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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Pinacoteca Pessoal 154


Creio que terá sido o historiador de arte britânico Kenneth Clark (1903-1983) quem, em 1936, a propósito de uma exposição de pintura surrealista, designou para essa escola alguns precursores. Referindo, para o efeito, entre outros, os nomes de Bosch, Giovanni di Paolo e Agostino Veneziano. Bem como de Goya.


Se Agostino Veneziano (c. 1490-c. 1540) é conhecido sobretudo pela sua extensa obra de gravador, provavelmente, foi pela sua gravura Lo Stregozzo, ou The Carcass como a nomearam os ingleses, pertencente ao acervo do British Museum, que Clark se inspirou e fundamentou para a sua tese.


Quanto a Giovanni di Paolo (1403-1482), pintor italiano, quero crer que o Salvamento de um náufrago por S. Nicolau de Tolentino poderia ter sido um dos quadros que Kenneth Clark tinha em mente para fazer a sua polémica afirmação.
No domínio da Arte, tudo são meras hipóteses e nenhum artista está isento de dívidas. Quero eu dizer: de influências.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Transições (2)


"Bosch é muitas vezes olhado como o último pintor da Idade Média, em que os dogmas da Igreja ainda se mantêm, enquanto Brueghel surge como pioneiro, como o céptico visionário da Idade Moderna."

Joseph Leo Koerner (1958), in Bosch and Bruegel.


Não resisto ao comentário de uma breve nota. Se a "Carroça de Feno" (Bosch) espelha, claramente, o cortejo de fantasmas e temores medievais, bem como a imaginação delirante, de cariz religioso, o quadro de Pieter Brueghel ("O camponês e o ladrão de ninhos") não deixa de expressar, alegremente, um realismo liberto da proibição de regras e dogmas, muito dirigido ao gosto de viver. A que não falta, cúmplice e dialogante, o dedo apontado à atenção do espectador, porventura desatento... Em qualquer dos casos, obras-primas da pintura europeia, que me apraz aqui deixar em imagem e arquivo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Historinha, quase uma fábula


Andam, por aí, muitos profetas da desgraça invocando os demónios mas, no antigamente, na vida, havia 3 classes no Mundo: os reis, que habitavam o Paraíso, a classe intermédia que morava no Purgatório, e os pobres que se arrastavam pelo Inferno. Então, houve alguém que, num passe de mágica e, filosoficamente, resolveu transferir estas paragens deterministas para o Além, ou para o reino do éter ou dos céus, numa outra vida, improvável. Durante séculos, este precário equilíbrio foi-se mantendo inalterável.
Até que um papa, de nome Bento, resolveu acabar com o Purgatório ou com a ideia dele. E foi assim que começou o  declínio, ou a desaparição gradual da classe média.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Diário presente do conjuntivo


Os influxos benéficos da minha viagem intempestiva, de Novembro, já quase se desvaneceram, no tecto baixo da desesperança lusitana. Voltaram as harpias e pitonisas da desgraça, nos telejornais, os títulos cadavéricos dos periódicos macabros (que o sangue sempre se vendeu bem), regressou o manequim de Belém com os seus esgares e tiques estandardizados para dizer nada. Voltou o coelho manso de voz estudada, enquanto o mago contabilista e sádico gaspar vai perorando sibilino - por onde andarão as FP-25?
Os amigos emagrecem, vão-se deprimindo à "apagada e vil tristeza" camoneana. Outros ainda esbracejam, num afogamento psicológico que não tem fim à vista. Parece que vamos todos feridos de morte. Mas é evidente que a 21 não vai acabar o mundo...

terça-feira, 6 de março de 2012

Bibliofilia 60 : camoneana




Este livrinho com a encadernação quebrada e em mísera situação tem, no entanto, o miolo e texto em boas condições. Comprei-o truncado porque é apenas o terceiro e último volume das obras completas de Luís de Camões, impressas em Paris, no ano de 1759, a expensas de Pedro Gendron. Por incompleto, comprei-o barato, em Lisboa, no ano de 1987, mas não me lembro, exactamente, por quanto o adquiri. Sei é que o li, à beira Reno, próximo de Colónia, em Agosto de 87 ou 1988. Com gosto e prazer.
Tem uma particularidade. É que inclui o poema, em 3 cantos, intitulado "Da Criação e Composição do Homem" que, durante cerca de 200 anos, foi atribuído a Camões. Só em 1824 foi descoberto, na Misericórdia de Guimarães, um manuscrito apógrafo das obras de André Falcão de Resende (1527-1599), que permitiu autenticar a autoria correcta e pertencente ao descendente de Garcia de Resende. Deixou, a partir daí, de ser incluído nas obras de Camões.
O poema, em si, é bem trabalhado e de boa cepa lírica. O que explica e justifica o engano. Se eu tivesse que acompanhar o poema "Da Criação e Composição do Homem" de imagens, escolheria um quadro de Hieronimus Bosch. Porque foi composto com uma imaginação lírica prodigiosa, embora com acentos renascentistas.

domingo, 2 de outubro de 2011

Curiosidades 42


Sabe-se que foi o dito Estado Novo, com autorização de Salazar, que saldou as dívidas remanescentes à livraria antiquária Quaritch, em Londres, contraídas por D. Manuel II (1889-1932), na compra de livros antigos portugueses que estão, hoje, no Palácio de Vila Viçosa, à guarda da Fundação da Casa de Bragança. As compras foram, em vida, sendo feitas pelo nosso último monarca, com a ajuda do bibliófilo inglês Maurice Ettinghausen.
Do que eu já não me lembrava, é que o quadro de Hieronimus Bosch (1450?-1516), "Tentações de Santo Antão", que hoje se encontra no Museu de Arte Antiga, fora também pertença de D. Manuel II. Recordei-o ao ler "A Casa de Bragança - História e Polémica" (1940), onde, na página 70, se refere o seguinte:
"...Por agora direi apenas que só a livraria de Fulwell Park tem estado segura no valor de 5.000 contos ou mais, e que, segundo me informa pessoa competentíssima, só um dos quadros - cujo direito de propriedade foi oportunamente reconhecido ao Senhor D. Manuel - deve valer de 15.000 a 20.000 contos. Refiro-me à "Tentação de Santo Antão", de Jerónimo Bosch, tríptico guardado no Museu da Arte Antiga. ..."

Notas: Fulwell Park era a residência de D. Manuel II, na Inglaterra, aquando do exílio. O texto transcrito integra uma carta de Fernando Martins de Carvalho, a um jornal português.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O acaso e a necessidade


O título deste poste devo-o a Jacques Monod (1910-1976) que foi prémio Nobel de Medicina, em 1965. O livro de sua autoria teve larga leitura e divulgação, no início dos anos 70, mesmo em Portugal. Mas a minha preocupação, não é científica. Tenho assistido, nos últimos anos, a pessoas da minha e das gerações vizinhas, a ocuparem-se, com desvelo, em leituras religiosas, outros a encarneirarem, cegamente, em teologias ou interrogações do além-morte que, cada vez mais, me deixam cercado, isolado e perplexo. Será que eu vou resistir com o avançar flébil da velhice?
A Cientologia a que aderiram dois meus conhecidos, deixou-me estarrecido e francamente preocupado. Contrapuseram-me que talvez isso os ajudasse a viver melhor. Não consegui responder. Claro que há outros mundos nas cabeças dos outros, mas, e como dizia o poeta: "...porque lhes dais tanta dor/ porque padecem assim?..." Há depois, também, a dedicação religiosa aos animais domésticos - tenho aqui, bem perto, uma ex-professora outrabandista que já está do "outro lado"; e, quando passeia o seu "lulu" fala, continuamente com ele pela rua: altas filosofias, economia caseira, questões religiosas. Claro que a aturar, anos e anos, criancinhas uivantes, o que é que se poderia esperar?
E, depois, há aquele exemplo nobre de uma ex-primeira dama que se re-converteu, depois de um acidente de aviação, quase mortal, do seu filho - que conseguiu sobreviver. Há que compreender este desespero metafísico, e ser tolerante. Mas eu tenho dificuldade. E até percebo que nos encontramos numa nova Idade Média e que a marcha da Humanidade sempre foi feita de avanços e recuos.
Claro que me posso perguntar como é que o meu coração continua a bater, sem eu fazer nada para isso. Ou o meu aparelho digestivo trabalhe sem eu lhe dar ordens para o fazer. Ou porque é que ainda há monárquicos, nesta altura do mundo. Ou o Pol Pot fez o que fez no Cambodja. Para mim, a resposta é: por acaso ou necessidade. Por vezes, há que procurar, em si, as razões dos outros. Ou rematar com Fernando Pessoa (citado de cor) que dizia que a "metafísica era uma consequência de estar mal disposto". Será?