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domingo, 23 de setembro de 2018

Divagações 134


Esta linha semi-circular de luzes ribeirinhas, por cima dos telhados defronte, traz-me sempre uma paz muito singular e pessoal, à noite. Depois, há esse triângulo agudo, cavado, por entre os prédios altos  que permite ao meu olhar ver o Tejo e, mais ao longe, a silhueta semi-iluminada do castelo de Palmela. Fernão Lopes acaba por ser convocado à memória. E as almenaras que D. Nuno, em finais do séc. XIV, fez acender da Outra-banda, para dar ânimo ao Mestre, cercado em Lisboa, pelos castelhanos.
Mas, hoje, há Lua Cheia, o rio é um espelho reflectido de luar. E o Verão, preguiçoso em despedir-se, parece augurar, em temperaturas, um S. Martinho à maneira... Ora, tudo isto recusa, liminarmente, essa melancolia dourada de que o Outono gosta, quase sempre, de se acompanhar. E que também nos inunda, quer queiramos ou não, tantas vezes. Ganha-se assim, benevolamente, um compasso de espera, bem-vindo e inesperado. Assim seja!

terça-feira, 17 de abril de 2018

Glosa 12


Diz, quem sabe, que as árvores fixam a terra e consolidam os terrenos.
Os livros dão vida e eternizam a língua, dando-lhe a existência material que a oralidade não consegue, inteiramente. Daí a importância de Chaucer ou de Fernão Lopes.
Só depois poderemos amar e respeitar a sua pureza, perservando-a, ou, volúveis, a podemos abastardar, enxameando-a de ervas daninhas, estranhas e alheias.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Idiotismos 12


Na sua Crónica de D. Fernando, Fernão Lopes refere: "...Convidou el-rei D. Fernando o conde e todos os capitães que com ele vinham, e a rainha, a condessa e as donas e donzelas da sua companhia; e este convite foi nos paços[...]onde foi feita sala mui honradamente..." Este fazer sala é por isso de origem antiga, datando pelo menos do séc. XV. O significado, a princípio, seria talvez mais amplo, porque, hoje, vale por: entreter o tempo, eventualmente, conversando. Podendo alargar-se a receber alguém com delicadeza. Ou ainda, entrar num estabelecimento e lá ficar, sem fazer despesa.
Analisada a frio, no entanto, esta expressão não deixa de ser estranha, como se as pessoas a quem é aplicada, fossem como que paredes ou cenário de um aposento. E mais não digo, porque não sei.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cadavre exquis: ora esguardae, estas search words





Vai o título trilingue, para acompanhar o teor do poste. A primeira parte liga-se ao Surrealismo cujas obras colectivas se ordenavam indiferentemente e sem critério lógico, ou racional. A segunda parte do título remete para um romance ("Ora esguardae...") de Olga Gonçalves (1929-2004) que, por sua vez, o foi buscar a uma das Crónicas de Fernão Lopes. É um livro escrito a quente, sobre o 25 de Abril, em que os diálogos parecem de escrita automática, sem preocupações de sequência ordenada e causal. E, tudo isto, porque, nestes últimos dias, têm sido tantos os dislates, no Arpose, entre a burrice googlesca do motor de busca a dar resposta às inconsequentes asnices prolixas das "search words" dos "pesquisadores", que tenho que descarregar algumas para poder anotar outras, em memória futura. Parece que a proximidade da Páscoa provocou um inusitado e acrisolado fervor religioso (IURD ?) sobre pastores... Ora, então, esguardae: 1. disse para o Google o "investigador", "pastor mario viegas de salvador" e, alheio porventura a misticismos, o motor de busca apontou-lhe o poste intitulado "Nos 15 anos da morte de Mário Viegas"; 2. outro escreveu "igor canario cantando louvores a deus", e foi encaminhado para "Giorgio Vasari"(?); 3. um "pesquisador" curioso perguntou: "o que é vênia catecismo", ao que o Google ( farto desta religiosidade, por certo) respondeu, laicamente - "Com a devida vénia, o Sudão...". Seguem-se agora os linhagistas ou visitantes obcecados pela genealogia: 4. diz a visita para o motor de busca: "mister bayer mariana sampaio", e o Google leva-o pela mão até ao poste "Mais gregerías para afastar os coiotes" - esta merecia uma medalha de ouro do Mad Magazine. Finalmente, o 5. o visitante pergunta, meticulosamente: "josé afonso alves da silva maria do carmo da cunha pintor e desenhista", e o motor Google de pesquisa responde: terceira porta à esquerda, poste do Zeca Afonso - "O pintor morreu". Safa! Se André Breton lesse isto, ficava de olhos esbugalhados e, se calhar, destruía toda sua obra, pela qualidade destas "pérolas" magníficas. Felizmente, o surrealista francês também já morreu...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Mercearias Finas 29 : breve miscelânea sobre a caça




A caça foi, de início, uma forma natural de exercício humano mas, também, uma questão de necessidade para a sobrevivência do Homem. Para os primitivos, a caça foi o seu alimento principal, servia de vestuário e ferramenta, através dos ossos dos animais abatidos.



Vários escritores portugueses usaram a caça como motivo ou falaram dela nos seus escritos. De Fernão Lopes a Torga, de Camilo a Manuel Alegre. De Bulhão Pato, escritor e gastrónomo conhecido, há pelo menos uma receita: Lebre à Bulhão Pato. E, de Fialho de Almeida, também consta um Arroz de Perdizes. Por falar nesta ave de caça, há um ditado que diz: "Perdiz, só com dedo no nariz", que tem uma razão objectiva. De uma forma geral, nenhuma peça abatida, seja ela javali, lebre, veado ou perdiz, deve ser comida no próprio dia em que é caçada. E isto porque ao sentir-se perseguido, o animal ao fugir e ao ser caçado tem medo e o seu organismo segrega ácido láctico em excesso para alimentar os músculos que, por sua vez, libertam ácido úrico que se espalha pela carne. Daí a vantagem de algum tempo de repouso, antes da caça ser cozinhada e comida.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Favoritos L : D. Pedro I



Chamaram-lhe o cru ou o justiceiro, consoante a perspectiva. D. Pedro I, que nasceu a 8 de Abril de 1320, foi um rei controverso. Partilha com D. Sebastião a popularidade mítica das lendas. No caso de D. Pedro, a do amor (por Inês de Castro) para além da morte, que inspirou vários escritores, desde António Ferreira ("A Castro") a Henry de Montherlant ("La Reine Morte"). Mas o rei, que deixou os cofres da Nação a abarrotar - e que seu filho, D. Fernando, se apressou a desbaratar em guerras inúteis e dispendiosas -, D. Pedro I, dizia eu, era também um homem inquieto. Parece que era dado a fúrias repentinas (aliás, na boa tradição dos nativos astrológicos de Áries ou Carneiro) e atreito a frequentes insónias. Nessas alturas, vinha para a rua, alta noite ou de madrugada, dançar, comer e beber com o Povo, à luz das tochas. Mas demos a palavra a Fernão Lopes que, assim, lhe esboça os contornos de retrato:


"Este rei Dom Pedro era muito gago. E foi sempre grande caçador e monteiro, sendo infante e depois que foi rei, trazendo grande casa de caçadores e moços de monte e de aves e cães de todas maneiras que para tais jogos eram pertencentes. Ele era muito viandeiro, sem ser comedor mais que outro homem, que suas salas eram de praça em todos os lugares por onde andava, fartas de vianda em grande abastança. (...) E el-rei Dom Pedro era em dar mui ledo, tanto que muitas vezes dizia que lhe afrouxassem a cinta - que então usavam não muito apertada -, por que se lhe alargasse o corpo por mais espaçadamente poder dar, dizendo que o dia que o rei não dava, não devia ser havido por rei. Era ainda de bom desembargo aos que lhe requeriam bem e mercê; e tal ordenança tinha nisto que nenhum era detido em sua casa por cousa que lhe requeresse. ..."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Curiosidades 18 : almenaras


No poste anterior sobre jacarandás e estorninhos referi, en passant, as almenaras que o Condestável fez, em Palmela, para dar ânimo aos sitiados de Lisboa. Creio ser do conhecimento geral que almenaras eram fachos que se acendiam nos castelos para dar notícia de presença, para longe. Mas julgo que vale também a pena transcrever, da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, a parte em que as refere. Segue:

"...Nun'Álvares foi comer a Coina, e ali repartiu o esbulho per todos, sem havendo pera si parte alguma. E dhi cavalgou e foi a Palmela; e quando foi noite, mandou fazer tais almenaras de fogo, de guisa que o viam os de Lisboa, por saberem os da cidade que estava ele ali, e tomarem algum esforço.
E certamente assim foi de feito, que o Mestre, quando viu aquelas almenaras de fogo em Palmela bem entendeu que era Nun'Álvares que ali estava com suas gentes, e houve mui gram prazer, ele e todos aqueles que o viam; e mandou acender grandes tochas no grande eirado dos paços del-rei hu estonce pousava, por as verem de Palmela, e lhe dar a entender que via suas almenaras e que lhe respondia com aqueles lumes, pois outra fala antre eles haver não podia. E assim esteve o Mestre per um bom espaço falando com os seus nos feitos de Nun'Álvares com aquele doce razoar e louvores quais tão leal servidor merecia de se dele dizerem. Desi colheu-se pera sua câmara.
Nun'Álvares er apagou seus fogos por cobrar o sono que dante perdera; onde fique com boas noites. E nós tornemos ver a atribulada Lisboa, em que ponto está. ..."