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domingo, 5 de junho de 2011

Juvenília (11, Addenda) : A Guerra dos 6 dias

O Conflito Israelo-Árabe continua activo. De outra forma, mas com os contornos bélicos que, há 44 anos, se iniciou a chamada Guerra dos 6 dias, entre Israel, o Egipto e a Síria. Eu tinha lido a notícia no jornal da manhã e, à tarde, no autocarro que me levava das Avenidas Novas para os Restauradores, uma lenga-lenga começou a nascer-me na cabeça. Estava viva também a Guerra do Vietname. E, muito mais próxima, a Guerra Portuguesa de África que me dizia respeito, e à minha geração. São coisas que se não esquecem...
Três semanas depois, Mário Castrim achou que o poema Cântico de Paz merecia a honra de figurar na primeira página do DL-Juvenil. Foi assim publicado no jornal, a 27 de Junho de 1967. Mas a Guerra continua... 


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Soneto à moda antiga


Eurídice, ou a criação poética

Por íntimo discurso ou por fugaz acordo
é que me lanço mudo ao teu encontro, fogo,
como se fora vento a água em que me afogo
e margem possuída a asa em que te mordo.

Como se fora casa o corpo em que me abrigas
e feroz a distância em que me vendo, amor,
calando te persigo e só depois, rumor
tu me pertences. Luz lembrada por antigas

redes de sombra, areia remordida, leve,
onde passaram barcos procurando o mar
desta elegia, morte repetida, neve
onde me perco, amor - sinal de te encontrar.

Eu digo: não te vejo; ou: não me surjas mais
(rasgando a tua face em direcção ao cais...).


1969

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Juvenília (9, post-scriptum)


Esquecemos tanta coisa,
até mesmo o tempo
das horas mais amargas.

Sozinhos
somos gotas pressentidas
num azul de estrelas apagadas.


1965-2010

sábado, 31 de julho de 2010

Juvenília (8, e último)


Partida


Não entremos no mais denso
desta lágrima,

nem do futuro se pergunte
a continuidade.

Há um tempo de partida
para que a obra fique

no poema e no amor, na vida.


(set./out.1966-jul.2010)

sábado, 24 de julho de 2010

Juvenília (7)



Resumo

Amo
o que conheço,

pelo resto
passo
e esqueço.


(1966-2010)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Juvenília (6)


Poema da Memória


Não envenenem mais
o peso
das coisas sem idade.

Deixem-nas
amorosamente repousadas,
levemente esquecidas,
levemente lembradas

- um lago calmo
de águas densas e paradas.


(1965-2010)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Juvenília (5)


Canção

Podia ser de branco,
podia ser de inverno,

ou de rosas claras
ou papoilas rubras,

podia ser só água,
rio, fontes puras.

Perfume era de verão,
tudo era quente,

as tuas mãos serenas
brincavam com o mar.

Podia ser de branco,
podia ser de inverno.


1968-2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Juvenília (4)


Geometria Simples,ou
Mulher de Costas para o Sol


Caem dos ombros
seios,
atrás dos ombros
Sol.

O ombro
vagamente pressentido,
a sombra
do ombro.

Caem dos ombros
seios,
sombras.

Atrás dos ombros,
Sol.


(1964-2010)


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Juvenília (3)


Pequeno Acordo


Chamarei por ti
quando for tarde,

por teu espaço de luz
e de sossego,

quando me sentir
perdido ou preso.

Chamarás por mim
se tiveres medo,

com teus olhos grandes
de semear tristeza,

quando for escuro
e só a minha luz

estiver acesa.


1965-2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

Entardecer



Não sei que sons
se calaram há momentos:
o verde dos limões e o branco das paredes
foi tudo o que ficou.

A água está parada
e o sol namora a sombra
- daqui a pouco é noite.

Ouvem-se crianças pela rua fora
e eu quase pressinto
que tu deves ter vindo,
mas já te foste embora.

Mais nada:
é noite agora.

(10/66 - 5/10)

domingo, 9 de maio de 2010

Limão : do verde ao amarelo



"Ao princípio era o verbo..."
Eu diria: ao começo era o limoeiro e, depois, o limão. E as limas, mais claras e translúcidas - as antigas. Na memória, os dentes brancos, rijos das minhas primas a trincar os gomos ácidos, numa alegria juvenil que quase me parecia crueldade. Recapitulando: no início era o limão. Na infância, na adolescência, na velhice. No quintal, ontem. Na varanda, virada a sul, hoje.

Liso, ameno
como um rosto
o verde do limão.

Fruto de inverno
por onde passa
o verão.

(1966)