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quarta-feira, 21 de maio de 2014

A fatal continuidade portuguesa dos maus exemplos antigos


Já aqui falei (Bibliofilia 24, em 1/8/2010) deste senhor, Teotónio Gomes de Carvalho (1728?-1800), medíocre poeta (Tirse Minteu, arcadicamente) que, com Garção, Quita e Cruz e Silva, fundou a Arcádia Lusitana, em 1756.
Se era canhestro a poetar, não o era a saber viver. Era um digno antecessor dos nogueiras leites e dos nobres guedes, que hoje se multiplicam pelas administrações chorudas das maiores empresas portuguesas. Nas Recordações de Jacome Ratton (pgs. 219/20), o autor traça-lhe, indignado, o perfil:
"...Esta mudança da Junta em Tribunal attribue-se á influencia do Secretario, Theotonio Gomes de Carvalho, para com o Arcebispo Confessor, a quem fôra apresentado, e recommendado por Joaõ Ferreira, algum tempo antes; e foi obra de poucos dias, que o dito Secretario se demorou no sitio das Caldas da Rainha, aonde se achava a Soberana, naõ lhe cabendo no tempo formalisar os Estatutos, que deixou para mais de vagar. Mas como se visse nomeado Deputado, e Secretario, cujo rendimento conhecia perfeitamente, naõ tratou mais da organisaçaõ dos estatutos, por naõ esperar melhoramento nos seus interesses; e para os segurar mais cessaraõ os lugares de Deputados de ser trienaes. Era entaõ Presidente do Real Erario, que tambem o ficou sendo da Real Junta, o Marquez de Ponte de Lima, sobre o qual adquirio o dito Theotonio Gomes de Carvalho huma decidida influencia ao ponto de que sendo Deputado, e Secretario da Junta, e mesmo presidindo como Deputado mais antigo, nas faltas do Presidente, foi desde logo nomeado primeiro Director da Real Fabrica da Seda e Obras das Aguas livres, a que se seguio a administração arbitraria do Porto franco, depois a das Sette casas, e finalmente o lugar de Conselheiro da Fazenda do Ultramar. Julgue o meu leitor como seriaõ desempenhados os empregos de que este homem se achava encarregado, e se convem ao Soberano permittir taes cousas nas administraçoens Publicas, e de Justiça; julgue mais o leitor como andariaõ os negocios da Real Junta com hum Secretario, Deputado, e o mais do tempo Presidente..."

domingo, 1 de agosto de 2010

Bibliofilia 24 : Cruz e Silva, Teotónio Gomes de Carvalho



A Arcádia Lusitana foi mais importante como projecto teórico de renovação literária do que, propriamente, por aquilo que veio a produzir. O seu teórico, mais consistente e poeta conhecido, foi Correia Garção, sócio nº 4 da Arcádia que iniciou as suas sessões em 11 de Março de 1756. Mas o grande entusiasta e dinamizador terá sido António Dinis da Cruz e Silva. Tanto é que, quando este poeta e jurista de profissão se ausentava, as sessões diminuiam.
O folheto que se mostra, "Dythirambo, cantado...", foi escrito por Cruz e Silva e pelo seu amigo Teotónio Gomes de Carvalho que fez pouca poesia, mas fez muito pela sua vida... Teve altos cargos na Monarquia e empregos chorudos. O opúsculo que se apresenta não é raro, provavelmente, mas, desde que o comprei, por volta de 1990, nunca mais vi nenhum à venda. Custou-me, em Lisboa, Esc. 550$00, ou seja, cerca de 2,75 euros.

Em tempo:
no Boletim Bibliográfico 55, de Luís Burnay (Outubro de 2014), sob o lote nº 483, vinha um exemplar semelhante para venda (também de 1776) ao preço de 45 euros.