sábado, 15 de dezembro de 2018

Revivalismo Ligeiro CCXL



Esta foi, creio, a primeira versão de Smoke gets in your eyes, das muitas que foi ouvindo, depois, por outros intérpretes. Numa idade que acaba por ser o cerne ou centro, em volta da qual, se limita, muitas vezes, o pico da cristalização essencial do gosto e da memória musical de cada um. Continuo a pensar que, neste caso, The Platters são ainda a melhor opção. Aqui ficam...

Divagações 138


No Mercado, a dona Irene lacrimosa, soluçando a tuberculose inesperada de uma jovem parente sua, de 21 anos, tinha o pinhão a 70 euros, o quilo. Mas eu, este ano, até já o vi mais caro, e menos bonito.
Daí, algumas confeitarias, por vezes, fazerem uma vaquinha com caju e até amendoim torrado que, como vem de África, sempre fica mais barato e dá mais lucro no Bolo-rei vendido. Como já notei, aqui há dias.
Porque isto de tradições é tudo uma questão formal e de parecer. Mas também de contágio, como a tuberculose. Quem já passou Natal e Ano Novo, sozinho, alguma vez na vida, sabe que o facto pode nada ter de dramático ou infeliz. Sobretudo, se for depois de um enorme dia de trabalho...
Desde que haja uma fatia de Bolo-rei, com pinhões autênticos, e outros com casca, mesmo que não esteja ninguém à beira, com quem jogar o Rapa (,tira e põe), como a lembrar a infância de outrora.
Não farei coro com Sartre, a dizer que o Inferno são os outros, mas o Comércio é que leva à obrigação devota e clonada de afivelarmos, por uns dias, esta máscara de solidariedade e alegria, formais, sem mesmo reflectirmos, realmente, se estamos de bem com a Vida. E com os outros...


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Pinacoteca Pessoal 143


Nascido em Praga, de uma família de aristocratas, Józef Czapski (1896-1993), escritor e pintor, foi testemunha presencial da duas Grandes Guerras, embora, também, um declarado pacifista. E um dos poucos sobreviventes do massacre de Kattyn.


Influenciado por Cézanne, a sua obra pictórica, no entanto, não reflecte os horrores das duas guerras, por que passou, talvez por uma omissão voluntária e pessoal.


Pequena história (54) : quantidade, qualidade e percentagens...


Ao Screen International (25/10/1977), Gregory Peck (1916-2003) descreveu o seu primeiro contacto com Gary Cooper (1901-1961). Deste modo:
Eu conheci Gary Cooper pouco depois de chegar a Hollywood. Ele perguntou-me quantos filmes eu tinha feito: "Dois." Ele já tinha feito 62. Depois, interpelou-me sobre que tal eram: "Um bom, outro mau." - respondi. E ele: "Vais à minha frente." E continuou a referir que, de cada 5 dos seus filmes, apenas dois eram bons.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Henri Vieuxtemps (1820-1881)

Romaria


Elas já começaram a chegar, as visitas. Este ano talvez um pouco mais tarde do que habitualmente. Elas vêm da Suiça, do Brasil, do Portugal profundo, de França, dos Estados Unidos, eu sei lá...
Peregrinam, devotas e gulosas, até à receita dos Mexidos de Natal (poste de HMJ, de 24/12/2012), numa sofreguidão talvez platónica, que decerto não dará sequer receita objectiva e concreta nas suas casas...
Como moscas esvoaçantes sobre a marmelada recém-feita, as visitas chegam em bandos, todos os anos, pouco antes do Natal. Previsíveis e sazonais, em rebanhos atávicos de romaria estereotipada, sempre...
Terceiro poste mais frequentado do Arpose, conta até hoje com 1.223 donas (?) de casa-romeiras.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Estrangeiros, de nação


Se formos a ver, e ponderarmos bem, podemos quase sempre encontrar, em cada nacionalidade que conhecemos, um exemplar que nos traz boas memórias. Daí ser um erro a generalização absoluta.
Os primeiros húngaros que conheci (anos 60) eram simpatiquíssimos e discretos. Ainda antes, e para encerrar o périplo do ex-império austro-húngaro, a Christine da minha infância era suavíssima e bonita, para os meus tenros anos. Se os parisienses de 63 não me deixaram grandes recordações, sobretudo os taxistas, já o ano de 1964 se encarregou, da melhor forma afectuosa, de me corrigir a impressão, no mês de Agosto seguinte. De japoneses, que me lembre, só conheci um: era urbano, sucinto, cerimonioso até demais.
O Julius Ceasar Thornton ficou na galeria dos mais simpáticos estrangeiros. Norte-americano, negro e pequenino, gostava de ver a saída dos teatros e cinemas, para apreciar as indumentárias elegantes das senhoras portuguesas - dizia ele. Isto, nos anos 60/70, evidentemente. O Julius, além disso, arranhava muito bem o português, e sem sotaque brasileiro. Desta última nacionalidade, conheci alguns, tudo boa gente e, sempre, aparentemente bem disposta.
Farei justiça ao dizer que sempre me dei bem com os ingleses, ainda que o formalismo predominasse e excluísse qualquer possível intimidade. O Ben (escocês) foi a grande e boa excepção. Além da correspondência filatélica (intensa, aliás) que troquei com o Harry, que vim a conhecer depois, pessoalmente, em Londres, no ano de 1976. O mesmo direi dos alemães, por variadíssimas razões, até familiares. O único senão, um obermeister, manco da II G. G., que nos espiava e fiscalizava, de palanque alto, a nós, trabalhadores-estudantes sazonais, na Servais-Werke, de Witterschlick, perto de Bona.
Gosto dos belgas, assim de forma peremptória e sincera. Quanto aos espanhóis, não fora alguns poetas (Aldana, Quevedo, Machado, Jiménez, Gamoneda...), de minha grande eleição, e um Mario, laico e madrileno, sério e afável, teria dificuldade em lhes achar graça. Talvez os 60 anos castelhanos, em que andaram a aperrear-nos, tenha nisso alguma razão pessoal. Quanto a galegos e catalães, tenho-lhes apreço. Uma pequena referência, a um país das nossas antípodas: a Nova Zelândia. Três senhoras encantadoras ocupam-me o espaço memorial.
E por aqui me fico, decerto com algumas omissões involuntárias, se calhar injustas.

Citações CCCLXXXIV


Se querem saber o que Deus pensa do dinheiro, olhem só para as pessoas a quem ele o deu.

Dorothy Parker (1893-1967).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Para aperitivar o almoço



Nós vamos no Bacalhau à Braz. Mas sem felinos por perto...

O pirómano de serviço


Na boa senda de um certo tipo teórico de conspiração freudiana e psicanalítica, há quem defenda que, no fundo, os cirurgiões são apenas sádicos sublimados. E os polícias, ladrões envergonhados. Mas também há pirómanos camuflados de sportinguistas...

Do que fui lendo por aí... 24


Este senhor Carrère, francês de nacionalidade, terá exagerado um pouco, segundo Castelo Branco Chaves, nas suas anotações sobre Portugal e, sobretudo, a propósito de Lisboa e seus costumes, no já remoto ano de 1796. Mesmo assim, dêmos-lhe a palavra no que à mendicidade, na capital, dizia respeito:

"Lisboa está cheia de mendigos. O forasteiro fica escandalizado com tal abundância; pululam em toda a parte, enxameiam em todos os sítios. Investem-nos nas ruas, nas praças, nos estabelecimentos, à porta das igrejas, invadem os templos do Senhor e interrompem as orações dos fiéis com as suas choradeiras. Sobem às residências, batem a todas as portas e quase não chega um só criado para atender às suas impertinências. Por toda a parte se encontra estes seres sujos e repugnantes, que, em vez de inspirarem piedade, fazem fechar a mão esmoler pela repugnância que inspiram enchendo-nos os ouvidos de lástimas arrastadas e gemebundas, ao mesmo tempo que apavoram e nauseiam pela sua sujidade e bicharia que os mina." (pgs. 88/9)

E eu acrescentaria que este sr. Carrère não viu nada, comparando com os dias de hoje e a chusma de romenos romani, esses sim, profissionais apurados da pedinchice como modo de vida, com as suas chocalhantes latas de esmolas, mais o seu resmonear ininteligível e plangente, por essas ruas de Lisboa...

domingo, 9 de dezembro de 2018

Era uma vez em Paris, há cerca de 50 anos...

Impromptu (38)


Creio que, mesmo aqueles que têm boa boca, possuem os seus desagrados de estimação alimentares. Eu não sou excepção. O chispe, por exemplo, não vai bem comigo. Menos ainda, pratos onde entra o peixe-espada e com excessiva razão: nos quase dois anos em que passei por Coimbra, tive sempre à mesa, pelo menos 2 vezes por semana, peixe-espada frito - saturei, definitivamente, daquela carne mole. Também não vou muito à bola com  mãos de vaca, seja com grão ou à jardineira...
Tirando os cinéfilos fervorosos, grande parte dos espectadores de cinema prestam pouca atenção aos genéricos finais dos filmes. Nessa altura, já grande parte do público se levantou das cadeiras e se dirige para a saída da sala de cinema. É desta maneira que, por vezes, se podem perder algumas pequenas pérolas interessantes, de alguns realizadores mais singulares. Como por exemplo, João César Monteiro (1939-2003).
No final do seu Vai e Vem (2003), e no capítulo dos agradecimentos, o realizador registou, familiar e de forma comezinha: a "Rita Azevedo Gomes, pelos pézinhos de coentrada".
Ora, pois este é o quarto prato, da gastronomia tradicional portuguesa, de que eu não gosto nada...

sábado, 8 de dezembro de 2018

Cioran, ainda


24 de Abril de 1972

Acabo de percorrer um livro de X, com um grande sentimento de repulsa. Já não consigo suportar a inflação poética. Cada frase se aproxima da quinta-essência da poesia. E isto torna-se artificial, isso já nada exprime. Pensamos sempre sobre a inanidade da procura de palavras. - De há muito que abomino já todos os "estilos"; mas o que a mim me parece pior, é o dos poetas que nunca esquecem que o são.

E. M. Cioran (1911-1995), in Cahiers - 1957/1972. (pg. 982)

Jean-Philippe Rameau (1683-1764) : contradança de "Les Boréades"

Cioran e a velhice


A vantagem de envelhecer é de poder observar de perto a lenta e metódica degradação dos órgãos; eles começam a estalar, uns de forma flagrante, outros, de maneira mais discreta. Destacam-se do corpo, como o corpo se vai separando de nós: ele escapa-nos, foge-nos, já não nos pertence mais. É um desertor que nós nem podemos denunciar, uma vez que ele não parte para nenhures, nem se põe, sequer, ao serviço de mais ninguém. (pg. 997)

E. M. Cioran (1911-1995), in Cahiers - 1957/1972 (1997).



Nota pessoal: terminei ontem, cerca das 19h00, a parcimoniosa leitura poupada destes "Cadernos" de Cioran, obra que me levou quase 20 anos a terminar, procurando prolongar o mais possível este diálogo estimulante, que me foi útil e sempre agradável pela diversidade e riqueza das suas reflexões.
Em termos de comparação, poderei dizer que me deu muito mais prazer do que a leitura de "Guerra e Paz", de Tolstoi, que também foi lenta e morosa, mas por outras razões. Porque, bem vistas as coisas, um livro de ficção pode não excluir, também, a reflexão e o pensamento... Embora raramente isso aconteça. Principalmente, nos dias de hoje.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Apontamento 118: "Fabriqueta" natalícia



Este ano, a "fabriqueta" natalícia de bolachas começou bastante tarde. Por norma, começava-se logo no primeiro fim-de-semana de Dezembro. No entanto, a safra de hoje já deu para encher umas saquetas e caixas de oferta, preocupação máxima nestes preparativos natalícios.


São bolachas com massa enriquecida de mel que, no fim, fica bastante estaladiça. Espero que gostem do aspecto virtual.

Post de HMJ

Na Casa da Cerca


E porque não um passeio pré ou post-natalício, até à Outra banda?!
Pelo menos, Amadeo merece.

Revivalismo Ligeiro CCXXXIX



O Arpose tem andado muito animalista, ultimamente. Daí convocar-se, propositadamente, a cadela de Paul McCartney - Martha.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Despojos e nostalgia


As casas, hoje em dia, são pequenas e, normalmente, apenas andares onde desaguam as coisas de família. Tornam-se exíguas, para tanto passado e memória. O espaço nimba-se de uma claustrofobia irritante, por onde a circulação acaba por se tornar difícil.
O acto solene da leitura de um testamento e a venda em leilão do acervo de alguém conhecido, despertam em mim, quase sempre, um semelhante tipo de sensações, mistas de expectativas singulares, melancolia e desconforto físico, difícil de explicar.
A firma de leilões do Correio Velho começou a leiloar, a 4 e termina a 7 de Dezembro de 2018, uma parte do acervo pictórico de Victor Palla (1922-2006), em almoeda anunciada.
E a mesma sensação estranha toma conta de mim...


Comic Relief (146)



Coletes amarelos ou camisas de onze varas?
O povo francês não terá o que merece?!...


com agradecimentos a H. N..

Regionalismos ilhavenses (9)


Desta vez iremos  seleccionar mais algumas expressões ilhavenses começadas por m, e escolhidas na obra que temos vindo a consultar, ultimamente. Aqui vão os regionalismos que seleccionámos:

1. Má rôlha - velhaca, traiçoeira, desleal, sem carácter.
2. Macácias - os seios femininos.
3. Macacuano - indivíduo com ronha, com ela fisgada, interesseiro.
4. Maçaronga - pessoa lenta, muito mal arranjada.
5. Macòla - canastra pequena e baixa onde se expõe o peixe para venda; medida de peixe.
6. Marçòlas - cabeças de peixe.
7. Mareiro - vento que vem do lado do mar.
8. Mercantèu - comerciante de peixe grosso; mercador de peixe da Costa Nova; barco da ria usado no transporte de sal, pessoas e carga diversa.
9. Mota - trapiche; cais de atracação de barcos na ria de Aveiro.
10. Mulòca - raspanete; reprimenda; "Toma lá que já levaste uma mulòca!"


Ralph Vaughan Williams (1872-1958)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Uma capa, excelentíssima...


Depois do melro matutino, aqui no Arpose, em boa sequência zoológica, esta vaca verde que, por encomenda anterior do Greenpeace, veio a servir e capear o último TLS (nº 6035), de forma insólita, mas ecológica.
Para não falar dos vitelos voadores, de Paul Bond (1964), que aparecem na terceira página do jornal literário.


P. S. : provavelmente, nos próximos tempos, vamos ouvir falar muito de vacas: as agendas e agências mediáticas estão carregadas deste tema. Nem o circunspecto TLS escapou...
Quando chegará a vez dos porcos?

Sem mais


Apesar do frio, ao alto e sem resguardo, como se fora, no mastro, uma bandeira viva, o melro desafia o horizonte limpo. Só não canta, protegendo a garganta. Ou guardando-se para horas mais temperadas e melodias mais conformes de temperaturas mais amenas à sua condição desprotegida...

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Mercearias Finas 137


Por muito alternativos que sejamos, ou inovadores na originalidade e maneira de ser, todos temos rotinas, ainda que bissextas. Quando vamos, no fim-de-semana, ao mercado da estrada de Almoçageme, frequentemente no regresso, refeiçoamos em Queluz, até para reencontrar o inamovível e insubstituível Fernando, que já vai nos seus 58 anos, sempre leves, bem dispostos, ágeis e simpáticos dos seus mais de 40 de bom serviço. Antes, eu cumpro o meu indeclinável dever de ir cumprimentar e ver a minha amorável ribeira do Jamor, com os seus patos que, às vezes, se aventuram do Palácio, mas nunca chegam a Belas... A ribeira, por sua vez, é dissimuladora: parece tranquila mas, quando ganha força e poder, pode transformar-se em destruidora e assassina. Como já o foi, no passado.



Desta vez, e como o "Abílio" tem sempre peixe fresco e de confiança, fomos nos filetes de Linguado e nas Pescadinhas contorcionistas, com um malandro arroz de grelos, bem verdinho. Quanto ao vinho, a decisão foi mais lenta. A garrafeira do restaurante já não é a que foi, embora a quinta do Cartaxo, do sr. Abílio, octogenário, continue a produzir tinto, branco e uma aguardente bagaceira, ainda estimáveis, embora de alta graduação. E é por aqui que começa a história...



Não nos apetecia o vinho da casa. Perguntei ao Fernando, que foi avô recentemente, quais seriam as opções, a princípio, de brancos. Referiu-me o banalérrimo JP que eu raramente aprecio pelo excesso de sabor a Fernão Pires. E o Planalto, duriense, que, pouco mais tarde, me referiu já não ter, desculpando-se.
Fomos então para tintos, desmanchando a regra e porque também estava frio.



Falou-me, então, de um Lybra, que tinha sido engarrafado à má fila, por um consagrado produtor do Ribatejo que, tendo comprado as uvas Syrah, ao sr. Abílio da sua quintinha do Cartaxo, o comercializava sob o seu nome, para lhe dar um estatuto maior.
O tinto monocasta era realmente muito bom. O "produtor"-engarrafador, pelos vistos, é que deixa muito a desejar...
Para sobremesa, optámos por Arroz-doce e Maçã assada. E ainda passámos, ao sair, pela "Marianita", para trazer uns Sonhos enriquecidos e umas belíssimas Broas Castelar - que o Natal já anda perto!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Citações CCCLXXXIII


Alcançar o mar é um princípio da civilização.

Kemal Atatürk (1881-1938).

A propósito : "Par les ruines"...


60 anos depois, Paris oferece um espectáculo talvez ainda mais devastador e deprimente. Não se pode dizer senão que a persistência "revolucionária" dos franceses é apenas intervalar. Escapam umas gerações pelo meio, a quem queimam lojas e carros. O interior do Arco do Triunfo é que não merecia um tal vandalismo chunga desta nova ignorância...

Pequena história (53)


Nem todos os modelos de pintores ou escultores são conhecidos. Há muitos corpos anónimos e rostos sem nome que ocupam lugares destacados em museus e galerias de arte, por esse mundo fora, mas de quem nada ou quase nada sabemos, hoje. Muito menos, das suas vidas.
Edgar Degas (1834-1917) dedicou uma boa parte da sua obra escultórica (e de pintura) à Dança, actividade artística que ele muito apreciava. Uma das suas mais conhecidas esculturas, Petite danseuse de catorze ans, exibida, em 1881, pela primeira vez, teve fraca adesão do público e da crítica. Hoje, porém, é uma das suas esculturas mais célebres, e consideradas.


Os esboços preparatórios para a execução da obra foram muitos. Sempre tendo como modelo uma jovem bailarina e, às vezes, uma sua irmã, filhas ambas de emigrantes belgas; a primeira, de nome Marie Geneviève van Goethem (1865-1900) que trabalhava no corpo de ballet da Ópera de Paris.


Os tempos frequentes que ela dedicava a posar para Degas, obrigavam-na a faltar, muitas vezes, aos ensaios na Ópera. De tal modo que, pouco tempo depois da escultura estar terminada, a pequena bailarina foi despedida.

Para além de uma foto conjunta de Marie Geneviève, junto da escultura para que serviu de modelo, pouco mais se sabe da sua vida que, aliás, foi breve e obscura.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Parecer


Lembro-me de alguém, aqui há uns bons vinte anos, se ter lamentado por ser muito inseguro, embora nada o fizesse parecer. Como bem me recordo de lhe ter respondido que ele não aparentava insegurança e que, no fundo e para os outros, o importante era não o dar a perceber. Sobretudo, em funções de chefia.
Muitas vezes me perguntei se os traços de um rosto e/ou de carácter não definem e condicionam, irremediavelmente, um destino. Ainda hoje creio que sim. Há expressões faciais que despertam, nos outros, uma reacção epidérmica imediata, que tanto pode ser de simpatia, compaixão e proteccionismo, como de irritação ou desagrado.
O longo e aprofundado conhecimento do outro, no entanto, pode vir a corrigir essa primeira impressão emotiva, para a transformar, com fundamento e razão, numa apreciação objectiva das verdadeiras qualidades e defeitos reais desse outro ser humano, já mais próximo. Até porque uma expressão de candura pode esconder, muitas vezes, uma intensa perversidade; um ar fero e façanhudo pode albergar, em si, uma extrema bondade. Nada é o que é, tão simplesmente.


Os encenadores de teatro, bem como os realizadores de cinema, colam frequentemente, e talvez de forma injusta, um rosto a determinados papéis, que assim funcionam de protótipos, para os espectadores distantes e futuros. Deste modo, em sequência, os actores ficam prisioneiros de um destino e a desempenhar personificando, por toda a vida artística, uma simples faceta do bem ou do mal, a que raramente escapam, por causa do seu papel inicial.
Como não ver sempre nas expressões fugidias e ambíguas de Peter Lorre (1904-1964), o crápula, o cobarde e o mau? Ou como não ver na figura de Adelaide João (1927), a sempiterna infeliz empregada ou criada de servir? Das malhas do destino, por excepção, se livrou Raul Sonado (1929-2009), pela mão atenta de Fonseca e Costa, de se tornar no eterno cómico, quando o realizador lhe atribuiu (e muito bem) o papel grave e dramático do inspector Elias Santana, n'A Balada da Praia dos Cães (1986), apesar da oposição inicial de José Cardoso Pires, autor da obra em que o filme se baseou. E, curiosamente, também ele grande amigo de Solnado.