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quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Citações DII

 

A democracia, mais ainda do que qualquer outro regime, exige o exercício da autoridade.

Saint-John Perse (1887-1975), in Discours sur Briand (1942).

sábado, 13 de abril de 2019

Bibliofilia 173


Em abono da verdade, devo começar por dizer que, tirando Verlaine e até ao século XX, eu nunca fui grande entusiasta da poesia francesa. Mas o século passado já me trouxe, pelo menos, dois grandes poetas franceses: Saint-John Perse e René Char, de minha frequência estimada, ainda hoje.
Quanto à história, a narração é simples, embora tenha contornos misteriosos que eu nunca descobri.
Aí pelos anos 90, sempre que eu ia à Livraria Artes e Letras (Largo Trindade Coelho, agora, nas Avenidas Novas, Lisboa), namorava e folheava, com particular atenção um volumoso lote de números da revista Po&sie, publicação prestigiada que começara a editar-se em 1977, pela mão do poeta e tradutor Michel Deguy (1930), e que era dedicada a estudos e continha poemas de escritores franceses e estrangeiros, alguns deles traduzidos (Paul Celan, Umberto Saba, Sylvia Plath...). Mas Luís Gomes precificara os exemplares muito caros para o meu gosto: 10 euros os números simples, 15, cada um dos duplos.
Ora, inesperadamente, a Livraria mudou de dono, durante cerca de um ano, passando para a direcção de Carlos Bobone, também ele livreiro-alfarrabista. Que procedeu a rearrumações e à marcação de novos preços dos livros usados, alguns muito abaixo dos antes praticados. E foi assim que eu acabei por limpar a prateleira das revistas Po&sie e, em duas abadas felizes, trouxe de lá 18 números (entre o nº 50 e o 98), ao preço de 3 euros, cada um. E que fazem parte, agora, da minha biblioteca.
Resta acrescentar que, meses depois, a Livraria Artes e Letras voltou a pertencer ao seu anterior proprietário - e aqui é que reside o mistério. No interim, no entanto, eu tinha aproveitado os saldos...


sábado, 12 de outubro de 2013

Divagações 57


Se um poema breve pode provocar, num leitor atento, um coup de foudre instantâneo e fulminante, um extenso poema, se for bom, é como uma flor que se vai abrindo, lentamente, e nos vai conquistando, pouco a pouco, pela sua beleza. É o caso, por exemplo, de Anabase, de Saint-John Perse, ou do fragmento inacabado de  Endymion ("A thing of beauty is a joy forever..."), de John Keats.
Li, hoje, para alguém muito jovem, e em voz alta, o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa. Eu próprio fui sendo envolvido nos seus versos, apesar de já o ter lido muitas vezes. E o poema envolveu, também, a juventude de quem o ouviu. Mesmo que o Dono da Tabacaria (com maiúsculas iniciais, no original) seja Deus (como alguns sugerem), não é por isso que este longo poema de Pessoa nos conquista. Algo de mais profundo se insinua, apesar do dramático final:

                                                                      "..., e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ódios de estimação literários


É curioso constatar que escritores, até reconhecidos pela sua generosidade natural, não deixam, contudo, de ter alguns ódios de estimação centrados em confrades da mesma arte. E que exorcisam esse sentimento, com alguma frequência, em conversas mais íntimas, ou mesmo em escritos. É nítida, por exemplo, a antipatia intelectual que George Steiner consagra a E. M. Cioran. Ou a que Cioran, por sua vez, dedicava a Albert Camus. É conhecida a pouca simpatia que Jorge de Sena tinha por Manuel Bernardes, e que considerava pouco inteligente; ou por António Ferreira, que achava um poeta menor - e, aqui, estou quase de acordo com Sena.
René Char (1907-1988), que dedicava uma enorme estima humana e literária a Albert Camus e Saint-John Perse, desprezava, intelectualmente, Valéry e não apreciava nada Aragon. Li, há pouco tempo, um pequeno episódio, narrado por Jean Pénard ("Rencontres avec René Char", 1971), que passo a citar: "...René Ménard n'a décidément pas de chance. Il compare Rafael Alberti à Federico García Lorca. Emportement imédiat de Char: «Comment pouvez-vous les mettre l'un prés de l'autre? García Lorca avait le chant. Alberti ne l'a jamais eu.» Il prononce ces mots avec violence et gravité. ..."

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Saint-John Perse


"...Solidão! o ovo azul que um grande pássaro marinho põe, e as baías de manhã completamente atulhadas de limões de ouro! - Era ontem! O pássaro desapareceu!
Amanhã as festas, os clamores, as avenidas plantadas de árvores de vagens e os serviços de inspecção das limpezas arrancando à aurora grandes pedaços de palmas mortas, bocados de asas gigantes... Amanhã as festas,
as eleições de magistrados do porto, os vocalizos nos arrabaldes e sob as mornas incubações de tempestade,
a cidade amarela, coberta de sombra, com as suas calças das raparigas às janelas. ..."
(Saint-John Perse, in Anabase, tradução de Carlos Cunha e Alfredo Margarido)

Marie-René-Auguste-Alexis Saint-Leger Leger nasceu em Guadalupe, a 31 de Maio de 1887, e veio a falecer a 20 de Setembro de 1975, precisamente há 35 anos. Diplomata de profissão, poeta sob o nome de Saint-John Perse, foi prémio Nobel de Literatura, em 1960. No seu discurso de agradecimento referiu: "...Através do pensamento analógico e simbólico, pela iluminação longínqua da imagem matricial, e pelo jogo das suas correspondências, por entre cadeias de reacções e de estranhas associações, pela graça enfim duma linguagem onde se transmite o movimento próprio do Ser, o poeta foi investido de uma superrealidade que não pode ser igual à da ciência. ..."
Poesia de ampla respiração, por onde perpassa um sopro bíblico de ancestralidade e profecia, a obra de Saint-John Perse assimila, em si, a alacridade colorida dos Trópicos ao realismo racional da melhor tradição clássica europeia. Num movimento perpétuo encantatório que se cruza, tangencial, com a imaginação atenta do leitor. É um dos grandes poetas do séc. XX (Anabase, Éloges, Vents...) e, por isso, o lembro - hoje e aqui.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Poema longo, poema breve


Sempre tive, à partida, alguma predilecção por poemas breves, antes ainda do meu primeiro contacto com a poesia japonesa, que data de meados dos anos 60. Mas, ao mesmo tempo, sempre gostei muito da poesia inglesa onde predominam os poemas de certa extensão. Poesia descritiva, impropriamente, o diria. No entanto, há excepções como as de William Blake, em "Songs of Innocence and of Experience". Não há regras fixas, em poesia, que assegurem à partida e pelo tamanho a qualidade da obra. Claro que um longo poema, bem feito, pode "envolver" mais o leitor, criar atmosfera, e estou a lembrar-me de "Anabase" de Saint-John Perse, por exemplo.
Por outro lado, poetas há que, ao longo da sua vida, vão alterando as formas da sua criação. Juan Ramón Jimenez começa a sua obra com poemas médio-longos, evolui para uma depuração extrema ("Beleza", "Estío") e, no final da vida, regressa a poemas mais extensos em "La Estación Total" e "Animal de Fondo". Eugénio de Andrade tem uma evolução afim, muito embora na sua juventude tenha poucos poemas longos.
No meio de tudo isto, há o soneto, suprema tentação, sumo equilíbrio.
Racionalmente, não pode nem deve haver exclusões, mesmo que pela positiva - contenção epigramática, poemas longos, sonetos, poemas breves. De outra forma, dizendo: poesias barrocas, conceptistas, poesia clássica, sonetos, tudo poderá ser poema desde que possua excelência para assim ser considerado. Ou ainda, e finalmente, como disse, magistralmente, Fernando Pessoa, pela voz de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.