sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Tiro no escuro...


Quando um bom poeta morre e dele sabemos que não virão mais poemas, só nos resta relê-lo ou ler sobre ele. Por isso, quando vi, na FNAC, a Colóquio, cuja temática principal era sobre Alexandre O'Neill (1924-1986), mesmo sem a folhear, agarrei no volume e, com um livro de W. G. Sebald (Campo Santo), dirigi-me à caixa, para os pagar.
E só não recomendo a Colóquio, por princípios enraízados,  devido ao facto de a não ter lido ainda. 

Revivalismo Ligeiro CCLXXXIII

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Osmose 95


Creio que alguns de nós, uma vez por outra, temos a tentação de ser árbitros de gosto.  E acontece surpreendermo-nos com algumas escolhas dos outros, ao supervalorizarem obras que nos parecem medíocres. Pessoalmente, abomino o uso do verbo adorar, para exprimir uma predilecção. É um verbo de uso litúrgico, de que a imprensa rósea abusou, pecaminosamente, e, de tão usado, hoje pouco vale ou nada significa, na minha modesta opinião.
Emitirmos uma opinião ou uma crítica, seja ela favorável ou não, sobre alguma coisa, parece colocar-nos, ainda que teoricamente, numa posição superior ao objecto, ou - o que é pior - num patamar de avaliação de aparente superioridade em relação ao autor-criador dessa obra.
Quando o faço, muitas vezes sinto, momentaneamente, um certo mal-estar, ou incomodidade interior que demora algum tempo a passar. Tudo isto se passa na esfera do racional, às vezes até com argumentos suficientemente lógicos que justificam essa avaliação que fizemos.
Um poema, um romance, uma pintura, um filme que suscitem uma clarificação do nosso gosto ou desapreço, podem assim também desencadear, por reflexo, um problema ético de justiça, nosso, subjectivo. E penso que dizer apenas gosto ou não gosto, torna tudo muito mais simples. E anódino.
Perdoa-se, quase sempre, tudo melhor ao sentimento...

Pequena história (51)


Sendo muito conhecido, o quadro Guernica, de Pablo Picasso (1881-1973), é talvez comparável, em notoriedade, à célebre Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Enquanto este último tinha, no entanto, um objectivo individualizado, como retrato, o primeiro foi executado (1937) para exprimir a revolta por um massacre colectivo, perpretado pela aviação nazi, em apoio de Franco.
Sem absoluta garantia de veracidade, há um pequeno episódio associado à pintura, referido por várias fontes, nomeadamente, pelo crítico literário inglês V. S. Pritchett (1900-1997), que o conta, num trabalho que escreveu, a propósito de Goya, incluido em The Complete Essays (Chatto & Windus, 1991).
Assim: durante a ocupação de Paris, em 1940, um oficial nazi, de visita ao estúdio de Picasso, ao contemplar Guernica, terá perguntado - Vous avez fait ça, n'est-ce pas? Ao que o Pintor terá respondido: Non, monsieur, c'était vous.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Interlúdio 62 (outrabandista)


Já por aqui houve mais pássaros, no quadrângulo do horizonte que domino, da varanda a leste.
Mas, hoje, aconteceu um corrupio de novos e desacostumados visitantes alados. Quatro estorninhos ( pareceu-me...) em amigável esquadrilha juvenil, um corvo solitário e solto, que se empertigou, sucessivamente, em três das antenas de televisão, das mais altas, ali defronte. E a crocitar, senhorial.
Só gostaria de saber quem são essas duas (?) aves, em desafio, que num grilar trinado, rezingam, ao fim da tarde, escondidas naquela árvore frondosa, à minha direita, baixa. Serão gralhas? Serão pegas?
Os morcegos é que nunca mais apareceram, ao cair da noite, como agora Vénus (ou a Estrela da Manhã) me aparece, no horizonte. Ao alto, muito firme e fixa.

Carl Nielsen (1865-1931)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Enumerar


A classificação e catalogação sempre foram uma preocupação humana, nas Ciências e nas Artes. E fazer listas sobre assuntos, uma tentação dos homens. Bem como um precioso auxiliar de memória e, ainda, uma importante ferramenta de trabalho. Inclusivas ou exclusivas, estas relações permitem consultas úteis e, muitas vezes, fundamentais no futuro. Não são trabalho fácil, mas meritório, embora aturado e frequentemente difícil, se se procura o rigor. Uma boa bibliografia, sobre um escritor, pode ser um documento precioso, bem como um catálogo raisonné da obra de um pintor tem um valor enorme, para os aficionados.
Por reacção e associação paralela, a leitura de um poste de Mister Vertigo, no seu blogue Manuscritos da Galáxia, em que se refere ao trabalho, que tem vindo a fazer, sobre a Sétima Arte, levou-me a pensar sobre as minhas preferências em Cinema. E se, a princípio, orientava as minhas escolhas sobretudo pelos actores e actrizes, com a idade, comecei a regular as minhas idas ao cinema, pelo trabalho dos realizadores. Que me davam, com mais rigor, uma garantia de qualidade, à partida.
Sucintas e muito pouco inclusivas, correndo embora o risco de algumas omissões ou esquecimentos imperdoáveis, aqui vão as minhas duas listas de favoritos, vivos, cujas obras eu procuro não perder, em cinema:
1. Actrizes e actores: Vanessa Redgrave, Helen Mirren, Judi Dench, Frances McDormand, Julia Roberts, Fanny Ardant, Isabelle Hupert, Juliette Binoche e Sandrine Bonnaire; Albert Finney, Derek Jacobi, Ralph Fiennes, Robert de Niro, Jack Nicholson, Geoffrey Rush e Toni Servillo.
2. Quanto a realizadores, creio ser um pouco mais selectivo. Aqui vão aqueles nomes que colhem a minha preferência actual: Coppola, Scorsese, Woody Allen, Joel e Ethan Coen, Nanni Moretti, Giuseppe Tornatore e Paolo Sorrentino.
E parece-me que é tudo...

Reacções ao passado


Fotografias muito antigas, nos seus sépias delidos, muitas vezes fazem-nos sonhar. Ou, ao menos, imaginar, sobretudo quando não temos sobre os locais fixados ou figuras inscritas, quaisquer referências concretas. Assim também uma pintura abstracta, bem conseguida, que repercute sobre a nossa imaginação.
Haverá, contudo, outro tipo reacções sobre coisas ou acontecimentos passados. Modas que foram o ai-jesus de um tempo, podem hoje fazer-nos sorrir, benevolamente, ou mesmo rir. As saias-balão de outrora parecem-nos, agora, uma espécie de sacos de batatas. E os antigos fatos de banho, com as suas alças e folhos?
Há dias, ao folhear uma Revista de Occidente, de Junho de 1968, fui surpreendido por um anúncio singular publicitando uma Água de Colónia espanhola. O nonsense criativo era notório. A mescla publicitária, associando crime e literatura, a um perfume, criava uma enorme surpresa, em que o humor, ocupava também um espaço insólito no desprevenido observador...

Citações CCLXVII


Toda a forma de arte é uma tentativa de racionalizar um conflito de emoções no espírito do artista.

Robert Graves (1895-1985), in A propósito da poesia inglesa.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Mozart / Janeckova

Camus e a felicidade


Sob a chancela da Gallimard, saiu em 2017, um grosso volume contendo 865 cartas da correspondência trocada entre Albert Camus (1913-1960) e a grande actriz francesa, de origem espanhola, Maria Casarès (1922-1996), que terá sido - pese embora a relatividade da classificação - o grande amor, na vida, do romancista francês. O volume foi organizado por Catherine Camus, filha do prémio Nobel de 1957.
Neste caso, eu diria que é legítima, aquela que chamo a coscuvilhice nobre e, assim, ter a tentação de comprar e ler o livro...


Da intensidade desses afectos, de expressão mais intelectual nas cartas de Camus e mais fortemente terrestre, nas de Casarès, têm falado os críticos literários, que saudaram efusivamente a publicação do livro. Não resisto a transcrever, do penúltimo TLS, um retrato original, que dele traça John Fletcher: "Embora ele (Albert Camus) não fosse convencionalmente bonito, as suas feições - um cruzamento entre Fernandel e Humphrey Bogart - atraiam as mulheres."
E por onde andaria a felicidade, no meio destes dois seres humanos, que deram o seu melhor ao Teatro? Há que dar, naturalmente, a palavra final a Albert Camus...


Palavras estas que não deixam de ser acompanhadas por uma sábia e subtil ironia.

domingo, 12 de agosto de 2018

Fulanos & Comandita, S. A.


Sou muito céptico em relação a projectos e trabalhos de grupo. Nas equipas portuguesas, há sempre um par de madraços, que se limita a ver os outros trabalhar. Desde o meu tempo de Liceu que vejo isto. Na Faculdade, era o mesmo. Até na minha vida profissional, quando havia grupos de trabalho com determinado objectivo, só cerca de 20% é que vergavam a mola, porque os restantes 80%, estavam ali para mandar bocas e recomendar umas minudências perfeccionistas e adamadas, q. b. Assim também acontece, como tenho observado, com alguns blogues que, nominalmente, têm vários colaboradores inscritos.
Há que lembrar, no entanto, o que a vida real e empresarial nos ensina. Habitualmente, há os sócios capitalistas, e os sócios trabalhadores. Só me pergunto: e para quem vão os dividendos?...

para MR, de forma oblíqua...

Uma fotografia, de vez em quando... (110)


Com um sentido de olhar muito desperto para o drama e os problemas sociais, os instantâneos do francês Gilles Peress (1946) fixaram-se sobre as tragédias humanas, quer elas ocorressem no Líbano, na Irlanda do Norte, ou nos Balcãs. Mas também não ficou indiferente às migrações, nem ao problema dos refugiados.


Nos anos 70 integrou-se na Agência Magnum. Colaborador de vários jornais e revistas, cobrindo os principais conflitos bélicos no mundo, Peress está representado, com a sua obra, em muitos dos grandes museus (MOMA, por exemplo), sobretudo, norte-americanos. Merecidamente, aliás.

sábado, 11 de agosto de 2018

Ser ou não ser, por


Surpreendi-me, a mim mesmo. Eu, que não tenho espírito bélico, embora tenha a dose de agressividade inerente a qualquer ser humano, depois de pensar um pouco, acabei por alinhar com Manuel Alegre e com o PCP, que defendem a reintrodução do Serviço Militar obrigatório, que existiu até 2004, creio, em Portugal. De Janeiro de 1968 até Março de 1971, também passei por ele. E se alguns momentos houve negativos, nesse cumprir cívico, o balanço que hoje faço é positivo.
Disciplinou-me, numa altura em que eu levava quase uma vida boémia, reforçou-me, grandemente, o sentido de organização, despertou-me, na prática, os sentimentos de solidariedade que eu tinha muito teóricos e robusteceu-me a consciência política. Por outro lado, criei, pelo menos, duas amizades para toda a vida. E, isto, são aspectos importantes e que contam.
Acresce, actualmente, que o ogre norte-americano fechou o guarda-chuva de protecção sobre a Europa, e alguma da nossa juventude anda muito mal habituada, além de não lhe vir a fazer mal o criar sentimentos de solidariedade para com os outros, bem como começar a usar regras de disciplina, ordem e boa educação. Mesmo que temporariamente através de rituais que parecem formais e inúteis.
Sou a favor.

Encore...


Dantes, e não há muito tempo, Lisboa, em Agosto, era uma sossegada, amena e desocupada cidade de província... Dava gosto passeá-la, a pé ou em transportes públicos quase vazios, sentarmo-nos na esplanada de um café, à sombra, e beber tranquilamente uma groselha fresca, um café, ou saborear uma cerveja bem gelada. Hoje, não. As esplanadas (e há muito mais, agora) estão coalhadas de multidões babélicas, barulhentas, sobretudo, se há mulheres castelhanas, que pedem meças às nossas antigas varinas, pela voz alta, metálica e desagradável. Os transportes públicos vão à cunha e depois há os tuques-tuques estridentes e os "troles" sacolejando, infernalmente, pelas calçadas das ruas. Anteontem, a HMJ, à porta dos Pastéis de Belém, viu uma bicha de quase um quilómetro que se cruzava com outra, que partia dos Jerónimos. O trânsito lisboeta, por sua vez, está caótico.
Saudosamente, lembrei-me de Aznavour, embora na canção ele fale desses amores breves que duram apenas um Verão. Quem não os teve?
E, ainda que ela já conste do Arpose (29/8/2010), passados 8 anos, é tempo de um encore... Relembrar Paris em Agosto, com saudades de uma Lisboa passada, agradável e acolhedora, quase vazia. De outrora, e sem turistas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma vez espião, espião sempre


Não sei já quem disse que alguém que tenha sido espião, será sempre um espião. Ainda que em part-time. O meu amigo H. N. concorda com esta asserção, assim como eu, e muitas vezes, em amena cavaqueira bem disposta, pômo-nos a especular sobre alguns nomes portugueses, de várias profissões, entre comentaristas, jornalistas e até diplomatas, que o poderiam ter sido, sobretudo pela quantidade e qualidade de informação privilegiada que mostram possuir.
O jornal Le Monde, neste período ligeiro da silly season, tem vindo a publicar artigos de página inteira sobre escritores-espiões. Um dos primeiros, foi sobre John Le Carré. E são referidos, entre outros, Somerset Maugham e Frederick Forsyth. Graham Greene (1904-1991) é um dos últimos retratados, no jornal francês, que informa que o romancista católico inglês, trabalhou no MI6, directamente, com o célebre duplo espião Kim Philby.
Oficialmente, Greene terá abandonado o serviço de espionagem em 1944, mas um seu biógrafo (Michael Shelden) arrisca dizer que o romancista terá continuado a colaborar até finais dos anos 70, com os serviços de informação ingleses. Irónico ou não, numa entrevista ao Guardian, em 1971, Graham Green terá afirmado que: A Igreja católica é o melhor serviço de informações que eu conheço. Quem sabe, sabe...

Adagiário CCLXXXV


Um homem corajoso morre apenas uma vez, o velhaco, várias vezes.

(Provérbio dos índios da tribo Iowa, ou Ayuhwa.)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Do que fui lendo por aí... 21


A louçania da mulher minhota não dispensava, por festa, romaria ou procissão, os atavios de ouro - lembro-me bem... Talvez por ali houvesse, também, alguma vaidade de mostrar os seus pertences de família ou a capacidade do seu dote. Dir-se-ia que, nalguns casos, pecava por exagero.
Mas qualquer dona minhota que se prezasse teria certamente, no seu bauzinho de jóias, as arrecadas de filigrana e o seu grosso cordão dourado. E as criadas de servir, muitas vezes trabalhavam uma vida inteira para investir no fio de ouro, que compravam, normalmente a prestações, no ourives da terra.


Por isso, não estranhei que, num artigo da Revista de Guimarães (vol. LXVII, Jan.-Jun. de 1957), intitulado "Das origens e técnica do trabalho do ouro", o coronel Mário Cardoso (1889-1982) referisse, em nota de rodapé, o seguinte: "...sabe-se que as mulheres ibéricas superavam as etruscas, célticas e outras, na sua vistosa indumentária e na riqueza exuberante com que se ornamentavam, cobrindo o toucado com diademas e rosetas de ouro, o pescoço e o peito com múltiplos colares e pendentes, grandes arrecadas, nas orelhas, pulseiras, braceletes (...) de uma grande quantidade de jóias de ouro ao pescoço, cordões, cruzes, medalhões de filigrana, etc., que por vezes cobrem todo o peito da lavradeira." (pgs. 18/9)

um agradecimento especial a H. N. - ele sabe porquê...

Regionalismos ilhavenses (1)


O gosto que tenho por conhecer expressões castiças e regionais, bem como o decorrente convívio com monografias de terras portuguesas que, normalmente, abordam ou contém anexins e regionalismos localizados, autoriza-me chegar a algumas conclusões. Uma delas é que muito do que consta como falares regionais, em livros, é também comum a outras terras e outras gentes portuguesas; e alguns dos regionalismos não o são, como criação pura e original, mas apenas corruptelas de expressões ou de palavras da língua portuguesa que o povo adaptou a um falar mais simplificado. É, por isso, necessário separar o trigo do joio e mondar, assim, o que é espúrio, para destacar apenas aquilo que é essencial e verdadeiro regionalismo.
Falei, há cerca de um mês (14/7/2018), aqui no Arpose, de um livro que me fora oferecido, pelo meu amigo AVP, intitulado Palabras co bento no leba, de Domingos Freire Cardoso, que colige ditados, expressões e regionalismos de Ílhavo e da sua zona. Dele, vou seleccionar alguns termos, que me pareceram mais interessantes e/ou originais, começando, cronologicamente, por palavras iniciadas pela letra A, e dando o seu significado a seguir. Assim:

1. À patarrôlo - em grande abundância.
2. Acatafegar - ter dificuldade em respirar.
3. Acuzapar-se - sentar-se.
4. Amarafundado - cheio de trabalho.
5. Andar à galipa - andar à bulha, à pancada.
6. Andar num badanau - andar muito atarefado.
7. Anhuca - pessoa que confunde tudo.
8. Arroz de molho pardo - arroz de cabidela.
9. Atentarete - diabito, arreliador.
10. Aucalité - coisa sem importância.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Retratos (20)


A damisela (O´Neill dixit) postava-se à direita do blogue, de perfil, semi-sorridente e de óculos escuros, satisfeita de si. Escrevia elegantemente, com minúsculas depois dos pontos finais. Gostava  dos livros do mãezinha, do Cruz, e dos daquele rapaz que tem um piercing no sobrolho. O seu C. V.  abusava um pouco da psicologia positiva, de life changer, de life coaching, de workshop, de academia...
Se a lêssemos, uma beatitude espalhava-se pelo nosso dia, num optimismo vaporoso de rósea felicidade invencível.
As suas referências atestavam formação jurídica, mas que pouco teria praticado, para criar a sua academia, onde administrava cursos de bem-estar na vida. Pagos, claro. Numa entrevista, muito publicitada, insistia na ideia de descomplicar (?) os dias e reafirmava que gostava de buganvílias e de mirtilos, ao brunch.
Mais tarde e por acaso, e depois de lhe ter fixado o rosto, vim a vê-la de corpo inteiro - era francamente obesa, apesar dos mirtilos.

Samuel Barber (1910-1981)

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O fundibulário incontinente


Numa coisa, a prolongada crise no Sporting foi útil, para evitar a poluição palavrosa, por causa dos fogos. O palreiro de serviço, tão ocupado com o seu clube, deixou de defender os Bombeiros, seus subordinados, e de desdobrar-se,  nas televisões, em declarações inflamadas e apocalípticas sobre os incêndios em Portugal.
Haja saúde, ó Bruno de Carvalho!...
( Vai dando trabalho ao Marta.)

De acordo com a estação...


A tendência para a uniformização está patente no adolescente da extrema esquerda: seria um interno do Colégio Militar, em saída de férias graciosa para a época balnear, mas que manteve o uniforme?
E as meninas estão bem compostinhas... Mas eu destacaria o pater familias, sobretudo e apesar do calor,  por não ter abdicado do seu traje de cerimónia. E que, decerto, não tomaria banho.

Pinacoteca Pessoal 137


Filha de cantores de ópera, a pintora norte-americana Gertrude Abercrombie (1909-1977) passou três anos da sua infância na Alemanha, tendo-se fixado, a partir de 1916, em Chicago. Completou o curso de Belas Artes e começou a pintar cedo, tendo tido algum sucesso com as suas primeiras exposições. Era grande entusiasta de Jazz e contava, entre os seus amigos, com Charlie Parker, Sarah Vaughan e Dizzie Gillespie, tendo este último tocado na cerimónia do seu segundo casamento.


A sua pintura é um pouco desconcertante, com algo de naïf, pelos temas e despojamento de cenários, sendo de difícil classificação, muito embora os críticos de arte a incluam, normalmente, no Surrealismo. Diversos auto-retratos, naturezas mortas e paisagens quase desérticas, bem como cenas de interior, são predominantes na sua obra. A que acrescentava, com alguma frequência, gatos e caracóis, como se fossem uma espécie de ex-libris. Ou outros pequenos símbolos.


A meio da vida, exprimiu a sua maneira de ser e de pintar, de forma lapidar, assim: Não estou interessada em coisas complicadas, nem em lugares comuns. Gosto de pintar coisas simples, mas que sejam um pouco estranhas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

As diferenças de grau e o sentido crítico, ou a eterna infância


Por extremo limite e desatenção flagrante, ou por amável estultícia infantil, é claro que podemos meter no mesmo saco, de Poesia, António Aleixo e Luís de Camões. Em cinema, não fazermos distinção entre  Ed Wood e Kubrick. Umberto Eco e Dan Brown, na ficção histórica. A noção de qualidade é, ou devia ser, uma exigência de quem cresce. A sua ausência denota, também, a inexistência de sentido crítico e a eternidade inocente de algumas infâncias que se perpetuam, para felicidade  pueril e inefável dos seus donos...

domingo, 5 de agosto de 2018

Os Trabalhos e os Dias 84: Final feliz



Para terminar a tarefa de encher a despensa de doces para o resto do ano e, sobretudo, para o Inverno, faltavam, pois, os pêssegos para fazer companhia aos morangos e às cerejas.

O tempo, e sobretudo o calor, não estava nos planos para o dia da cozedura. Mas, a fruta tinha sido encomendada, como de costume, uma semana antes, ao meu vendedor de referência, no Mercado do Monte de Caparica. O Telmo lá me arranjou o pêssego do Senhor Raimundo, de Donas, Fundão. Ainda ficaram um dia, ao calor, para amadurecer.

E hoje, apesar da canícula, lá teve que ser. Quase quatro quilos de pêssegos se reduziram a 14 frascos, entre pequenos e grandes, a doce de pêssego. Quem provou ao jantar, gostou e repetiu. Sinal de aprovação.

Post de HMJ

Razões biográficas, com pseudónimo

É preciso ter paciência e abandonarmos o frenesi virtual da ligeireza. São cerca de 20 minutos de entrevista a John Le Carré (1931). Eu creio que vale a pena ouvi-lo.

Divagações 132


Uma das características imprescindíveis de uma obra prima ou de um clássico, para mim, é que não pode, nem deve ter unicamente uma leitura ou interpretação linear. Mesmo que, para alguns, essa seja a única visão - a da superfície das águas. 
Um poema, uma pintura abstracta, um filme, uma peça musical, de qualidade, deve obrigar a uma descodificação da emoção que desperta, um travo longo - como de um vinho raro - que se prolonga. Uma reflexão posterior, em suma, que pergunta a Vida.

Leonard A. G. Strong (1896-1958)



The Appointment
(O Compromisso)


Sim, disse ele, sim com certeza que tentaste
vir, mas não te deixaram. Foi o que eu pensei -
Mas alguma coisa no seu coração se revoltou gritando
mortalmente, como um pássaro apanhado pelo gato.

Acasos, oportunidades, gostos


Por mero acaso, ontem, tive a oportunidade, e felicidade, de ouvir, em sequência intervalada, entrevistas a 3 escritores, qualquer delas interessante, tendo em conta a bagagem de experiência pessoal, a obra e inteligência dos autores, mas também a qualidade dos entrevistadores, que acaba por ser, nestes casos, decisiva e fundamental. Foram eles, por ordem cronológica: John Le Carré, Salman Rushdie e, finalmente, Jacinto Lucas Pires.
Tenho de confessar que a entrevista que mais me agradou foi a de John Le Carré, talvez porque seja o escritor cuja obra conheço melhor, mas também porque gosto muito de o ler. Não digo adorar, porque é um verbo que não entra no meu léxico deste tipo de coisas, nem sentimento que costume experimentar.
Pus-me a divagar depois. E, se é certo, que se reflectir um pouco, eu sou capaz de explicar, em palavras simples, a razão por que aprecio Camilo e Eça, Maugham e E. M. Cioran, teria uma enorme diculdade em justificar e argumentar o meu gosto pelas obras de Simenon ou de John Le Carré. Socorro-me de Pascal, que dizia: O coração tem razões que a razão desconhece.