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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Pedro Tamen (1934-2021)

 


(A melhor forma de celebrar e lembrar um poeta ainda será lermos os seus poemas.)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A propósito de um livro de exercícios


Durante muitos anos, pensei, intuitivamente, que todos os meus amigos e conhecidos sabiam nadar e andar de bicicleta. Pareciam-me daquelas competências básicas que, nas palavras do escritor Georges Perec, se pode traduzir (Pedro Tamen) por: a vida, modo de usar. Estava redondamente enganado.
Mas também eu nunca fui muito de exercícios físicos e, nesse aspecto, encontro-me na boa companhia de Churchill.
Na disciplina liceal de Ginástica, cumpria os mínimos, mas a subida da corda ou o salto sobre o fosso, na tropa, sempre me criaram alguma angústia existencial... Não era o caso do tronco, temível para os de pequena estatura corporal, a que eu chegava com extrema facilidade por ser alto.
Para quem tem muitos livros, a existência de nichos escusos de difícil acesso e volumes em segunda fila faz esquecer, com o tempo, obras significativas ou de particular estima que, momentaneamente, vamos arrumando em prateleiras secundárias, à falta de melhor espaço.
É o caso deste O Meu Systema, de I. P. Müller (1866-1938), que me coube por herança de pessoa muito próxima. 
Numa edição da Bertrand (como sempre, manhosa, sem data de impressão...), provavelmente de finais dos anos 30, terá custado a esse meu familiar, uns módicos Esc. 8$00. E, por ele, terá aprendido os rudimentos do exercício da Ginástica Sueca (embora o autor da obra tivesse sido um oficial do exército dinamarquês), muito em moda na época. Que as fotos e imagens são bem elucidativas.


Pois, lubrificado hoje, pela matinal e salutar natação da piscina autárquica, eu consegui debruçar-me, facilmente, para o lado esquerdo da secretária, e encontrar esta preciosidade bibliográfica, na prateleira do fundo.


De que, aqui, fica um pequeno respigo iconográfico, antes que o livro regresse à estante mais térrea...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Um poema de Pedro Tamen


Como um papel, não rasgues este dia,
pois só de ti cortado cortarás
a meta escura onde só vale inteiro
o que é perfeito e um. E contraria
o vão afã de destruir atrás
o que à frente prossegue, verdadeiro
por inegado e seco. Tens cumprida
a morte sã de não rasgar a vida.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pedro Tamen



Foi uma boa notícia, logo pela manhã: Pedro Tamen (1934) venceu o Grande Prémio de Poesia 2010, da A. P. E.. Porque, embora se considere um "jeune garçon bien rangé" (Revista Ler, Fev. 2011), a sua poesia é tudo menos isso, como aliás também referiu na mesma entrevista: "A poesia é o meu território de liberdade." Ou, através de palavras em verso, mais antigas: "...visão de perto e carne, e ponte estrada/ para coisas de branco e sem medida."

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os vencidos de deus

Houve uma parte de uma geração de intelectuais portugueses em cuja obra a fractura, ruptura ou, na prática, uma auto-marginalização do mundo religioso (catolicismo) é visível, mais ou menos, como ambiente de fundo, nos seus trabalhos e nos seus dias. Umas vezes, numa perspectiva trágica (Nuno   Bragança, Ruy Cinatti), outras vezes, por uma ironia irreverente (Alexandre O'Neill) ou apenas tímida (Alçada Baptista). E, depois, os que convalesceram bem dessa "mancha de pulmão" indelével (Bénard da Costa e Pedro Tamen) e que, da margem, se reintegraram, razoavelmente ( e digo-o sem ironia, nem pejorativamente), no sistema laico. Haveria mais nomes mas, dos que referi, apenas o último é ainda vivo e sobrevivente dessa fé perdida que não encontrou guarida em nenhuma outra hospedaria, como, por exemplo, Nuno Bragança que se transferiu para a luta armada activa (contra o antigo Regime).
O percurso de Ruy Cinatti é, talvez, um dos mais dramáticos, dolorosos e trágicos. Que passa pelos rituais animistas timorenses, em que chega a ser iniciado, até vir desembocar nas trevas e desagregação gradual, em finais dos anos 70 do século passado. É dele, o poema que se segue, integrado no "Livro do Nómada meu Amigo", de 1958.
Meditação
Tudo imaterial na praia rasa
Cheia de sol, ao fim da tarde.
Proa ao vento quebrada,
A vaga, entre rochedos, se ilumina.
É tudo imaterial, tudo neblina
Ténue que aos poucos arde,
Ao fim da tarde se desfaz, flutua,
E voo de ave desliza
Ao longe linha pura.
Tudo imaterial na praia rasa.
Aqui ninguém me vê: amo a ternura.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Poeta, segundo Tamen


"...o poeta é aquele que vê um bocadinho mais do que os outros. Ou que pelo menos é capaz de exprimir coisas que vê e que os outros, mesmo quando vêem, não são capazes de formular. Estou a falar tanto dos poetas como dos artistas em geral: músicos, pintores, etc. A poesia é, para mim, um permanente arranhar o mundo, com unhas na cal, para tentar arrancar coisas que se pressentem por detrás do branco uniforme do mundo e da vida."

Pedro Tamen (1934), in Revista Ler, nº99.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A curva perigosa


O Artur chegou cedo mas, para nossa surpresa, vinha acompanhado por uma daquelas gordas fadas loiras de leste, com límpidos olhos azúis, que já arranhava o português. Irina Miloslavskaya, segundo o cartão de visita marmoreado e perfumado que nos deu, pouco depois, no restaurante. Optamos pelo "Porto de Abrigo", que era ali à beira. O Pedro Tamen abancou, dez minutos passados, na mesa ao lado. Artur pediu as habituais pescadinhas de rabo na boca, nós fomos no pato assado, e Irina optou por uma frugal salada. Ficamos a saber que a gorda fada loira emigrara, de início, para as limpezas portuguesas mas, rapidamente e com a equivalência dada pelo Conservatório, reiniciara a sua carreira de violinista, a recibo verde, numa das nossas melhores orquestras. Onde, aliás, Artur era um dos pianistas principais. Fez questão de mostrar o anel de safiras - sinal de promessa auspiciosa deste relacionamento de grande afinidade musical. Ficamos comovidos. Seria que o Artur ia atinar, finalmente?
Mas, à sobremesa, desiludimo-nos. O nosso amigo pianista tinha planos grandiosos a médio prazo em que, temporariamente, Irina não entrava. Recém-chegado de Macau, onde conhecera Jennifer, americana de 32 anos, Artur combinara, dentro de um mês, encontrar-se com ela em Dallas e fazerem, em romagem saudosa, num velho Buick da jovem americana, o percurso de Kerouac, pela estrada fora. Eram ambos devotos da "beat-generation" e Artur, que completara os 47 anos, queria experimentar as sensações desse deambular aventureiro. Irina estava de acordo e ficaria à espera, em Portugal, como boa Penélope. Achava que era uma espécie de despedida de solteiro que, intimamente, não desaprovava.
Ficamos preocupados, mas sabia que seria inútil demovê-lo - eu conhecia bem o Artur. Despedimo-nos, junto do Mercado da Ribeira: cheirava a maresia.
Em finais de Agosto recebi, de Phoenix, um telegrama do meu amigo pianista que me pedia para o ir esperar ao aeroporto da Portela, dois dias depois. Lá fui. Mas não o reconheceria, se ele não tivesse gritado o meu nome. Vinha muito bronzeado, vestido à "cowboy" e com um enorme chapéu branco de abas largas, do faroeste americano. Botas altas, lenço vermelho ao pescoço: fiquei estarrecido, mas Artur estava bem, embora excessivamente eufórico para o que lhe era habitual. No carro em que o levei para Oeiras, foi-me contando as peripécias do seu sonho americano realizado. Também me informou que Irina não conseguira esperar por ele, e ia casar com um marialva ribatejano. Ia dedicar-se, com o futuro marido, à criação de cavalos e produção de vinhos. Largava de vez o violino. E ele, Artur, tinha um projecto grandioso. Ia abandonar o meloso do Chopin e dedicar-se, de alma e coração, ao Liszt. Como ele tinha os dedos compridos, achei bem e fiquei muito contente.
Hoje, porém, passados mais de 10 anos, e quando oiço o Paco Bandeira a cantar "A ternura dos quarenta", pergunto-me se não seria mais sensato dizer: a loucura dos quarenta - porque me lembro sempre do Artur.