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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Curiosidades 96



Filipe II de Espanha, I de Portugal, permaneceu no nosso país entre Dezembro de 1580 e Março de 1583. Com ele veio e o acompanhou uma luzida corte, em que se incluía, curiosamente, uma anã, Magdalena Ruiz, muito da predilecção do monarca espanhol, mas também das suas filhas, que se tinham conservado por Aranjuez. Da anã Magdalena dava o rei notícia para as duas filhas, com frequência (Magdalena ha estado muy enfadada conmigo desde que os escribí..), na correspondência enviada.
Da importância da boba, na corte espanhola, que era considerada louca, dão notícia alguns retratos que a incluem. Talvez o mais interessante seja o do pintor Sanches Coelho, de 1580, em que aparece a filha mais velha de Filipe II, Isabel Clara Eugénia, e a anã Magdalena Ruiz, a seu lado, quadro que encima este poste.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Balanços e transições


Ainda que tenha feito alguns esforços, vãos, levarei de passagem para 2023 três grossos volumes, para tentar acabar de os ler no próximo ano. São eles, pela ordem do início da leitura, os seguintes: 

1. Memórias do Cárcere (1953), de Graciliano Ramos (1892-1953). Levo lidas 154 páginas, das 650 do livro. É um texto denso, mas de grande qualidade literária, embora com passagens de algum pessimismo ontológico.
2. Felipe II (1937), de William Thomas Walsh (1891-1949), em versão castelhana. Lidos 7 capítulos (pg. 153, das 810). Parece-me obra séria, embora a julgue um pouco influenciada do ponto de vista religioso (católico).
3. Finalmente, Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre (1900-1987), de que levo lidas 135, das 460 páginas. Livro que obriga a uma leitura serena e lenta pela riqueza da informação cultural, histórica e sociológica que contém.



A qualidade dos três volumes é notória. E a leitura tem ritmo, cor e reflexão. Vou dar uma perspectiva, traduzindo para português o início do capítulo VIII (Segunda boda de Felipe) da biografia do rei espanhol. Segue:

"Quando Filipe desembarcou em Southampton não era um homem qualquer. A sua pele branca e o seu cabelo e barba, ruivos, mais de inglês do que de espanhol, faziam contraste com o seu traje negro de terciopelo e com a sua capa escura com adereços de ouro. Pedras preciosas dignas de um rei brilhavam na sua cabeça, no seu peito e nos pulsos. Ao pescoço o colar  da Ordem de Jarreteira que o conde de Arundel lhe acabara de conferir. Parecia um rei e era-o na verdade, pois Carlos V havia-o nomeado rei de Milão, para que não fosse menos do que Maria (Stuart). Atravessou a cidade sobre um rocim andaluz, enviado pela noiva, dirigindo-se à igreja de Holy Road, onde ouviu missa e deu graças a Deus pela sua feliz viagem. A nobreza inglesa e o povo estavam encantados vendo o seu ar sóbrio e varonil, o seu nobre maneio do cavalo, bem como o seu afável sorriso." 

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Pinacoteca Pessoal 156


Filho natural de Carlos V e de uma jovem flamenga, de nome Barbara Blomberg, D. Juan de Áustria (1545-1578) era, por isso, meio-irmão de Filipe II de Espanha. Foi considerado herói e o grande vencedor da batalha de Lepanto (7/10/1571), ocorrida sete anos antes da sua morte, pela peste. O seu magnífico túmulo, que se conserva no Escorial (Panteão de Infantes), foi executado em mármore de Carrara por Giuseppe Galleotti, sob desenho e modelo de Ponciano Ponzano.


Do pintor espanhol Juan Pantoja de la Cruz (1708-1778) existe também um bom retrato de D. Juan de Áustria, que, para cotejo de semelhança também, aqui, se reproduz.


sábado, 28 de março de 2015

Retro (67)


Mais um folheto publicitário do ex-SNI, desta vez destinado a publicitar, turisticamente, a bonita cidade de Lagos, uma das poucas urbes algarvias de que guardo gratas recordações.
No entanto, a sua bela e grande baía, nos finais do século XVI, foi ponto de partida para duas tragédias ibéricas. Em 1578, de lá partiu com barcos portugueses, D. Sebastião com destino à morte, em Alcácer Quibir. Dez anos mais tarde (1588), lá estadiou a Invencível Armada, vinda de Cádiz, antes de se dirigir rumo à Inglaterra. Uma forte tempestade, haveria de destruí-la, antes de conseguir o seu objectivo bélico.
Infaustos acontecimentos que hoje não ensombram, senão de memória, a sua beleza.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A História em processo


A História, de tempos a tempos, procura recuperar e reabilitar figuras que o passado, de algum modo, rotulou como déspotas, pusilânimes ou negativas. Por cá, o exemplo mais recente terá sido o de D. João VI, a que está ligada a fuga para o Brasil da família real, antecipando-se à invasão de Portugal, pelos exércitos napoleónicos. Na verdade, esta decisão não só provocou o desenvolvimento - improvável de outra forma - do Brasil, como evitou a submissão caricata do monarca aos desígnios de Napoleão. Como aconteceu em Espanha.
Dois livros recentes, segundo notícia do TLS (nº 5835), com abundante documentação (Imprudent King, de Geoffrey Parker, e World without End, de Hugh Thomas) tentam uma nova abordagem da personalidade complexa do rei Filipe II (1527-1598), de Espanha (e primeiro, de Portugal), revelando aspectos que, até aqui, tinham passado despercebidos a anteriores estudiosos. A relativização da Lenda Negra (participação na morte do filho, D. Carlos) dá lugar à importância da clarividência do monarca em relação ao tratamento dos negócios políticos, ao gosto intenso pela cultura. Bem como a manutenção concreta de governos nacionais, nos seus diversos reinos (Portugal, Nápoles, Países Baixos...), em simultâneo com uma centralização nas decisões capitais.
Até ressaltam alguns aspectos de jovialidade e bom humor de Filipe II, que o passado tinha descrito como rei sorumbático e sombrio...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Da cor isabel, a história

Da cor de burro quando foge, sabia eu, agora da cor isabel, aplicada a cavalos, nunca em tal ouvira falar, se não fora, há dias, um meu Amigo se lhe ter referido. Ora, ao que parece, diz-se assim do cavalo de cor entre o amarelo e o branco. E, a história, conta-se em poucas palavras. A filha de Filipe II, de nome Isabel Clara Eugénia de Áustria (1556-1633), que acompanhou o marido, no cerco a Ostende, prometeu que só tiraria a camisa (interior), quando a praça se rendesse. Ostende resistiu quase três anos. E a camisa quando foi mudada estava bastante acastanhada, pelo tempo e sujidade...
Antero de Figueiredo usa "das isabéis, dos alazões doirados", no seu Espanha, e a Enciclopédia Luso-Brasileira também regista o significado. Não o teria sonhado Isabel d'Áustria, aquando da promessa!
Ou teria sido, talvez, mais comedida...

abraço grato a A. de A. M..

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Curiosidades 43 : mazelas reais


Do livro Comentarios sobre la Vejez y otros ensayos (Aguilar, Madrid, 1953) do médico espanhol C. Blanco Soler, fiquei a saber de algumas mazelas e doenças que atingiram personagens reais, directa ou indirectamente, relacionadas com Portugal. Segue a minha tradução, para partilha com quem aqui vier.
"...De asma vinha padecendo D. Bárbara de Bragança, e a sua bronquite mortificava e preocupava muito o seu médico, Pedro Virgili, muitos anos antes de se declarar o cancro que a levou ao sepulcro. Bronquite crónica consumia muitas das horas do rei Filipe II, mas sem dúvida, teria afinidade com a gota que herdou de seu pai. (...) O rei D. João V de Portugal, monarca lascivo e descuidado, ficou hemiplégico de uma embolia que lhe atacou o coração, sequência da insuficiência mitral de que, com certeza, padecia. ..."

Nota: o retrato de D. Bárbara de Bragança (1711-1758), raínha de Espanha, (filha de D. João V e mulher de Fernando VI), que encima o poste, é da autoria do pintor veneziano Jacopo Amigoni (1682-1752).