quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
Lembrar Eugénio
Já o disse várias vezes e teimo em repeti-lo: a prosa de Eugénio de Andrade (1923-2005) é, por vezes, tão bela quanto o é a sua poesia. Ora, pois, ouçámo-lo:
Há poucos brinquedos na minha vida, mas, além do arco, do pião e da bilharda, a minha infância está cheia de sol, cheia de água. E do calor quase materno dos animais. Meu avô comprara-me uma cabra e três ou quatro merinos. E nós já tinhamos um burro e um cão, além das galinhas e do pato. Eu adorava aqueles borreguinhos com olhos de rola e, depois, a imaginação das crianças é muito vasta: o pequeno engenho feito de juncos por um primo meu facilmente se convertia em azenha. Um rego de água era o mais irreal e navegável dos rios, os bichos feitos de bugalhos e gravetos ganhavam vida por encanto. Chapinhar numa poça de água ou transformar uma cabra em cavalo persa, se isto não é felicidade, então a felicidade não existe. Os cavalos, sim, foram uma paixão minha, mas só um pouco mais tarde, dos sete para os oito anos, já em Castelo Branco, quando comecei a ver o Tom Mix no Cinema Vaz Preto. E foi ainda naquela cidade que tive isso a que talvez se possa chamar o primeiro brinquedo - uma trotineta. Ninguém se lembra já de me ter visto passar pelas ruas belo como um anjo proa. Mas com ela fui assim uma espécie de Fernão de Magalhães dando a volta ao mundo: descia do castelo e só parava no jardim do Paço, depois regressava a casa a horas do pão com compota de ginja e o sorriso da mãe - tão merecidos.
Eugénio de Andrade (19/1/1923 - 13/6/2005), in Do Silêncio à Palavra.
domingo, 17 de janeiro de 2021
Sob o signo do policial
Domingo gélido, em que tivemos de esperar pelo aquecimento do carro para descongelar a fina camada de gelo nos vidros do automóvel, a fim de arrancarmos para a média superfície a fazer compras. Pouca gente por lá: íamos muito cedo...
Tenho vindo, entretanto, a poupar a reserva de livros por ler, dando prioridade à grande quantidade de policiais (Colecções Vampiro e XIS) não lidos, que tenho por aí, em benefício doutros volumes com qualidade literária ou afins, que esperam por outros dias mais felizes.
Acabado, ontem, O Touro Etrusco (XIS, nº 193), de Frank Gruber (1904-1969), começarei hoje O Espião Amador (XIS, nº 154), do inglês Michael Underwood (1916-1992). À tarde, na RTP 2 (18h09), mais um episódio de Il Giovane Montalbano. Que não me desperta grandes expectativas: Andrea Camilleri (1925-2019) não respeita, em princípio, as regras de ouro, que S. S. van Dine (1888-1939) definiu e bem, há muito (1928), para o verdadeiro e genuíno romance policial...
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
Curiosidades 84
Dizia Brillat-Savarin (1755-1826), que o terá conhecido de perto, que Napoleão Bonaparte (1769-1821) comia mal e depressa. Outras fontes revelam que 10 minutos lhe eram suficientes, a uma refeição, e, só por amabilidade ou diplomaticamente, ele aguentava mais do que 30 minutos à mesa. A alimentação familiar da sua infância, na Córsega, não era muito pródiga, também, por várias circunstâncias. O grande Corso preferia comer à mão, sem usar talheres, como aliás fez com o Frango à Marengo que lhe preparou o seu cozinheiro particular Dunand (François Claude Guignet), a 14 de Junho de 1800, após a célebre batalha.
A receita original, e à falta de melhor na altura, terá sido confeccionada com 3 ovos, 4 tomates, cebola para o refogado, 6 camarões (lagostins de água doce?) e um franguinho do campo. Hoje, há muitos que lhe acrescentam cogumelos, muito embora parece não terem entrado na receita primitiva. Napoleão gostou imenso e terá dito para Dunand: Tu m'en serviras comme ça après chaque bataille! Em jeito de bónus, acrescentemos que, no que diz respeito a frutas, à sobremesa, as preferidas de Bonaparte eram as cerejas, as uvas e as tâmaras depois da campanha do Egipto. Gostava de café bem forte, finalmente.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
Últimas aquisições (30)
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Desabafo (61)
Eu, pobre eleitor do próximo PR português, tenho uma enorme dificuldade em perceber a coerência do rigor do próximo confinamento aconselhado por algumas altas figuras da nação, por um lado, e o encontro (festivo, aguerrido e dinâmico?) dos vários pretendentes (todos ao molho e fé em Deus?) a Presidentes, num debate pré-eleiçoeiro, na RTP 1 e RTP 3, por volta das 21h55 de hoje, por outro.
Por onde andarão a moralidade e o bom senso?
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Filatelia CXLI
Não sei se o Brexit foi, para o Royal Mail, motivo justificado e suficiente para a emissão de alguma série de selos, na Inglaterra. Em 1973, e após dois vetos da França personificados por Charles de Gaule (1890-1970), que recusava a sua admissão por desconfianças sobre a Commonwealth, desaparecido o General, o governo de Edward Heath (1916-2005), movendo influências e diplomacia, conseguiu que o Reino Unido ingressasse na Comunidade Europeia, facto que justificou a série filatélica, de três selos, em 1973, conforme imagem.
Mas logo quatro anos depois (1977), os correios ingleses não se esqueceram de celebrar, também em selos, a cimeira dos chefes de governo da Commonwealth... Razão tinha De Gaulle.
domingo, 10 de janeiro de 2021
Mercearias Finas 165
Dizia José Quitério (1942), na sua ampla sabedoria e competência culinária, que o único prato de alta gastronomia portuguesa era a Perdiz à Convento de Alcântara. Mas, neste décimo dia do novo ano de 2021, confinado parcialmente, HMJ resolveu-se a confeccionar um Cozido à Portuguesa, com todos os matadores, e eu a abrir, cerca de 2 horas antes, uma magnum alentejana de 2010. Que, como diria José Régio (1901-1969) poeta (ao contrário, e com o portalegrense Suão...), este frio esfarela os ossos,/ dói nos peitos sufocados, pelo seu severo rigor penetrante, convidando assim a vitualhas robustas e aconchegantes.
Do Pêra Doce (Trincadeira, Aragonez e Syrah), alentejano e com 13,5 º, com os seus 10 anos completos, estava eu com receio, porque os desta região demarcada querem-se jovens, normalmente, ao beber, embora alguns raros, clássicos, se aguentem muito bem na velhice, e com nobreza. Este portou-se lindamente à altura das expectativas. E, do Cozido, nem se fala, que o silêncio é de ouro e recomenda-se!...
sábado, 9 de janeiro de 2021
Um CD por mês (21)
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
Citações CDLIV
Quem foram os loucos que espalharam a história de que a força bruta não pode matar as ideias? Nada é mais fácil. E uma vez mortas, nada mais há senão corpos.
Simone Weil (1909-1943), in Three Letters on History.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Osmose 119
Temos talvez a veleidade ou, mais propriamente, a ingenuidade de pensar que as constituições democráticas asseguram os equilíbrios ou evitam os excessos e ameaças de ditaduras. Esquecemo-nos de recentes exemplos na Hungria ou na Polónia. Basta um energúmeno, que não respeite as regras democráticas, para que tudo se possa subverter.
Alguns pacóvios ou apátridas vendidos ou sonhadores, ainda agora, devem considerar os E. U. A. como terra da liberdade e promissão. Quanto a mim, e depois do que se passou ontem no Capitólio, no que diz respeito aos norte-americanos, estamos conversados...
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
Mistérios...
O livro, que o meu amigo H. N. me recomendou, emprestando-mo, foi editado em 2011. Com 528 páginas e em bom estado, foi comprado, usado, num alfarrabista da rua da Misericórdia (Lisboa). E tinha a particularidade de trazer apensa, com um clipe, uma carta, dirigida, cordial e intimamente, ao Professor Diogo Freitas do Amaral (1941-2019), por um amigo, Alberto, de seu nome.
Por indícios e alguma investigação, que fiz, julgo que a oferta da obra terá sido feita por um colega de Direito mas, sendo as provas insuficientes, não revelo o nome do cavalheiro que se hospedou no Hotel Ritz, utilizando envelope e carta dessa unidade hoteleira.
com agradecimentos a H. N.
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
Dia de Reis
[imagens tiradas das Folhas Volantes: Auto das Regateyras e Auto dos Sátiros, ca. 1544/1558]
Post de HMJ, em geminação com o Prosimetron
O Corso
A qualidade faz o cliente.
Fui-me afeiçoando ao Le Point, à medida que os fui adquirindo e lendo. Mais do que a perspectiva histórica, este último aborda Napoleão, neste segundo centenário da morte (Maio de 1821), através dos lugares por onde passou, ou deixou a sua marca. Lê-se a revista assim, como se fosse um guia de viagens.
Como de costume, aconselho-a. Não sendo barata (9,90 euros), vale a pena e merece-os.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
O traço elegantíssimo
Talvez seja excessivo circunscrevê-lo unicamente como pintor, mas como caricaturista emérito, ele é dos mais dotados e primeiros, entre os portugueses. Emmerico Nunes (1888-1968), filho de pai português e mãe oriunda de uma família da Baviera, tem a sua obra gráfica espalhada por revistas alemãs e portuguesas e o seu traço elegante é inconfundível.
Munique e Paris são etapas do percurso da sua vida, até que em 1928 se fixou, definitivamente, em Portugal. Reconhecido pelo seu talento, cedo António Ferro lhe deu a mão... Hoje, algo esquecido, talvez poucos reconheçam Emmerico Nunes como autor da capa do velho livro de 3ª classe.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Uma fotografia, de vez em quando... (143)
Nascido em Berlim, Arnold Genthe (1869-1942) cedo emigrou para os E. U. A. e, embora tarde se tenha dedicado exclusivamente à fotografia (os seus estudos foram na área das Humanidades), foi a tempo de deixar inúmeros testemunhos do terramoto de S. Francisco (1906) e das ruinas provocadas.
Notáveis são também os sugestivos retratos de Isadora Duncan e do poeta irlandês W. B. Yeats, este último fixado em 1915.
sábado, 2 de janeiro de 2021
António de Almeida Mattos (1944-2020)
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Doces
Terminamos o ano, e bem, com a nossa habitual incursão no comércio local. O Mercado estava cheio de gente e bem recheado, desde marisco vivo - com uma fila de espera de meter medo - até uma bela oferta de docinhos. Não resistimos e trouxemos uma pequena variedade como consta da foto acima.
Post de HMJ
Em contraciclo
É de bom tom, tradicionalmente, jornais, revistas e pessoas fazerem, pelo fim do ano, o balanço dos livros ou melhores obras que leram, no decurso do ano que passou. Eu, porém, tenho uma pedra no sapato: há uma série de livros, altamente considerados pelos cânones literários que eu nunca consegui ler até ao fim, ou que abandonei ao principio da leitura - penitencio-me, embora, nalguns casos tenha tentado várias vezes, ao longo da vida, acabar de os ler.
Para minha vergonha (!), aqui vai, por ordem alfabética de apelidos dos escritores, a lista infamante:
1. A., Rúben - A Torre de Barbela.
2. Broch, Hermann - A Morte de Vergílio.
3. Céline, Louis-Ferdinand - Viagem ao fim da Noite.
4. Döblin, Alfred - Berlim Alexanderplatz.
5. Figueiredo, Tomaz de - Dom Tanas de Barbatanas.
6. Joyce, James - Ulisses.
7. Mann, Thomas - José do Egipto.
8. Musil, Robert - Um Homem sem Qualidades.
9. Pasternak, Boris - O Doutor Jivago.
10. Proust, Marcel - À Procura do Tempo Perdido.
11. Régio, José - A Velha Casa.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Carta de J. Guimarães Rosa para Óscar Lopes
Desconheço se esta carta, do singular romancista brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967) para o professor e historiador de literatura Óscar Lopes (1917-2013), está inédita. Quem me poderia elucidar, já não pertence ao número dos vivos - o meu grande amigo António de Almeida Mattos (1944-2020).
Provavelmente, a fotocópia da missiva destinava-se a ser usada no Jornal Letras & Letras, do Porto, em algum dossiê sobre o professor universitário, e que este a teria facultado ao meu amigo António. Que, dentro de um envelope, que já me estava endereçado, o meu Amigo não me chegou a enviar. Foi a Isabel, a quem agradeço, que, encontrando-a, ma fez chegar.
Nota pessoal: resta-me acrescentar o interesse da carta. E, lateralmente, lembrar as amenas relações que existiram entre o António e o Professor Óscar Lopes. O que ajuda a explicar que eu tenha a oportunidade de publicar, no Arpose, este documento.
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
Bibliofilia 184
Não são muito abundantes os elementos biográficos ou dados críticos sobre o poeta José Maria da Costa e Silva (1788-1854), que foi também tradutor e historiador de literatura. Óscar Lopes dedica-lhe apenas duas entradas mínimas na sua obra maior, apesar do escritor ter uma bibliografia extensa, como aliás Inocêncio refere nos volumes V (pgs. 25, 450), VII (120) e XIII (90) do seu Dicionário.
Se a tradução, em 1850, de Os Argonautas, de Apolónio de Rodes, foi bem recebida pelos seus leitores, o poema O Passeio, cuja segunda edição, aumentada, saiu em 1844, foi elogiado por José Agostinho de Macedo e Almeida Garrett. Dono de uma importante biblioteca, que contava cerca de 16.000 livros, sobretudo de poesia, Costa e Silva dedicou-se, já nos últimos anos de vida, à escrita do Ensaio Biographico-Critico sobre os Melhores Poetas Portuguezes ( 1850/9).
Obra monumental em 10 volumes (os 2 últimos livros são já póstumos) que, apesar de algumas inexactidões, lhe grangearam fama e prestígio, no final da vida. Consta de uma análise por escolas literárias, cronológica, e da recensão interpretativa dos vários poetas portugueses, com transcrições de muitas poesias. Este notável trabalho merecia ser mais bem conhecido. E lido...





































