sábado, 21 de maio de 2022

Passarada



Um melro dominante sobre o casario. Cantando ao meio-dia.

Lembrei-me dele mais tarde, já de noite, quando me pareceu ouvir, ao longe, o que parecia ser um muezim, repetindo por três vezes uma lengalenga que não entendi...

Veio-me assim à colação, também, a litania dos ceifeiros de Cuba, que Vitorino não desdenhou reproduzir, recantando:
"...Namorei uma rapariga,/ pares de meias deu-me dez!/ Quais, quais, oliveiras, olivais,/ pintassilgos, rouxinóis./ Caracóis, bichos móis./ Morcegos, pássaros negros./ Tarambolas, galinholas./ Perdizes e codornizes./ Cartaxos e pardais./ Cucos, milharucos, cada vez há mais..."

domingo, 15 de maio de 2022

Impromptu 62


Num desempenho singular de Rostropovich (violoncelo) e Britten (piano) tocando uma bonita sonata (D 821) de Franz Schubert, aqui fica este Impromptu, com uma duração maior do que o habitual, quanto a obras musicais no Arpose.

Nota : por razões pessoais, os visitantes e amigos não devem estranhar a ausência de postes e a eventual omissão de comentários, nos tempos mais próximos, muito provavelmente.

sábado, 14 de maio de 2022

Mercearias Finas 178



Registe-se, para que conste: na banca da Leonor, as de Sesimbra estavam a 6,50, de Peniche custavam 8,50 euros, o quilo. E a Tânia foi explícita: as mais baratas tinham sido pescadas de véspera e à noite, as sardinhas mais caras tinham aparecido na lota, já de manhãzinha. Mas a mim também me pareceram maiores. A banca estava muito bem fornecida. Pescadas 12,50, lulas, cantaril, carapau, peixe espada preto, linguado a 23 euros e até um peixe róseo-vivo que eu deconhecia e nunca tinha visto: salongo, a 18,50.
Mas não foi no Monte nem com a Leonor que fizemos a vernissage sardinheira, na companhia de um Fernão Pires, fresco. Mas na Trafaria, no restaurante do Rui, que nos iniciámos hoje. Se estavam boas, as sardinhas? Muito, e crescidas, embora ainda sem as gorduras habituais de Junho...

Um quadro para um aniversário



Para Margarida Elias, no 14º aniversário do seu blogue Memórias e Imagens, este Columbano, do Museu do Chiado, em música de câmara, com muitos parabéns e os nossos melhores votos de longa vida!

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Poema de Antonio Gamoneda (1931), em versão portuguesa



Existiam as suas mãos,
um dia o mundo fechou-se no silêncio,
as árvores, acima, eram amplas, majestosas
e todos nós sentíamos sob a nossa pele
o movimento da terra.

As tuas mãos tornaram-se suaves nas minhas
e eu senti a gravidade e a luz
e que habitavas no meu coração.

Tudo era verdade sob as árvores,
tudo era verdade. Eu entendia
todas as coisas, como se compreende
um fruto com a boca, a luz com o olhar.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Citações CDXXXIII



Eu creio que é preciso sempre um rasgo de loucura para construir um destino.

Marguerite Yourcenar (1903-1987), in Les Yeux Ouverts (1980).

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Assim vai a arte



Vai longe o tempo em que as obras de arte se adquiriam por gosto estético, por empatia cultural e, maioritariamente, sem ter em conta a eventual valorização do objecto. Hoje, na prática, quase tudo se compra no propósito de investimento e ganhos futuros. Esta serigrafia de Andy Warhol, semelhante a uma série de mais 4 que só diferem nas cores, atingiu um recorde, neste início do século XXI. Representante icónica da Pop Art, ultrapassou o anterior valor máximo de obra de arte, em leilão, que pertencia ao quadro Les Femmmes d'Alger, de Picasso, que também a Christie´s vendera, em 2015, por 170 milhões de euros.
A obra de Warhol foi arrematada por um conhecido galerista norte-americano (Larry Gagosian) e, o único aspecto que eu, subjectivamente, considero positivo, é que o montante apurado na venda será destinado à criação de sistemas de apoio de prestação de cuidados de saúde para crianças e programas educacionais.
Valha-nos, ao menos, isso!

terça-feira, 10 de maio de 2022

Memória 142



Por várias razões se justifica que demos destaque a este livro saído recentemente (Maio 2022). (E que, gentilmente, nos foi oferecido.) Até para que a memória não se perca, dos tempos enclausurados.

domingo, 8 de maio de 2022

Curiosidades 93



Quando temos ocasião de folhear catálogos antigos de leilões de livros, sobretudo realizados até meados do século XX, ficamos surpreendidos com a riqueza dos acervos de algumas bibliotecas do passado. Mas também acontece, por vezes, a partir dos anos 60/70 do século anterior a este nosso, os lotes em praça em outras almoedas nos decepcionarem pela banalidade dos seus conteúdos. Não assisti ao leilão da biblioteca de  José Blanc de Portugal (1914-2000), promovido pela Dinastia e organizado por Luís Burnay, em 30 de Abril e até 4 de Maio de 2001, cerca de um ano depois da morte do poeta. Mas, como consultei e analisei o catálogo, vou dar uma ideia muito geral do acervo bibliográfico e das temáticas mais representadas nessa biblioteca que, contendo muitos atados, era constituída por 2015 lotes.



Naturalmente, a poesia era predominante e, só em atados, contava com 124 lotes. O poeta mais representado era António Botto com 17 livros. Seguia-se Ruy Cinatti, com 15 obras, 7 delas com dedicatória para Blanc de Portugal; Ruy Belo com 9 volumes, todos dedicados. 8 de Sophia, também.
No leilão, havia dois livros do século XVI, sendo o mais antigo de Terêncio, impresso em Paris, no ano de 1552 (lote 1826). O século XVII contava 5 lotes. A estimativa mais alta de preços pertencia à 1ª edição (1934) de Mensagem, de Fernando Pessoa, lote 1474, que apontava para valores entre Esc. 200.000$ / 300.000$00.
Quanto a temáticas: Música e Ballet estavam representados por mais de 200 lotes; Seguia-se a Etnografia. Livros sobre Ciências Ocultas eram 149. Sobre a China havia 57 lotes, 5 dos quais de poesia.
Estranhei que, neste leilão da biblioteca de José Blanc de Portugal, só houvesse 3 obras de Camilo e que Sá de Miranda não estivesse representado, embora houvesse muitos lotes com obras de Camões.

Excerto e nota



"O primeiro  dever de um escritor é escrever aquilo que pensa, custe o que custar. Aqueles que preferem mentir não têm senão que escolher um outro ofício - o de político, por exemplo."

Georges Bernanos (1888-1948), in Le Chemin de la Croix-des-Ames.

Nota pessoal: católico e monárquico, posições ideológicas de direita que explicam, porventura, a diatribe contra os políticos no final da citação (acima), o escritor francês George Bernanos era, eticamente, um homem livre (Camus dixit) e isento, qualidades que o levaram a denunciar a barbárie do franquismo (Les Grands Cimitières sous la Lune, 1938) na Guerra Civil Espanhola, e a opor-se ao regime de Vichy e a colaborar, durante a II Grande Guerra, com a Resistência.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Realismo mágico ?



O título deste poste socorre-se do nome de uma corrente de ficção sul-americana que teve em Gabriel García Márquez um dos seus mais célebres cultores. É que, se não fora este livrinho (Cobras, lagartos e baratas, 2020) ter sido editado por uma instituição credível e séria, eu teria uma extrema dificuldade em acreditar em tudo o que lá vem escrito, a propósito de animais de estimação, em Portugal.


Pois logo no início do exergo deste pequeno volume, como se pode ler, João Loureiro, biólogo do ICNF,  refere insolitamente que:
"Há muita gente que tem muito mais do que trinta cobras em casa. (...)"
Parece inacreditável!

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Fragmento hospitalar


À minha frente, Orlanda S. começou a deslizar, sub-repticiamente, do assento hospitalar para o solo, sem ruído, ainda ligada à garrafa de oxigénio. O seu telemóvel foi o primeiro a bater no chão, motivando a atenção de uma e depois duas enfermeiras, magras, elegantes que, acorrendo e apesar da boa vontade, não conseguiram suster o corpanzil, enorme, da paciente até ao chão. Entretanto, José Z., gutural na fala arrastada, e na cadeira de rodas direccionada pelos pais, começou também a demonstrar alguma aflição visível. D. Eugénia M, na coxia direita do corredor central, começou a suspirar com desespero audível.
Para meu espanto e incredulidade, à porta da sala de espera, apareceram então, surreais, duas palhaças de bata azul a fazer momices e trejeitos toscos, para os pacientes. 
E José Z. , serenando, começou a bater palmas. Orlanda, depois da injeção, acalmou também um pouco, deitada no chão. Eu demorei, naturalmente, um pouco mais tempo...

Uma fotografia, de vez em quando... (158)



A atenção humana é, sem dúvida, uma das virtudes maiores de uma boa amizade. 
O meu amigo H. N. teve a grata lembrança de me remeter esta fotografia, acima, que reúne, algures (França?, Portugal?, Itália?, Espanha?...), cinco políticos socialistas que se davam bem. Não deixa de ser uma foto histórica, que muito estimei e que aqui fica.
Só lhe posso agradecer este seu gesto atento e amigo.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Divagações 179



Não terei visto muitos filmes de Michel Bouquet (1925-2022), actor falecido recentemente. Talvez Clouzot, talvez algum filme de Chabrol. Mas, aquele que mais me impressionou, terá sido Le Promeneur du Champs-de-Mars (em português: "O último Mitterrand", 2005), de Robert Guédiguian. Era uma interpretação magnífica deste grande actor francês, sobretudo de teatro. Uma experiência de vida semelhante, com a guerra pelo meio, ajudou talvez a compor melhor a figura de um dos últimos grandes Presidentes da República francesa. 
Dele dizia Michel Bouquet: Mitterrand é uma figura de romance. Olhos negros, rosto pálido, máscara de gesso, um homem muito diferente do animal político.
De si mesmo, entretanto, o actor traçava um retrato: Não me acho interessante. Mas terno, banal, insosso. São os desempenhos que acabam por me dar espessura.




segunda-feira, 2 de maio de 2022

Caves presidenciais



Não me lembro de ter lido ou visto alguma informação sobre os vinhos que porventura se guardam na adega do Palácio de Belém, para serem servidos nas refeições presidenciais. Será que existem, ou serão só comprados na altura para um uso definido e concreto?
Ao contrário, o último número fora de série de Le Point (referido no Arpose, recentemente - Les secrets de l'Elysée) consagra cerca de 2/3 da página 66 às caves do Palácio do Eliseu e às preferências e saberes enológicos dos oito presidentes da 5ª República francesa. O artigo destaca Giscard d'Estaing como o mais sabedor e apreciador de vinhos franceses. Pompidou especializara-se e gostava sobretudo dos grands crus do Médoc. Se Mitterrand era um gastrónomo conhecido quanto a comida (lembremos as hortulanas...), não era muito esquisito quanto a bebidas. Sabe-se da preferência de Chirac pela cerveja e dos gostos modestos de De  Gaulle quanto a vinhos. Sarkozy e Macron, ao que parece, não são grandes conhecedores. Hollande embora aprecie e conheça de vinhos, dada a acumulação de garrafas nas caves do Eliseu, e à crise, resolveu vender, em 2013, alguns excedentes vínicos, que totalizaram a considerável quantia de 700.000 euros. Entre eles, contavam-se alguns Petrus 1961, colheita famosa que fez a alegria de alguns coleccionadores que os vieram a adquirir.
Regressando a Portugal, sabe-se da preferência de Américo Thomaz pelo tinto Dão Terras Altas. Na nossa recente e democrática República, não estou a ver grandes enólogos ou conhecedores. Talvez Mário Soares, porventura. Dos restantes, quase todos eram comedidos como o rei D. Duarte, que até talhava o vinho com água - o que, no séc. XV, até se compreendia. Mas não hoje em dia...

Revivalismo Ligeiro CCCV

domingo, 1 de maio de 2022

Ora, aqui há 60 anos...



... Contava  Luiz Pacheco (no blogue Esplanar, e posteriormente no livro O Crocodilo que voa: entrevistas a Luiz Pacheco, de João Pedro George [Tinta da China, pgs. 214/5] o seguinte:

"Era um 1º de Maio (1962). Havia uma manifestação muito grande em Lisboa... havia greve, talvez... opá houve mortos e tudo, houve polícias que foram parar dentro do lago do Rossio... aquilo foi a sério... foi a primeira manifestação a sério que houve em Lisboa... foi a primeira vez que apareceram carros de água com metilene para marcar as pessoas, tinta que não saía... eles aí apanharam muita porrada, na rua da Madalena, no Largo da Anunciada... então a malta do Gelo, estava lá o Virgílio Martinho, que disse: «O que é que a gente veio cá fazer?» Respondi-lhe: «Então a gente veio cá mostrar o casaco... dar porrada? o que é que se pode vir a fazer...» e de facto estivemos no dia 1 de Maio muito sossegados. Eu sentei-me num cantinho, [...]"

Em sequência



Não terão sido só as cepas, por aí (como diz o rifão), a dar sinal de vida e alegria pelos finais de Abril. Também a sempre cumpridora Amaryllis, da varanda a leste, nos surpreendeu ao abrir em quatro frentes, florescendo radiosa. Até hoje, no passado, só o tinha feito com flores trigémeas...

Adagiário CCCXXXV




A boa cepa, Maio a deita.

 

sábado, 30 de abril de 2022

Recomendado : noventa e quatro



Louve-se a forma organizada, clara e ampla como são abordados os assuntos nestes números fora de série da revista francesa Le Point. Não estamos imunes, neste caso concreto, a um certo tipo de coscuvilhice nobre (como eu lhe chamo) que estas páginas de Les secrets de l'Élysée nos facultam. Com proveito cultural, muitas vezes, e alargamento de perspectivas políticas e históricas.
Por isso recomendo este número, muito interessante, de Abril/Maio de 2022, da conhecida revista francesa.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Do que fui lendo por aí... 50



Se, como pessoa, não tenho muita empatia com J. Rentes de Carvalho (1930), a sua forma de escrita agrada-me e convence-me, quase sempre, e não desgosto de o ler. Aqui vai uma breve amostra deste pequeno livro (capa em imagem) de pouco mais de 70 páginas, para que se possa ter uma ideia. Segue:

"É desnecessário cantar loas à cozinha transmontana, basta dizer que na sua simplicidade, quase rudeza, ao mesmo tempo que tira a fome parece satisfazer também necessidades ancestrais, causando aquele benfazejo sentimento que não é apenas o da barriga cheia, mas o da misteriosa e animal satisfação de todos os sentidos.
Claro que isso só se alcança à custa de poderosos ingredientes, carnes bem criadas e bem talhadas, francas gorduras, vinhas-d'alhos de alquimia secular, mas também pela aplicação do bom senso e do desdém das patetices da modernidade.
Muitos anos atrás, jantando em Milão com um amigo que conhece tão bem Trás-os-Montes como a Calábria onde nasceu, e discutindo a «cassoeula» que tínhamos defronte e íamos comer, explicava ele, com humor, que a boa cozinha italiana - "Só ela conta" - tem de ter de tudo um pouco, mas esse pouco abundante.
E foi assim que, comparando uma coisa com a outra, chegámos à conclusão que havia bastante em comum entre a "cassoeula" da Lombardia e as "casulas com butelo" de Trás-os-Montes, ambas tendo sido comida de pobre num ainda não muito longínquo passado, e promovidas agora a iguaria."

(Trás-os-Montes, o Nordeste [2017] - pgs. 53/4)

Beethoven / Brendel

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Versão portuguesa de um poema de W. S. Merwin



Quando a guerra acabar


Quando a guerra acabar
certamente ficaremos felizes e o ar
será bom, finalmente, de respirar,
a água fará crescer o salmão
e o silêncio do céu poderá expandir-se melhor,
os mortos hão-de chegar à conclusão que viver
vale a pena. Saberemos quem somos
e todos nós poderemos de novo 
assentar praça.



William S. Merwin (1927-2019), in The wreck of the thresher and other poems.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Citações CDXXXII



É a mulher que escolhe o homem que a há-de escolher. 

Paul Géraldy (1885-1983), in L'Homme et L'Amour (1951).

terça-feira, 26 de abril de 2022

Já saiu o número da Primavera



O número 16 da revista Electra já se encontra à venda. A temática nuclear é sobre Identidade(s) e as colaborações prometem, como é habitual.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

25 de Abril



48 anos.

(E à falta de cravos, aqui ficam estas 3 rosas bem bonitas, da varanda a sul.) 

domingo, 24 de abril de 2022

Últimas aquisições (38)



Não é muito frequente, hoje em dia, encontrarmos, em livrarias normais, livros com alguns anos, de casas editoras já desaparecidas ou em vias de extinção. Os chamados fundos, habitualmente e para poupar despesas de armazenamento, são guilhotinados sem quaisquer contemplações. Assim se perdem obras de reconhecido mérito e interesse, que desaparecem de circulação comercial. Ora, estes dois livrinhos da colecção Passagens, da Nova Vega, encontrei-os, novos e em bom estado, na Livraria Escriba, na Cova da Piedade. O preço era convidativo - trouxe-os para casa. O que foi uma boa decisão, no meu entender - o estudo sobre Herberto Helder é, no mínimo, bem feito, sugestivo e esclarecedor.

sábado, 23 de abril de 2022

Mangas a mais

 

Entre o rapazinho sobraçando um saco de plástico (à esquerda baixa), sob o patrocínio do reverendo ex- presidente, e o novo dirigente da UGT, parece sobrar tecido ou mangas...
Talvez herança de um avô maior que lhes doou um generoso casaco.



sexta-feira, 22 de abril de 2022