitura do livro...
No que diz respeito aos romances policiais, a situação é recorrente e muito mais habitual. Se alguns clássicos e autores de primeira água (Conan Doyle, S. S. van Dine...) conseguem evitar os enchumaços na escrita, grande parte dos outros autores secundários não o evitam ou mal o disfarçam.
Aprecio razoavelmente a obra do inglês Nicolas Freeling (1927-2003) cujos policiais são um bom exemplo de divagações frequentes e alheias ao tema central das intrigas. No caso vertente (Uma Vida Perfeita, nº 628 da Colecção Vampiro), são convocados, um pouco a despropósito embora com algum interesse, Graham Greene, Stevenson (pg. 93), o assassinato de Olaf Palme (pg. 97), no ano de 1985.
Bem como, na página 104, estas considerações: "Os maus romances policiais da minha juventude estavam cheios de sustos tornados lúgubres - o efeito divertimento de feira. Comboios-fantasmas, fitas sarapintadas, truques com espelhos, vampiros. Se repararam no padre Brown nas proximidades sem fazer nada, exibir um par de saltos é um bom conselho. Nero Wolfe, ao abrir inocentemente a gaveta para contar as suas cápsulas de cervejas, encontrou uma ponta-de-lança dentro... Hoje em dia, acalentaríamos a esperança de que o pobre diabo não tivesse contraído um resfriado, mas a ideia consistia em pregar um bom susto ao leitor - é isso que o público aprecia."
E, talvez valha a pena dizê-lo, que muitos leitores se calhar nem se apercebem da palha que consomem.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Citações CDXXXV



Perdoa sempre aos teus inimigos - mas nunca esqueças os seus nomes.

Robert F. Kennedy (1925-1968). 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Do proboscídeo



É um pequeno opúsculo de apenas 12 páginas e custou-me 5 euros. Separata da revista "Ocidente", o texto do reputado musicólogo Mário de Sampayo Ribeiro (1898-1966) deu-me a conhecer o vocábulo olifante, como sendo uma trompa decorada, feita de uma presa de marfim de um elefante. O Houaiss regista: "corneta, de uso na Idade Média, feita de um dente de elefante".

Em jeito de bónus o folheto trazia, no seu interior


, um pequeno cartão com dedicatória de Sampayo Ribeiro ao director do museu regional de Aveiro, A. Manuel Gonçalves.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Paula Rego (1935-2022)



Príncipes consortes, Arpad Szenes e Victor Willing abrigaram-se à sombra do talento das suas mulheres que cultivavam a mesma arte - a pintura.
Na França, Maria Helena, na Inglaterra, Paula Rego, ganharam estatuto e cotação internacional, situação muito rara para quem nasce português.
Paula Rego faleceu hoje, em Londres.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Uma fotografia, de vez em quando... (159)



Nascido na Bielorrússia, território que integrava na altura o império czarista, Boris Ignatovich (1899-1976), cedo se distinguiu como um inovador da avant-garde modernista, tendo sido um dos primeiros fotojornalista da URSS. Só pelos anos 50 começou a utilizar a cor nas suas fotos. Foi também, no cinema, um documentarista estimável.




Integrado no exército soviético documentou abundantemente a tragédia que foi a II Grande Guerra. Mas retratou também, de forma realista e expressiva a vida rural quotidiana da ex-URSS, nos seus múltiplos aspectos.



segunda-feira, 6 de junho de 2022

Revivalismo Ligeiro CCCVI

Bibliofilia 198

 


Sendo muito rara a primeira edição (1619) desta Vida de D. Fr. Bertolameu dos Martyres, de Frei Luís de Sousa (cc. 1555-1632), impressa em Viana do Castelo por Nicolau Carvalho, estes meus dois exemplares da sexta impressão (1850-1853), sendo mais frequentes, são cuidados e muito estimáveis.
A Typographia Rollandiana, que os editou, teve uma actividade meritória e dinâmica, sob a a orientação do impressor-livreiro Francisco Rolland (17??-1814), de nacionalidade francesa, e cujo filho João Francisco Rolland lhe sucedeu, mantendo a oficina, pelo menos até 1850.
Os 2 volumes desta sexta edição custaram-me, em 1976, encadernados, Esc. 276$00, no leilão nº 321 de Arnaldo Henriques de Oliveira. Os dois livros encontram-se em muito bom estado.

domingo, 5 de junho de 2022

Na varanda a Leste



A matriz veio do António, a Norte, há um bom par de anos. A semente pegou bem e todos os anos dá notícia florida e elegante.
Chamámos-lhes "balões de S. João" pois é por aí (finais de Junho) que atingem o seu esplendor máximo.
Mas o nome científico fia mais fino: kalanchoe pinnata. Na Alemanha, chamam-lhe simplesmente: planta de Goethe, talvez para homenagear o grande poeta. 


sexta-feira, 3 de junho de 2022

Filatelia CXLVIII


(Ora vamos lá, humildemente, em nome da aliança velha e luso-britânica, contribuir para a mainstream do momento régio! O grande jubileu isabelino.)

São 70 anos em que o retrato, perfil ou efígie de Isabel II (1926) surge em tudo quanto é selo emitido pelo Reino Unido. Do acesso ao trono, em 1952, passando pela coroação a 3 de Junho de 1953, até hoje , é o mais longo reinado inglês, ultrapassando o da rainha Victoria (1819-1901). E, com certeza, a temática filatélica especializada mais frequente.


Se até aos anos 70 do século passado, de um modo geral, o número de emissões de selos britânicos era comedido, a partir daí a séries dispararam. Não só as comemorativas, mas também as emissões base, através das cores e tonalidades, selos fosforescentes ou não, e variações de produtos filatélicos para coleccionadores. Com o Platinium Jubilee, espero ainda o pior...



quinta-feira, 2 de junho de 2022

Correspondência



As nossas caixas de correio já foram mais frequentadas... Alturas em que raros eram os dias em que não havia correspondência. Agora são mais as facturas e/ou a publicidade.
Mas é uma surpresa bem agradável receber um belo postal como (acima) este com grafismo elegante do checo Alfons Mucha (1860-1939), alto expoente da arte nova, publicitando cerveja. Veio da Bélgica.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Memorabília (21)

Adagiário CCCXXXVI

 


O figo para ser bom deve ter pescoço de enforcado, roupa de pobre e olho de viúva.