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domingo, 17 de julho de 2011

Retratos (3) : o Simões


O Simões tinha aspectos muito singulares. Um deles é que nunca comia carne e, posso afirmá-lo com relativa segurança, porque almocei com ele muitas vezes. A única excepção que abria, de longe a longe, era para as costeletas de borrego, grelhadas. Não que fizesse dieta, ou que tendesse para vegetariano, nada disso. Simplesmente, dizia ele, trabalhara em carnes tantos anos na sua vida, que agora, a meio dos 50, a carne lhe provocava alguma repugnância. Por isso, às refeições, só Peixe. Era um homem de extremos: ou preto ou branco, nim - nunca. E como era sempre frontal, tinha poucos amigos, mas todos eles muito fiéis. Na empresa, no entanto, todos o respeitavam, porque era um profissional exemplar. E era justo.
Tinhamos uma diferença, na idade, de quase 20 anos. Quando foi indicado para meu subordinado, e como ele tinha fama de mau feitio, a princípio pus-me na defensiva, mas viemos a dar-nos muito bem. Como ser humano, não como profissional, tinha várias teorias dogmáticas de que não abdicava. Uma delas, que ele explicava até à exaustão, citando exemplos, era a da arritmia dos sentimentos, nos portugueses. E lembrava, quase sempre, que já trabalhara em França e no Brasil. Dizia ele que os portugueses, em matéria de afectos, tinham "grandes fogachos, mas apagavam depressa". Eram muito bons corredores de 100 metros, mas eram péssimos na Maratona. E ria-se, citando como únicas excepções, a Rosa Mota e o Carlos Lopes. Rematava quase sempre a dizer que era preciso disciplina, sobriedade e sentido de compromisso nos sentimentos, fossem eles de amizade ou de amor. Creio que para além de uma boa relação de fidelidade e respeito profissionais, desenvolvemos, também, uma relação de estima.
Por isso, tenho a certeza que o Simões, fidelíssimo como era nos seus afectos, já morreu. É que, de alguns anos a esta parte, nunca mais deu sinal de si. Nunca o esqueci, no entanto. 

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Andar, andar que um poeta / não necessita de casa...


Os versos do título deste poste são de Cecília Meireles (1901-1964), e pertencem ao poema "Canção da alta noite".
Hoje, obriguei-me, depois do almoço, a andar a pé, cerca de um quilómetro e meio. Até há pouco mais de um ano andava, por circunstâncias exteriores, cerca de 7 ou 8 quilómetros diáriamente, a pé. Era salutar e enriquecedor. Agora, já não me sinto obrigado a isso.
E nós, portugueses, somos bons - entenda-se a metáfora - a correr 100 metros. Não somos, no geral, corredores de médio ou longo curso. Claro que há a Rosa Mota e o Carlos Lopes, mas esses vão para além da poesia lírica: são uma epopeia... A persistência não é, normalmente, connosco.
Largamos os afectos, a investigação ou a procura, a admiração e o trabalho continuado, antes de cumprirmos a maratona.
Mas foi bom este quilómetro e meio, a pé, a que me obriguei. Vim ligeiro, apesar do calor, e vi que a levada já ia com pouca água, que cortaram os marmeleiros maninhos (infelizmente), que já há mais fósseis, à superfície, nas terras arenosas e ressequidas. E até trouxe, para casa, uma flor lilás, lindíssima, para oferecer.