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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Da leitura 37


Nem sempre percepciono e avalio, com suficiente concentração e rigor, pelo início de um livro a sua qualidade literária. Primórdio que serve de amostra e, muitas vezes, antecipa o futuro gosto de leitura, ou o seu contrário. Mas só por muito embotado das meninges e indiferente, é que passaria despercebido, a alguém, o singular princípio de Cenas Contemporâneas, de Camilo, ou a construção prodigiosa da floresta de Aquilino, nas primeiras páginas de A Casa Grande de Romarigães - creio eu. 
Pois, embora não sendo genial, não me pareceu mal o início de uma biografia de Justin Kaplan (1925-2014), que ele fez sobre o grande poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892). E como gostei do primeiro parágrafo, aqui o vou traduzir, para melhor o apreciarem:

Na Primavera de 1884 o poeta Walt Whitman comprou uma casa na desinteressante cidade de Camden, New Jersey, e com a idade de sessenta e cinco anos dormiu sob o seu próprio teto pela primeira vez na sua vida. ...

(excerto, para versão portuguesa, de Walt Whitman - A Life (Simon and Schuster, NY, 1980).

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Divagações 148


Tenho consciência de que, no que diz respeito à verdadeira poesia, quando um autor explica um poema, acaba por limitar o seu horizonte, no leitor. E tornar redutora, condicionando, a sua leitura. Restringindo a interpretação que o inconsciente lhe possa dar, por experiências outras e alheias, ao motivo que desencadeou, no poeta, a criação do poema.
Quando Walt Whitman (1819-1892) editou Leaves of Grass (1855) nos Estados Unidos, preocupou-se e apressou-se, sob pseudónimo, a emitir interpretações pessoais sobre a sua obra. Quando o livro, pela primeira vez, foi publicado na Inglaterra (1868) por William M. Rossetti, foi-o, por razões de censura, de forma reduzida e amputado de alguns poemas.
Ainda assim, e mais uma vez, Whitman, numa espécie de paternalismo estranho e insólito, se desdobrou em intervenções pessoais tendentes a orientar a leitura da obra.
Numa entrevista de E. M. Cioran, em 1979, o escritor, de origem romena, declarou: Evidentemente, que eu gosto de que aquilo que escrevem sobre mim seja exacto. Mas eu creio que os mal-entendidos podem ser fecundos.
Penso que Cioran tinha toda a razão. 

domingo, 26 de maio de 2019

Uma fotografia, de vez em quando... (126)


Se, nos primórdios da sua criação e uso, o acto da fotografia era um momento e cerimónia muito especial, quase sempre, e daí a pose circunspecta e a vestimenta a rigor dos retratados, as selfies de hoje não passam da fixação rotineira de banalidades, normalmente sem qualquer interesse, senão para quem as tira. Ou para mostrar aos amigos e próximos, depois das férias terem acabado.
De ascendência irlandesa, Mathew Brady (1822-1896) foi um dos fotógrafos pioneiros norte-americanos. E raras foram as celebridades da altura (Lincoln, Whitman, Custer...) de que este fotógrafo não fixou os traços.



Mathew Brady iniciou a sua actividade profissional em 1849, tendo aberto um estúdio, em Washington. Mas foi a Guerra Civil Americana (1861-1865) que lhe proporcionou a maioria dos motivos para a sua prolífica obra. A manufactura dos negativos levou-lhe grande parte das suas economias. E morreu pobre. Porque, nessa altura, a fotografia era uma arte só acessível a ricos ou a profissionais muito competentes e, simultaneamente, bem sucedidos.


domingo, 2 de dezembro de 2018

Uma fotografia, de vez em quando... (115)


Nascido no Quebeque (Canadá), Napoleon Sarony (1821-1896) é considerado um dos fotógrafos pioneiros da América do Norte. Ainda jovem fixou-se nos Estados Unidos, em 1836, iniciando-se profissionalmente como litógrafo. Vindo a dedicar-se, mais tarde, em exclusivo à fotografia.
Era um excêntrico e, por várias vezes, fazia-se fotografar com indumentárias estranhas...



A sua galeria de retratados é vastíssima. Em 1866, ocupou um estúdio na Broadway, por onde passou a maior parte das celebridades da época. E, se grande partes delas pagaram caro as suas fotos, porque Sarony era o fotógrafo da moda, diz-se que Sarah Bernhardt se fez pagar bem cara, para posar para ele, em 1891.


Não terá sido o caso de Oscar Wilde que, em 1882, na sua passagem e estadia nos Estados Unidos, lhe serviu de modelo inúmeras vezes. Nem de Mark Twain ou de Walt Whitman que também foi fotografado por Sarony.


domingo, 2 de julho de 2017

Da Natureza Humana


Pense-se bem, antes de estender a mão a um Orgulhoso, caído em desgraça. Ou a um Vaidoso, com excesso de auto-estima, que se enganou. Ele há-de murmurar qualquer coisa, em voz dúbia, e não vai perdoar. Fará tudo para vos apagar da sua vida, depois. Ou até, em casos extremos, para vos destruir, uma vez recuperado dos seus maus momentos.
Nos tortuosos caminhos de academias e cultura, as reacções são muito semelhantes, é certo que com algumas excepções humanistas de quem ama o rigor e a verdade. Mas como diz o povo, é bom lembrar que: por bem fazer, mal haver...
Raramente gosto de corrigir pessoas, mas, às vezes, é superior às minhas forças, sobretudo quando me toca de mais perto ou em áreas que conheço bem, afectando o rigor dos factos.
E tenho 5 exemplos distintos, significativos, de contactos que fiz (semi-privados), no sentido de se corrigirem erros alheios. Dos três académicos contactados e informados, dois agradeceram e corrigiram. O terceiro manteve um silêncio pesado de má consciência. E não corrigiu. Continuam, assim, alguns sonetos na edição dos Clássicos Sá da Costa, das obras de Correia Garção, a ele atribuídos, quando na verdade pertencem a Cruz e Silva.
Quanto às duas outras experiências com amadores de literatura, o resultado foi equilibrado, quanto às imprecisões que notei e lhes referi. Meio por meio. Eram sobre três poetas. A troca de Whitman por H. W. Auden foi, prontamente, rectificada, em nome da verdade. Quanto ao erro sobre a bibliografia de Eugénio de Andrade, infelizmente, continua por aí...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Walt Whitman


Gémeos (31/5/1819) num país Gémeos (U. S. A.), poeta das coisas simples, eterno adolescente pelos melhores motivos, disse de si mesmo:
"Walt Whitman, um cosmos, filho de Manhattan,
Turbulento, feito de carne, sensual, comendo, bebendo e produzindo.
Não sentimental, nem acima  de outros homens e mulheres, nem longe deles,
Nem modesto, nem imodesto."

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Escolhas


Numa altura do ano em que jornais e revistas publicam sugestões de compras de livros, ou escolhas de figuras conhecidas do público, vou lembrar as opções de Eugénio de Andrade (Rosto Precário, 6ºed., 1995). A referência a vários autores é ampla, e vai de Herculano a Guimarães Rosa, para se centrar, finalmente, em apenas 5 obras:
1. A poesia de Pessoa (de que exclui algumas odes de Ricardo Reis).
2. Clepsydra, de Camilo Pessanha.
3. Illuminations, de Rimbaud.
4. Song of Myself, de W. Whitman.
5. Poesia (só a poesia) de S. João da Cruz.