quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Pinacoteca Pessoal 155


Sendo esta temática individualizada e dedicada, normalmente, a um artista da minha preferência, abra-se, por uma vez, a excepção para contemplar três pintores que, por mero acaso, foram incluídos, simultaneamente, num mesmo leilão da Sotheby's. Cronologicamente, Honoré Daumier (1808-1879) com a tela "Antes da audiência".

Segue-se Henri Fantin-Latour (1836-1904), com um seu auto-retrato. E, finalmente, o pastel-aguarelado de Paul Gauguin (1848-1903) representando uma jovem rapariga, pintado entre 1885 e 1886. Das três obras, e se eu tivesse que escolher apenas uma, era com esta última que eu ficava.



Agradecimentos a H. N..

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Desabafo (49)


Em Coimbra, a cabra* venceu a vaca, definitivamente.
O magnífico reitor da Lusa Atenas, com pompa e circunstância, anunciou que a carne de vaca será erradicada, em breve, das ementas das cantinas universitárias de Coimbra.
Aguarda-se para breve a sua adesão ao PAN, numa atitude intelectual de enorme coerência animal.

* é conhecido por "cabra" o badalo do sino da torre da Universidade de Coimbra, nos Gerais.

Idiotismos 46


Em finais dos anos 80 do século passado, tive ocasião de visitar no Gürzenich, em Colónia, uma magnífica exposição-venda de Livros Antigos, com inúmeras bancas de conhecidos alfarrabistas europeus e norte-americanos, principalmente. Do catálogo luxuoso, que pude consultar, constava apenas um livro português: Arte da Cavallaria de gineta, e estardiota, bom primor de ferrar & alveitaria... (1678), obra de António Galvão de Andrade (1613?-1689). O volume, obra-prima da impressão portuguesa, e em muito bom estado, estava precificado a 1.100 marcos alemães. Ainda hoje sai muito caro em Portugal, quer em leilões de livros, quer nos alfarrabistas.


Do longo título do volume, sobressai o termo estardiota (ou estradiota) que eu já conhecia e sempre achei exótico. Palavra que traduz uma forma própria e clássica de montar das senhoras, de lado. Hoje, creio que raramente se usa e as modernas amazonas cavalgam exactamente como os homens, com cada perna para o seu lado.
Alguns dicionários registam o termo como sendo: "arte de montar firmando-se o cavaleiro nos estribos e estendendo as pernas." Há quem anote o significado de soldado mercenário albanês, e quem dê a palavra como proveniente do italiano stradiotto (soldado).


Creio, no entanto, que cavalgar à estardiota era apanágio e privilégio de damas nobres e rainhas, que assim se faziam representar, mais femininas, compostas, e dignamente. Como a rainha Victória, em Balmoral, neste quadro de Charles Burton Barber, de 1876.

Comic Relief (151)


Últimas três graças, que seleccionei, do esfuziante livrinho Galáxia de Berlindes (2012), do jurista e diplomata Pedro Monteiro (1969). Obra imaginosa que me deu momentos de muito boa disposição, e que aqui venho partilhar, gostosamente.


Diagnóstico Idiomático

O paciente informou que tinha dor de cotovelo. O ortopedista concluiu que teria dado o braço a torcer.

Racista en Herbe

Já em pequeno gostava de enforcar no bonsai da irmã os pequenos índios de plástico com que brincava.

O Anjo

O anjo Rafael espezinhou a coroa de espinhos de Cristo, insultou a Nossa Senhora, roubou a lança a um soldado romano e espetou São Pedro no traseiro.
O padre Bento tirou-lhe as asas e escorraçou-o da procissão.



segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Iannis Xenakis (1922-2001)



Na perspectiva da chuva. E para nos irmos habituando...

Retratos (25)


Era enorme e de carnes mal arrumadas. Embora não fosse alto nem excessivamente gordo, era corpulento pela ocupação do espaço quadrangular do corpo. Compensava, entretanto, por alguma elegância de gestos, que nunca eram amaneirados. Nunca cheguei a saber se era viúvo, divorciado ou simplesmente solteiro, mas o asseio da roupa sempre escura e as calças bem vincadas, denunciavam que havia alguma mulher cuidadosa, lá por casa, ainda que fosse a dias.
Irmão de um médico célebre, hoje, com busto numa rua lisboeta, M. da Rocha era apenas veterinário, o que, naqueles anos aristocráticos do ancien régime, era considerado um curso de segunda. O seu trabalho, na área da segurança e qualidade alimentares era, no entanto, louvado e enaltecido quanto à seriedade, isenção e rigor das decisões que tomava. O desrespeito da administração por um seu relatório (que mandava abater largas centenas de quilos de peixe, por impróprio) numa empresa de congelados, de dimensão nacional, levou-o a pedir a demissão.
E embora estivesse em vésperas dos 60 anos, não esmoreceu. Manteve a sua dignidade e sustento sobrevivendo de pequenas avenças ao serviço de pequenas sociedades de comércio alimentar. E continuou de calças vincadas, na perfeição. E de lenço branco no bolso da lapela do casaco escuro, como se nada se tivesse passado de dramático, na sua vida. 

domingo, 15 de setembro de 2019

Ao público, em geral, e ao Brasil em particular


Por súbita indisposição do conferencista, motivada por uma inscrição desusada e antecipada de surdos-mudos (presságio de tumultos, silêncios desmesurados e atropelos vários), que iriam assistir à sua exposição sobre poesia neorrealista portuguesa, mas também pelo inusitado número de inscritos, amigos de uma associação Braille (facto concreto que augurava o pior...); bem como pela recusa peremptória dos artistas que iriam acompanhar, com música, o evento cultural, a Gerência do sítio lamenta informar o público em geral que o espectáculo previamente anunciado, para hoje, não se realizará.
Mas há mais blogues, felizmente...

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Memória 132 (sobre poesia, em geral)


Calhou, recentemente, ter adquirido, usado, Entre Duas Memórias (1971), de Carlos de Oliveira (1921-1981), que era o nº 21 dos Cadernos de Poesia, das Publicações dom Quixote. A pequena colecção, em tamanho, mas prestigiada em qualidade, tinha-se iniciado com Micropaisagem, em Novembro de 1968, livro de poesia inovador, também de Carlos de Oliveira.


Sobre o Lado Esquerdo (1968), da Iniciativas Editoriais, rompera já com um tipo de discurso com ressaibos neo-realistas que predominava ainda e se arrumava uniforme, ou pelo menos coerente, no volume Poesias (1962), da Portugália, volume 3 da colecção Poetas de Hoje, que abrangia toda a obra poética de Carlos de Oliveira, até Cantata (1960).


O revisitar dos poemas do escritor criou-me, agora, algumas perplexidades. Normais e justificadas, porque a inovação se atenuou com o tempo, menos claras porque a leitura me pareceu mais árida e abstractizante, mais experimental e menos agradável ao meu acompanhamento pessoal.


E constato, objectivo. Que, com os anos, me mantive equidistante e próximo da poesia de Eugénio de Andrade, me aproximei incomparavelmente, nos últimos anos (dele e meus), dos poemas finais de Herberto Helder. E me afastei, infelizmente, dos versos de Carlos de Oliveira. Salve-se, embora, o prosador de Finisterra ou de Uma Abelha na Chuva
Nem tudo se perdeu!

J. S. Bach / T. Koopman

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Interlúdio 71


Devido à fraca afluência de público, hoje não há Circo.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Regionalismos dos Arguinas (2)


A imagem, que encima este poste, reproduz o enquadramento da praça de Santa Ovaia (Oliveira do Hospital), no meio do qual se encontra o monumento de homenagem aos Arguinas, nome que é dado aos pedreiros e canteiros da região.
Na sequência do primeiro poste temático, damos hoje continuação ao tema com alguns regionalismos começados pela letra c, seleccionados da obra Os Verbos dos Arguinas, de Francisco Correia das Neves.

1. Caruncho - carpinteiro.
2. Celibré - cabra.
3. Chara - carne.
4. Chastro (ou garfanhoto) - alfaiate.
5. Chibau - sim.
6. Chispes - pés.
7. Chóina fusca - noite escura.
8. Chumurro - embriagado, bêbado.
9. Couto (ou saltarico) - coelho.
10. Curvelas - castanhas (fruto).

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Tu cá, tu lá


Confesso a minha fraqueza olfactiva, sobretudo em ocasiões especiais, por usar Monsieur Carven, o Givenchy Gentleman ou o Allure, da Chanel, que são, para mim e dos que conheço, dos melhores After-shave, na vertente de frescura acitrinada e suave. 
Mas não sou esquisito. No dia a dia, uso marcas banais e populares, desde que o aroma me agrade. E ainda me lembro que, em Mafra (1968), usava o bruto Pitralon - que sempre me cheirou a petróleo - talvez para acompanhar o odor bélico e entranhado das casernas...
Até compreendo que, em rótulos e contra-rótulos de sumos industriais e super-açucarados, dirigidos a jovens e obesas criaturas, as empresas usem de sem-cerimónia e tratem por tu os potenciais consumidores infanto-adolescentes sequiosos.
Há dias vi, numa grande superfície, embalagens do antigo Nívea Men, que eu já não usava há muitos anos. Cheirei e não me desagradou.  Desagradou-me e muito, depois em casa, no contra-rótulo, tratarem-me familiarmente por tu. Será que a hanseática Beiersdorf, de Hamburgo, já desaprendeu a boa educação das regras de tratamento, em relação a senhores maduros e de barba rija?
Assim vai o mundo...

Mompou / Segovia

Versão, para português, de um poema de Emily Dickinson (1830-1886)


352

Talvez eu tenha perguntado demais -
Não me contento - senão com os céus -
Porque as Terras, crescem pesadas
Como bagas tensas, na minha cidade -

O meu Cesto leva - apenas - Firmamentos
Aqueles - que leves flutuam - no meu braço,
Pequenos espaços - me saciam e bastam.

domingo, 8 de setembro de 2019

Quem não trabuca, não manduca !


O que fazer quando nos entram pela casa adentro 7 kg de marmelos no meio de outros trabalhos sérios, elevados e exigentes ?

Não vale a pena a criatura queixar-se de falta de tempo. Lá estão os marmelos na caixa a olhar para nós. Mãos à obra ! Que a Senhora Odete Cortes Valente nos valha, como todos os anos, mais 9 kg de açúcar. 

Primeiro foi a marmelada que ficou pronta, secando ao sol, em tijelas e outros continentes.


E, no final da tarde de ontem, foi a vez da geleia.


Está, pois, tudo a postos para aconchegar o Outono e o Inverno na(s) nossa(s) casa(s).

Post de HMJ

Para os francófonos, muito especialmente...



...este Domingo de 1957, para matarem saudades de Paris.
(Que eu sou mais de Londres.)

Citações CDXV


Quando um homem aponta um dedo para alguém, deveria lembrar-se que quatro* dos seus dedos apontam para si próprio.

Louis Nizer (1902-1994), in My Life in Court (1961).


* creio que o conceituado jurisconsulto, de origem inglesa, deveria ter dito: três (dedos)...

sábado, 7 de setembro de 2019

Osmose 109


Se há frases que se nos impõem pela sua intensidade contagiante, há versos que nos iluminam o caminho e nos podem incendiar o pensamento. Ou a imaginação.
Em 1962, a então jovem estreante, em prosa, Yvette K. Centeno (1940), através da Portugália, editou um livro que tinha como título o início de um poema de Pessoa: Não só quem nos odeia.
Já nessa altura, Ricardo Reis era o meu heterónimo preferido. E, ainda hoje, aquele que mais releio. Esse poema era um dos que me acompanhava, de cor, como evidência sentida, intimamente.


Se quem nos ama/ Não menos nos limita. completa esse poderoso axioma, ele foi, com a idade, tornando-se-me verdade absoluta e incontornável evidência prática.
Quantas vezes nos auto-censuramos, calando o que sentimos para não ferir ou ofender quem amamos? Quantas vezes omitimos por amor aos outros? Assim nos limitando ou restringindo a própria liberdade individual.
Será que a solidão total é o preço a pagar pela liberdade inteira? Talvez.

Beethoven / Karajan



Para "prefácio" do próximo poste, mas também convite para re-ouvir uma das 9 sinfonias de Beethoven...

Um CD por mês (5)


Dificilmente se pode escapar a Beethoven (1770-1827), para quem goste de música clássica. E a Karajan, como seu intérprete preferencial, pelo menos, até há bem poucos anos atrás. Embora eu, garoto de 14 ou 15 anos, tivesse começado, na altura, por comprar e ouvir uma boa gravação, em LP (Arpose, 7/4/2012 - Retro [10]), da 9ª Sinfonia, tendo como maestro Jascha Horenstein (1898-1973).
Herbert von Karajan (1908-1989) veio mais tarde. E, apesar de considerar os seus desempenhos com excesso de poses teatrais, não posso deixar de lhe atribuir um enorme profissionalismo e de o incluir no pequeno grupo dos melhores maestros do século XX.
Em imagem, o primeiro CD, da Références - EMI, que é uma remasterização (1988) da gravação de 1948, da Nona, e tem a mais valia de contar com a interpretação, como soprano, de Elisabeth Schwarzkopf (1915-2006). A orquestra é a Sinfónica de Viena. O segundo CD é da Deutsche Grammophone (Karajan Gold) e foi editado em 1984, incluindo a 5ª e 6ª sinfonias de Beethoven. Karajan dirige, neste caso, a Berliner Philharmoniker. Escusado seria dizer que as gravações são excelentes.


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Inventário da safra


A hortelã vai bem, folhas verdinhas e cheirosas. Numa teimosa existência, por entre a secura de um Agosto um pouco pardo, o pequeno pé de salsa resistente conseguiu sobreviver e já vai em três caules fininhos progredindo em direcção à luz solar.
As rústicas e espontâneas beldroegas vão na sua segunda produção, vigorosa e alargada. Estão aqui, estão a dar para uma segunda sopa, este Verão. Vão dar é trabalho a depenicar os ramos, mas compensa bem a minuciosa tarefa.
No limoeiro da varanda a leste, o serôdio broto bejamim do fim de Junho, atrasado embora, lá vai crescendo e recuperando, a acompanhar os irmãos verdes, mais velhos. E vão cinco limões, com o prematuro e último.
Da oliveira, na varanda a sul, já se colheram os frutos - 56. Exactamente igual a 2018 ( mas que grande coincidência!), mas muito inferior à safra de 2017, que produziu 119. Mas, ao menos, as azeitonas são bem rechonchudas e parecem suculentas. E já se puseram a curtir...


Deferências e gentilezas


De uma forma geral, a clássica nomenklatura nacional reagiu, na net e redes sociais, incomodada ou despeitada (invejosa?, mas quem, inteiramente laico de espírito, quer ser cardeal, hoje em dia?). Eu próprio, me lembrei de Dantas, a propósito de Tolentino.
É evidente que não tenho nada contra ele. E a única vez que o vi, ao vivo, foi na Estefânia, a comprar Pastéis de Chaves numa loja gourmet. Se calhar, para levar para Roma e presentear Francisco e a sua cúria vaticana, altíssima e celestial.
Não muito diferente dum tal Martins que, mestrando na Aberta, nunca se esquecia de mimar as suas professoras, antes das aulas, com bolinhos doces, comprados amorosamente na Cister (ali, próxima), e com carinhosos vocábulos a acompanhar a oferenda. Foi assim que ele chegou a Real, na nossa pequenina república das letras. Lembre-se o povo: com papas e bolos...
Chegar a cardeal no enclave do Vaticano, sempre é outra louça - e desculpem-me a bisbilhotice pequena, porque ainda estamos na silly season. Ou assim parece...

Uma fotografia, de vez em quando... (131)


Aurélio Paz dos Reis (1862-1931) foi um dos grandes entusiastas e talvez o mais conhecido pioneiro do Cinema em Portugal. Portuense, republicano convicto e maçom, dedicava-se à floricultura nos terrenos e horto de sua casa, explorando no centro da cidade uma loja de venda de flores, com resultados compensadores para a sua sobrevivência financeira e de sua família.


Uma ida a Paris pô-lo em contacto com as primeiras tentivas de cinema em França que, depois de adquirir material, ele quis também ensaiar em Portugal. Ainda se deslocou ao Brasil, pelo mesmo motivo, e onde os resultados acabaram por não ser animadores. A partir daí a sua actividade restringiu-se apenas ao campo da fotografia. A inauguração da Livraria Lello, no Porto, foi fixada por A. Paz dos Reis, em Janeiro de 1906.


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Os nins


Camuflados, diplomáticos e diplomatas, mamando doce, são, às vezes, difíceis de reconhecer.
Na Natureza são os camaleões, em Política, o Centrão sempre pronto a vender-se e pactuar para não perder mordomias, no comentariado mediático, os suaves palreiros do banal flagrante e mediocre. Hábeis malabaristas, no dia a dia, são os de posição neutra, nadadores de águas mansas, os de bem com toda a gente...
São os nins.

(In)Tradução


Estaco, frustrado, perante um simples, mas grande poema composto por 5 versos, de René Char (1907-1988). Percebo-o, traduzo-o literalmente, mas o poema fica muito aquém do original na minha versão para português - é de expressão menor, e francamente abortado. Falta-lhe fogo e alma, palavras gémeas para atingir, ao menos, um paralelo fulgor aproximado, da criação do poeta francês.
Talvez mais tarde, ou noutro dia lhe consiga captar alguma da grandeza original. Entretanto, e como dizia Fernando Echevarría:
                                             A língua, sustenida, imóvel pensa.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Do que fui lendo por aí... 31


Isto, com  a intensa canícula, quase se torna fisicamente dramático e, talvez por isso, não há nada como um pouco de sal para descontrair...
Quem o conta é Vitorino Nemésio (1901-1978) no seu Jornal do Observador (1974), a páginas 225. Sobre André Brun (1881-1926). Assim:


"O nosso André Brun - está claro - era um modesto escritor, um humorista que dá um certo testemunho e costumbrista dos nossos anos de cerca da guerra de 14. Pois não fugiu à regra: trocadilhou até morrer. Conta-se que, visitando-o um amigo nos seus últimos dias de vida, já quase na agonia, o teria saudado: «Então como vais, André?» «Vou de fraque...», tornou-lhe o doente, pensando na mortalha burguesa."

(...E, feliz e finalmente, começou a levantar-se uma aragenzinha...)

Setembro


O amarelo que cega, da manhã, há-de vir a dar, por remate (creio), o róseo suavíssimo do ocaso - como tem acontecido, ultimamente. A que se virão juntar uns fiapos de lilás sobre o azul.
Se o jovem pessoal docente já ocupava, ruidoso, duas mesas da esplanada outrabandista, à beira da Escola, a Tabacaria-Quiosque estava às moscas, até sem os habituais fanáticos das raspadinhas.
Improvavelmente, fez-se a travessia do Tejo, nas calmas, que o trânsito ia fluído e relaxado. O parqueamento fez-se também com facilidade, na nossa rua.
A meio da tarde pesa, porém, um silêncio pesado de canícula. A que nem vento nem aragem dão desconto. Folhas que nem mexem, nas árvores. Aves que nem se afoitam ao ar livre.

Revivalismo Ligeiro CCXXXVIII

Arte ?


Muita da arte contemporânea, na sua tentativa democrática e excessiva de se aproximar das maiorias, deixa-nos muitas vezes dúvidas sobre a sua qualidade, avaliação e mesmo validade efectiva. Agradar a muitos nem sempre será um bom sinal.
Matthew Bown, no último TLS, conta-nos um episódio que para alguns já deve estar esquecido. Lembremo-lo, sucintamente: quando os actuais inquilinos da Casa Branca lá chegaram, querendo alterar a decoração-Obama da residência, pediram de empréstimo ao Guggenheim Museum, de Nova Iorque, um dos primeiros quadros de Van Gogh: Paisagem com Neve. A curadora Nancy Spector recusou, mas em sua substituição informou que poderia ceder America*, de Maurizio Cattelan. Facto que, na altura, foi considerado um insulto pela maioria.


* Na imagem inicial, "America" é a primeira obra à esquerda, recoberta a ouro.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Palavras de sabedoria


... os piores defeitos do português: a impulsividade fantasiosa e vácua, a preguiça mental (mãe da retórica), e a inópia absoluta de senso crítico, - o senso crítico, bússola do espírito, dote característico da inteligência adulta, e sem o qual tudo é caduco, conforme ao lema de Pasteur; ...

António Sérgio (1883-1969), in O Desejado (1924), Carta-Prefácio a Carlos Malheiro Dias.