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domingo, 5 de março de 2017

Curiosidades 62


Obra tamanha foi esta, a que Camilo Castelo Branco (1825-1890) nos deixou, dos seus laboriosos anos de escrita. Quem primeiro ousou balancear números, terá sido Fialho de Almeida, seu confrade e amigo, que se atreveu a atribuir-lhe 180 livros, num total de 54.000 páginas impressas.
Em anos mais recentes (1980), Alexandre Cabral foi mais longe e mais minucioso ao avançar:
- 30.000 páginas correspondentes a 133 títulos, referentes a primeiras edições.
- 2.000 páginas das polémicas.
- 2.600 páginas de escritos diversos e avulsos, reunidos por Júlio Costa Dias em 5 volumes.
- 5.569 páginas traduzidas para português, em 14 títulos de autores estrangeiros.
- 15.000 páginas de correspondência.
Ora, e com isto tudo, nos seus cerca de 40 anos de labor literário, segundo Alexandre Cabral, Camilo terá escrito, em média, quatro páginas por dia, sem qualquer intervalo de férias ou dias santos...
É obra!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Eça, por Fialho


É sabido que Fialho de Almeida (1857-1911) não morria de amores por Eça de Queiroz (1845-1900). E é conhecida a cena de Fialho no Rossio, de ostensiva gravata vermelha, a observar o cortejo fúnebre de Eça. Os seus afectos inclinavam-se, sobretudo, para Camilo. 
Conheço, de Fialho de Almeida, dois textos sobre Eça. O primeiro  publicado em O Contemporaneo, relativamente suave; o segundo, bastante mais contundente, em jeito de apreciação literária, veio em o Brasil-Portugal, já depois da morte do romancista de Os Maias. Vou transcrever uma pequena parte do primeiro.

"Conheci-o ha pouco mais de um anno num gabinete de restaurant onde elle ia cear todas as noites, com rapazes. Espirito adoravel, bordado de infantilidades sabiamente premeditadas para os effeitos scenicos de seducção intellectiva, mordacidades de alto e polido estylo, e sobretudo esse privilegio sagaz de não perder um millimetro de estatura, pela intimidade e pela franqueza, prodigalisadas em volta. (...) Tudo nessa figura de cartilagem, franzina e pallida, trahe o espirito depurado em requintes subtis, á custa de uma especie de tortura physica, que o rala, ao mesmo tempo que o transfigura. Olhem bem essa masque de face cavada e nariz astuto, com olhos de myope alternadamente coriscantes e doces, bocca fina, que sob as azas do bigode, aos cantos se atormenta numa ironia que faz na sua conversa e na sua proza, um scintilar de espadas em duello. Ao premir na orbita o monoculo, as sobrancelhas negras extranhamente arqueadas aproximam-se e palpitam, como remiges em azas de corvo, pondo na physionomia, o que seja de um cunho mephistophelico. Voz grave, ora de morosidades morbidas, ora em catadupa febril. ..."

domingo, 31 de julho de 2016

Bibliofilia 145


Eu já tive um encantado afecto pelos livros de Fialho de Almeida (1857-1911) e ainda releio, hoje, algumas das suas obras com imenso gosto.
Por outro lado, esta colecção de culto, minoritário é certo, criada por Vitor Silva Tavares (1937-2015) e que morreu com ele, sempre me mereceu um concentrado respeito. Comprei vários dos seus números, na altura da saída. Entre o fescenino e o raro, o provocador e o proibido, a série contramargem / & etc tem a maior parte dos seus livros-folhetos esgotados.
Pois, esta pequena antologia de Fialho, com o número 11 da série, tem exactamente 35 anos, porque foi editada em Julho de 1981, e contém alguns textos soberbos como, por exemplo, a extravagante descrição do enterro do rei D. Luís I. Depois, o exemplar era o único, que restava, nessa pequena, mas muito cuidada livraria da Cova da Piedade, onde o comprei. Custava 3 euros - para quê esperar?


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O Natal de Fialho, em 1891


"...Ah como eu tive inveja do saloio que parou o burro á porta d'uma mercearia da Bitesga, para comprar as duas duzias de brôas da consoada; do pobre engraixador da esquina, indo á praça com a mulher, de fato rico, apreçar um quarto de peru; da varina entrando na salsicharia, radiante, a comprar salsichas, ao fim de ter deposto a canastra á porta, rude presépe onde o filho loiro chuchava o dedo, com o ventre de sapo para o ar! (...)
......dia de Natal, eu que conheço toda a gente, não tive ninguém que me dissesse «anda jantar». Vinguei-me sahindo de casa, e engajando os primeiros va-nu-pieds eventuaes. Dois pobres do asylo, os uniformes sem nodoas, pouco bebedos. Marchamos para o Augusto, e na sala comum, a uma de cujas mesas nos sentamos, houve reboliço por banda das meretrizes e irregulares que mais alegres do que eu, alli tinham ido fazer o seu jantar de festa, em partie fine. Não descrevo a comida, registando apenas o trabalho gasto em despersuadir os meus dois commensaes de não metterem nos bolsos os restos de cada prato do festim. ..."

Fialho de Almeida, in Os Gatos (5º volume).

domingo, 23 de dezembro de 2012

De Natais antigos


"...Não, a vida não é uma festa permanente e imóvel, é uma evolução constante e rude. O Natal é a festa das lágrimas para todos aqueles para quem ele não é a festa da inexperiência. E todavia pensavam alguns que era útil não deixar de a celebrar. Que importa que o número ou que o nome dos convivas varie em cada ano? Que importa que alguns amados velhos faltem ao banquete? Que importa que nós mesmos faltemos para o ano que vem na festa dos mais novos?
Esta noite de alegria para as crianças será sempre de saudade para os adultos. Assim temos a esperança terna de sobreviver, por algum tempo, na lembrança dos que amamos - uma vez ao menos - de ano a ano."
Ramalho Ortigão, in As Farpas, tomo I.

"Ah! como eu tive inveja do saloio que parou o burro à porta de uma mercearia da Bitesga, para comprar as duas dúzias de broas da consoada; do pobre engraxador da esquina, indo à praça, com a mulher, de fato rico, apreçar um quarto de peru; da varina entrando na salsicharia, radiante, a comprar salsichas, ao fim de ter deposto a canastra à porta, rude presepe onde o filho loiro chuchava no dedo, com o ventre de sapo para o ar! Todas essas índoles do povo, roídas de penúria, vergadas de trabalho, primitivas, mas fecundas e convergentes, por uma fatalidade ancestral, à reedição das alegrias periódicas do ano, se me afiguraram infinitamente superiores à minha friável índole de janota céptico, demolindo no ar sem plano certo, negando pelo simples prazer  do paradoxo, incapaz de estabilidade num problema, constantemente à procura do novo, e em cada topo de colina voltando-se, desesperado de só ter achado gosto - ao que era velho. ..."
Fialho de Almeida, in Os Gatos, vol. V.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Recomendado: trinta e três - sobre Gastronomia


É uma obra ligeira, mas muito informativa e agradável de se ler esta "Volúpia - A Nona Arte - A Gastronomia", de Albino Forjaz Sampaio (1884-1949), para quem preze os prazeres da mesa. E também para quem goste de literatura, pois há capítulos dedicados a Eça, Ramalho e Fialho de Almeida.
Lá se encontra a famosa receita, muito simples, de batatas fritas enfoladas, de Ramalho Ortigão, bem como as melhores regras, aconselhadas por Fialho, para arrozes de perdizes. Há também um repositório extenso de bibliografia gastronómica portuguesa e europeia. E apreciações interessantes sobre os pratos mais importantes da Europa, África, China...
O livro teve a sua edição original no ano de 1940. Esta, que possuo e vai a capa em imagem, é a segunda edição (2000), da Editorial Notícias.
Recomendado para ler antes do almoço ou do jantar, porque abre o apetite.

domingo, 1 de abril de 2012

Bibliofilia 61 : Fialho de Almeida



Esta separata em A4, pequeno, contendo o texto "Ceifeiros" de Fialho de Almeida (1857-1911), não sendo rara, é, pelo menos, esteticamente agradável na impressão e enriquecida na capa com uma obra alusiva de Alberto de Souza, de 1929. Mas a obra, com apenas 16 páginas, editada pela Livraria Clássica Editora (s/d), também não aparece muito à venda - quem a tem, chama-lhe sua, porque é bonita... Terá sido impressa nos anos 30 ou 40 do século passado e, como reza na terceira página: "Separata - oferecida, graciosamente, pela Livraria Clássica Editora, à Comissão Executiva de Homenagem a Fialho de Almeida, com o fim de ser vendida e o produto reverter a favor do fundo destinado ao monumento, em projecto, do autor dos «Gatos»."
Creio que o monumento, em Lisboa, não terá chegado a ser construído, mas em Cuba (Alentejo) existe uma estátua de Fialho de Almeida. Terá sido essa, o objectivo da publicação desta separata lisboeta?

para H. N., admirador de Fialho, ofertante e amigo. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pequena história (3) : Fialho e Eça


É conhecido o ódio de estimação e ciúmes que Fialho de Almeida tinha por Eça de Queiroz.
Quando, no Largo Barão de Quintela, foi inaugurada a estátua de Eça, Fialho no jornal "A Tribuna" criou várias situações imaginárias, para denegrir, apoucar e ridicularizar o autor de A Relíquia. Conta-se, talvez, a mais engraçada, em que Fialho de Almeida inventou uma falsa entrevista com o proprietário do palácio que ficava de frente para a estátua. Segue:
"- Diga-me, Sr. Monteiro Milhões, o que pensa V. Excª. do monumento?
- Penso que tenho de voltar a frontaria da minha casa para o Teatro D. Amélia (hoje, S.Luís). Imagine que os meus netos estão constantemente a perguntar quem é aquela senhora sem camisa. Já no outro dia lhes disse que era D. Maria II, mas com estes frios, os pequenitos, educados na compaixão, não me largam para que lhe mande um cobertor."

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Mercearias Finas 29 : breve miscelânea sobre a caça




A caça foi, de início, uma forma natural de exercício humano mas, também, uma questão de necessidade para a sobrevivência do Homem. Para os primitivos, a caça foi o seu alimento principal, servia de vestuário e ferramenta, através dos ossos dos animais abatidos.



Vários escritores portugueses usaram a caça como motivo ou falaram dela nos seus escritos. De Fernão Lopes a Torga, de Camilo a Manuel Alegre. De Bulhão Pato, escritor e gastrónomo conhecido, há pelo menos uma receita: Lebre à Bulhão Pato. E, de Fialho de Almeida, também consta um Arroz de Perdizes. Por falar nesta ave de caça, há um ditado que diz: "Perdiz, só com dedo no nariz", que tem uma razão objectiva. De uma forma geral, nenhuma peça abatida, seja ela javali, lebre, veado ou perdiz, deve ser comida no próprio dia em que é caçada. E isto porque ao sentir-se perseguido, o animal ao fugir e ao ser caçado tem medo e o seu organismo segrega ácido láctico em excesso para alimentar os músculos que, por sua vez, libertam ácido úrico que se espalha pela carne. Daí a vantagem de algum tempo de repouso, antes da caça ser cozinhada e comida.