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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Apontamento 108: RECLAM - 150 Anos de uma editora alemã de referência




Por motivos que não vêm ao caso, tenho andado a reler livros que me orientaram e formaram numa determinada época. No meio deste “reviver”, encontrei a informação sobre os 150 anos da editora alemã RECLAM com os seus livrinhos baratos, amarelos a partir de uma dada altura, como se pode ver pela imagem acima.

O primeiro volume publicado, em 1867, era, quase obviamente, o Fausto, de J.W. von Goethe. A actividade editorial, que neste momento abarca 3500 títulos, abrangia o que se podia chamar um “cânone literário” ao gosto do leitor. Da Antiguidade Clássica à literatura moderna, mas também obras de Filosofia, História, Arte e Música, os alunos de liceu, como eu, forneciam-se do essencial para a leitura escolar e, pela facilidade de acesso físico e económico, andávamos a “cheirar” um pouco de tudo. Ou por sugestão de alguém, ou por impulso de querer ultrapassar a barreira da ignorância perante autores e títulos desconhecidos.

A estante dos livrinhos que se vê acima constituiu, com efeito, sempre um atractivo em qualquer livraria. E, normalmente, lá se encontrava mais um título ou um autor desconhecido. Lembro-me ter comprado muitos livrinhos amarelos por qualquer coisa como 1,50 ou 2,00 marcos.

Para mim, o maior contributo da RECLAM continua a ser a “batalha” contra a ignorância e o contributo para a “imortalidade da produção literária”, de que fala W. Somerset Maugham no seu The Summing Up, sublinhando, e com imensa razão, que essa imortalidade “is seldom more than the immortality of the schoolroom” !

Ora, a RECLAM contribuiu imenso para estas leituras de “salas de aulas”, tanto de obras de língua materna como de outras línguas, através das suas edições bilingues e com tradutores e comentadores de reconhecido mérito.


Aqui fica o meu grato testemunho por este trabalho de 150 anos !

Post de HMJ, como contributo para uma outra comemoração

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Benefício da dúvida, em tom provocatório


Sempre me perguntei, porque é que alguns autores, sobretudo do séc. XVIII português, são considerados secundários, em benefício de um cânone literário eternizado por selectas literárias de antologiadores preguiçosos e acríticos que se limitaram a perpetuar o que já vinha de trás. Tenho para mim que o excessivo sucesso de "O Hissope", de Cruz e Silva, soterrou a leitura do poeta lírico que ele também foi, e de alguns sonetos de muito merecimento, que quase nenhum leitor conhece, hoje em dia. A menorização do Abade de Jazente, por exemplo, sempre me pareceu injusta, também.
O jornal Le Monde (17/5/13) dá notícia da saída recente de um livro de Eric Dussert (Une Forêt Cachée. 156 Portraits d'Écrivains Oubliés, La Table Ronde), onde o crítico faz a apologia e propõe à apreciação vários autores franceses que não constam do cânone literário conservador gaulês, presentemente.
E, nós, por cá? Será que não haverá por aí, nenhum José X ou António Y que tenham ficado soterrados, muito injustamente, sob o peso massacrante e obeso das adílias lopes e dos vários hugos mãezinhas? Pelo menos, há que investigar, para ver...

sexta-feira, 8 de março de 2013

Da Janela do Aposento 31: A dança do cânone literário



Ainda existem, de facto, jornais e semanários que estimulam a reflexão, embora o seu número seja cada vez menor, tanto a nível nacional como europeu. Para mim, o semanário alemão DIE ZEIT consegue essa proeza de continuar a oferecer “pasto” aos seus leitores, nas mais diversas áreas: política, economia, viagens, culinária e literatura. E é sobre a literatura, mais propriamente a “dança do cânone literário” que se debruça um editor, numa entrevista publicada hoje no referido semanário.
O entrevistado, responsável da editora Manesse, que se dedica à publicação de clássicos – antigos e modernos – da literatura universal, enumera, de forma clara e sucinta, as alterações rápidas que se verificam no mundo editorial e de leitura.
A editora Manesse, fundada em 1944 na Suiça, criou uma “Biblioteca da Literatura Universal” que, ao lado de edições mais económicas da Reclam, forneciam a “burguesia cultural” – como refere o editor – com os clássicos. Esse consumo cultural e tradicional dos leitores, formados por funcionários públicos, médicos, juristas, professores e “até políticos”, entrou em declínio nos anos setenta. E como diz o editor, também foi por essa altura que começou a “dança do cânone literário”.
De facto, para leitura dos clássicos recorria-se e recorre-se, ainda hoje, à editora Manesse e à Reclam, esta com edições mais fracas, enquanto a Manesse ainda fabrica livros com os cadernos cosidos, como se pode observar, com interesse, na página da editora em que se explica o processo de encadernação. Mas, para já, duas imagens, do mesmo título, publicado pelas editoras referidas.



Como sobrevive, então, a editora Manesse, integrada actualmente na Random House, nestes novos tempos, em que a necessidade social procura, permanentemente, “a novidade e a encenação” ? Numa altura em que o ciclo dos livros, em vez dos 2 ou 3 anos de há 20 ou 30 anos, passou para uns escassos 6 meses, sem condições comerciais para os chamados “longsellers”. A opção foi para os clássicos modernos.
Contudo, o número de exemplares, em traduções novas ou revistas, para garantir a rentabilidade mínima faz pensar. O editor refere que são, no mínimo, 10.000 exemplares vendidos para pagar a edição. Em obras acima de 600 páginas é preciso que haja uma segunda edição para não perder dinheiro.
Com o abandono da leitura dos clássicos no ensino, em Portugal e também na Alemanha, editoras para a publicação do “cânone literário” terão, certamente, um triste fim.

Post de HMJ