quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Karl Goldmark / Nathan Milstein

O grau


Quem não sabe da poda, não a ensina, antes procura aprendê-la de quem saiba ou se procura informar. Mais ainda se tiver duas oliveiras a seu cargo, sejam elas de quintal ou de varanda. E mais vale estar calado, até saber alguma coisa sobre o assunto.

Não lembraria ao diabo, e muito menos a mim estabelecer paralelos entre a obra de Braudel e as fantasias históricas de Hermano Saraiva. Ou comparar os versos de Robert Zimmerman e a poesia de René Char. Quanto à poesia experimental e visual, brasileira ou nacional, é outro assunto. Tenho opinião, não muito favorável, mas acompanhei os seus desenvolvimentos, na altura.


Mas também não censuro a sua prática ou excluo a sua aparição aqui pelo Blogue. Porque, no fundo, é tudo uma questão de qualidade ou grau. Sentir, sinta quem lê, como dizia Pessoa.


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Uma capa simples e genial


A capa do penúltimo TLS (nº 5923) é das mais conseguidas de que me  lembro. 
Ilustra a temática How the brain decides, e deverá ser vista em 2 posições diferentes.
Parece-me não precisar de mais legendas explicativas...


Um dito norte-americano


In God we trust; all others must pay cash.

(Confiamos em Deus; mas todos os outros têm de pagar em dinheiro.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Pinacoteca Pessoal 117


Nascido em Gand, a 2 de Agosto de 1881, o pintor flamengo Gustave van de Woestijne veio a falecer em Abril de 1947, também na Bélgica. A sua obra é como que uma ponte entre o simbolismo e o expressionismo europeu. Mas são raras as suas obras que excluem a figura humana. A sua pintura, que não deixa de incorporar reminiscências dos antigos mestres flamengos, terá influenciado Delvaux e Magritte, segundo alguns críticos de Arte.

domingo, 16 de outubro de 2016

O primeiro dos fanhosos


Uma frase do passado


The Muses of Stockolm prize civility.

George Steiner, in The New York Times (30/9/1984).

G. K. Chesterton e o turismo de massas


Seria muito interessante saber exactamente a razão por que uma pessoa inteligente - quero eu dizer, com qualquer tipo de inteligência - pode e deve frequentar paisagens e vistas turísticas. Imagine-se um grande autocarro aberto, cheio de turistas, dirigindo-se para o local do nascimento de Nelson ou para o sítio onde morreu Simon de Montfort - ambas as perspectivas me provocam calafrios na alma. E eu até poderia pormenorizar facilmente as razões da minha aversão por este tipo de turistas e pelas suas antiguidades - pelo menos, do meu ponto de vista. (...)

G. K. Chesterton (1874-1936), in Travel.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Alguns números


Os dados foram colhidos em L'Obs (nº 2709). Só me surpreende o facto de não se falar com dramatismo trágico na dívida japonesa, cuja percentagem em relação ao PIB é praticamente o dobro da dívida portuguesa. Talvez questão de temperamento ou, como dizia o outro: "...a dívida é para se ir gerindo..."

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Retro (89)


Em 1953, a Esposa de Winston Churchill recebe, em nome dele, o prémio Nobel da Literatura. As democracias (ou Academias) nórdicas sempre tiveram uma forma gentil de se expressarem...

Curiosidades 59


De Beethoven, quase toda a gente saberá da sua surdez, do seu mau feitio, das suas 9 sinfonias.
Mas provavelmente desconhecerá que, no seu espólio-arquivo existem mais cinquenta sinfonias inacabadas, num total de cerca de 600 obras musicais incompletas. Poucos saberão que a Elisa da sua "Für Elise", se chamava Teresa. Que Beethoven era grande apreciador de vinho e café, e exigia que, para o seu café, fossem usados exactamente 40 grãos do mesmo, nem mais nem menos. Que a surdez deu os primeiros sinais tinha Beethoven 27 anos (1797) e se deveu a uma otosclerose (ossificação das cartilagens do ouvido interno). Finalmente, L'Obs informa-me que os compositores favoritos de Beethoven eram Bach, Haendel, Mozart e Haydn.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Divagações 117


Nesta manhã chocha e cinzenta, depois de lido o jornal, a dificuldade é encontrar alguma coisa que me prenda à leitura, como entretém salvífico.
Olho as pintalgadas janelas da chuva recente, a praça molhada e deserta, a rua onde vultos fugitivos se apressam em direcção a casa. Não há por aqui razões transcendentes...
A natureza fragmentária dos Cahiers, de E. M. Cioran (1911-1995), ajusta-se temporariamente a este tempo sem tempo, inconsequente de atitudes, desanimador e sonolento:
...Um livro deve ser escrito em estado febril. De outro modo, ele não será contagioso...

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Shostakovich / Ashkenazy

A par e passo 176


Seguro de existir, Descartes acredita supor que não há outra certeza. Mas há muitas outras, desde que ele comece a meditar. Ele julga, inovador como é, que deve manter a atitude, tradicional em metafísica, duma dúvida universal que está ligada à vontade, quer ao início, quer à saída de tudo aquilo que se pensa. E isto é uma atitude profissional. Ei-lo, no entanto, a braços com um problema sério. A experiência do sonho, os erros da percepção, as ilusões do tacto e do olhar, as alucinações de tipo diverso, engendraram desde tempos imemoriais, esta questão teórica - tão positivamente teórica que se poderá perguntar, à parte, se ela não será puramente verbal.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 234).

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Stephen Spender (1909-1995)


My Parents


Os meus pais protegeram-me das crianças que eram rudes,
que lançavam palavras como pedras e que usavam calças rotas,
deixando ver as pernas p'los remendos. Elas corriam pelas ruas
e subiam os penhascos, como nadavam nuas pelas correntes.

Eu receava mais que os tigres os seus músculos rijos como aço,
suas mãos poderosas, os seus joelhos pisando os meus braços,
como temia que me apontassem a dedo pelas ruas
arremedando cruelmente o meu falar baixinho.

Porque elas eram flexíveis e saltavam sobre as sebes
como cães a ladrar contra o nosso mundo. Atiravam-me lama
e eu olhava para o outro lado, fingindo sorrir. Demorei
muito tempo a perdoar-lhes, mas nem assim elas me sorriram.

sábado, 8 de outubro de 2016

Bibliofilia 147


Palavras e nomes há que servem uma geração ou duas, e depois desaparecem para sempre, ou porque a necessidade do seu uso já não se faz sentir. ou porque a história que lhes deu origem deixou de ter interesse ou foi esquecida. Vemos assim expressões estranhas em textos de Gil Vicente, Francisco Manuel de Melo ou até mais perto de nós, em poemas de Tolentino, de que não sabemos o exacto significado. Alinhemos alguns mistérios:
1. Saiu-lhe o gado mosqueiro.
2. Andar à bambalhona.
3. À  Chomberga.
4. Não ter onde embrulhar cinco réis de cominhos.
5. Fala francês como uma vaca espanhola.
Pois estas 5 e muitas outras mais expressões curiosas encontram-se explicadas, convenientemente, em Origem de varias locuções, adagios, anexins, etc. (Elvas, 1928), de António Thomaz Pires (1850-1913), pequeno volume que, lindamente encadernado, adquiri recentemente e por bom preço. Valeu bem a pena, pois tenho aprendido muita coisa, por ele.


Vincenzo Bellini / Sonya Yoncheva

Uma promissora cantora búlgara, Sonya Yoncheva, das poucas mulheres desta nacionalidade que não concorreram a cargos directivos da O. N. U.. Numa das mais conhecidas e ouvidas árias da "Norma" de Bellini.

Da leitura (17)


É frequente, ao lermos memórias de infância e juventude de um escritor, encontrarmos ressonâncias das nossas próprias recordações dos primeiros anos de vida. Das provas de lealdade, das traições e das mentiras, dos amores ingénuos mas fiéis, das amizades sinceras e fortíssimas, das impressões indeléveis e sentidas. Mas também de cheiros originais ou de atmosferas que, de tão intensos e singulares, dificilmente conseguiremos traduzir por palavras.
Ora, há um cheiro a fumo abafado e denso, que me vem de 1951, quando uma noite, uma boa parte do Mosteiro da Costa (em Guimarães) ardeu. Vi as labaredas da janela da sala de jantar e foi o primeiro grande incêndio a que assisti. Nunca mais o esqueci, nessas imagens trémulas e nocturnas, com sirenes de bombeiros, intermináveis, a tocar. E a grande aflição geral.
Lembrei-me disso ao ler Canetti (1905-1994), quando narra o seu primeiro fogo: "Ce spectacle que je n'ai jamais oublié..."
Quem não se lembrará, mais ou menos intensamente, do primeiro incêndio que presenciou?
Em 1977, calcorreei a parte ardida do Mosteiro de Sta. Marinha da Costa, e lá colhi amoras, porque o espaço era um matagal ou silvedo múltiplo entrelaçado e desleixado.
Fizeram, entretanto, obras cuidadosas e conformes. Hoje, há lá uma pousada - cara, mas ilustre. Quem se lembrará ainda desse monstruoso incêndio de há 65 anos. Só os séniores vimaranenses, por certo...

Nota: por razões técnicas informáticas não será possivel assegurar, pelo menos nos próximos dias, a regularidade e constância de postes, no Arpose.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Idiotismos 37


O Dicionário de António Morais da Silva (Livros Horizonte, 1980) regista (pg. 335, vol. V) tramontana como: vento norte; estrela polar...
E António Thomaz Pires, no seu Origem de várias locuções..., já por aqui citado, refere a propósito: "Na antiga navegação, ainda no século XIII, chamava-se tramontana à estrela polar, por onde se orientavam os marinheiros" que, quando a perdiam de vista, se dizia: perdeu a tramontana.

Era uma vez...


Quando eu era pequenino e me liam, ou eu lia, histórias de fadas, habituei-me à tranquilidade do Bem sempre triunfar sobre o Mal, no fim das narrativas. E adormecia descansado. Mas depois, veio o Vincent Price, o Ed Wood, canhestro embora, Somerset Maugham, Simenon, Coetzee, o Scorcese, o Copolla e o Tarantino, o Oliveira Costa e o Salgado, que me destruiram as ilusões, quase completamente, às vezes com a complacência da própria Justiça. Representada por agentes manhosos e marotos, a maior parte das vezes, mal vestidos, ou sem gosto no trajar. Provincianos em suma, mas aparentemente impolutos na sua maneira de ser.
Porém, recentemente, alguns pequenos sinais caridosos me fizeram acreditar que os vilões (a czarina e o grão-duque, maléficos, de que falei aqui, há uns postes atrás) podem ser derrotados, e o Bem talvez possa, de novo, vir a triunfar sobre o Mal.
(Ou será que entrei definitivamente na infância da velhice, melhor dizendo, terei voltado ao princípio da ilusão inteira?)

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Lou Reed (1942-2013) : "Perfect Day"

Lembrete 34


Para quem se interessa por Enologia, mas também pelos efeitos da Globalização, recomendo, vivamente, o interessante filme Mondovino, de Jonathan Nossiter, que passa hoje na RTP2, pelas 23h38. A não perder.

A memória curta e o parolismo nacional


Deslumbramo-nos com monumentos e paisagens estrangeiros, e esquecemo-nos de ver e louvar os nossos; pomo-nos de cócoras perante acontecimentos que ocorrem lá fora, mas desvalorizamos os que por cá vão acontecendo; endeusamos os artistas de outros países mas, ingrata e parolamente, num terceiromundismo novo-rico, ignoramos os portugueses.
Mário Braga (1921-2016), nascido em Coimbra e falecido em Lisboa, no passado dia 1 de Outubro, teve alguma projecção como escritor, sobretudo de contos, nos anos 50/70, e esteve ligado ao grupo da revista Vértice. E era talvez o último sobrevivente dos neo-realistas e da geração do Novo Cancioneiro (Coimbra).
Pois, no passado domingo, 2/10/16, o meu jornal dedicava 4 ou 5 páginas a 2 escritores norte-americanos (Philip Roth e Saul Bellow). Quanto a Mário Braga e ao seu passamento, não fora o obituário - pago pela família - nada constaria.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Paisagem aérea


Neste recente Outono, pouco marcado, incipiente, o céu tem vindo a arrumar-se, nestes últimos dias, em azuis muito nítidos pontuados por nuvens brancas, esvoaçantes, muito sugestivas nas suas configurações fugazes: flamingos alvos e alongados, duendes fantásticos, ouriços-cacheiros voadores, barbas algodoadas de gigantes inexistentes, eu sei lá!...
Basta a cada um procurar, no recôndito da imaginação, o ponto certo sempre mutante da irrealidade.

Que é feito da Teresa Salgueiro?


Leilão de Outono


Anuncia-se para os próximos dias 17, 18 e 19 de Outubro, no Palácio da Independência (às Portas de Sto. Antão), mais uma almoeda de livros, manuscritos e gravuras, organizada pelo alfarrabista José Vicente.
Destaque-se uma pequena secção de livros para crianças. Eu, pela minha parte, sublinharia 4 lotes, bem como as suas estimativas de venda:
388 - Dantas, Júlio - A Ceia dos Cardeaes. Lisboa, 1902 (1ª edição) ........................ 25/50,00 euros.
863 - Melo, Francisco Manuel - Las Tres Musas del Melodino. Lisboa, 1649............200/400 euros.
1189 - Saa, Mário - As Memórias Astrológicas de Camões. Lisboa, 1940..................35/70,00 euros.
1390 - Vieira, José Augusto - O Minho Pittoresco (2 vols.). Lisboa, 1886/7...............250/500 euros.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Simples registo


Valeu a pena ver a coesão dos europarlamentares portugueses (Pedro Silva Pereira, Fernando Ruas, Marisa Matias e uma parlamentar do CDS), em uníssono e com argumentos legais, apelidar e comprovar, contra os carreiristas burocratas senhor Katainen e dona C. Cretu, a ilegalidade do corte dos fundos estruturais a Portugal e a Espanha, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, hoje.

Citações CCXCIX


A Educação produziu uma vasta população que é capaz de ler, mas que é incapaz de distinguir aquilo que vale a pena ler.

George Macauly Trevelyan (1876-1962), in English Social History (1942).

domingo, 2 de outubro de 2016

Mais um poema traduzido, de Eduardo Chirinos


Derrota del Otoño


Por estas redondezas, o Outono não é bem-vindo.
                                                              Ninguém o espera
na margem de um qualquer rio melancólico
que esconde nos seus fluxos os segredos do mundo.
Mas o Outono reina em outras latitudes:
lá longe, onde os ciclos se cumprem, obedientes, lá longe
onde envelhecem e se renovam as metáforas.

(O Sol afunda-se num charco esverdeado
onde flutua, solitária, uma folha de loureiro).

Mas hoje de tarde nem sequer choveu. As folhas
fincam-se com força férrea aos seus ramos,
heroicamente lutam contra o vento
e pela noite hão-de celebrar a derrota do Outono.

Não sabem que as folhas em queda são escritas
e a árvore um calado e seco poema sem estrias.


para quem não aprecia muito o Outono, como a Margarida, no seu "Memórias e Imagens"; e para Maria Franco, que gosta da obra do Poeta. Cordialmente, esta despretenciosa tradução.