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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Palavras de sabedoria


... os piores defeitos do português: a impulsividade fantasiosa e vácua, a preguiça mental (mãe da retórica), e a inópia absoluta de senso crítico, - o senso crítico, bússola do espírito, dote característico da inteligência adulta, e sem o qual tudo é caduco, conforme ao lema de Pasteur; ...

António Sérgio (1883-1969), in O Desejado (1924), Carta-Prefácio a Carlos Malheiro Dias.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Bibliofilia 126


Há dias, num serão ameno entre amigos, depois do jantar, a meio da conversa e já não sei porquê, lembrei-me de um poema de António Patrício (1878-1930), dramaturgo ( O Fim, Pedro, o Cru...) e poeta portuense, que foi também diplomata, e que morreu, inesperadamente, em Macau, quando ia tomar posse do cargo de embaixador português na China. Do poema e, mais do que os versos, eu lembrava-me das imagens (classificado que foi como simbolista) e da palavra Corinto.
Quando cheguei a casa, já noite cerrada, fui à estante e, do livro, fui ler o poema (Uma manhã, no gôlfo de Corinto...) que me viera à tona da memória, horas antes. O meu exemplar tem a particularidade de testemunhar uma relação (amiga?) entre duas viúvas, pela dedicatória que ostenta. Póstuma, a obra, de 1942, foi oferecida por Alice Patrício à viúva de Carlos Malheiro Dias (1875-1941). Quanto ao poema, muito sugestivo de imagens, dizem assim as suas três primeiras quadras:

Uma manhã, no gôlfo de Corinto,
comemos grandes cachos-moscatel.
O mar de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

Enlaçámo-nos entre loureiros-rosas,
róseos e brancos, alternando, até à praia.
- Não tornam mais a vir as horas dolorosas:
sumiram-se ao cair sútil da tua saia.

E bôca a bôca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sêde,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mística rêde.
...


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Carta manuscrita de Carlos Malheiro Dias


Por amável deferência amiga de H. N., o Arpose tem oportunidade de publicar uma carta manuscrita do romancista português Carlos Malheiro Dias (1875-1941). Muito embora o teor da missiva não seja literário, mas meramente pessoal e da esfera privada, é uma curiosidade interessante que se saúda - e agradece ao possuidor.
Escrita da Granja, onde provavelmente o escritor passava as suas férias de Verão, data também do período em que Malheiro Dias foi chefe de gabinete do Ministro das Obras Públicas - daí o papel timbrado. A carta, remetida a Guilherme Correia Leite, limita-se a rechaçar, liminarmente, o facto - baseado num equívoco insólito - da existência de uma dívida antiga do escritor, para com um tio de Guilherme Leite.  
                    

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Fluir


Há muito que não via/ouvia o telejornal das vinte. Mas também não perdi muito, afora as imagens das marés vivas (ou águas vivas, para respeitar um especialista fardado, que assim as denominou) que vieram, intensas.
São 20h44, e as luzes públicas e autárquicas iluminaram o triângulo das quatro árvores, em frente, obedientes à luz, que desapareceu de todo. Mais escuros parecem ficar os 9 limões toscos e selvagens, na varanda a leste. Na do sul, 6 mais pequenos, da segunda floração, em Junho, muito femininos e redondos, lá vão crescendo, lentamente - darei conta deles, mais tarde.
Por uma curiosa coincidência emparceiraram, recentemente, "A Paixão de Maria do Céu", de Carlos Malheiro Dias, na mesinha de cabeceira, e "Guerra das Laranjas - 1801", de António Ventura, na secretária de trabalho. Ambos os livros têm como cenário o dealbar do séc. XIX. E, como não há duas sem três, já planeei a leitura (releitura?) de "El-rei Junot", de Raul Brandão. Trindade santíssima que me imunizará contra qualquer paulo coelho best-seller que se me atravesse no horizonte, para pura perda de tempo, que já me vai sendo escasso.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Carlos Malheiro Dias



Romancista e historiador, homem de espírito largo, mas convicções profundas, Carlos Malheiro Dias nasceu no Porto, a 13 de Agosto de 1875, exilou-se no Brasil após a implantação da República, em 1910, regressou a Portugal, em 1935, e veio a morrer em Lisboa, a 19 de Outubro de 1941. Está sepultado no cemitério da Atouguia, em Guimarães, em jazigo sumptuoso e alto (creio que da família). 
Fervoroso monárquico, até ao fim da vida, não teve o menor problema em apadrinhar, livre e com espírito democrático, um dos primeiros livros de Aquilino Ribeiro, de contos, intitulado "Jardim das Tormentas" (1913). E, assim, explica o facto: "...Dir-se-ia, a um primeiro e superficial exame, que as nossas existências, por seguirem trajectórias diversíssimas, nunca se encontrariam. E, contudo, eis-nos aqui, fraternalmente juntos - e esta fraternidade, não é de Abel e Caim. - Porquê? Nenhum de nós fez às suas opiniões o mínimo sacrifício em benefício desta camaradagem. Eu me conservo fiel às convicções em que se educou o meu espírito, e nelas venero um património familiar. O Sr. Aquilino Ribeiro não necessita de que eu venha servir de fiador à constância inquebrantável da sua fé de revolucionário. ..."
O cenário de "Os Teles de Albergaria" (1910) - cuja capa da primeira edição, impressa no Brasil, se mostra em imagem - tem Guimarães como referência. Com "O Bobo", de Alexandre Herculano, e "Humus" de Raul Brandão (embora este o não diga), o romance de Malheiro Dias completa a trindade maior da ficção portuguesa, com localização vimaranense.
Anda esquecido Carlos Malheiro Dias, nos leitores de hoje, e é pena. Com tanta burundanga que se publica, hoje, em Portugal, a prosa escorreita e elegante dos seus romances vale bem o tempo de ser lida. Ou relida, para quem já a conheça.

domingo, 3 de junho de 2012

Trevos e Ciprestes


Há uma convivência natural que se adivinha, até pela Av. Conde de Margaride (que já não é sumptuosa) que confina com a estreita Rua do Gaiteiro - que não sei quem foi. Ou na armoriada casa dos Pombais, dos Viamonte, que não fica muito longe da laica Fábrica dos Pentes, já desactivada.
Mas, se subirmos até à Atouguia, acentua-se ainda mais esta proximidade inevitável. O mausoleu neo-gótico de Carlos Malheiro Dias não está longe da campa quase rasa do Mestre Caçoila. Um pintava com letras, o outro, com tintas e, cada um deles, tentou fazer o seu melhor, enquanto andou na Terra.
Nas cidades pequenas, as distâncias são difíceis. Um visconde pode acotovelar, ao balcão, com um honesto pedreiro, pedindo ambos um café curto. Talvez gostem os dois de um caldo verde com tora e uma rodela de chouriço, acompanhado por um naco de broa. A democracia, embora doseada, surge natural e quase obrigatória.
Como será previsivel a subida para a pequena colina da Atougia onde, ambos, irão repousar para sempre, não muito longe um do outro, por entre trevos e ciprestes.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Mireille Mathieu



Quando começou a ter carreira sólida, disseram que era a sucessora natural de Edith Piaf. Como, em Portugal, também disseram que Carlos Malheiro Dias seria o continuador de Eça de Queiroz. Estas comparações são sempre despropositadas, porque cada ser humano é sempre, e por si, um animal único em vias extinção. Seja como for Mireille Mathieu completa, hoje, 65 anos. E eu quis lembrá-la.