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domingo, 8 de junho de 2014

Flash


Em Lisboa, o que a manhã de domingo tem de melhor é o quase-silêncio, a tranquilidade e a fluidez do trânsito. As poucas lojas abertas parecem estar à nossa espera. Frescos, os empregados atendem-nos com um sorriso prévio e palavras pausadas.
Mas há também dois sem-abrigo, na rua: um móvel e rápido, com um saco de plástico na mão, dirige-se para nenhures, pelo passo errante; outro, senta-se, ainda adormecido, no degrau de uma porta, bem próximo do Ministério da Economia. 
Mas o Camões está praticamente deserto. Cheio, cheio, só o 28. Com turistas, ávidos e fotografantes.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Paisagem urbana e paisagem ribeirinha, numa tarde de Sol


Entre o cavalheiro inteiriçado no seu capote alentejano, que vi passar junto à Igreja dos Mártires e a flexibilidade aérea do pato selvagem, negro, sobre o Tejo, só a cor da cobertura exterior era a mesma. E, entre a visão de cada um , medearam quase duas horas. Em ambos os casos, o Sol teve efeitos diferentes.
O cavalheiro, apesar de agasalhado, ia rígido e tenso, como se fosse com frio e desconforto. Quanto ao pato selvagem, ao Sol das 15h00, mergulhou deliciado nas águas do Tejo, e pôs-se a espanejar as asas. E por lá ficou...
O capote alentejano seguiu em direcção ao Camões. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

À vinda


Um jovem avançado, que já vai acima dos 30 anos, cabriola, em frente à "Brasileira", ao som dum saxofone mal empregue. Adolescentes fardadas, em fatos de treino coloridos e iguais, em roda, fazem exercícios junto à estátua de Camões, onde pombos irrespeitosos dejectam sobre a cabeça laureada do Poeta - como ele diria: "...não há mal que lhe não venha".
Sete ou oito turistas estrangeiros, alguns já de calções, fotografam furiosamente tudo aquilo que não mexe: fachadas, cornijas, estátuas, varandas... Fotografam num frenesi visual impiedoso e histérico (que até um côxo teve que se afastar velozmente, para não ficar na fotografia). Junto ao consulado do Brasil, quatro caboclos oferecem os seus serviços a quem entra. De impressos a pequenas sandes tropicais, embaladas.
Mas o melhor, para mim, ainda estava para vir. Num telejornal roto pela desgraça dos 19% de desemprego, um mini-stro, de fala arrastada, como se tivesse tido um AVC, perora em circuito fechado e redondo sobre os malefícios que nos esperam. Creio que nunca ninguém conseguiu errar tão clamorosamente as previsões a que se propôs. Ele não tem vergonha e, nós, ainda o ouvimos...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Os feirantes no coração de Lisboa (ibidem)


Anote-se, para que conste, uma subida de tom, no Chiado, por parte dos feirantes. Hoje, na "serenata" ao ministro Álvaro, os feirantes trouxeram vuvuzelas - creio que foi a primeira vez. E as músicas são muito mais "reboladas"...Talvez por ser dia de S. Valentim. Como dizem os franceses: "ce n'est pas amour, c'est rage!"

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Apontamento breve sobre o Camões, o Álvaro e os feirantes


Os feirantes parece que se afeiçoaram a este Largo do Camões e lá voltaram...para dar música ao ministro. Mas, ao que parece, ou mudaram de estratégia ou de DJ. Agora as músicas são mais românticas, com o Quim Barreiros (eu acho que quadra bem com o Alvarito) à mistura, em momentos de maior paroxismo e quando as palavras de ordem (Ministro, escuta/ esta é a nossa luta! e  Pereira, Pereira/ arranja uma maneira!) se intensificam, em vozeirões de feira.
E eu, que remédio, vou-me habituando a este arraial...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O massacre


Alguns dos visitantes do Arpose devem lembrar-se daquelas barracas de feira (popular), com latas vazias empilhadas, ou fantoches, que os fregueses tentavam deitar abaixo atirando-lhes bolas de pano, para ganhar um prémio. Pois o Largo Camões, ultimamente, tem sido uma espécie de Feira Popular, com os feirantes, diariamente, a massacrar o ministro Álvaro com música pimba, em altos brados. Atirando-lhe também com "Grândola, vila morena" e com o Hino nacional, à mistura, a ver se o boneco cai. Nas profundas do seu gabinete, que deve ser nas traseiras, o homenzinho deve ter que pôr algodão nos ouvidos, para conseguir trabalhar economês.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Música para ministros


Apesar dos 17º lisboetas, ontem e hoje, o Álvaro deve ter sentido saudades das planícies geladas e silenciosas do Canadá. Porque, ali pelo Camões, bem junto do seu gabinete ministerial, os feirantes montaram um arraial, para lhe dar música. Ensurdecedora, convenhamos, porque o mais suportável ia de Vangelis a Tina Turner, sendo que as sobrantes estridências impediam qualquer cidadão normal de ter sossego ou de se concentrar.
Mas ontem, pelo menos, o Gaspar, lá para as bandas do Terreiro do Paço, também teve direito a fanfarra... Mas parece que mandou a doutora Eva falar com os feirantes. Talvez lhe tenham desamparado a loja.
O que fazem os tempos: dantes os Ministros iam ao S. Carlos ouvir música; agora levam a música até ao local de trabalho dos ministros. Singularidades da democracia portuguesa. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As estridências da manhã


Ainda embebido do suave torpor do sono tranquilo, acordo alucinado para "a loucura do dia-a-dia". O primeiro e matutino despertador é o estridente "tlim-tlim" do 28, desesperado, que não consegue passar na rua por causa de um carro mal estacionado, que uma jovem egoista deixou ao deus dará, para ir ao banco.
No Camões, as estridências são de 3 tipos: buzinões, vuvuzelas e o INEM. As primeiras vem dos automóveis, bloqueados no trânsito por um grupo de cerca de 100 manifestantes que sopram, brutalmente, nas vuvuzelas (segunda estridência); a sirene do INEM tem desculpa - deve levar alguém aflito.
Acalmo e sereno, apenas, ao passar pela paragem do 750/790, da Carris, na Rua da Misericórdia. Uma imagem fantástica: alguém que, pelo rosto, poderia ser o Luiz Pacheco, até na idade. Um clone autêntico. Destoa apenas a bengala elegante e com castão de prata, e um lencinho vermelho a aparecer na lapela, com garridice inesperada. E o ar era mais composto e arrumado que o do falecido escritor, mas não faltavam sequer as lentes garrafais nos óculos de menino(-velho) infeliz.
Deixo-o para trás: vou ao que vim. E regresso ao ruído insolente e ensurdecedor das vuvuzelas...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Passos avulsos, à volta do Camões


Será que não vamos ter iluminações, pelo Natal, no Metropolitano?! Esclarecendo a dúvida metafísica: na Estação de Metro Baixa-Chiado, hoje, o corredor de saída estava, romanticamente, à meia-luz. E havia poças de água junto à parede, do lado direito. Curto-circuito?, Empresa de manutenção em greve?, Poupança de energia?. Ninguém sabe, nem os Seguranças, que são como as porteiras antigas... O último lanço das escadas, que dá para o Chiado, estava, mais uma vez, avariado. Pode ser que os 2 engenheiros da inefável Administração do Metropolitano de Lisboa venham dar as Boas-Festas aos funcionários, se apercebam, e mandem arranjar... Oxalá!
Senão, continuará a ser a "apagada e vil tristeza", à portuguesa, de que falava Luís de Camões.
Quando parei, no quiosque, para comprar tabaco, vi, ao longe, os estorninhos, mas pouco depois chegou uma jovem (18?, 20 anos?) que perguntou ao dono:
"- Pode-me dizer onde fica a Rua dos Camões?"
O homem, compungido, replicou: "- ...só se for Largo..."
E a jovem voltou à carga: "- E a Igreja dos Camões?"
Não consegui calar-me e rosnei, baixo: "- Parece que ainda não passou a Santo!..."
E o dono do quiosque completou, cúmplice e em voz mais alta: "- Pois é, o Camões ainda não foi canonizado."
Não sei o fim da história, porque abandonei de seguida o local, em direcção a casa.
Mas parece que estamos melhor no ranking da Educação da O. C.D.E.. Valha-nos isso!...