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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ad usum delphini (5)


Hoje, manhã cedo (7h36), recebi uma prestigiante visita, ao Arpose, oriunda da Secretaria Geral dos Negócios Estrangeiros. Disse cá para comigo: Como amanhece cedo nas Necessidades!...
O diplomata (?) interrogava-se sobre Philip Larkin photograph. O Google, na sua inocência algorítmica, zarolha e mecânica, remeteu o(a) visitante para um poste (21/7/2012) em que eu traduzi um poema do poeta inglês - fraca consolação, por certo, pensei.
Entretanto, decidi documentar-me e cheguei à conclusão que a Fotografia era o hobby preferido de Philip Larkin (1922-1985). E que até houve um incidente um pouco grave, numa altura em que o poeta andou a tirar fotografias, a torto e a direito, pelo Soho. Minudências, decerto, do conhecimento cosmopolita do diplomata visitante e madrugador...

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Civilidade (28)


No prefácio "Às Leitoras" e, no recuado ano de 1898, Beatriz Nazareth, logo no início do seu "Manual de Civilidade e Etiqueta", referia: "Tudo muda com o tempo, mas muito mais na apparencia que na realidade, pelas formas mais que pelo fundo..."
O último TLS (nº 5761) informa que, ainda há 60 anos, escritores como Norman Mailer, Henry Miller e James Jones eram alertados para não usar, em obras a publicar, aquilo que, eufemisticamente, era referido como "the F-word" ou "a four letter word" (que não era love, com certeza).
Mas - e digo eu - a partir dos anos 60/70, a cartografia escatológica norte-americana, apesar de todo o puritanismo farisaico de fachada, começou a entrar em força, sobretudo através do cinema, no dia a dia europeu. E até Philip Larkin, um comedido poeta britânico laureado, utilizou a palavra proscrita num poema - para escândalo, ainda, de alguns ingleses serôdios e vitorianos...
Cá, pela terrinha, depois das diatribes desbragadas de Raul Leal, da fulgurância exclamativa de "A Cena de Ódio" de Almada (que não tem só versos para criancinhas...) e do célebre "merda, estou lúcido!" de Pessoa, o consulado salazarista foi reconstruindo a moral. Mas com a Liberdade, alguns ganapos atrevidos, mais para ganhar fama rapidamente, e proveito, por via dos pacóvios saloios, começaram, a torto e a direito, a usar a palavra proibida, até no título dos livros. E até cantores fizeram bom uso financeiro dela... numa forma básica de exibicionismo infantil. 
Perdeu-se o efeito. Hoje, o "F...-.." é perfeitamente banal ou vulgar em livros e apenas televisivamente, talvez para não chocar famílias reunidas, a expressão é substituida por um silvo casto e desagradável, que todos sabemos o que significa.
"Tudo muda com o tempo", dizia, com toda a razão, a excelsa senhora Beatriz Nazareth...

sábado, 21 de julho de 2012

Poema traduzido de Philip Larkin (1922-1985)


Dias

Para que servem os dias?
Os dias são para vivermos neles.
Eles chegam, acordam-nos
Tempo após tempo.
Existem para neles ser feliz:
Onde podemos viver senão nos dias?

Ah, para resolver esta questão
Traz o padre e o médico
Nos seus longos casacos
Correndo por sobre os campos.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Algumas razões de Philip Larkin


Em 1956, o poeta inglês Philip Larkin (1922-1985), ao ser-lhe perguntado porque escrevia, entre outras razões, aduziu o seguinte:
"...Escrevo poemas para conservar coisas vistas/pensadas/sentidas (se me posso permitir indicar assim uma experiência, de si tão compósita e complexa), simultaneamente, para mim e para os outros, muito embora a minha responsabilidade me leve, creio, a debruçar-me sobre a experiência em si própria, que eu procuro salvar do esquecimento, sem qualquer outro propósito. Por que razão assim procedo, não faço a menor ideia, mas penso que o impulso para evitar o esquecimento está nos fundamentos de qualquer arte. Em geral, os meus poemas estão assim ligados à minha vida pessoal, mas nem sempre, longe disso, uma vez que eu posso imaginar cavalos que nunca vi, ou re-sentir as emoções de uma noiva sem nunca ter sido nem mulher, nem noiva. ..."