Entre as raspadinhas e a "Caras", o coração dos séniores divide-se, na tabacaria onde compro o jornal. Mas há também os indefectíveis do euromilhões, e os já muito raros compradores da lotaria nacional. O jogo e os sonhos róseos fazem sempre parte do cenário das crises e a Santa Casa registou, em 2012, um novo recorde de vendas.
Cá fora já há brotos de mimosas e o amarelo das azedas ultrapassa, em extensão, as flores brancas do frio, a caminho da Primavera. Um dos dois cães vadios, desta zona outrabandista, envelheceu muito, agora que o vejo, desde a última vez. Corpulento, ficou mais desengonçado e trôpego. O outro é pequenino, branco sujo das vadiagens, videirinho e lulu. Tem um andar apressado, como se tivesse sempre qualquer coisa a fazer.
O cão velho parece mais reflectido e minucioso. Qualquer coisa que se levante do chão, merece-lhe cheiro ou faro, talvez para medir e marcar o seu espaço, mas nada conspurca, enquanto o vejo. De olhar piedoso, mas resignado, por três vezes sobe o degrau para o café Avenida, mas não chega a entrar. Abana a cauda, talvez pelo ar aquecido que sente, fareja as portas de metal, e retrocede, cabisbaixo. Só levanta a cabeça, numa esperança mole, para quem entra. E não ladra. Provavelmente, já se habituou à crise e esqueceu, decerto sem rancor, quem o abandonou.
