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segunda-feira, 8 de abril de 2024

Osmose 135


Há palavras que nos aproximam das origens ou nos abeiram do essencial, ainda que, a princípio, mal demos por isso, entretidos que estamos à tona do supérfluo. Como há também rostos, às vezes pelas ruas, que nos trazem, por semelhança extrema, boas memórias e presenças impossíveis, por desparecidas.
A imaginação latente é quase sempre agressiva para com a realidade.
E a vida, muitas vezes, parece uma fábula sonhada.
Preciso é pensá-la...

domingo, 8 de agosto de 2021

Pensar - 1

 

Embora gostando de algumas palavras pelo efeito sonoro, como é tagarelar, não aprecio, no caso em apreço, o sentido do termo pelo facto de se enquadrar, na perfeição, neste mundo oco e pouco dado a exercícios mentais mais consistentes.

Assim, e querendo registar – porventura para memória futura – alguns pensamentos que se me vão surgindo nas leituras, escolhi a palavra pensar que, no seu sentido infinitivo, se afasta cada vez mais da nossa vida quotidiana. Infelizmente.

 Lembrei-me logo do livro Pensar, de Vergílio Ferreira, a propósito da minha escolha do tema para registar, oportunamente, algumas máximas ou pensamentos estimulantes. Do autor citado, segue uma frase com que abre o seu livro: “Não se pode pensar, fora das possibilidades da língua em que se pensa.”

Acrescento meu: dominando várias línguas, aumentam, sem dúvida, as possibilidades e variantes de pensamento.

 Para o início desta secção dos meus contributos no Arpose, encontrei uma observação de Jorge de Sena, sobre o Romantismo e o Modernismo Brasileiro que não queria perder. Aqui vai:

 “Os modernistas (...) apelavam para uma quebra de todas as tradições e para uma renovação com algo mais fundo e mais verdadeiro para com a vida do que qualquer tradição. É esta a essência do espírito modernista. E devo apontar que só à primeira vista é possível achar que o Romantismo pode ser definido quase nos mesmos termos. A diferença está na qualidade: o Romantismo era tudo isto como maneira de ser: o Modernismo não foi nunca uma maneira de ser mas uma maneira de entender o nosso ser.”

[sublinhado meu da máxima que tirei do artigo de Jorge de Sena, com o título, «Modernismo Brasileiro: 1922 e Hoje», in Estudos de Cultura e Literatura Brasileira, Lisboa, Edições 70, 1988]

 HMJ

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Conselho amigo


Raramente sou de muitas palavras, até porque acho que todos podemos ser sucintos e essenciais naquilo que queremos dizer... De gorduras, bastam as que vamos adquirindo, inúteis, com a idade. E, depois, alguns raros comentários palavrosos que me chegam ao Arpose, deixam-me, muitas vezes, quase sem resposta.
Mas gostaria de recomendar, vivamente, os 9 minutos iniciais da Circulatura do Quadrado, de ontem (7/11/2019), por toda uma questão de sanidade mental. E pela forma simples e exemplar de expor as questões e de saber pensar - o que, em Portugal, vai sendo cada vez mais raro. Sobretudo, politicamente.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Pensar ao lado


Creio que há um tempo em que começamos a perder a validade.
Em que as coisas que enfrenesiam meio mundo nos parecem supérfluas, ligeiras e balofas.
Em que o nosso grupo de consenso cada vez se torna mais pequeno, frágil, quase secreto ou clandestino.
É quando um ponto de admiração se nos torna, muitas vezes, um excesso obsoleto. Quando, à exposição permanente, preferimos uma discrição quase monástica e recatada.
Se a juventude é a idade das certezas, a madurez da velhice (adjectivaria saudável) vem acompanhada de um tempo povoado de dúvidas infinitas. E de incertezas.
Há que rematar que, entre ortodoxia e heterodoxia, escolher uma terceira via nem sempre me parece sintoma de cobardia nem de neutralidade diplomática, mas apenas uma forma modesta e legítima de pensarmos pela nossa própria cabeça, por entre as estridências maniqueísticas das grandes maiorias.

domingo, 20 de agosto de 2017

Pensar com e pensar como


Pensar como todos pode até ser uma forma de solidariedade ou de, facilmente, fazer muitos amigos.
A sintonia pode ajudar, quase sempre, a não nos sentirmos marginalizados e contribuirmos, anónima e numericamente, para a grande corrente dominante, o que será decerto, para alguns, fundamental no sentido de evitar essa doença de alma que se chama solidão... Mas também há autores que alertam, avisadamente, para que, até no meio da multidão, nos podemos sentir sozinhos.
Ora, com a idade, que pode trazer exigência e, naturalmente, mais experiência, é bem possível que se ganhe uma identidade mais vincada, um critério sobre as coisas, mais definido e pessoal. E que o pensar com acabe por ser mais restrito. As afinidades serão mais raras e os novos amigos serão mais difíceis de fazer. Mas, quando isso acontece, e esse novo amigo se nos instala com raízes- ultrapassando a mera e populosa fronteira dos conhecidos -, fixando-se nessa nossa pequena teia estreita de afectos, o que verdadeiramente sentimos (e, conscientemente nos damos conta) é, sobretudo, uma imensa gratidão. Talvez para com um deus inexistente...

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Da Janela do Aposento 43: Retrospectiva



Paul Klee, "Ghost of a Genius"

Um artigo de JPP, uma voz esclarecida, no deserto partidário, contra o actual regime, permitiu recuar no tempo e recordar alguns fenómenos na época em que alguns dos “rapazes das jotas” circulavam pelas escolas públicas.
Era o tempo da plenitude do “Cavaquistão”, em que no ensino secundário se podia optar por várias vias, claro está, de acesso ao ensino superior. A motivação centrava-se numa promoção rápida, através do ingresso no grau seguinte, e poucos se identificavam com universos mentais e culturais mais amplos. Basta, aliás, olhar para os lados de Belém para compreender o início deste desastre.
Ora, naquele tempo havia as seguintes opções, ditas de forma abreviada, Ciências, Economia, Humanidades e Artes. Os alunos de Ciências queriam ser médicos, os de Economia, gestores e quiçá políticos, os das Humanidades, advogados e Juízes para fugirem a outros magistérios menos considerados. Os das Artes esforçavam-se para entrar em Arquitectura. Nesta visão de síntese, pouco favorável sobre um universo largo de alunos ao longo de décadas, criados e radicados nos subúrbios de Lisboa, quase não tiveram expressão os poucos, mas excelentes alunos do ponto de vista humano, mental e cívico.
Contudo, os menos dotados “de cabeça”, mais amorfos relativamente a qualquer interesse cultural, eram os alunos de Economia. Fugiam das Ciências, “puras e duras”, iniciando-se nas suas lições de Economia, porque eles eram, numa parte substancial, filhos de “empresários”, ou seja, merceeiros recentemente promovidos a um estatuto social superior e ascendente, donos de lojas com nomes sonantes como “Jacques”, “Kaku’s” e quejandos.
Há quem me contrarie nessa visão pessimista sobre os alunos de Economia, afirmando o contrário sobre os discentes num dos liceus de referência de Lisboa. Aceito o contraditório pela diferença do meio. Os alunos de Lisboa saíram, porventura, para “gestores de topo”, ou, como os Vitinhos, aproveitaram o trampolim da política para outros voos. Os outros, de subúrbios tipo Massamá, levaram mais tempo e, como os Rosalinos, que bem conhecemos, vingaram-se, a valer, da sua condição inferior quando a escada do actual regime lhes ofereceu o poder.
Fica a mágoa de não ter conseguido o essencial, i.e., contribuir para que o ensino se transformasse numa "escola de pensar".

Post de HMJ

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Da Janela do Aposento 28: Pensar




Como explicação assaz curiosa da imagem acima, verifica-se que o menino preenche uma folha, com exemplos em Castelhano, embora acompanhasse uma notícia sobre os resultados recentes de alunos portugueses em diversas áreas do saber. Para o efeito tanto importa, porque o mal é global e não exclusivamente português, porque falamos, certamente, de uma importação indevida e nociva, designadamente no que respeita ao essencial do ser humano.

Portanto, o acessório da imagem representa, em Português ou Castelhano, o grau zero da mobilidade manual e do aperfeiçoamento do movimento no desenho das letras, pousio indispensável ao desenvolvimento das ideias, ou seja, o domínio do exercício mecânico sobre a esfera do pensar.

Contrariando muitas almas caridosas, sempre rejeitei e não aceito, testes de importação, “à americana”, “de cruzinhas”, de “escolhas múltiplas” e quejandos, sobretudo no ensino da língua e da literatura, pela matricial incapacidade de representar o universo infinito de combinação da Língua e, sobretudo, de pretender abarcar um universo tão vasto como a Literatura. Confesso que a importação pobre de “testes de escolha múltipla” facilita, e muito, o trabalho de correcção, aumenta a estatística, sobretudo daqueles que, maioritariamente, apostam no factor “sorte” do ensino, em detrimento dos alunos que, com esforço, acham que vale a pena pensar antes de escrever.

E, à semelhança dos indigentes “exames de condução”, os testes “de escolha múltipla” costumam premiar os “sortudos” e penalizar os que pensam pela sua própria cabeça. Convenhamos que a Semântica e, sobretudo, a Pragmática não se esgotam numa simples frase fora do seu contexto. Desgraçados os que pensam pela sua cabeça e que, perante o beco sem saída do exemplo, frequentemente redutor, não podem escrever nem justificar as opções de um universo muito maior.

Assim, chegamos ao essencial do “post”. Ou seja, o lento abastardar das Ciências Humanas e, sobretudo, da Língua e da Literatura a um exercício contabilístico imediato, um “deve” e “haver” que, de todo, o pensamento, suportado por qualquer língua, rejeita.

Post de HMJ, recordando o Pensar, de Vergílio Ferreira.