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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Fragmentos de umas férias descomprometidas (4) : remate final


É provável que, para Luka, estas tenham sido as últimas das inocentes férias de infância. A adolescência traz outras preocupações e outros perigos, decisões controversas, complexas maneiras de escolher caminhos e a florescência poderosa do amor terreno - o incêndio e a alegria desmedida.
Em finais de Setembro, Kirsten e Wim, os pais de Luka, acabaram de compor, com minúcia e atenção, o álbum-diário visual das férias, na Praia Formosa. As fotografias dão sinal de tudo: a comoção terna do Avô, pela surpresa, o júbilo despreocupado das crianças na piscina da casa, a luz de Portugal, tão única, o verde-azul Atlântico das águas livres; o pôr do sol da despedida, num amarelo torrado de melancolia.
Pode ser que Luka, mais tarde, na adolescência ou até mesmo na velhice, naqueles intermináveis e cinzentos invernos da Flandres, se lembre deste álbum, e a ele regresse. E se recorde dessas longínquas férias felizes de 2011, em Portugal. E se consiga reabastecer, solidamente, de esperança e de alegria.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O hábito faz o monge


Os campos iluminados de verde natural davam lugar, de vez em quando, a tufos extensos de azedas amarelas e outros, bem mais pequenos, com manchas de flores brancas e simples, anónimas de que nem sei o nome. Ao sol, parecia Maio ou Junho, pela quentura amena, mas os charcos não deixavam enganar, que ainda estávamos em Janeiro. Pareciam pequenos lagos sucessivos, onde pequenos pássaros vinham beber, talvez uma ou outra avoceta (pareceu-me) e, mais raramente, uma gaivota, que viera de mais longe.
Os nomes estranhos sucediam-se: Pedrulhos, Matos Velhos; até havia uma Gibraltar, pequena aldeia que nem sequer ficava à beira-mar. Uma placa indicava, ao longe, Varatojo, onde António da Fonseca Soares (1631-1682), depois de muita aventura e licenciosidade, se veio acoitar e transformar em Fr. António das Chagas, barroco, a sermonar, e poetando, nas horas que os ofícios divinos lhe deixavam livres. Depois, A-dos-Cunhados onde eu bivaquei a céu aberto, em 1968, vindo de Mafra, na semana de campo da recruta.
Mas entre a Praia Formosa e Caixeiros, numa pequena localidade de que esqueci o nome, 2 clones, que pareciam gémeos, iguaizinhos aos que vejo no Chiado ou no Rossio, atravessaram-se-nos à frente, pela passadeira de peões da estrada. Com o seu corte de cabelo bem alinhado, o cinzentismo dos seus fatos, as suas sempre estandardizadas gravatas. São tão inconfundíveis como as testemunhas de Jeová, embora estes apologéticos vistam muito mais modestamente. Os clones vinham do BPI, porque uma colega lhes disse qualquer coisa, gritada, da porta da dependência bancária, do lado esquerdo da rua. Bancários, gestores, CEO's vestem, quase sempre da mesma maneira, sem grande imaginação, usam corte de cabelo igual (devem ir ao mesmo barbeiro), usam calçado, sempre, do mesmo formato - as "fardas" são iguais, no serviço: "o hábito faz o monge". É facil conhecê-los à légua.
O mar estava bravo na Praia Formosa, mas não em marés vivas. E as falésias cor de cobre - douradas que pareciam pelo sol - belas, altas, majestosamente assimétricas: nenhuma igual à outra. Apetecia ficar por ali, com o sol a aquecer-nos as costas, só a olhar o mar nas suas ondas cíclicas de espuma branca, quebrando na praia deserta.