Aqui ficam os Paços dos Duques de Bragança, de soslaio e ao cimo, a sobrante cerca da muralha do velho castelo e os automóveis em toda a sua plenitude...
Eu creio que terá sido em finais dos anos 50 que eu assisti à primeira Ópera, completa e ao vivo. Improvavelmente, integrada nos Festivais Vicentinos, no pátio dos Paços dos Duques de Bragança, numa cálida noite de Verão, em Guimarães. Ia, na presidência da autarquia, o esclarecido e culto Dr. Castro Ferreira, pai do meu grande amigo Chico, já falecido. Provavelmente, no programa cultural previsto para esse ano, teria sido ajudado a concebê-lo por outro médico, de grande craveira intelectual, embora mais discreto de feitio - o Dr. Carlos Saraiva. Também ele pai de outro grande amigo meu, felizmente, este, ainda vivo e de boa saúde, que é da minha colheita cronológica, em idade.
Sabia eu lá, noviço e adolescente, quem era Gioachino Rossini (1792-1868)!? A ópera era, nada mais nada menos, que "O Barbeiro de Sevilha", de que eu gostei imenso, na altura. Mais tarde, talvez em 1963 ou 1964, já em Lisboa, ali pela Av. Miguel Bombarda, Rossini viria a cruzar-se comigo, de forma avassaladora, através de um LP maravilhoso. Com as suas aberturas de ópera, mais famosas e tonitruantes. Até porque vibravam em uníssono com a minha tumultuosa juventude, como todas sempre abertas ao excesso, ao heroísmo, ao tom épico da vida a acontecer. Vim a saber depois, que Rossini fora também um homem generoso, amigo do seu amigo, gastrónomo nato. E bom cozinheiro.
Descobri, ainda mais tarde, que o grande compositor italiano tinha, também, composições musicais de grande finura e sensibidade, como esta:
Acrescente-se, porém, que também os grandes génios podem errar. Rossini, bissexto de nascimento (29 de Fevereiro de 1792), encontrou-se, em 1822, com Beethoven, que lhe deu um conselho prudente, assim: "Ah! Rossini. Então foi você que compôs «O Barbeiro de Sevilha». Dou-lhe os meus parabéns. É uma obra que será sempre tocada e cantada, enquanto houver ópera em Itália. Mas não tente compor nada que não seja opera buffa; qualquer outro estilo não vai bem com a sua natureza."
Muito próximos do Castelo, no chamado Monte Latito (ou "Colina Sagrada" como gostam de lhe chamar os vimaranenses), os Paços dos Duques de Bragança são, no meu modesto entender, o edíficio mais singular de Guimarães. Foram mandados construir pelo primeiro conde de Guimarães, D. Afonso, filho bastardo de D. João I. Viúvo da filha única de Nuno Álvares Pereira, o conde voltou a casar com D. Constança de Noronha, e os Paços começaram a ser edificados, por volta de 1420. D. Afonso era um homem viajado e conhecedor da arquitectura europeia, daí, talvez, a traça do edíficio ter sido de um tal "Mestre Antom", provavelmente francês, e "sob a vedoria de Johane Steuez". Foi habitado pelos duques sequentes, mas a partir do séc. XVII, começou a entrar em decadência.
Em finais do séc. XIX, o edifício apresentava-se já muito desfigurado (como se pode ver pela 1ª imagem que data de 1886), porque fora adaptado a quartel - situação que se manteve até ao início do séc. XX. Foi lá oficial, Raul Brandão, que em Guimarães veio a conhecer a sua futura esposa. Em meados do séc. XX, começaram as obras de restauro, que tentaram reconstituir a traça de Mestre Antom. Renovada a capela, os restantes espaços foram preenchidos por boas peças de Arte Sacra, cópias das Tapeçarias de Pastrana, bem como outras, flamengas, de Jan Raes. Os Paços dos Duques incluem também um significativo acervo de armas do 2º visconde de Pindela. Um interessante retrato da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, e a emblemática obra de Josefa de Óbidos, o "Cordeiro Místico", para citar apenas uma pequena parte.
Indo a Guimarães, é imprescindível visitar os Paços dos Duques de Bragança.