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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

E. M. Cioran, sobre o poeta Paul Celan


7 Maio (1970)

Paul Celan atirou-se ao Sena. Encontraram o seu cadáver na Segunda-feira passada.
Este homem encantador e impossível, feroz com acessos de ternura, de quem eu gostava e de quem eu fugia, com receio de o ferir, porque tudo o fazia sofrer.
De cada vez que o reencontrava, punha-me à defesa e controlava-me de tal modo que ao fim de meia hora me sentia exausto.

E. M. Cioran, in Cahiers / 1957-1972 (pg. 806).

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Recuperado de um moleskine (18)


É natural que adaptemos o nosso discurso, ou linguagem, ao interlocutor que temos pela frente. O diálogo pedagógico, por exemplo, de um professor, perante crianças no início da idade escolar, será necessariamente diferente e mais simples, do que aquele que poderá ser praticado numa aula universitária. Isto, no que diz respeito ao discurso oral.
Quanto à palavra escrita, duas hipóteses se abrem: ser o texto dirigido a um grupo bem definido e caracterizado, ou a um público mais vasto, desconhecido e indefinido. Nesta última hipótese, e sendo o texto ambicioso, poderá uma parte desse público auto-excluir-se, pura e simplesmente. Por vontade ou por incompreensão.
Em poesia, isso acontece também. Por exemplo, eu excluo-me de uma grande parte dos poemas de Paul Celan. Talvez por incompreensão inata de um universo, para mim, impenetrável. As mais das vezes, nem sequer pressentido. E assumo esse facto com humildade e sinceridade intelectual.

domingo, 6 de julho de 2014

Da dificuldade de algumas leituras, ou o princípio de Peter


A verdade será, também, por entre as nossas dúvidas, confessar as nossas próprias deficiências. Ou perceber os nossos limites.
Nunca fui familiar próximo  da Filosofia e, aí, estou - creio - em consonância com a maioria dos portugueses. Porque também só com  extrema boa vontade poderemos assinalar dois ou três nomes de "verdadeiros" filósofos, ao longo de toda a história portuguesa.
Li, e creio que compreendi, G. Berkeley, Pascal, Descartes, Kierkeegaard, Schopenauer, Nietzsche, Bergson, e alguma coisa dos Pré-socráticos. Por aí me fiquei, de algum modo. Spinoza já me criou dificuldades ou, se quisesse justificar-me airosamente, diria: aborreceu-me...
Mas também em poesia, às vezes, me acontecem dificuldades de leitura: nunca consegui entrar nos poemas de Paul Celan, mesmo através de traduções francesas. A espessura - para falar de prosa - de Maria Gabriela Llansol, nunca se me desvendou em claridade de entendimento. E, voltando à Filosofia, também tenho extrema dificuldade em ler Heidegger, mas insisto. E se penso que os seus postulados e proposições são minuciosos e lentos no avançar, caminhando a passo de caracol, mas exaustivos, como se fossem explicados para crianças, também me acontece perder-me, algumas vezes, nesse labirinto de reflexão.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pinacoteca Pessoal 39 : Anselm Kiefer




Nascido na Alemanha, a 8 de Março de 1945, Anselm Kiefer passou a viver em França, a partir de 1991. Mas o jornal Público (27/8/2009) dá a notícia que se teria fixado em Portugal, mais concretamente, em Alcácer do Sal (não consegui confirmar se ainda por cá se mantém).
Autor de instalações e quadros de dimensões cada vez maiores, onde espelha um pessimismo pictórico que virá, quanto a mim, muito na linha de Soutine, Kiefer utiliza frequentemente pequenos detritos, cinza, palha, para pontuar as suas colagens e telas. Há quem o queira incluir no Novo Simbolismo. O pesadume de Celan cerca muitas das suas obras, às vezes, até usando versos do Poeta, como títulos, ou marcas dessa influência.
Muitas das suas obras não deixam de ter uma beleza singular, normalmente dramática. Os quadros, em imagem, intitulam-se: "Cada um fica debaixo da sua redoma" e o outro, sem título, tem escrito, em alemão - "Que mil flores floresçam!".

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

4 fragmentos de René Char, em versão livre e pessoal


86
As mais puras colheitas foram semeadas num solo que não existe. Elas recusam a gratidão e nada devem, senão à primavera.

93
O combate da perseverança.
A sinfonia que nos levava, morreu. É preciso acreditar na alternância. Tantos mistérios que não foram devassados, nem destruídos.

98
A linha de voo do poema. Ela devia ser sensível a cada um.

102
A memória não tem acção sobre a lembrança. A lembrança perde força contra a memória. A felicidade não sobe mais.

Nota: a capa do livro em imagem tem uma ilustração de Georges Braque. A obra é a tradução para alemão, feita por Paul Celan. Os poemas de Char, originais, foram escritos no Maquis, entre 1943 e 1944, sob o título de "Feuillets d´Hypnos".

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A ressurreição de Georges Simenon


O recente ressurgimento de interesse pela obra de Georges Simenon (1903-1989) levou a que o jornal "Le Monde" lhe tivesse dedicado um suplemento de várias páginas, em 17/6/2011. Muito embora os livros, tendo Maigret como protagonista, continuassem a editar-se, regularmente, e a ter leitores fiéis, começou a aumentar o interesse pelos chamados romances "durs", três dos quais tiveram, em anos recentes, adaptações televisivas filmadas: "Les Innocents", em 2006, "Monsieur Joseph" baseado em "Le petit homme d'Arkhangelsk", em 2007, e a adaptação de "La mort de Belle", em 2009, sob o título de "Jusqu'à l'enfer", por Jacques Santamaria.
Também em Itália (com tiragens de 50.000 exemplares), na Suiça e Alemanha, a edição de obras de Simenon se tem intensificado através de novas traduções porque, como "Le Monde" refere, as antigas, em qualidade, deixavam muito a desejar. Nomeadamente 2 feitas, para a língua alemã, pelo poeta Paul Celan ("no melhor pano cai a nódoa"...). O filho de Simenon, John, estuda também a possibilidade de vir a publicar a correspondência pessoal do Pai, onde se incluem cartas de Fellini, Henry Miller, Mauriac e outros. Na França volta a publicar-se a sua obra completa, desta vez juntando no mesmo volume livros com os três  temas principais de Simenon: o policial (Maigret), o chamado romance "dur" e a autobiografia ficcionada.
Eu, que o tenho por autor de referência e cabeceira, há muito, gostaria de realçar algumas das suas obras da minha preferência, se possível a ser lidas em francês e no original: "Le chat" (1966), "Lettre à ma Mére" (1974), "Tante Jeanne" (1950), "La neige était sale" (1948). Mas o interesse e qualidade da obra de Simenon não se esgota nos 4 livros que acabo de referir. Não são, de todo, romances ligeiros, nem muito divertidos (para isso, ler "La maison des sept jeunes filles", de 1937), muitas vezes são até melancólicos ou pesados. Como diz Pierre Assouline: "Simenon se savait incapable d'être drôle." Mas a sua leitura, muitas vezes, também pode funcionar como uma vacina, tendente a um desejado reequilíbrio pessoal. Fica a recomendação.

para H. N., por óbvias razões.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sobre a dificuldade em Poesia



A propósito da dificuldade em perceber, inteiramente, alguns poemas ou poetas, George Steiner (1929) diz numa entrevista: " Leio todos os dias Heráclito e certos poetas modernos como Paul Celan, e ainda quando talvez não compreenda bem os textos, aprendo-os de cor para que façam parte integrante do meu ser . A obra de súbito acolhe-me, sem se explicar e eu acedo finalmente ao poema. Nem por isso posso voltar para os meus seminários proclamando que enfim compreendi a obra, o que seria ao mesmo tempo arrogante e pretensioso. Todavia, é verdade que a incompreensão se transformou em amor, em fertilidade, em acto de confiança perante aquilo que me escapa."