segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Uma fotografia, de vez em quando (86)


É um momento explosivo de juventude, alegria, incontida emoção.
O marinheiro, em licença, George Mendonsa (1923-?) saíra duma sala de espectáculos, para Times Square (Nova Iorque), para se assegurar que a II Grande Guerra tinha, realmente, terminado; a assistente de dentista, Greta Zimmer Friedman (1924-2016) tinha vindo à rua, para confirmar a notícia. O fotógrafo Alfred Eisenstaedt (1898-1995) estava lá, e fixou, em instantâneo, esse arroubo de felicidade imensa que levou o marinheiro, radiante, a beijar uma enfermeira desconhecida que, talvez por intuição ou generosidade, o permitiu. Foi isto a 14 de Agosto de 1945.
A revista Life veio a publicar a emblemática fotografia na sua edição seguinte.
Segundo nos informa o jornal Público, Greta Friedman faleceu ontem, com 92 anos.

Da leitura (16)


                                                                                                                                              3 de Março
Cidades construídas em colinas à borda de água vi eu muitas. Por diferentes que sejam Marselha, Argel, Lisboa, Nápoles, todas elas têm um traço comum: as suas colinas foram utilizadas como elemento arquitectónico; as ruas adaptam-se-lhes às curvas, trepam em espirais, de modo que quase de toda a parte se vê o mar; o plano, complicado nos mapas, apresenta-se na realidade como natural e simples. (...)

Simone de Beauvoir, in A América dia a dia (pg. 139).

domingo, 11 de setembro de 2016

A par e passo 174


Pensem também que, de entre todas as artes, a nossa (poesia) é talvez a que coordena o maior conjunto de componentes ou factores independentes: o som, o sentido, o real e o imaginário, a lógica, a sintaxe e a dupla invenção do fundo e da forma... e tudo isto por intermédio desse meio essencialmente prático, perpetuamente alterado, por vezes manchado, conjugando todos os ofícios, da linguagem comum, com a exigência de se obter uma Voz pura, ideal, capaz de comunicar sem fraquezas, sem esforço aparente, sem perturbar a nossa audição e sem romper a esfera instantânea do universo poético, uma ideia singular de um  eu maravilhosamente superior ao Eu.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 162).

Do rifoneiro castelhano (5)


Alegría secreta, candela muerta.

( Alegria calada, candeia apagada.)

sábado, 10 de setembro de 2016

As palavras do dia (22)


Embora a citação (entre chavetas grandes, a esferográfica, na imagem) me pareça o cerne da questão, será de bom tom ler no jornal Público, de hoje, a crónica integral de J. Pacheco Pereira, que chama a atenção para alguns "mitos menores e maiores postos em circulação" por algumas Cassandras, alguns comentadores e economistas a soldo e ainda outros, pequeninos, historiadores portugueses de pacotilha.

Impromptu (28)


Um clássico de Dylan. Que, na minha perspectiva, e na interpretação de Peter, Paul & Mary, nada fica a dever à versão do seu talentoso criador...

Citações CCXCVI


As mulheres são como a Legião de Honra: e isso não se pede, não se recusa, nem se exibe.

Jean d'Ormesson (1925).

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Mercearias Finas 115


Mas quem me manda a mim guardar vinhos brancos, para além dos 5 anos regulamentares!?
Claro que vamos ter um especioso vinagre de Pfalz ( Palatinado alemão) como manda a lei, mas o Arinto de Bucelas (1972) foi pelo cano do lava-loiças, abaixo. Que intenso vinagrinho era com ele...
O tinto garrafeira CRF (1974) é que era outra louça, na sua cor avermelhada de brasido suave a apagar-se. A Touriga, que lhe estava de certeza nos genes, mostrou a sua raça, aroma e longevidade. Portou-se lindamente com um queijo artesanal de ovelha, da região de Castelo Branco.
Nem tudo se perdeu...

Bibliofilia 146


Anos e anos ambicionei ter uma Corografia, que me informasse, pelo menos geograficamente, sobre as terras portuguesas. Não estava sequer nos meus horizontes o Portugal Antigo e Moderno, obra maior de A. Pinho Leal que, além dos aspectos geográficos, informa exaustivamente o leitor sobre os detalhes históricos das povoações nacionais, por pequenas que sejam. Esta obra foi-me oferecida, há pouco, gentilmente.
Mas ao dobrar do século actual, no meu alfarrabista de referência, encontrei a bom preço (que as Corografias são caras habitualmente) este Diccionario Chorographico de Portugal... (1874), obra sucinta mas competente, que me encheu de satisfação e fui usando com proveito, com referência à parte geográfica. Encadernado modestamente, o volume encontra-se em muito bom estado, para os anos que já conta.
Por adenda e curiosidade vou referir algumas terras, e respectivo distrito, com nomes mais singulares:
- Ana Loura, distrito de Évora.
- Beberriqueira, distrito de Santarém.
- Farinha Podre, distrito de Coimbra.
- Mamarrosa, distrito de Aveiro.
- Minhocal, distrito da Guarda.
- Rosto de Cão, distrito de Ponta Delgada (Açores).
- Rio Cabrão, distrito de Viana do Castelo.
- Sobradelo da Goma, distrito de Braga.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ferré

Indeciso entre o canadiano Cohen e o monegasco Ferré, para fechar a noite, optei pelo velho anarca falecido que, no passado dia 24 de Agosto, se fosse vivo, teria completado 100 anos. Não chegou lá, mas as suas canções ainda têm vida...

E que MR me desculpe ter-lhe roubado uma canção francesa, que poderia vir a constar da sua rubrica, no Prosimetron. 

Retro (88)


Perdoe-se a publicidade, que isto depois de um almoço no Restaurante Nepalês, da rua de S. José, recompõe-se muito melhor com uma ginjinha fresca, com elas, ali pelas Portas de Santo Antão.
Por outro lado, estas lojas com tradição merecem a minha melhor estima e o nosso desvelo.
Sublinhe-se a indicação preciosa do pequeno folheto: "Esta Casa nunca concorreu a nenhuma exposição nacional nem estrangeira" - é assim mesmo!... Que isto de concursos, muitas vezes, já têm prémios assegurados de antemão, e só servem para enganar o pagode.


Desabafo (15)


Vou tendo cada vez menos paciência para poemas longos, que se desenrolam em versos repetitivos, que nada vão acrescentando, como o If do Kipling. Tal como me exasperam as perlengas moralistas ou retóricas sobre ninharias inúteis.
Vinte minutos contínuos, ontem, de incêndios no noticiário da TV. Penosamente vistos, inutilmente olhados. Contributo perverso para acicatar a coragem de alguns desarranjados pirómanos, que ainda não se puseram em campo, com os seus isqueiros de bolso?
Mas de que maneira um cidadão normal vê isto no ecrã televisivo? Com pavor? Com pena? Com caridade compungida? Ou como simples espectáculo - talvez desejo ardente dos directores de programas, sedentos de aumentar o seu share?
Não haverá meio de reduzir estas reportagens ao mínimo, a breves notas com discrição, evitando as vozes épicas ou empoladas de jornalistas enxundiosos e apalermados?

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Apontamento 90: A LENTA degradação da imprensa escrita


#Os Cursos EFA são, por isso, um instrumento basilar
para a prossecução dos objectivos definidos pelo XVII Governo
Constitucional para as políticas de educação e formação,
no qual assume particular destaque a generalização
do nível secundário como patamar mínimo de qualificação
da população.#
[citação de um diploma legal para jornalista tolhido pelo calor dos dias]

Após mais um pequeno “encontro espiritual amigável”, depois das férias, em que, entre outros muitos assuntos, se abordam, com alguma frequência, as fraquezas e a impreparação intelectual e falta de ética da imprensa, tanto nacional como europeia, não consigo calar-me perante mais uma destas “peças jornalísticas” menores.

Sob o título de “Os novos analfabetos” circula por aí, e num jornal semanal de responsabilidade, mais uma peça dedicada à educação, em que o referido semanário gosta de “meter o bedelho”, porque não tem mostrado preparação para uma discussão séria da educação e cultura no país.

Nem sequer discuto o desvario de meter, no mesmo propósito, cidadãs, aparentemente analfabetas, de 70 ou 29 anos actualmente, estes últimos com escolaridade obrigatória de nove ou doze anos, instituída após o 25 de Abril.

Recordar a circunstância de haver, sobretudo em meios piscatórios, idosas ainda com vontade de aprender a ler, faculdade matricial do ser humano que lhes foi negada durante décadas, merece apenas o consentimento de alguém que espera que a imprensa cumpra o seu essencial: informar sobre a situação social, cultural e política do país em que se insere.

Quando depois se começa a falar dos “novos analfabetos” – funcionais (?) ou outros (?) – falando de uma criatura de 29 anos, numa “mistura de vergonha e garra” por não saber ler nem escrever, entramos no terreno inclinado de uma imprensa que, cada vez mais, resolve, com o “modo fala barato de feira”, abordar, pretensamente, assuntos sérios da sociedade. Ora, a seriedade não resulta do discurso final, mas da ética e do saber profundo com que alguém se dedica à sua profissão.

De facto, os jornalistas não sabem, de todo, do que estão a falar, nem podiam, alguma vez, imaginar o que uma tal “criatura de 29 anos” – SOFREU – para que lhe ensinassem a ler e escrever, para além das aulas normais, com: aulas de apoio, programas especiais – de que já não me lembro de todos os nomes que se foram inventando para repescar meninos desviados – porque os infelizes eram, de facto, todos aqueles que insistiam, diariamente, em aplicar semelhante sofrimento em nome da Humanidade e do Estado de Direito que decretou a Lei de Bases do Sistema Educativo.

Se tenho simpatia pela senhora de 70 anos, com enorme vontade de aprender, abomino jornalistas impreparados – porque também me passaram pelas mãos sem nenhuma capacidade para formularem sequer uma ideia ou uma frase correcta – e parece-me altura para denunciar uma imprensa de espectáculo, sem critério ou um mínimo de preparação funcional, nem ética.

Post de HMJ

Do cancioneiro tradicional castelhano (3)


Pelo mar abaixo
lá vai Catarina,
as pernas de fora,
um frade por cima.

Franz Schubert / Alfred Brendel : "Seis momentos musicais" (D 780)

Para alguns, poucos...

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Abel Salazar


Ao iniciar a leitura do segundo volume da biografia (política) de Álvaro Cunhal (Temas e Debates, 2001), por José Pacheco Pereira, fiquei agradavelmente surpreendido ao saber que aquele tinha grande admiração pela obra de Abel Salazar (1889-1946), e lhe dedicara algumas referências críticas elogiosas na correspondência que trocaram.
Lembrei-me das primeiras pinturas de Abel Salazar, que conheci, no início dos anos 70, em casa de um amigo, perto de Urgezes, nos subúrbios de Guimarães. Pequenas telas intimistas, de interiores, com singular tratamento da luz, que me deixaram fascinado. Mais tarde, tomei contacto com mais trabalhos pictóricos deste médico nascido em Guimarães, que pintava muito bem, na Sociedade Martins Sarmento.
E porque lhe admiro, também, a obra, hoje, concluí que as suas pinturas talvez estejam subavaliadas e ele, como bom pintor, está muito esquecido por quem gosta de pintura portuguesa. Por isso, aqui o venho recordar pelo seu auto-retrato, por uma paisagem e ainda pela jovem das Galerias Lafayette.



Registo


Para que conste, aqui fica exarado que vi, esta tarde, a primeira nuvem de estorninhos sobre Lisboa. Cedo para o que é costume. Será por causa do calor intenso que se tem feito sentir?

Desmesura e desproporções


Já não nos bastava o canónico Espesso, com os seus quilos de publicidade, atrás...
Pois hoje o Público esmerou-se, talvez com inveja. Mimoseou-nos com palha imensa. Ao jornal, propriamente dito, com 48 páginas, acrescentaram de brinde o suplemento Empresas (96 + XVI páginas), mais o lindo encarte Share, a cores, com 52. Arre!
Eu sei que os jornais precisam de publicidade para sobreviver, mas assim é demais. Ao menos, que distribuíssem a palha, que ninguém quer ler senão os próprios anunciantes, por vários dias. É que assim nem os braços dos leitores aguentam...

E sobre as pombas


Tudo me parece lento no requebro das pombas. Ou sensual, quase diria. É certo que os pombos, em namoro, enchem o peito de ar e perseguem as fêmeas a uma velocidade razoável para as suas curtas pernas, mas tudo isso é momentâneo e arrulhante de empáfia.
Porque, ao que dizem, o seu horizonte de visão é muito curto. Daí só se desviarem dos obstáculos e dos perigos no último instante, e em voo aflitivo. E também vermos as pombas mortas nas ruas e estradas, atropeladas pelos carros. Mesmo assim multiplicaram-se nos útimos anos.
Porque são o ai Jesus! de velhinhos e velhinhas que não podem ter, em casa, animais de estimação. Deixam-lhes água em estranhos recipientes, normalmente de plástico, onde amoleceram, antes, pão ressesso e duro. E já ninguém as caça para a alimentação, ou persegue com malvadez, senão as crianças pequenas ou adolescentes jovens com instintos lúdicos ou perversos. Ganharam estatuto, enfim.
O seu voo é quase sempre errático e tenho grande dificuldade em caracterizá-lo. Parecem aterrar e voar com a mesma sem razão com que param para, curiosas, se interessarem por qualquer coisa que é atirada para o chão, seja comestível ou não. Até uma beata apagada ou um pequeno grão de areia, que irá fazer de mó na sua moela de animais sem dentes. 

domingo, 4 de setembro de 2016

Apontamento 89: Passeios por Lisboa - 3



Do último passeio pela Rua das Chagas e o Largo correspondente, ficou-me a vista de uma destas travessas que descem para a Rua do Elevador da Bica, subindo depois em direcção ao Miradouro do Adamastor. 

Ora, a canícula de hoje recomendava algum recato, não me atrevendo para lugares completamente desconhecidos. Comecei a imaginar os passeios e conclui que seria possível passar "debaixo" da sombra. encostando-me sempre a um dos lados do passeio. Assim foi. 

Voltei, então, à Rua das Chagas, porque me ficou, do último passeio, a belíssima e calma vista de uma Travessa, que é do Cabral, a descer do Largo fronteiriço à Igreja das Chagas.

Descendo, depois, pela Travessa (?) da Bica Pequena, descansei do calor no Largo do Stº Antoninho e, pouco depois, me encontrava na Rua de S. Paulo. O resto, subindo a Rua de Alecrim, de autocarro, já não tem história.

Post de HMJ, dedicado a Maria Franco

Em sequência, saia uma popular e vimaranense...

Perdoe-se a qualidade do som das gaitas de beiços, mas não é todos os dias que, por aqui, se ouve o Hino Vimaranense, que começava assim, se bem me lembro:

"Oh!, Guimarães, teu progresso e tua vida
é toda a nossa aspiração...

Ter ou não ter jeito


Quantos de nós, atraídos pela magia do preto e branco das teclas, nos sentámos, ao menos uma vez na vida, frente a um piano na efémera expectativa de lhe arrancarmos uma melodia?
Mas há coisas fatais: ou se tem vocação e queda, ou será inútil. Sempre fui desajeitado com instrumentos musicais e até a simplória e rudimentar gaita de beiços de infância, que aparece na imagem (à direita), nunca lhe dei bom préstimo. Ainda me compraram uma Hohner, mais sofisticada, mas o problema não era do instrumento, mas do instrumentista...



Também, mas de meu Pai, herdei uns maciços e bons antigos patins de ferro, pesadíssimos. Dois ou três dos meus melhores amigos de infância aprenderam a andar por eles, na garagem de minha casa. Eu bem tentei, mas depois de algumas quedas aparatosas, honestamente, desisti. Porque não vale a pena tentarmos torcer o destino: ou temos jeito, ou não. O mesmo pode também acontecer com os poetas. Mas anda por aí muito enganado, a pensar que trina ou canta... E continua. Gabo-lhes a cegueira ou a prosápia!...


Pinacoteca Pessoal 116


Fundamentalmente retratista, Jacques-Emile Blanche (1861-1942) era oriundo de uma família francesa da classe alta e com bons meios de fortuna. Os relacionamentos familiares com as celebridades da época permitiram-lhe, embora fosse quase um pintor autodidacta, retratar os mais conhecidos escritores e artistas do seu tempo, tais como Gide, Montherlant, Radiguet, Valéry, Mauriac, e Proust de quem era amigo. Mas também Bergson, Stravinski e Joyce entraram na sua galeria de famosos retratados. Bem como o pintor John Singer Sargent que, de algum modo, influenciou a sua técnica profissional.
Presentemente, uma exposição da sua obra está patente em Deauville, até 18 de Setembro de 2016.


sábado, 3 de setembro de 2016

Revivalismo Ligeiro CCXXXVII


Era um pouco como ou "Cavaleiro Andante" ou "Mundo de Aventuras". Ou se comprava um, ou outro. Melhor dizendo, uma espécie de antagonismo visceral que, na adolescência, nos fazia optar entre Benfica ou Sporting, nunca pelo dois. Pois nesse final dos anos 50, quando a canção francesa predominava, a dupla rival era: Gilbert Bécaud e Charles Aznavour. Este último acabou por predominar, até pela sua invejável longevidade.
Mas Monsieur 100.000 volts, como era conhecido Gilbert Bécaud (1927-2001), pelo seu frenesi dramático interpretativo e gesticulante, não deixava de ter os seus fãs dedicados, sobretudo pelos grandes êxitos "Nathalie" (estávamos na Guerra Fria...) e por "Et maintenant". Curiosamente, eu achava uma graça enorme à insólita canção "L'orange (du marchand)", ainda hoje não sei dizer porquê. Aqui a deixo, por isso.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Apontamento 88: Anualmente o mesmo negócio




Embora “fora de serviço”, entra pelos olhos o infame e chorudo negócio do chamado “Regresso às Aulas”. Este ano, como se pode ver pela imagem acima, a promiscuidade atingiu um novo patamar, i.e., uma plataforma de venda de livros, WOOK, associa-se a  uma cadeia – séria e recomendável – de venda de alimentação saudável.

Outro tanto são os folhetos cheios de mochilas, estojos e outro “material escolar” que, apesar de um discurso crítico sobre as despesas, parece conquistar, todos os anos, os mesmos consumidores. Então, as criaturas precisam, todos os anos, uma mochila nova, um estojo diferente ? Onde ficaram as canetas, as borrachas, os afias, etc. que sobraram do ano anterior ? De facto, nunca entendi tanto despesismo e comportamento acrítico com que os progenitores cumprem, sobretudo nesta matéria, as ordens dos “professores”, comprando, anualmente, os mesmos produtos daquela lista infindável de material de papelaria de uso corrente.

Dos livros nem falo, porque sempre recusei os chamados “Manuais”. Não suporto o nome de “fichas”, nem as “propostas de actividades”. E se os livros escolares fossem apenas antologias de textos, para o caso da disciplina de Português, as criaturas não teriam dores de costas para alombar com um indigesto e pesado “tijolo” de duvidosa qualidade.


Post de HMJ

Do cemitério ao museu


O primeiro clique deu-se-me há mais de 40 anos, no Museu Britânico (Londres). Dezenas de múmias egípcias perfilavam-se ao longo de um enorme corredor, ao alto em 4 filas, protegidas apenas pelo vidro, num exibicionismo feroz. Era evidente que ninguém processaria o estado inglês por este despudor e desrespeito, desconhecidos que seriam os descendentes destes falecidos norte-africanos de outras eras.
Do repouso eterno ou campo santo, quantos anos serão precisos para os mortos ocuparem lugar em museus ou exposições necrófilas?
Cerca de 3 séculos, em Portugal - poderia eu responder. Porque segundo o jornal Público, de 1/9/2016, as ossadas de várias clarissas do séc. XVII, exumadas em 1996/7, no Convento de Santa Clara-a-Velha, foram objecto de uma exposição, em Coimbra.
Que se estudem os despojos, acho bem. Algumas conclusões importantes se poderão retirar, que serão decerto úteis para a Ciência e para a História. Mas que se exibam em exposição os restos de seres humanos, neste despudor cru e desumano, parece-me revelar uma enorme falta de respeito por aqueles que já nada podem fazer para defender a sua privacidade. Tempos de exibicionismo e espectáculo, que não olham a meios...

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Exemplo a seguir



No jornal, on-line, El País, li hoje a seguinte notícia:

"La Biblioteca Nacional [de Espanha] sube otro escalón tecnológico. A partir de este jueves los usuarios podrán fotografiar fondos bibliográficos anteriores a 1880 con sus dispositivos personales (teléfonos móviles o tabletas). Este servicio de autocopia pone fin a la dificultad que supone para los investigadores tomar notas a mano o no encontrar lo que buscan para sus estudios entre los fondos digitalizados. La institución argumenta que la medida no daña a los documentos y que facilita la tarea de quien los usa."


Aqui fica o apelo para ver se a nossa Biblioteca Nacional segue o exemplo, porque seria de grande utilidade, sobretudo para quem estuda o material tipográfico usado na impressão dos livros.

Post de HMJ

Citações CCXCV


Um filósofo escapa à mediocridade apenas através do cepticismo ou pela mística, únicas maneiras de desesperar do conhecimento.

E. M. Cioran (1911-1995), in Syllogismes de l'amertume (1952).

Divagações 115


Para que nos serve o saber, a cultura, o conhecimento? E tê-los, em parte, pode fazer-nos mais felizes? Tenho dificuldade em responder pela positiva. Muito embora, e na boa tradição judaica, que frequentes vezes George Steiner gosta de lembrar: o conhecimento é aquilo que ninguém nos pode tirar.
Por outro lado, o saber técnico ou científico tem, também, as suas utilidades práticas. E, quanto ao lado humanístico do conhecimento, ele poderá, entre outras coisas, permitir contar histórias. Que é uma coisa a que quase nenhum ser humano se negará a ouvir. Desde os tempos longínquos em que os homens se sentavam, à noite, em volta do fogo para se aquecerem, e conviver.
Nada disto porém se cruza, obrigatoriamente, com essa coisa inefável a que, à falta de melhor,  chamamos felicidade...

Adagiário CCLIX : Setembro (8)


1. Setembro, andando e comendo.
2. Para vindimar deixa Setembro acabar.
3. Aí pela Senhora da Ajuda (8), às sete é sol-posto.
4. Pelo S. Mateus (21), faz conta das ovelhas que os borregos são teus.