terça-feira, 23 de outubro de 2018

Como íamos transcrevendo...


A prosa de Graciliano Ramos (1892-1953) é seca. Melhor dizendo, enxuta e essencial, sem desperdícios de adorno ou rodriguinhos de estilo, para fazer batota com o leitor e o seduzir, por aspectos secundários. No fundo, prosa honesta de homem sério.
Com Machado de Assis e João Guimarães Rosa ele pertence, para mim, à trindade magnífica e maior da ficção brasileira. Daí o facto de o ter escolhido, nesta temática sobre o passado-presente-futuro do País-Irmão, como ilustração exemplar daquilo que se pode vir a repetir, por lá.
Por isso, e como íamos transcrevendo:
                                                                                                                                                    
"... Agadanhavam-me e, depois de uma noite de insónia, despachavam-me para o Recife? Capricho. Certamente me forçariam a interrogatórios morosos, testemunhas diriam cobras e lagartos, afinal me chegaria uma condenação de vulto. Sem dúvida. Quais seriam os meus crimes? Não havia reparado nos enxertos em 1935 arrumados na constituição. Num deles iria embrulhar-me. A conjectura de que me largariam ao cabo de dois ou três dias, por falta de provas, sumiu-se. Aquela transferência anunciava demora.
Em frente de mim, os cotovelos na mesa, Tavares, sonolento, bocejava com dignidade bovina. Nenhuma aparência de cão de guarda: um boi. De espaço a espaço mugia uma questão, a que eu respondia por monossílabos, afirmando ou negando com a cabeça. Voltei ao carro de primeira classe, diligenciei entreter-me com as divagações do meu companheiro. Não conseguia, porém, dispensar-lhe atenção: mudo e chocho, isento de curiosidade, andava aos saltos no tempo, brocas agudas verrumando-me o interior. ..."


Graciliano Ramos, in Memórias do Cárcere (pgs. 39/40).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
                                              
                                                                                                                                                                                                                              

Retro (101)


As forças da ordem e os porteiros de serviço... Provavelmente, anos 50 do século passado.

domingo, 21 de outubro de 2018

De intervenção, pois então!...


Esclareça-se que esta canção (Rata de dos patas) da mexicana Paquita la del Barrio, pseudónimo de Francisca Viveros Barradas (1947), com letra de Manuel Eduardo Toscano, tinha como endereço Carlos Salinas Gortari, controverso Presidente do México, de 1988 a 1994.

Glosa (14)


Na entrevista de hoje, no jornal Público, Vasco Pulido Valente refere, peremptório : "Os portugueses têm uma segurança que ninguém tem. Inabalável."
Parece-me um clamoroso erro de palmatória. Quando muito, oscilamos. Entre insegurança e confiança em nós mesmos, duvidosos e bipolares. Almejando, do exterior, um apoio incondicional que nos subscreva ou confirme. Esperando, tímidos, um aval externo e simpático.
Que povo haverá no mundo que, em leilões de livros tanto privilegie a temática : Portugal visto por estrangeiros. Ou que, outrora francesismos, presentemente, use tantos anglicismos (e americanismos), para explicar as coisas mais simples... Será por provincianismo endémico? Para, erroneamente, tentar reforçar o que se diz, com um cosmopolitismo parolo? Ou para alardear cultura?
Eu julgo que é por insegurança. Falta de vocabulário e pobreza de imaginação. Ou será por vergonha da sua língua pátria?
Lá nisso, os brasileiros são muito mais criativos e desavergonhados. Honra lhes seja!

sábado, 20 de outubro de 2018

Outros tempos, mesma temática


"...O congresso apavorava-se, largava bambo as leis de arrocho - e vivíamos de facto numa ditadura sem freio. Esmorecida a resistência, dissolvidos os últimos comícios, mortos ou torturados operários e pequeno-burgueses comprometidos, escritores e jornalistas a desdizer-se, a gaguejar, todas as poltronas a inclinar-se para a direita, quase nada poderíamos fazer perdidos na multidão de carneiros.
Pensando nessas coisas, desci do automóvel, atravessei o pátio, que, em 1930, vira cheio de entusiasmos enfeitados com braçadeiras vermelhas. Numa saleta, um rapaz me recebeu em silêncio, conduziu-me a outra saleta onde havia uma cama e desapareceu. O mulato fez a última viravolta e desapareceu também. À porta ficou um soldado com fuzil. ..."

Graciliano Ramos (1892-1953), in Memórias do Cárcere (pgs. 29/30).

O sexo dos anjos e a nova ignorância


Enquanto por cá, alguns estultos ociosos discutem e decidem sobre se as criancinhas devem ou não ser ensinadas e obrigadas a dar beijinhos aos avós, no Brasil (e em Portugal, alguns descuidados emigrantes), preparam-se para dar o seu voto a um jagunço.
Deus tenha piedade dos pobres de espírito!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Revivalismo Ligeiro CCXXXVI



Criada por Chico Buarque em 1973, a canção Cálice foi proibida durante parte da Ditadura militar brasileira. Só tendo sido registada e difundida em disco no ano de 1978 - faz agora 40 anos.
Será que vai ser de novo proibida?...

Humor negro (11)


Perante a perspectiva cinzenta do futuro do Brasil, vem à colação o célebre dito do falecido cantor Tim Maia (1942-1998), que dizia:

"Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia, e pobre é de direita."


agradecimentos a H. N., pela lembrança oportuna.

Duas maneiras de ver a coisa, ou o bom gosto inteligente do Youtube


Quem pensa que domina a net e quejandos, desiluda-se. Ela e eles pretendem é orientar-nos. Impondo-nos publicidade pirosa, cultura da corrente dominante, infantilidades básicas, divertimentos pimba, músicas foleiras, nomeadamente, americanas.
Recentemente, e por aqui, nos vídeos de alguma música clássica do Youtube, nos primeiros acordes musicais, aparecia uma legenda publicitando um remédio para o tratamento de calos. Bom gosto, realmente... ainda se fosse em vídeos de música para dançar...
Mas o que acho ainda mais interessante, e altamente democrático, é que, para além de o Youtube andar todo desenculatrado, os seus algoritmos estão a funcionar de forma absolutamente destrambelhada e caótica.
Para já, um aspecto que eu considero quase insultuoso: nos últimos tempos, o Youtube resolveu recomendar-me, insistentemente, uma rubrica e temática infantil, que dá pelo nome de: Gaming for you, que em português à Google traduziram por Jogos para você.
De imediato, eu clico para eliminar estas frioleiras parvas, e logo aparece o refrão mecânico e algorítmico, gentil:

Got it. We'll tune your recommendations.
Ou (em português)
Ok. Ajustaremos as suas recomendações.

Ora, basta eu, passadas 2 ou 3 horas, voltar a abrir o Youtube, para de novo me aparecerem os Jogos para você, recomendados com a inocente candura dos atrasados mentais, dos desmemoriados e autistas. E, isto, recorrentemente...
Irra, que é bruto!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Citações CCCLXXII


Interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte.

Susan Sontag (1933-2004), in Against Interpretation (1964).

Curiosidades 70


Quantas vezes um rosto humano nos faz lembrar os traços e feições de um animal, num zoomorfismo insólito e despropositado!?...
Na Primária, lembro-me de um colega, José Emílio, a quem puseram a alcunha de Rata, pelas semelhanças que apresentava, com a dita. E outro, já no Liceu, que começaram a apelidar de Fuinha. O dicionário regista esta palavra, aliás, além do animal, com o significado de : muito magro. Em romances policiais, já a vi, para melhor caracterizar o vilão, escrita : "com cara de fuinha"...
Charles Le Brun (1619-1690), primeiro pintor régio francês, que Luís XIV elevou ao cargo, foi, porém, mais longe.


Levou à prática, com uma série de esquissos apropriados, essa similitude entre seres humanos e animais, deixando-nos um repositório notável de desenhos que, provavelmente, inspiraram La Fontaine nas suas fábulas bem conhecidas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Intervenção, em tempos de cólera



Surpreendo-me que, nestes tempos conturbados, a canção de intervenção, tão frequente na segunda metade do século XX, quase tenha desaparecido do panorama musical...
Com tantos dutertres, erdogans  no poder, e bolsonaros à beira de o tomar, estranho esta dormência de cantautores, decerto refastelados no conforto e tranquilidade de não agitar as ondas.
Não sei se o Chico brasileiro editou alguma canção, como nos seus velhos tempos, interventiva, mas Barbra Streisand, felizmente, rompeu esta pesada cortina de silêncio cúmplice.
E a canção, que o meu amigo AVP teve a gentileza de me enviar, é lindíssima. Embora as imagens do vídeo - parece-me - pudessem ter sido melhores. Mas, e como diz o povo: o bom é inimigo do óptimo.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Decálogo


Palavras a evitar. Absolutamente:

1. Adorei!
2. Devastado.
3. Deslumbrou.
4. Assumir.
5. Arrasar.
6. Trump.
7. Lenha (= Cavaco).
8. mãezinha (= Caxineiro).
9. Blogues literários.
10. Amei! (salvo em circunstâncias muito especiais.)

Uma fotografia, de vez em quando... (112)


Profundamente marcada pela babel desencontrada de uma Londres caótica, mas resistente, da II Grande Guerra, a obra fotográfica do inglês George Rodger (1908-1995) parece centrar-se, depois, entre a Europa e a África, ainda primitiva e colonial.

Inicialmente, trabalhou na Marinha Mercante com o intuito de conhecer o mundo, mas cedo começou a fotografar os aspectos mais significativos de tudo aquilo que via. Colaborou com a Time e a Life e, em 1947, integrou a Agência Magnum, como sócio-fundador, a convite expresso de Robert Capa.

Melhor do que as palavras, as fotos de George Rodger falam por si.

Safra de 2018


Já estão a curtir...
Menor do que a colheita de 2017, em que a oliveirinha da varanda a Sul bateu o seu recorde, produzindo 115 azeitonas, este ano de 2018, talvez pela muita chuva e pouco sol, só nos deu 56, mas bem anafadas. E de amadurecimento irregular, como se pode ver pelas cores: verdes e pretas.
Assim, dá para imaginar as incertezas e agruras da agricultura a sério e real. Mas nós ficámos satisfeitos e contentes com a nossa safra doméstica e outrabandista.
E aqui deixo o registo das colheitas de anos passados:
2015 - 28 azeitonas.
2016 - 49 azeitonas.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Comic Relief 144


O imediatismo emocional traz sempre destas coisas. Bem como o corporativismo, a pressa, o amiguismo, intencional ou não, a falta de sentido crítico português. E a dificuldade de nos distanciarmos do presente, na espuma e salsugem nublada dos dias... De escolhermos e de pensarmos.

com grato reconhecimento a AVP. 

Da política estrangeira à portuguesa, excepcionalmente


Raramente, mudarmos de camisola nos traz dividendos. Embora a neutralidade militante possa grangear, aos que a praticam, uma pretensa multidão de amigos... Que não deixam de ser, numa nomenclatura rigorosa e objectiva, apenas conhecidos, próximos. Neste particular, há que sermos realistas.
Não é por se adaptarem aos tempos que jornais e revistas aumentam as tiragens. Esses golpes de rins, muito frequentes, hoje em dia, em vez de trazerem novos clientes e assinantes, fazem é perder uma boa parte dos leitores antigos. O jornal Público e L'Obs., em França, ilustram bons exemplos disso.
Na política, o mesmo vem acontecendo, sobretudo nos partidos mais importantes, que adaptando-se, oportunisticamente, aos novos tempos, vão omitindo o seu ADN original e a sua ideologia de base. O eleitor acaba, mais tarde ou mais cedo, por não perdoar.
Blair, Schröder, Hollande foram no fundo os coveiros dos seus partidos socialistas. Como a própria CSU (irmã gémea da CDU, na Alemanha), da Baviera, confirmou, ontem, também a sua erosão, nas eleições da Länder. Ou o mísero resultado do SPD germânico, ultrapassado até pela AfD, neo-nazi.
Não tenho dúvidas que, se o PS português ainda fosse chefiado por António José Seguro, o socialismo ter-se-ia esboroado, irremediavelmente, no espectro partidário nacional. Que era, no fundo, aquilo que a Direita portuguesa gostaria que tivesse acontecido.

Prokofiev / Gavrilov

domingo, 14 de outubro de 2018

Mercearias Finas 134


É sempre triste, o primeiro sinal de um desamor.
Provavelmente, o vinho branco, e verde, que me acompanha há mais tempo é o Casal Garcia. Quanto ao tinto seguramente é o Grão Vasco, do Dão. Que integrou a carteira da Sogrape, nos últimos anos. Mudaram-lhe o rótulo, já por duas vezes, para pior. E, mais grave, para mim, trocaram no lote a casta Jaen, pelo Alfrocheiro. Da antiguidade, perdeu a raça e o ADN, desapareceu-lhe a elegância que caracterizava os vinhos do Dão. Mas eu lá o ia bebendo, para celebrar ao menos o passado.
Provei, neste Domingo, a colheita de 2016: é para esquecer.
Tem a rudeza áspera dos piores vinhos de Trás-os-Montes, que não do Douro, evidentemente. É deselegante, de todo. E, sendo do Dão (?), é dos piores vinhos tintos da região que bebi, ultimamente.
Mudem lá de enólogo, que é o que se faz, no futebol, quando os treinadores não são capazes!

Das consequências do Leslie...


Não se diga que António Costa não é hábil. Aproveitou a passagem do Leslie, como alibi, para varrer 4 ministros 4 (ou 5?). Perante o estupor assustado da população portuguesa e a inoperância adivinhadora dos comentadores televisivos do costume. 
Eh, real!

Dos géneros e suas idiossincrasias


Francamente, não sei se a atenção se pode, por vezes, confundir com a concentração, no ser humano.
Mas não há dúvida que há, nesta fotografia de finais dos anos 50, uma atitude feminina e outra, masculina, qualquer delas pronunciada e diferente. Da concentração de Miller e Olivier, e da atenção de Marilyn e Vivien, os sexos falam por si.
A cada um, a sua interpretação - é o desafio que, aqui, deixo...

Bibliofilia 165


Rodeado de vicissitudes várias, O Hyssope, um dos primeiros, senão o primeiro poema herói-cómico português, mas seguramente o mais célebre, terá sido escrito, provavelmente, entre 1764 e 1767, em Elvas, por António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799), no período em que lá exerceu as funções de juiz. Fundador da Arcádia Lusitana, em que adoptou o pseudónimo de Elpino Nonacriense, Cruz e Silva foi um dos seus maiores dinamizadores.
Várias versões manuscritas de O Hyssope circularam, entre particulares, até vir a ser editado, já postumamente (Cruz e Silva faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de Outubro de 1799), no ano de 1802. Para evitar problemas com a Censura, o livro tinha como local de edição Londres, muito embora tivesse sido impresso, realmente, em Paris.


Tratando, com humor discreto, de um litígio burocrático e ritualista entre dignitários eclesiásticos elvenses e porque beliscava ou ridicularizava a Igreja, o livro foi apreendido, a mando de Pina Manique, sendo por isso raro. Com a instalação de Junot, em Lisboa, aproveitando um período de maior liberdade, o livreiro Rolland fez imprimir a segunda edição de O Hyssope, em 1808. Mas com a retirada de Junot, em Setembro de 1808, a obra foi de novo retirada do mercado, e também se tornou rara. As 3ª e a 4ª edições saíram em Paris.
Até 1910, o general F. A. Martins de Carvalho, na obra As edições do "Hyssope" (1921), regista a publicação, de nada menos, de 24 edições. O Poema Herói-cómico era muito apreciado e popular ( e, hoje, alguém o lê?).
Longamente desejada, por mim, consegui comprar, afortunadamente, aquela segunda edição, através do último Boletim Bibliográfico, na Livraria Olisipo. Dei pelo exemplar 30 euros, com a melhor das vontades e grande satisfação.

sábado, 13 de outubro de 2018

Impromptu (37)



Para esconjurar e afastar o Leslie... este impromptu.

A cegueira no turismo


O restaurante, nas Avenidas Novas, mantém-se em gestão familiar, como há cinquenta anos atrás, quando na zona morei, ainda estudante. Modesto e de preços justos, quanto à qualidade da cozinha e à generosidade das doses. Tradicional, atende sobretudo clientela de meia idade que por lá habita ou trabalha. Mas, ultimamente e quando lá vamos, temos vindo a assistir a um crescendo de comedores estrangeiros. Falantes, sobretudo, de francês e de língua inglesa.
Penso que o turismo também se faz de cheiros, como fundamentalmente é feito de olhares, de sabores, de sons que perpassam pelas ruas, até do tactear de tecidos estranhos e roupa de cama, agreste ou macia, que nos cobre, nas noites que passamos em hotéis desconhecidos. Numa miscelânea curiosa de novidades.
Há meses, vi com estranheza uma japonesa ( ou chinesa?) cega, amparada por uma companheira que a guiava, subindo a rua da Misericórdia. E achei insólito. Talvez a companheira lhe fosse contando o que via, como às crianças que, ao ouvir histórias, vão recriando a narrativa com a sua imaginação nascente.
Nessa altura, achei que seria um caso desgarrado. Há dias, porém, nesse restaurante de que falei a princípio, estávamos nós a jantar, vimos entrar 4 cegos(/as), com os (/as) respectivos (/as) acompanhantes, para nossa total surpresa. Que ocuparam tranquilamente, embora com vagar, uma mesa de 8 lugares. Creio que o grupo era inglês.
Eu seja ceguinho - como diz o povo -, se compreendo...

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Relações de proximidade


Dependendo muito dos interesses de cada ser humano, há correntes de afinidade, consideração e até mesmo afecto, que se estabelecem, duradouras e fortes, entre fregueses e fornecedores. Modistas e alfaiates, merceeiros e peixeiras de mercado, simples empregados de quiosques ou de cafés, carteiros e médicos, para citar apenas algumas profissões, podem gozar da estima dos seus clientes e despertar, neles, uma especial simpatia. Creio que a honestidade e a competência no exercício da sua própria actividade são factores imprescindíveis, pelo menos para mim, para que essa relação de cúmplice proximidade se possa vir a estabelecer. Ou a solidão cultural dos espaços que habitam, esses fregueses, a isso obrigue ou justifique...
Ginha, Guedes, Almarjão, Tarcísio, Beckmeier são nomes saudosos, do meu passado, bem como alguns outros apelidos de que nunca soube ou nem sequer decorei o nome. De livreiros e livreiros-alfarrabistas que me trazem saudades. Não sou promíscuo com facilidade, muito menos me exponho, aos primeiros contactos. Conservo, de início, uma prudente distância, porque recuar depois, é sempre mais difícil e, hoje em dia, o profissionalismo é raro, no comércio livreiro. Mas surpreendo-me, muitas vezes, com a proximidade extrovertida e a familiaridade devota e pia, com que alguns fregueses convivem com os seus fornecedores de livros. Falta de prática, conhecimento e experiência, talvez.
Exclusivo demais (quem sabe?, pela bitola actual), no meu universo, destaco apenas dois nomes: Bernardo e Rosa. Que respeito e estimo, como livreiros. O resto, é apenas a vulgaridade do costume, e de negócio...

Antecipando os dias que correm


Alguns artistas, pela preclara visão que tiveram do mundo, parecem antever as ameaças futuras que se vão perfilando no horizonte. Atentemos, por isso, nestas palavras proféticas que Albert Camus (1913-1960), ainda que com menos razões do que hoje, aplicou ao seu mundo:

A grande infelicidade do nosso tempo é que, precisamente, a política pretende fornecer-nos, ao mesmo tempo, um catecismo, uma filosofia completa e, por vezes, até uma arte de amar...

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Uma sugestão musical para a campanha eleitoral do pan (partido)...



com um envoi muito especial para a MR, com os seus " Os meus franceses".

Produtos Nacionais 24


Sobre as excelências da Arquitectura portuguesa, os Pritzker falam por si (Siza Vieira, em 1992, Souto Moura, em 2011).
E até a BBC o reconheceu ao dar destaque, em The World's Most Extraordinary Homes, à Casa da Gateira, da  Camarim Arquitectos (Porto).
A notícia colhi-a em Le Monde, na sua edição de 21/9/2018. Que a imprensa portuguesa anda mais ocupada com as frioleiras do costume...


Regionalismos ilhavenses (5)


Prosseguindo a temática, desta vez com expressões ilhavenses começadas por e:

1. É muito rico: tem um pote e um penico - desvalorização da pretensa riqueza de alguém.
2. Em pincras - nas pontas dos pés.
3. Encanteirar as pipas - dispor as pipas nos seus suportes para receber o vinho.
4. Encharrucar / Incharrucar - açambarcar, encher, comer muito.
5. Encingadinha - pessoa muito humilde, pobretana, desprezível.
6. Enflochada - franzido, amarrotado, que não está liso.
7. Engrauzido / Ingrauzido - alimento pouco cozido.
8. Esforniqueiro / Esforniquento - criança que mexe em tudo, que quer tudo à sua moda.
9. Esgaibotado - afugentado, que anda sem rumo, ao deus-dará.
10. Eufa - elfa; rego que a charrua deixa aberto para ser tapado pela próxima leiva.

Nota: a imagem do postal, que encima este poste, foi usada como capa da obra "Palabras co bento no leba", de Domingos Freire Cardoso, que temos vindo a usar, seleccionadamente, neste temática.

Citações CCCLXXI


Os limites da minha linguagem definem as fronteiras do meu mundo.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951), in Tratactus Logico-Philosophicus (1922).