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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Antologia 22

 

Daquilo que conheço, creio que há dois poetas que se abalançaram a falar com propriedade original e sabedoria sobre a criação em poesia. T. S. Eliot (1888-1965), de que registei um pequeno fragmento de texto no Arpose (2/2/2010), e René Char que passo a citar:

"Heráclito põe o acento sobre a exaltante aliança dos contrários. Ele vê neles, em primeiro lugar, a condição perfeita e o motor indispensável para produzir harmonia. Em poesia acontece que, no momento da fusão destes contrários, surge um impacto sem origem definida, cuja acção dissolvente e solitária provoca o delizar dos abismos que trazem de forma tão antifísica o poema. Pertence ao poeta interromper cerce este perigo fazendo intervir, seja um elemento tradicional de razão já experimentada, seja o fogo de uma demiurgia tão milagrosa que anule o trajecto da causa para o efeito. O poeta pode então aperceber-se dos contrários - estes milagres pontuais e tumultuosos -, direccionar a sua linha imanente personificada, poesia e verdade, que, como sabemos, são sinónimos."

René Char (1907-1988), in Fureur et Mystère (pgs. 69/70).

domingo, 20 de outubro de 2024

Citações CDXCVII

 


A poesia vive da insónia perpétua.

René Char, in La parole en archipel.

...

Convém que a poesia seja inseparável do previsível, mas ainda não formulado.

René Char, in Fureur et Mystère.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Uma fotografia, de vez em quando... (178)



Depois de frequentar várias profissões, o francês Serge Assier (1946), aos 28 anos enveredou  pela fotografia, vindo a integrar a agência Gamma, e executando diversos trabalhos para jornais e revistas.  




Acontecimentos mundanos são fixados pela sua máquina fotográfica, cobrindo com frequência aspectos pitorescos do Festival de Cannes. A relação com René Char (1907-1988) permitiu-lhe algumas fotos icónicas do poeta, nos anos 80.



segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Pinacoteca Pessoal 198



Nascido em Pequim a 1 de Fevereiro de 1920, o pintor Zao Wou-Ki fez a sua aprendizagem profissional na China, tendo-se estabelecido na França em 1948, onde ilustrou de forma original alguns livros, nomeadamente, Effilage du sac de jute (Gallimard, 2012), de René Char.



Na sua obra, a abstracção predomina, e alguns críticos dizem-no influenciado por Paul Klee. As suas exposições foram apreciadas de forma positiva por Joan Miró e Picasso, na altura.




Zao Wou-Ki faleceu na Suiça a 9 de Abril de 2013.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Citações CDLXV



Tudo aquilo que vem ao mundo para não incomodar não merece ser tido em conta, nem a nossa paciência. 

René Char (1907-1988), in Fureur et Mystère.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

3 fragmentos de René Char, em versão portuguesa



225
 
A criança não vê o homem sob um dia seguro, mas sob um dia mais simplificado. É esse o segredo da sua inseguridade.

227

O homem é capaz de fazer aquilo que é incapaz de imaginar. A sua cabeça sulca a galáxia do absurdo.

Feuillets d'Hypnos (1946) 
...
IV

No cerne mais íntimo da tempestade, há sempre um pássaro para nos sossegar. É a ave desconhecida. Que canta pouco antes de levantar voo.

Les Matinaux (1950)

domingo, 16 de abril de 2023

Uma boa notícia



Ainda que carecendo da garantia de confirmação da autoria, por parte de peritos na matéria, é uma boa nova saber-se da provável existência, nas reservas do MNAA, de uma obra de Georges de La Tour (1593-1652), pintor francês muito apreciado também pelo poeta René Char. O tema é a representação de S. Gregório, papa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Da leitura 49



De Laurent Greilsamer, René Char (2004), a páginas 563, traduzindo:

Tigron* declina. Também ele sofre de vários males: problemas respiratórios, problemas de visão. Char fala dele com respeito e consideração: "Ele sabe, sobre o essencial, talvez mais do que nós. E isso não me surpreenderia que ele pensasse como um frade franciscano."

e

Tal como Orion, Tigron* cegou. Os seus olhos dourados ganharam uma sombra de tom azulado. Char manda chamar um amigo biólogo, Léo Goudard, que lhe promete atenuar esta situação. E, de facto, um tratamento - uma injecção diária - permite-lhe recuperar a visão e poder rever a aurora. (pg. 569)


* nome do cão de René Char (1907-1988).

domingo, 4 de abril de 2021

Quatro sublinhados de leitura, para reflexão alheia

Devo-o ao meu pai, porque, como escrevi em Depois de Babel, ele soube adivinhar que uma língua que se aprende é uma nova liberdade, uma língua nova, um cosmos e um mundo por si só, enfim, uma probabilidade de sobrevivência inestimável. (pg. 26)

Se não soubermos quem era Hipnos, se não tivermos a decência de pegar num bom dicionário de mitologia para o descobrirmos, nada nos será acessível de René Char, do seu papel, da sua luta pela vida e pela liberdade. (pg. 119)

A arte abstracta, a de Paul Klee, de Kandinsky, ilustra a queda da matéria no silêncio com o qual tem laços indissolúveis. Em terceiro lugar, diria que a temática do ruído, na cultura e na educação modernas me apaixona. A intrusão do ruído, a impossibilidade de encontrarmos espaços consagrados ao silêncio, tanto na nossa existência privada, como na vida pública ou na educação reservada às crianças, parece-me ser a poluição mais grave com que a cultura moderna se confronta. (pg. 138/9)

O universalismo não é portador de qualquer valor de tolerância ou de acolhimento. Traz consigo o seu próprio dogma. O supermercado não quer produtos locais, enlata uma cultura capitalista de exportação que o mundo inteiro terá de sofrer. (pg. 177)


George Steiner (1929-2020), in Quatro Entrevistas... (VS Editor, 2020).


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Divagações 162


São como as cerejas, as palavras - diz-se. E assim foram, para mim, contagiosas. De Agustina (O Susto), passei para Pascoaes (Regresso ao Paraíso) que, curiosa e poeticamente, nunca me contagiou muito; e ao ensaio e antologia escolhida por Sena (Brasília Editora) sobre o poeta de S. João de Gatão. Poupei-me a reler Os Afluentes do Silêncio, em que Eugénio traça um belo e comovido retrato de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), real e não ficcionado como o de Bessa-Luís.


Pela biografia de René Char (Tempus, 2013) ando eu, há meses, mergulhado em leituras do maravilhoso texto de Laurent Greilsamer. Até que fui dar com umas palavras sobre o pintor russo Nicolas de Staël (1914-1955), amigos que eles foram, que me fez ir à estante buscar o livro de Antoine Tudal (Le Musée du Poche, 1958). Sucinto de escrita, como convém à biografia de um suicida, mas bastante. E de competente iconografia.
Fiquemos por aqui!

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Pequena história (57)


O episódio singular vem descrito a páginas 234/5 da obra René Char (Tempus, 2013), de Laurent Greilsamer. Se eu tivesse que lhe dar um título individualizado, pôr-lhe-ia: Uma noz medieval...
Por volta de 1942/3, o poeta René Char (1907-1988), com o nome de guerra Alexandre, comandava, na zona de Ceréste, um grupo da Resistência francesa, contra os nazis ocupantes.
Precisavam na região de um terreno discreto e favorável a aterragens de pequenos aviões, vindos de Inglaterra, que pudessem vir descarregar provisões e armas, ou até trazer e levar resistentes.
Conseguiram escolher o local ideal, pertencente a um quinteiro da região. Havia porém um problema: uma centenária e frondosa nogueira ocupava o centro do desejado e futuro "aeroporto".
Após aturados esforços lá conseguiram convencer o quinteiro, que lhes tinha arrendado o referido espaço, a consentir que deitassem abaixo a produtiva e longeva árvore de fruto.
Demos, então, a palavra a Laurent Greilsamer:
"...Le lendemain, Alexandre remonte sur le plateau avec une équipe pour s'attaquer au noyer. Ils dégagent la base de l'arbre, cherchent la racine majeure et finissent pour isoler une épaisse liane qu'ils suivent sur une dizaine de mètres. À son extremité repose... la dépouille d'un guerrier dans son armure!
Char jubile. Quel histoire! ..."
Séculos depois, a noz, que o guerreiro tinha guardada na sua algibeira, produzira frutos.

sábado, 25 de julho de 2020

Uma anotação de Char, traduzida


Le Coup

O rasgo de génio de Rodin é o de ter sabido vestir Balzac.
Picasso, é Balzac nu; mas com as mãos de Rodin, a capa impetuosa e o destino de Picasso.
                                                                                                                                                   1961

René Char (1907-1988), in Recherche de la base et du sommet (pg. 79).

sábado, 18 de janeiro de 2020

Aviso


Um poeta deve deixar traços da sua passagem, não provas. Só os traços fazem sonhar.

René Char (1907-1988), in La Parole en archipel.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Da leitura 33


Os pequenos prazeres. Não é todos os dias que, na mesa, se nos oferecem à leitura dois autores dilectos, em edições bonitas, apetecíveis de ler.
Cavafy (1863-1933), com a sua obra quase completa, em tradução inglesa que irei alinhar com a francesa, de M. Yourcenar, a espanhola e a versão portuguesa de Jorge de Sena.
René Char (1907-1988), com Retour Amont (1966), livro de uma fase de crise, surgida depois de uma ameaça cardíaca, em que o poeta deixou de fumar. Desábito que lhe teria provocada um vazio de criação.

agradecimentos cordiais a H. N..

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

(In)Tradução


Estaco, frustrado, perante um simples, mas grande poema composto por 5 versos, de René Char (1907-1988). Percebo-o, traduzo-o literalmente, mas o poema fica muito aquém do original na minha versão para português - é de expressão menor, e francamente abortado. Falta-lhe fogo e alma, palavras gémeas para atingir, ao menos, um paralelo fulgor aproximado, da criação do poeta francês.
Talvez mais tarde, ou noutro dia lhe consiga captar alguma da grandeza original. Entretanto, e como dizia Fernando Echevarría:
                                             A língua, sustenida, imóvel pensa.


sábado, 13 de abril de 2019

Bibliofilia 173


Em abono da verdade, devo começar por dizer que, tirando Verlaine e até ao século XX, eu nunca fui grande entusiasta da poesia francesa. Mas o século passado já me trouxe, pelo menos, dois grandes poetas franceses: Saint-John Perse e René Char, de minha frequência estimada, ainda hoje.
Quanto à história, a narração é simples, embora tenha contornos misteriosos que eu nunca descobri.
Aí pelos anos 90, sempre que eu ia à Livraria Artes e Letras (Largo Trindade Coelho, agora, nas Avenidas Novas, Lisboa), namorava e folheava, com particular atenção um volumoso lote de números da revista Po&sie, publicação prestigiada que começara a editar-se em 1977, pela mão do poeta e tradutor Michel Deguy (1930), e que era dedicada a estudos e continha poemas de escritores franceses e estrangeiros, alguns deles traduzidos (Paul Celan, Umberto Saba, Sylvia Plath...). Mas Luís Gomes precificara os exemplares muito caros para o meu gosto: 10 euros os números simples, 15, cada um dos duplos.
Ora, inesperadamente, a Livraria mudou de dono, durante cerca de um ano, passando para a direcção de Carlos Bobone, também ele livreiro-alfarrabista. Que procedeu a rearrumações e à marcação de novos preços dos livros usados, alguns muito abaixo dos antes praticados. E foi assim que eu acabei por limpar a prateleira das revistas Po&sie e, em duas abadas felizes, trouxe de lá 18 números (entre o nº 50 e o 98), ao preço de 3 euros, cada um. E que fazem parte, agora, da minha biblioteca.
Resta acrescentar que, meses depois, a Livraria Artes e Letras voltou a pertencer ao seu anterior proprietário - e aqui é que reside o mistério. No interim, no entanto, eu tinha aproveitado os saldos...


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Aditamento : ainda no rescaldo de leitura da correspondência Camus / Casarès


Muitos dos nossos ódios de estimação são difíceis de explicar. Viscerais e, muitas vezes, puramente instintivos, sem fundamento concreto e racional, para os outros.
Na troca de correspondência entre Camus e Casarès, ressaltam várias antipatias expressas. Maria Casarès refere várias vezes a escrita pretensiosa de Margarite Yourcenar e o tédio que está a sentir, bem como a dificuldade que está ter com a leitura de Memórias de Adriano. Curiosamente, já René Char, grande amigo de Camus, antipatizava muito com o estilo literário da escritora belga...
Quanto a Albert Camus, ele expressa, depreciativamente, a pobreza dos diálogos de Georges Simenon.
Para memória futura, aqui ficam estes dados e sentimentos negativos que me parecem injustos. E meramente emocionais.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lembranças de Antuérpia


A Bélgica é um país pequeno, mas tem edifícios enormes a atestar, de forma inequívoca talvez, um passado imperial (Congo, Ruanda...), ainda que muito breve, em tempo de seu exercício...
A estação ferroviária de Antuérpia, construída entre 1895 e 1905, é um bom exemplo dessa desmesura, embora hoje razoavelmente aproveitada nas suas três plataformas de vias para comboios de vários destinos europeus.



Ponto turístico de consenso geral, como para mim é, do ponto de vista particular, a livraria De Slegte, à beira da casa(-museu) de Rubens, pintor que eu já não frequento por devoção artística, também pela sua desmesura de celulites, tão bem expressa no Rapto das Filhas de Leucipo (hoje, em Munique), que colhia as minhas preferências juvenis, em detrimento dos retratos da também nutrida Hélène de Fourment.



A De Slegte, comedidamente distribuída por três andares, dedica um deles aos livros usados, a bom preço normalmente. De lá trouxe, há uns anos, uma abada de livros de Simenon que me faltavam, sem esportular muitos euros. Desta vez, tive menos sorte. Mas ficaram-me os olhos num Le Marteau sans Maître, de René Char, na sua edição original (500 exemplares), autografada, acompanhada de uma carta do poeta francês, justificando a oferta. Pediam 600 euros pelo lote, mas eu não estava preparado para tanto...



Tive de me contentar com a versão francesa de An der Zeitmauer, de Ernst Jünger, em muito bom estado e por abrir, que me custou apenas 10 euros, e que tenho vindo a ler, com agrado e proveito.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

René Char (1907-1988)


Quem não terá sonhado, ao vaguear pela avenida das cidades que, em vez de começar pela palavra, tudo tivesse início pelas intenções?
...
O exercício da vida, alguns combates com desfecho insolúvel mas por motivos válidos, ensinaram-me a olhar o ser humano sob um ângulo de céu cujo azul de tempestade acaba por lhe ser o mais favorável.


René Char (1907-1988), in Lettera amorosa (pgs. 30 e 38).


estas versões são, particularmente, para H. N. que, há muito, me ofereceu este lindíssimo livro.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Osmose 89


Todo o grande poema tem uma segunda leitura: à tona, se tivermos pressa, outra, de águas profundas.
Há que nos abandonarmos ao mergulho da sensação, quando o poema tem densidade, às associações mais íntimas, descomandadas. Indo para além da leitura, num ascenso, também, que exclui o racional.
René Char aconselhava aos poetas autênticos que suprimissem o primeiro verso do poema original. E o último. Julgo que de forma a perder-se o fio da meada de uma rotina discursiva e banal.
Mas tudo depende daquele início de graça que nos é dado. Que sendo obscuro, pode ser divino na sua humanidade irrepetível, e prontamente esquecido. Como nos sonhos.