
As Coordenadas Líricas
Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu.
A geométrica forma dos meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.
Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
- as minhas coordenadas.
Fernanda Botelho (1926-2007)
A solidão é essa morte imensa
onde os mortos não cessam de viver.
E onde os vivos recolhem a tristeza
de irem morrendo sem saber a quê,
embora se perturbem. E apareça
o grande nascimento ao que já se é.
Fernando Echevarría (1929)
VI
Deixo este recado para Karl:
todo o rigor da ruptura
cria os possíveis da fala
mas por detrás das palavras
há uma prática
crepuscular
o modo de produção da noite
é literário
Vasco da Graça Moura (1942)