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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mercearias Finas 60 : o teleósteo maravilhoso


Não se pode dizer que, no Norte, aqui há 40/50 anos, e nas terras interiores, a oferta de peixe fosse muito alargada. O bacalhau, sempre, as sardinhas e carapaus, sobretudo no Verão; a pescada, e mais raramente, os pargos e os linguados. Não havia muito mais, no dia a dia. Semanalmente, passava um homem de bicicleta que se fazia anunciar tocando um cornetim de som desagradável: num pequeno cabaz, na retaguarda do velocípede, trazia peixes do rio, que eu detestava - tinham pouco sabor e muitas espinhas, finíssimas e traiçoeiras.
Mas por Agosto, anualmente, era a desforra e variedade. Lembro-me, especialmente, do "patêlo", que era uma espécie de raia pequena, muito saborosa. E que, em vez de espinhas, tinha cartilagens quebradiças e flexíveis. Frito e com batatas fritas e/ou arroz de tomate, era o meu prato de peixe preferido, na Póvoa de Varzim. Mas, era sabido, a partir de Setembro lá voltava a escassez.
Por isso, só em finais dos anos 80, travei conhecimento com o Peixe-galo e com a excelência dos seus filetes, acompanhados de um  malandrinho e verde arroz de grelos. A "vernissage" foi no "1º de Maio", ao Bairro Alto, num jantar com a minha amiga B., que tinha a preocupação e faculdade de me descobrir e indicar bons restaurantes. Admirei então aquelas lascas brancas e onduladas, consistentes e saborosas, ficando devoto fiel. E, embora, não seja muito frequente nas ementas de restaurantes, sempre que há, opto.
Ora, há dias, num pequeno mercado outrabandista, o que é que eu vejo, na banca da nossa peixeira de referência? Um magnífico, e único, Peixe-galo, no esplendor da sua feiura de teleósteo, a 9,20 euros o quilo. Não hesitei um segundo, mas perguntei: "Pode prepará-lo em filetes?" A peixeira respondeu, surpreendida: "Mas ele é bom, é grelhado!" Embatuquei, mas assim veio e assim foi - grelhado e maravilhoso, a saber a mar. Com arroz de tomate e pimento vermelho. Acompanhado de perto, na excelência, por um Chardonnay, 13,5º, da colheita de 2011, produzido pela Casa Santos Lima.
Ah! esquecia-me de dizer que a sobremesa foi uma tarte de maçã-reineta, que HMJ aprimorou na perfeição. E que vai em imagem, para que conste.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Bairros de má fama


Aqui há uns bons anos, em Agosto de 1973, creio, para melhor conhecer Londres, passeei sem destino, uma tarde, até me encontrar num dédalo de ruas povoado por uma fauna particular, por vezes, exótica que me olhava como se, também eu, fosse um bicho estranho. Era o Soho - só depois o soube. Em 2008, aconteceu uma situação semelhante, em Barcelona, embora, de 10 em 10 minutos, passasse um carro, com "mozos de escuadra" que nos davam uma sensação de maior segurança. Era o bairro de Raval, onde abunda a prostituição, e muita gente árabe e do norte de África reside. Sobre o Bairro Alto, já sabemos o que foi. E o que é hoje, todo in.
Pois no último TLS (nº 5690) vem um artigo de página inteira, intitulado: Sex, dance and salami - but no drugs, em que se fala dos 130 acres de Londres, entre Marylebone, Convent Garden, St. James e Mayfair, ou do Soho, propriamente dito. O jornal refere que a zona, ainda em 1956, considerada "the sanctuary of political refugees, deserters, prostitutes...and pimps", é hoje um bairro chique apetecido, cosmopolita, centro de inovação culinária, discotecas de vanguarda e moda, muito procurado pelos londrinos e turistas informados.
Mudam-se os tempos...tudo se recupera. Qualquer dia, ainda assistiremos à transformação do Raval de Barcelona, em zona in, tal como o Bairro Alto e o Soho.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O que os outros fazem por nós


Isento da fobia das alturas, na juventude, não tive a menor dificuldade, durante a tropa em Mafra, em saltar o "galho" ou passear no "pórtico", a cerca de 4 metros do chão, por uma trave estreitíssima. A idade, entretanto, alterou a situação física e, por vezes, nas alturas, as tonturas ameaçam. Por isso, hoje, quando vi 2 ou 3 operários de manutenção, na ponte 25 de Abril, encavalitados num dos tubos metálicos laterais, fiquei perplexo. Não havia rede, como nos circos, e os homens deviam estar a mais de 50 metros sobre o Tejo. Mas também sei que alguém tem que fazer aquilo, para nossa segurança.
Evito, praticamente sempre, deitar coisas para o chão. Penso que o que se deita para o chão, alguém terá que o apanhar para que as ruas se conservem limpas e asseadas, como deve ser. Mas hoje, logo pela manhã, quando fui pôr o saco de lixo doméstico no contentor vi cerca de 20 pilhas pequenas e usadas, espalhadas pelo chão, quando há um depositório próprio para as deixar... Para não falar nalgumas ruas do Bairro Alto que, manhã cedo, estão juncadas de copos de plástico, garrafas de vidro de cerveja e vinho, vazias, abandonadas pelo chão. Deixadas pelos alarves nocturnos da véspera.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Da tarde para a noite lisboeta


A meio da tarde, as gaivotas deixavam-se cair, em peso morto, do seu voo alto, sobre o Tejo. Quando não se abandonavam, lassas e indiferentes, ao vento forte que as arrastava para norte. Foi talvez por esse vento, que soprava de sul, que a temperatura ficou mais amena.
Quando saí, a rua estava juncada de folhas mortas da ficus, ficus que se debruça, altaneira, sobre o muro. Turistas, nesta zona, como sempre, muitos. Com predomínio castelhano e, alguns, bem desabotoados - fizeram-me sentir frio.
Depois, no leilão, a crise não se notava mesmo nada. A primeira edição de "Os Maias", de Eça, atingiu os 1.100,00 euros; as "Views of Cintra", de W. H. Burnett, foram vendidas por 5.700,00 euros. Felizmente que a BNP optou por grande parte da correspondência manuscrita dirigida a Fontes Pereira de Melo. Assim ficará disponível a quem a quiser estudar. Os livros de José Régio é que sairam baratos. Sinal dos tempos?
No Chiado, o rio adolescente crescia, em direcção ao Bairro Alto. Maciço, truculento. Por vezes gritante, nalguns passos trôpegos, já bem aquecidos...