quarta-feira, 16 de junho de 2021

Haikai de Kyoroku

 

Ela ondeia as barbatanas
pelo fundo das águas,
sinuosa, a carpa sonhadora...


Kyoroku (1652-1715)

terça-feira, 15 de junho de 2021

Bibliofilia 189



No ano anterior (1891) a ter composto o, para o poeta português António Nobre, o impressor parisiense León Vanier produziu nas suas oficinas uma das últimas obras poéticas de Paul Verlaine (1844-1896) - Chansons pour Elle. Não sendo embora das produções mais conhecidas, o conjunto revela a maturidade atingida pelo poeta francês. O livro, de 56 páginas, teve uma edição especial em papel japonês. A edição comum, não sendo rara, não é muito habitual aparecer à venda.



Pela net, encontrei algumas ofertas de venda de exemplares desta primeira edição de Verlaine. De França, em 2013, da Articurial, era pedida, por uma edição especial, a quantia de 9.099 euros, sendo que o livro era acompanhado por um manuscrito autógrafo do poeta. Da impressão comum, os preços oscilavam entre 338,24 euros (Ebay Holanda) e 800 (Librarie l'Ancre Aldine).




Em finais dos anos 80 do século passado, tive oportunidade de comprar, na Rua do Alecrim 44 (Lisboa), um exemplar da edição comum, por Esc. 2.200$00. Este livro teria pertencido, muito provavelmente, ao escritor e diplomata Alberto de Oliveira (1873-1940), que fora amigo de António Nobre.

domingo, 13 de junho de 2021

Uma louvável iniciativa 60

 


São inúmeras, até hoje, as edições do , de António Nobre (1867-1900), desde que o poeta, em Paris, resolveu entregar os cuidados da edição original ao editor León Vanier (1847-1896), em Março de 1892. Nobre fê-lo porventura porque o conceituado impressor parisiense era o preferido de Verlaine, bem como de uma boa parte dos simbolistas, decadentistas e modernos: Rimbaud, Laforgue, Mallarmé...
A tiragem do livro foi de 230 exemplares, muitos dos quais oferecidos, mas é hoje caro e raro, quando  aparece à venda em leilões e alfarrabistas.



Não tendo a impressão primeira, à minha conta possuo as seguintes edições: 3ª (1913), muito bonita e ilustrada, a 7ª de 1944, e 11ª (1959). Mas não só. Em 1992, por feliz iniciativa do poeta e diplomata (Unesco) José Augusto Seabra (1937-2004), e com alguns patrocínios, convergindo com o século da publicação da obra-prima de António Nobre, foi editada uma edição fac-similada feita com base no exemplar que fora do autor, pertença do acervo da BPMP. E com as correcções manuscritas de António Nobre. Importante, por isso. Aqui deixo, do meu exemplar, algumas  imagens, para o efeito.


Édouard Lalo (1823-1892)

Pessoa popular

 

1.
No dia de Santo António
todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
como é que todos rirão?

2.
Santo António de Lisboa
era um grande prégador,
mas é por ser Santo António
que as moças lhe têm amor.


Fernando Pessoa (1888-1935), in Quadras ao Gosto Popular (Ática, 1965).

sábado, 12 de junho de 2021

Actos clínicos

 

Por entre família vocabular, ao que parece, de entre zaragata e zarabatana, vem-nos a palavra zaragatoa, assim despudorada e intempestiva, com resquícios sugestivos de alguma agressividade associada. Obriga-nos a franzir o sobrolho, naturalmente, aquando do seu escarafunchar as nossas entranhas nasais em demanda do Covid 19. Cotonete mais crescido, o pequeno bastão fino é manobrado por enfermeira jovem, mas habilitada, para recolher indícios. E, no H. da O. T. de S. Francisco (Lisboa), este acto clínico, sem receita do médico de família (SNS), é tabelado a 100 euros por acção preventiva. Demora 10 a 15 minutos, na instituição franciscana...
E não me digam que não se pode fazer negócio com o bicho!?...

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Antologia (prosa) 2

 


Dimanche 13 janvier 1963

Toda a poesia é intraduzível. Se a edição bilingue dos poemas de Emily Brontë foge à regra, o mérito pertence, à partida, ao tradutor Pierre Leyris. Mas principalmente uma presença se nos impõe, uma dor, uma solidão cujo grito passa através das palavras estrangeiras e faz esquecer a música destruida: no texto francês um coração continua a bater, e eu escuto essa pulsação que se silenciou na poesia francesa de hoje, depois que Rimbaud escolheu calar-se.
A recusa em deixar o sombrio paraíso da sua infância impede Emily de respirar fora do seu presbitério natal. Haworth e da sua charneca ligados a este destino único que lhe guardam o segredo. Porque há um segredo, aqui como em toda e qualquer vida, como em toda a grande poesia, naquele tempo em que os poetas acreditavam na sua alma. O que eles chamavam poesia, era a expressão desse segredo de que eles não revelavam o nome. E talvez nem eles próprios o conhecessem. Os Brontë em Haworth, os Guérin em Cayla: destes dois «altos lugares» se eleva para mim (que teria tido um destino tão diferente desses destinos) uma lamentação, que é minha absolutamente.


François Mauriac (1885-1970), in Bloc-notes, tome III (pg. 291).

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Citações CDLVII



O grande inimigo da linguagem clara é a insinceridade. Sempre que há um espaço entre os verdadeiros objectivos e  os fins declarados efectivamente, o autor socorre-se instintivamente de longas e exaustas palavras (...) Mas se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também corrompe o pensamento.

George Orwell (1903-1950), in  Politics and the English Language (1946).

terça-feira, 8 de junho de 2021

Uma fotografia, de vez em quando... (148)

 


Irritação? Curiosidade? Ou apenas a cegonha à procura de um poleiro, mais alto e mais seguro?

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Da leitura 44



"É um segredo de polichinelo que os intelectuais em regime de clausura e os homens que passam a vida emparedados entre livros e textos podem experimentar com especial intensidade as seduções de propostas políticas violentas, sobretudo quando a violência poupa as suas próprias pessoas."

George Steiner (1929-2020), in Martin Heidegger, pg. 31.

sábado, 5 de junho de 2021

Rafael Montesinos (Sevilha, 1920 - Madrid, 2005)

 


Fabula del Limonero


Debaixo do limoeiro
a rapariga dizia-me
: - Quero-te.

Pus-me então a pensar
que era melhor ser cortês.
Tirei as migas do pão.

Debaixo do limoeiro
a rapariga me deu
o seu beijo primeiro.

E juntos vimos cair
todos os limões ao chão
quando foi do amanhecer.

Debaixo do limoeiro
a rapariga me disse:
- Eu morro.

E eu já não sei onde ir
que o limoeiro me lembra
a graça do seu perfil.



Rafael Montesinos, in Canciones perversas para una niña tonta, 1946.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Diz a Lusa



Se não fosse oriunda da Agência  Lusa a novidade extravagante, eu teria pensado que talvez fosse uma fake news... Mas, ao que parece, em 2022, o Museu Gulbenkian irá inaugurar uma exposição, sobre Arte Egípcia, que o historiador português Pimentel e o curador francês Benjamin Weil intitularam, já antecipadamente, de Faraós Superstar, de forma espectacular. Não sei se a cabeça de Sesóstris III, feita em obsidiana, aparece na mostra, mas que é parecida com o rosto do director que veio do MNAA, para a Gulbenkian, lá isso é!...

Revivalismo Ligeiro CCLXIII

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Antologia (poesia) 1

 


Eugénio de Andrade (1923-2005), in Pureza * (1945).


* este terceiro livro do poeta, foi excluído da bibliografia pelo autor.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Bibliofilia 188



Vi há dias, na RTP 2, um interessante documentário (Laureano Barros, Rigoroso Refúgio) sobre o matemático e importante bibliófilo nortenho que, na sua Quinta de Fonte Cova (Ponte da Barca), foi constituindo uma enorme e valiosa biblioteca que viria a ser leiloada, no Porto, pelo alfarrabista Manuel Ferreira, em 2010. O catálogo da almoeda compreendia 6 volumes, que ainda hoje podem ser adquiridos por 120 euros, na livraria portuense.
Para quem se interesse pela bibliofilia nacional há alguns nomes míticos de personalidades que reuniram bibliotecas importantes de livros antigos e obras raras, como por exemplo: Sir Charles Louis Gubian (cujo acervo foi a leilão em 1867),  Fernando Palha (em 1896), José Maria Nepomuceno (1897), Azevedo e Samodães (1921/22), Ávila Perez (1939/1940)...
Laureano Barros (1921-2008), homem probo, rigoroso e sério, interessava-se sobretudo por primeiras edições portuguesas dos séculos XIX e XX (Nobre, Cesário Verde...), e teve, ao longo da vida, relações privilegiadas de amizade com Luis Pacheco (1925-2008), de que conservava muitos manuscritos autógrafos. Bem como tinha como amigo o poeta Eugénio de Andrade (1923-2005), de quem conservava um raríssimo exemplar (dos 53 publicados, em 1940) de Narciso, obrinha de XVI páginas inumeradas, que viria a ser renegada pelo autor, mais tarde.
O pequeno livro de poesia, com dedicatória de Eugénio de Andrade, era o lote nº 280, da primeira parte do leilão, e foi arrematado por 4.000 euros, dada a sua extrema raridade.


terça-feira, 1 de junho de 2021

Inesperadamente



Custa-me a crer, mas ao não encontrar o Público na tabacaria, foi-me dito, pelo balconista, que, como no CM os jornalistas fizeram greve, o meu jornal se tinha esgotado, por opção secundária dos leitores. Não se admite, ainda para mais num diário de direita, politicamente, e no Dia Internacional das Crianças... Lá tive que comprar, por vício de leitura, uma folha de couve medíocre, ainda mais cara (1,50 euros), e cuja única vantagem é trazer o dobro dos Sudoku, para eu fazer.



Adagiário CCCXXIII



Sardinha sem pão é comer de ladrão.

domingo, 30 de maio de 2021

Recomendado : noventa e um - um branco alentejano de gabarito

 


Parece ser caprichosa, esta casta Viognier oriunda do vale do Ródano francês, e ainda pouco disseminada em Portugal. Mas a sua junção feliz com o Arinto nacional produziu um enlace bem sucedido e de muito boa qualidade, ali para as bandas de Reguengos de Monsaraz, no Monte dos Perdigões. É uma colheita seleccionada, a de 2020, nos seus 13,5º equilibrados e que, pelo seu sabor muito próprio, pode vir a acompanhar, dignamente, um rodovalho ou pregado. Ou até mesmo uma lagosta, neste Verão calmoso. O Aldi (passe a publicidade...) que o lançou a 5,99, rebaixou-o, recentemente em promoção, para 2,99 euros. Que é um preço de amigo e bem merecido. Há que prová-lo!


Gabriel Fauré (1845-1924) : Nocturno nº 4


Há pelas ruas um sacrossanto silêncio, inesperado. Agora, imagine-se nas praias a populaça. Amanhem-se os banhistas!... Estou de bem com este nocturno de Fauré, mais o seu jovem executante pianista, que acompanha a harmonia da tarde que, por aqui, começa.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Abertura da estação



Que eu tenha dado por isso, é a terceira gerência à frente deste conhecido restaurante da Trafaria. Os primeiros proprietários fizeram-lhe a fama, com razão e cozinha conceituada: eu gabava-lhes a Mousse de Chocolate, como sendo a melhor da zona sul, tirante a confeccionada por HMJ. Mas havia uns Rojões à Moda de Vinhais e, de vez em quando, uns Linguadinhos com Arroz de Tomate, de apetite. Aqui há uns anos, a gerência mudou e a Antiga Casa Marítima, da Trafaria, perdeu qualidade, em cozinha e serviço. Só lá fui duas vezes, e ficámos arrependidos. Ontem porém decidi arriscar, porque me pareceu ter havido mudança e gente nova a atender. Era um facto, a gerência era nova e a qualidade voltara ao restaurante!



Abrimos assim a estação da sardinha assada, ainda antes do mês dos santos populares, e elas já estavam saborosas, pagando-se a 11,50 euros a dose. Acompanhou, bem, um branco Grão-Vasco 2019, lotado com Encruzado, Bical e Malvasia Fina. Fresco, à beira-rio. Tranquilamente.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Paul Gauguin : leitura e pintura

 


Creio que poderia apostar que o meu primeiro contacto com Paul Gauguin (1848-1903) foi através da leitura e não dos seus quadros. Aí pelos meus catorze anos, o meu professor de Inglês (Dr. Fabião) desafiou-me a ler The Moon and Sixpence (Um gosto e seis vinténs, na Colecção Miniatura), romance em que Somerset Maugham (1874-1965) efabulava a vida do pintor francês sob a personagem fictícia, mas bem elaborada, de Charles Strickland.



Por essa altura, o meu gosto incidia sobre as obras de Van Gogh e de Fra Angelico, para considerar apenas os extremos... Mas o pequeno romance de Maugham abriu-me a curiosidade para a pintura singular de Gauguin. De que eu destacaria, preferencialmente, um quadro, de 1902, pouco conhecido, intitulado Rapariga com Leque, pertencente ao Museu Folkwang, de Essen.






quarta-feira, 26 de maio de 2021

Citações CDLVI



A solidão é o fundo  último da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e que procura o outro.

Octavio Paz (1914-1988). 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Curiosidades 86 : Rare uncovered audio & footage - Franz Liszt masterclass late 19th century



Muito antes da Beatlemania dos anos 70 do século XX, existiu a Lisztomania do século XIX, termo cunhado pelo poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856), justificado pelo fascínio e sedução que o compositor húngaro exercia sobre os seus admiradores.Viana da Mota (1868-1948) terá sido um dos últimos alunos de Franz Liszt (1811-1886), facto que, frequentemente, o pianista português não se esquecia de lembrar. Mas esta filmagem, no vídeo acima, não certificada e retro, não deve incluir Viana da Mota, apesar da possibilidade temporal exequível. Repetitiva e medíocre, no entanto, quanto à qualidade, não deixa de ter alguma originalidade, rareza de testemunho, e sublinhar que Liszt era um sedutor, sobretudo para com as jovens e senhoras alunas que o frequentavam...

domingo, 23 de maio de 2021

Voltar a Drummond



Seco de carnes, rico de talento, de Drummond (1902-1987) falei há dias (Poesias, da brasileira em particular, 16/5/21)) a propósito da sua abrangência e facilidade para tratar temas quer dramáticos, quer lúdicos, literariamente. Dos primeiros, com mais incidência na sua obra poética, eu destacaria (Antologia Poética, 18, Poetas de Hoje, Portugália, 1965) os mais significativos, na minha opinião:
1. Sentimento do Mundo (pg. 25) - Tenho apenas duas mãos...
2. Caso do Vestido (pg. 81) - Nossa mãe, o que é aquele...
3. Morte do Leiteiro (pg. 131) - Há pouco leite no país,...
4. Desaparecimento de Luísa Porto (pg. 103) - Pede-se a quem souber...




No que diz respeito a humor, Carlos Drummond de Andrade guardou-o mais para a prosa e a crónica onde, muitas vezes, o lado lúdico, inocente, quase infantil, à boa maneira de Manuel Bandeira, irrompe irreverente. Leia-se esta pérola:

1. Excesso de Companhia

Os anjos cercavam Marilda, um de cada lado, porque Marilda ao nascer ganhou dois anjos da guarda.
Em vez de ajudar, atrapalhou. Um anjo queria levar Marilda a festas, o outro à natureza. Brigavam entre si, e a moça não sabia a qual deles obedecer. Queria agradar aos dois, e acabava se indispondo com ambos.
Tocou-os de casa. Ficou sozinha, sem apoio espiritual mas também sem confusão. Os dois vieram procurá-la, arrependidos, pedindo desculpas.
- Só aceito um de cada vez. Passa uns tempos comigo, depois mando embora, e o outro fica no lugar. Dois anjos ao mesmo tempo é demais.
Agora Marilda é o anjo da guarda dos seus anjos, um de cada vez.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Anote-se, para que conste

A globalização até nos kit-Medina (oferta da Câmara M. de Lisboa), post-recobro da vacina para o Covid, se notava. Os saquinhos simpáticos para HMJ e para mim, só diferiam na fruta. Igual o pacotinho de bolachas de água e sal, da fábrica Vieira de Castro, de V. N. de Famalicão e a embalagem aerodinâmica de água colhida algures na U. E., relativamente anódina. Quanto à fruta, calhou-me mais uma vez uma maçã, mas oriunda da Polónia; HMJ recebeu uma pêra da África do Sul...

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Do que fui lendo por aí... 43

O livro é de leitura agradável, convidando à fluidez natural dos temas e à elegância da escrita. O autor, pertencente a uma dinastia que se foi perpetuando nas Necessidades, reuniu no volume textos vários já publicados em revistas e jornais (JL, sobretudo, Grande Reportagem, Semanário...), abordando assuntos literários, políticos, sociais. Escolhi umas linhas, da página 290/1, em que Marcello Duarte Mathias (1938) fala de enologia e Cascais, assim: "Das coisas que me divertem, logo que chego a Portugal, é ir ali a uma loja de vinhos em Cascais abastecer a minha mini-cave com meia dúzia de boas garrafas de tinto e branco, é sempre dinheiro bem gasto. Não sendo, todavia, grande enólogo, aconselho-me com um senhor simpático que trabalha no local e que já conhece os meus gostos e preferências. Lá me vai recomendando uns brancos secos, mas não muito, uns tintos leves e saborosos de cor fina até acertarmos naquilo que procuro. E ali me deixo ficar um bom pedaço naquela penumbra convidativa, a admirar o figurino e a elegância das garrafas, alinhadas nas prateleiras de madeira como livros ao longo duma estante, os rótulos e os pormenores que referem as regiões donde provêm..."

Percebi o porquê da minha preferência e selecção do texto do Embaixador, lembrando-me que em meados dos anos 70 também por lá andei (Cascais), e dessa (creio) loja trouxe uns Messias Garrafeira Particular, brancos, e uns Colares Chitas, tintos, que deixei amadurecer na minha garrafeira para proveito meu, da família e de bons amigos que me acompanharam à mesa, anos depois.

grato reconhecimento a H. N., que me proporcionou esta leitura amena.

Um CD por mês (25)


Victor e Marina A. Ledin, em 1997, referem num pequeno estudo sobre o compositor húngaro que: Franz Liszt (1811-1886) was an inveterate transcriber. Whether the melody was a simple folk song, a complex symphonic work, a lengthy chamber piece, an operatic aria, or a beautiful art-song, Liszt could not resist the urge to lovingly transform it into a piano work. Foi assim que, para além de um prolífico criador de obras originais, abordou glosando trabalhos de cerca de 100 outros compositores, entre eles Bach, Beethoven, Mozart, Donizetti... De Richard Wagner glosou Liszt algumas óperas, tais como Rienzi, Parsifal e Tannhäuser (registo, este, parcial no poste anterior).

Nos anos 90 do século passado, a etiqueta Naxos decidiu gravar a obra completa para piano de Franz Liszt, incluindo uma boa parte das transcrições elaboradas sobre a obra de outros compositores. Os CD têm como executantes pianistas da qualidade do magiar Jenö Jendó, por exemplo. Alguns desta série adquiri-os no Megastore Saturn, de Colónia (Alemanha). Parte deles, ao preço de 9,99 marcos alemães, o equivalente, na altura, a Esc. 1.000$00. O que, tendo em vista a qualidade, era um preço mais que justo.

terça-feira, 18 de maio de 2021

O mercado e os merceeiros

 


É este o nível das bancas...

domingo, 16 de maio de 2021

Poesias, da brasileira em particular

Para além da nacional, naturalmente, as líricas que frequentei mais terão sido, por esta ordem: espanhola, brasileira e a de língua inglesa (britânica e norte-americana). Em vanguardas, a que foi mais ousada, embora com falta de sentido crítico, muitas vezes, terá sido a brasileira, nas suas expressões muito diversas e de exibicionismo barroco, ultra-exagerado. Mas a mais próxima de nós, na minha opinião e seguramente, sempre foi a poesia espanhola. Quase se sente ser da mesma família...



Sou levado por vezes a classificar, no meu íntimo, alguns poetas de merecimento, brasileiros, em duas distintas categorias: dramáticos e lúdicos. No primeiro patamar, eu incluiria Jorge de Lima e Cecília Meireles; no segundo, arrumaria Manuel Bandeira e Manoel de Barros. Híbrido no tratamento de temas, e ainda de grande qualidade, Carlos Drummond de Andrade.



De tempos a tempos, costumo comprar antologias de poetas, para me actualizar, naquilo que se vai fazendo aí por fora. Recentemente, na Livraria da Travessa, comprei uma 3ª edição (a primeira é de 1976) de 26 Poetas Hoje (2021), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda (1939). A colheita foi magra nas preferências, mas aqui deixo 3 poemas que marquei, favoritos. De:


1. Charles (Carlos Ronald de Carvalho, 1948)

sem título

nunca viajei de avião
mas muitas vezes estive no ar

Um desinteresse marcante
uma marcação latente
uma dor de dente
uma paixão fulminante


2. Antonio Carlos Secchin (1952)

Visita

O verso era um abraço salgado
que os peixes telegrafaram.
Era um cisne louco
bicando o amor.
Era o secreto frio
trancado na boca.
Era o tempo roendo os móveis,
os olhos, a conta do gás.


3. Luis Olavo Fortes (1952)

Meu amor de soslaio

Faz tanto calor no Rio de Janeiro
que é bom sentir essa neve
partir de seu olhar.