terça-feira, 2 de junho de 2020

Citações CDXXXV


O amor é a resposta mas, enquanto se aguarda a resposta, o sexo levanta algumas questões.

Woody Allen (1935), citado na Time (15/9/1975).

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Últimas aquisições (24)


Volto a insistir nos garantidos: W. G. Sebald (1944-2001) e Luis Sepúlveda (1949-20020), embora este último, numa parceria com Carlo Petrini.
Se Vertigo, em versão inglesa, encomendado para Köln, me chegou já há alguns dias, o outro livro adquiri-o, directamente, na Livraria Escriba, da Cova da Piedade, no final da semana passada.
Tenho boas expectativas nas leituras dos dois livros.

Revivalismo Ligeiro CCL

Adagiário CCCXI


O bom hortelão come pepinos pelo São João (24).

domingo, 31 de maio de 2020

Mercearias Finas 158


Nós íamos pelas sardinhas, mas a D. Leonor ainda não as tinha. Parecidos, só carapaus, que não nos apeteciam para hoje.
Só para a semana: em Junho é que começa a nossa pesca. A que tem havido é espanhola - não presta de sabor! - disse-nos com experiência a Senhora.
Na semana passada tínhamos levado um peixe-galo da banca dela, que estava bom e fresquíssimo.
Circunvaguei o olhar pelo mármore: douradas, azevias, pescadas, chocos e lulas, pregados, duas corvinas grandes, e um único goraz, que também é um peixe solitário. Raramente vai acarneirado ou em cardume, pelas águas marítimas...
O bicho era bonito e fresco, de guelras berrantes e olhos ainda bem salientes.



Ora, eu há mais de 20 anos que não ia em gorazes e HMJ nunca os provara. Fiz conversa sobre o caso, com a Dona da banca e a filha, que ao fim-de-semana, embora licenciada, vem sempre para ajudar a mãe. Fiquei a saber que, durante cerca de 10 anos, os gorazes quase desapareceram de venda (prenúncio de extinção?) e eram muito caros os poucos que apareciam. Recentemente, voltaram. Este, que me namorou, estava a 19,90 euros, o quilo, mas filei-o por escolha final apetecida.


Veio do Telmo um pimento vermelho para, com tomate e cebola, fazer a cama ao goraz, no forno, e, de fora, uma couve-flor maneirinha, em contraste de sabores. A provar, para a mesa, um branco de Pias, da colheita do ano passado, lotado por Arinto, Antão Vaz e Verdelho, com 13º comedidos, que bem exemplificou a sua nobre condição alentejana.
Como sou poupado e gosto de ser preciso, usando, normalmente, com parcimónia verbos (amar, adorar e outras fantasias de meninas pouco experimentadas e de cavalheiros serôdios) muito abusados, direi apenas que tudo estava nos conformes. E bom.

sábado, 30 de maio de 2020

Uma fotografia, de vez em quando... (141)


Por uma vez, vai anónima a fotografia que será, com certeza, de amador, mas achei-lhe graça, ingenuidade e frescura.  Nem terá havido preocupação estética de maior, por parte do fotógrafo, embora haja no conjunto (familiar?) uma certa harmonia. O instantâneo foi tirada em Portugal, talvez por esta altura do ano. Anónimos são também os figurantes e uma boa parte deles, senão todos já terão desaparecido.
Dei à foto um título simples, mas objectivo: As Pêras.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Pinacoteca Pessoal 165


Polifacetada artista (escritora, escultora e pintora), Marie Bashkirtseff (1858-1884) nasceu em território hoje ucraniano, mas cedo a família se fixou em França. A futura pintora fez a sua aprendizagem principalmente na Académie Julian, que já nessa altura permitia o ingresso de jovens alunas. Dessa escolaridade resultou uma das suas primeiras telas (acima) pintada em 1881.



Atacada pela tuberculose, faleceu com 26 anos incompletos. São-lhe reconhecidos cerca de 60 quadros, dado que muitas obras suas terão sido destruídas pelos nazis, aquando da ocupação de França, durante a II Grande Guerra.
Acima fica a imagem de um dos seus Auto-retratos, e O Encontro, pertencente ao acervo do Museu de Orsay, uma das suas últimas telas (1884).

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Caracterizações


Sempre apreciei retratos sucintos, afinados, precisos. Que reproduzissem o modelo com fidelidade. Caracterizações seguras, sugestivas e que, se fossem em palavras, até poderiam ter o seu toque surrealizante ou poético, desde que retocassem melhor a figura ou ajudassem à caricatura real.
Amigo meu, já falecido, era um retratista notável e feroz. Perguntando-lhe eu o que pensava de uma dama que, por sinal, era bem pequena, mas aparentemente muito assertiva, respondeu-me sorridente, de imediato: "É um cavaleiro!"
Há dias, no jornal Público, J. Pacheco Pereira é cirúrgico a caracterizar a índole mais íntima do nosso presente PR (a propósito do segundo mandato presidencial...). Refere ele que Marcelo é um "cínico lúdico." Quem sabe, deve saber.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Apontamento 135: Retomar e Clarificar a Retrotopia




Tendo falado no livro de Zygmunt Baumann, Retrotopia, verifica-se que os pensadores actuais não ultrapassam o diagnóstico, acrescentando pouco ou nada àquilo que as pessoas esclarecidas retêm, elas próprias, deste fim de festa. Falta-lhes, certamente, coragem para tirar as devidas lições de tantos estudos citados, como é o caso do livro em epígrafe, evitando desta forma algum desencontro com os poderes estabelecidos.

Convenhamos, voltar atrás não significa regressar aos padrões miserabilistas, de bem-estar, saúde, educação e cultura dos anos 50 ou 60 do século passado, mas saber tirar lições de uma competência básica de vida e autonomia sã de pensamento. Passar do diagnóstico ao prognóstico implicava coragem e propostas claras para nos salvar destes padrões omnipotentes e neoliberais. Significava aliviar a população desta vertigem para dependências espúrias, suportada pela comunicação social e pela publicidade, no sentido unívoco de uma vida de consumo, sem qualidade, sem sentido, sem civilidade nem sustentabilidade.


Zygmunt Baumann, 1925-2017


Resultado deste enorme desencontro mental, para não chamar estado esquizofrénico, é o que acontece, neste momento, com as companhias aéreas. Aceitam elas, com o consentimento do poder (?) político, uma injecção de capital público, indispensável à sua sobrevivência, rejeitando, de todo, uma regulação em função dos fundos recebidos. “Não haverá melhor investidor”, como diria um jornalista do DIE ZEIT, sublinhando o enorme defraudamento dos contribuintes.

Sem pretender fazer publicidade a um grupelho completamente execrável, que dá pelo nome de Ryanair, conspurcando com a sua postura rústica a imagem de uma país estimável como a Irlanda, vamos ter, com a mesma falta de coragem, uma Comissão da EU a ceder a estes “lobbies”, sancionando viagens de avião sem a obrigatoriedade de manter o devido espaço social de distanciamento (1,5 a 2,00 m), recomendado para os restantes espaços públicos.

A Retrotopia, ou uma outra racionalidade, começaria por um novo modelo, retomando a vertente intrínseca do Turismo, de cultura e civilidade, como via de conhecimento e convivência. A nobreza de viajar para conhecer nada tem a ver com as HORDAS que se preparam, nos confins dos seus tugúrios confinados, a embarcar, de qualquer maneira, rumo aos locais publicitados. Incompreensivelmente, os poderes políticos perfilam-se para acolher de novo os transeuntes indiferenciados em detrimento do valor supremo da saúde pública.

Oxalá que as pessoas, a troco de uns empregos precários e mal-pagos, não se arrependam de tanta liberalidade e de se subjugarem à publicidade enganosa.

Post de HMJ

Korngold / Schwarzkopf / Schüchter

Sociedades secretas e passagem de testemunhos


A italiana e mafiosa palavra omertá vem à colação a propósito do tema, mas não só. Ao longo da minha vida, os velhos de minha estimação e proximidade sempre me referiram o enfraquecimento da sua memória, alguns a puerilidade crescente das emoções, também a insegurança, a perda de forças e o cansaço progressivo, o balbuceio da voz e a cada vez mais difícil procura de expressão, outros o tédio do dejá vu e a repetição mesma dos grandes acontecimentos. Mais raros, me confidenciaram outras fraquezas mais íntimas, perdas de controlo, reacções infantis, incontinências...
Quando chegou a minha idade biológica de velhice, humildemente, procurei informar-me e preparar-me um pouco mais: li Cícero, Beauvoir... E todos eles eram omissos. Nenhum foi capaz de me informar,( malandros!), da fraqueza das pernas que sobrevém inexorável e fatalmente com os anos!
( Para que não me acusem de corporativismo, aqui fica o aviso aos mais novos. )

Lembrete 75


É o centenário. Passam hoje, exactamente, cem anos que nasceu o escritor Ruben A. (1920-1975).

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Eugeniana mínima (6)


Ao longo da vida, por gosto e proximidade estética, dediquei algum do meu tempo livre ao estudo da obra poética de Eugénio de Andrade (1923-2005), de que resultou a conclusão de dois pequenos trabalhos que foram publicados no DL o primeiro, em 9/11/1967, intitulado: Um Comprometimento Poético - Eugénio de Andrade, no Suplemento Literário semanal; o segundo, veio a aparecer no jornal Letras & Letras, em Agosto de 1990, com o título Pulvis et Umbra, integrado no dossiê dedicado ao Poeta.


Qualquer trabalho destes implicou muitos apontamentos ou notas prévias que haviam de vir, ou não vir a ser usados no texto final. Recentemente, encontrei uma folha minha manuscrita em que, num impresso do Exército, fui lançando citações da obra de Eugénio de Andrade referenciando três temas: Bicho e Animal, e versos em que se fazia alusão à Lua.
Conjugaram-se por ali, assim, associações poéticas, bem como marciais, porque, na altura me encontrava a cumprir o serviço militar (CHERET).
Acima, fica o testemunho.

domingo, 24 de maio de 2020

Georges Enesco (1881-1955) - Ciocarlia

Deixou-nos


Maria Velho da Costa nasceu em Lisboa, a 26 de Junho de 1938 e faleceu ontem, 23 de Maio de 2020, também em Lisboa.


sábado, 23 de maio de 2020

America, first!


Sempre conseguiram.
Há vários dias seguidos à frente no número dos infectados, por Covid 19.
Logo seguidos pelo Brasil, Rússia e U. K..

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Em sequência, de Ruben A., um pequeno extracto


(...) Pensão Penguim. Já estava esquecido do ambiente inglês - tive a impressão que entrava numa das pensões do Sul da Inglaterra. Só ingleses e para cúmulo só comida inglesa. Ao jantar a sopa parecia desmaiada - o peixe e a carne à rasca para se distinguirem de paladar, ambos com batatas ressequidas de acompanhamento, pouco gosto além do unto mal lavado. Os ingleses conseguem transportar para o estrangeiro o bom das suas maneiras e o mau hábito da sua comida. Desforrei-me nas laranjas. (...)

Ruben A. (1920-1975), in Páginas (VI).

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Recomendado : oitenta e cinco - JL


Há muito que o JL deixou de ser o que era. Gráfica e textualmente. Faz tempo que parei de o comprar quinzenalmente: eram sempre os mesmos suspeitos do costume, mais uns arrivistas novatos, colaboradores com mentalidade e escrita de província. E mais 2 ou 3 pseudo-eruditos que citavam, citavam muito...
Não foi por eles que comprei o JL, saído ontem. Foi pelo Rúben A. (1920-1975), que era tudo menos isso. O dossiê do jornal é-lhe dedicado, pelo centenário do nascimento. E bem.

Constatação


É triste constatar que a imensa maioria da humanidade, que chega ao meio da vida, tenha aprendido tão pouco. Google, Trump e Bolsonoro são bons exemplos extremos desta situação de nanismo. E o povão que elegeu os dois últimos bem pode ingressar na caudelaria, para sempre. Não vale a pena ter pena de não terem crescido um bocadinho mais. Pouco ia adiantar.
Amém.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Uma espécie de prefácio de Manoel de Barros (1916-2014)


Poesia Completa (Caminho, 2010).

Ideias Fixas 56


Para lá da saúde, que é essencial,  parece-me ser o sentido crítico imprescindível para evitarmos palermices e ter mundo suficiente para não andarmos sempre de boca aberta.
Ou como dizia uma associada e assinante do Almanaque de Sta. Zita: "Preciso de cismar". E,  entretanto,  engordava, engordava, não parava de engordar... Até que ficou míope e obesa.
Convirá não esquecer que há sempre dois tipos de miopia: a visual e a mental.
Sendo que uma é natural.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Bibliofilia 146


Nesta sua obra, A Journal of the Plague Year (1722), de Daniel Defoe (1661?-1731), vêm contabilizados 1.998 óbitos, em cerca de um ano de peste, na cidade de Londres. O livro foi um sucesso de venda e teve inúmeras reedições.
O meu exemplar é uma edição cuidada, de 1848, adornado de finas gravuras e em bom estado de conservação. Com introdução de Edward Wedlake Brayley, o volume terá pertencido a um provável cidadão irlandês, de nome J. J. O'Keeffe, que por cá andou emigrado.


Assim começa Um Diário do Ano da Peste, publicado, inicialmente, anónimo:

"Foi  por alturas do início de Setembro, 1664, que eu, bem como o resto dos meus vizinhos, ouvi dizer numa conversa banal que a Peste tinha voltado, outra vez, à Holanda; e que tinha sido muito violenta por lá, particularmente em Amesterdão e Roterdão, durante o ano de 1663, embora falassem que ela teria sido trazida, segundo uns de Itália, outros do Levante e ainda outros que teria vindo com a Armada Turca; outros afirmavam que da Cândia; outros ainda de Chipre.
Não importaria muito donde veio; mas todos concordavam que ela tinha chegado à Holanda, mais uma vez." [...]

Com encadernação original do editor, William Tegg, & Co. (Londres), em cor verde, a obra, por volta de 1980, custou-me Esc. 380$00. E creio que foi um bom preço, que o sr. Tarcísio Trindade me fez, na altura.



segunda-feira, 18 de maio de 2020

In


Hoje, o jornal vinha mascarado. Por muito horroroso que o problema seja, o sistema recicla, absorbe, recupera e põe a circular, ainda que com novas cores. Neste caso, suavizou a máscara com Piet Mondrian.
E pasme-se!, não fora a atenção gentil da dona da Tabacaria-quiosque, que me guardou um exemplar, o Público às 9h00 já estava esgotado.

Revivalismo Ligeiro CCIL

domingo, 17 de maio de 2020

Divagações 159


Uma coisa temos em comum, Luis Sepúlveda (1949-2020) e eu: nascemos ambos num hotel, acidentalmente, embora em anos e países diferentes de continentes diversos.
O tempo e a luz já me permitem ler na varanda a leste. Olho para baixo e vejo mais um figurante, dos muitos que se clonam, habituais e idênticos, interminavelmente repetidos, com as características banais de: obeso, cabeça rapada, calções escuros, chanatos de plástico.
Olho para a mesa, cá em cima, e concluo que, injustamente e a meio, classifiquei de livro menor Uma História Suja, de Luis Sepúlveda, que estou quase a acabar. A obra, no entanto e só por si, vale por 2 textos soberbos: Acerca da Luz (pgs. 198 a 200) e, muito principalmente, Infância (pgs. 204 a 210).
Quem puder que os leia. Ou releia.

sábado, 16 de maio de 2020

Citações CDXXXIV


Como havemos de definir esta gente (os franceses) que passam os seus domingos a proclamarem-se republicanos e os dias da semana a adorar a Rainha de Inglaterra, que se dizem modestos, mas estão sempre a proclamar que detêm a chama da civilização [...], que guardam a França no seu coração, mas as suas fortunas no estrangeiro [...], que detestam que critiquem os seus defeitos, embora estejam continuamente a criticar os dos outros [...]

Pierre Daninos (1913-2005), in Les Carnets du major Thompson (1954).

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Mercearias Finas 157


Não sei qual o motivo que presidiu a este almoço de homenagem, em 12 de Fevereiro de 1961, ao Cardeal-patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), nem sequer o local onde teve lugar (Lourinhã?).
Mas a escolha de iguarias pareceu-me criteriosa, a começar pela Canja de Galinha - confere!
O Linguado, também, mais os Escalopes. Fiquei no entanto intrigado com a sobremesa: o que será o Braço Gitano*? Será a favor do ecumenismo? Aprove-se também o Ananás, açoriano certamente.
Só foi pena a ementa não descrever os vinhos e os espirituosos...

* Posteriormente ao poste, vim a descobrir que esta sobremesa é a canónica Torta Recheada ou, como domesticamente se chamava, na minha casa minhota de infância, o Rolo (dominical). Recheado tradicionalmente com geleia de marmelo.

Um bom almoço, a quem ainda o pratica e cozinha, em casa!

Rachmaninov / Kanneh-Mason

quinta-feira, 14 de maio de 2020

2 Haiku de Yosa Buson* (1716-1783)


A primavera que se afasta
hesita
por entre as cerejeiras finais.

...

Chuva de primavera -
o tanque e o ribeiro
acabam por se encontrar.



* Yosa Buson foi, simultaneamente, pintor e poeta de renome, ainda hoje reconhecido no Japão.