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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Outros tempos



Da carta de 3 de Dezembro de 1513, de Afonso de Albuquerque para D. Manuel I:

" Em quanto é da minha ida a Ormuz, da tornada do estreito, eu o quisera fazer, e as naus que trazia de carga mo estorvaram e a obrigação dos provimentos de Malaca, de que eu até então não tinha nova, porque o dia que parti de Goa caminho do estreito chegaram Fernão Peres e António de Abreu a Cananor, e não levei nenhuma nova comigo, e também me desviou deste caminho e assento de Cambaia e Calecut que trazia entre as mãos; mas acerca de Ormuz e de Baharem tudo se fará com a ajuda de Nosso Senhor a seu tempo, porque as causas gastam sempre muito tempo, e mais nestas partes em que há certo tempo de navegação." (pg. 146)



...

Da carta de 4 de Dezembro de 1513:

"Algumas outras naus tinha espalhadas, para fazer vir ao porto de Goa todas as naus de Ormuz com os cavalos, tendo por determinação ser vosso serviço os cavalos de Arábia e da Pérsia estarem todos em vossa mão, e virem ao vosso porto de Goa, por dois respeitos: o primeiro, por favorecer o porto de Goa, e pelos grandes direitos que pagam os cavalos e tornar a povoar a cidade como antes era, e virem as cáfilas de Narsinga e os do retiro de Dáquem desejarem e prourarem a paz e reconhecer estar em vossa mão sua vitória, porque sem contradição vencerá um ao outro aquele que houver os cavalos da Arábia e da Pérsia, de que são mui necessitados, e dão mui por eles;" (pgs. 152/3)

Afonso de Albuquerque (1453-1515), in Cartas para El-rei D. Manuel I (Liv. Sá da Costa, 1957)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Em defesa e proveito do nome


Quem deixou família, ainda tem quem o defenda ou proteja de barbaridades póstumas e apropriações indevidas e malfeitorias mal atribuídas.
É o caso de um poema de Sophia, fracote, que corre mundo pela net, como se fosse dela, não sendo. E é o que, normalmente, acontece quando não se cruzam dados e, à falta de biblioteca, se recorre a empresas de cultura barata e pindérica da net, como "O Pensador", "O Citador" e quejandos, para referir textos consagrados de autores célebres. Não se julgue porém que figuras prestigiadas, por preguiça académica, não copiam também de outros, às vezes, incorrendo assim no erro e pecado original. António José Saraiva, por exemplo, num trabalho, para a Clássicos Sá da Costa, atribuiu a Correia Garção alguns sonetos que são, realmente, de Cruz e Silva. E Jacinto do Prado Coelho, copiando de Júlio de Castilho, produziu algumas incorrecções num pequeno ensaio sobre o Abade de Jazente (Paulino António Cabral). No melhor pano cai a nódoa...
Dizia eu, no início, que sorte tem quem deixou família. Porque uma das filhas de Sophia tem procurado limpar o nome da Mãe, de excrecências menores que, falsamente, lhe são atribuídas por esses amadores rasteiros de poesia, que pululam neste mundo ignaro. Eugénio de Andrade não teve essa sorte, mas por outros motivos. Bem mesquinhos - diga-se.
Leio, no TLS (nº 6043), que Jane Austen conta, presentemente, com 330 descendentes. Sorte dela! E deles, ao mesmo tempo. Que lhe vão aproveitando a marca e o nome, para ir ganhando fama e para ir produzindo publicações menores e até produtos comerciais, que têm tido grande sucesso à custa da célebre romancista, cujo bicentenário da morte se comemorou, recentemente.
Isto, para o comércio, não há ninguém como os ingleses!... 

domingo, 15 de abril de 2018

Osmose 92


Ando à volta de um manuscrito de António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799), que adquiri no ano passado. Não será um autógrafo, mas é com certeza um documento do século XVIII. O meu zelo e cuidado vai todo no sentido de ser exacto e essencial, no poste que fizer e, por isso, não será para amanhã que ele irá ser publicado no Arpose. Por outro lado, o Poeta-juiz é dos poucos vates portugueses de minha estimação fiel, há muito tempo. Raro eu descia as Escadinhas do Duque (Lisboa), sem me lembrar dele, que lá morou, segundo nos informa Júlio Castilho. Depois, sempre considerei que é um poeta português subavaliadíssimo. Tem, por exemplo, umas Metamorfoses, escritas no Brasil, muito interessantes, para além de 4 ou 5 sonetos, dos muitos que fez, que vale a pena ler. Da ignorância sobre a sua obra, basta falar de alguns poemas que António José Saraiva, descuidadosamente, atribuiu a Garção, na edição dos Clássicos Sá da Costa...
É um poste, se vier a sair, que - prevejo - dificilmente terá comentários de visitantes do Blogue. A inter-acção, entre nós, é o que é. Mas isso, pouco me preocupa. Interessa-me sobretudo pôr em ordem algumas ideias que tenho sobre Elpino Nonacriense, o grande dinamizador da Arcádia Lusitana. E que, na sua vertente de magistrado, no Brasil, teve de julgar alguns amigos, também poetas, implicados na Inconfidência Mineira. Importa-me, também, tentar perceber melhor o Homem, para além do poeta, que estimo.

domingo, 2 de julho de 2017

Da Natureza Humana


Pense-se bem, antes de estender a mão a um Orgulhoso, caído em desgraça. Ou a um Vaidoso, com excesso de auto-estima, que se enganou. Ele há-de murmurar qualquer coisa, em voz dúbia, e não vai perdoar. Fará tudo para vos apagar da sua vida, depois. Ou até, em casos extremos, para vos destruir, uma vez recuperado dos seus maus momentos.
Nos tortuosos caminhos de academias e cultura, as reacções são muito semelhantes, é certo que com algumas excepções humanistas de quem ama o rigor e a verdade. Mas como diz o povo, é bom lembrar que: por bem fazer, mal haver...
Raramente gosto de corrigir pessoas, mas, às vezes, é superior às minhas forças, sobretudo quando me toca de mais perto ou em áreas que conheço bem, afectando o rigor dos factos.
E tenho 5 exemplos distintos, significativos, de contactos que fiz (semi-privados), no sentido de se corrigirem erros alheios. Dos três académicos contactados e informados, dois agradeceram e corrigiram. O terceiro manteve um silêncio pesado de má consciência. E não corrigiu. Continuam, assim, alguns sonetos na edição dos Clássicos Sá da Costa, das obras de Correia Garção, a ele atribuídos, quando na verdade pertencem a Cruz e Silva.
Quanto às duas outras experiências com amadores de literatura, o resultado foi equilibrado, quanto às imprecisões que notei e lhes referi. Meio por meio. Eram sobre três poetas. A troca de Whitman por H. W. Auden foi, prontamente, rectificada, em nome da verdade. Quanto ao erro sobre a bibliografia de Eugénio de Andrade, infelizmente, continua por aí...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Miguel Ângelo, polémico


Nem sempre nos lembramos que, em "Da Pintura Antiga", Francisco de Holanda (1517-1585) transcreveu nos "Diálogos de Roma" conversas que terá tido com Miguel Ângelo (1475-1564). Embora no tom empolado do diálogo renascentista literário, achei curioso recordar o que Miguel Ãngelo diz sobre a pintura flamenga, em contraponto à italiana.

"- A pintura de Flandres, respondeu devagar o pintor, satisfará, senhora, geralmente, a qualquer devoto, mais que nenhuma de Itália, que nunca lhe fará chorar uma só lágrima, e a de Flandres muitas; isto não pelo vigor e bondade daquela pintura, mas pela bondade daquele tal devoto. A mulheres parecerá bem, principalmente às muito velhas, ou às muito moças, e assim mesmo a frades e a freiras, e a alguns fidalgos desmúsicos da verdadeira harmonia. Pintam em Flandres propriamente para enganar a vista exterior, ou cousas que vos alegrem ou de que não possais dizer mal, assim como santos e profetas. O seu pintar é trapos, maçonarias, verduras de campos, sombras de árvores, e rios e pontes a que chamam paisagens, e muitas figuras para cá e para acolá. E tudo isto, ainda que pareça bem a alguns olhos, na verdade é feito sem razão nem arte, sem simetria nem proporção, sem advertência do escolher nem despejo, e finalmente sem nenhuma substância nem nervo. E contudo, noutra parte se pinta pior que em Flandres. Nem digo tanto mal da flamenga pintura porque seja toda má, mas porque quer fazer tanta cousa bem (cada uma das quais, só, bastava por mui grande) que não faz nenhuma bem."

(Clássicos Sá da Costa, "Diálogos de Roma" de Francisco de Holanda, pgs. 18/19)