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domingo, 23 de dezembro de 2018

Carlos Poças Falcão (1951)


Se as mimosas voltarem em fevereiro
saberás ainda falar? Por onde vinha a voz
entra agora, rouco, o mundo. Levando o ouvido à terra
percutem os tumultos em vez de um coração.

Leva a mão à face: não sentes a caveira?
O tacto descobre o teu redil mais duro
e dos olhos sem fundo desampara-se a visão.

Olha estas paisagens: fieiras de janelas
e árvores de nãos - são assim os dias úteis
entre imagens secas, sereias emboscadas.

Como haver ainda voz para um poema?
Que dirá dos mortos o mês de fevereiro?



Carlos Poças Falcão, in Sombra Silêncio (2018).

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Recomendado : trinta e cinco - Carlos Poças Falcão


Obra sólida, madura, de grande unidade interior, este livro, Arte Nenhuma (Opera Omnia, 2012), recolhe grande parte da poesia de Carlos Poças Falcão (1951), publicada até hoje. A evolução, que se nota dos primeiros livros, até aos poemas mais recentes, é mais de forma, do que de princípio, conteúdo, ou temas. Ontológicos, maioritariamente, e densos. Onde a tensão dramática, embora subtil e discreta, aflora.
Não será uma poesia fácil, mas o difícil, quando alcançado, é, quase sempre, mais compensador.

Podia marcar as incursões do sol
por esta sala. Alimentar uma esperança
solar. Mas as estações são indomáveis
e uma casa é um jogo de janelas
que se fecham. Mosca inerte nas vidraças
laranja que apodrece sobre a mesa:
eis os pequenos seres na ratoeira.

domingo, 15 de agosto de 2010

A explicação do silêncio, com destinatário



Convive-se mal, na Europa do Sul, com o silêncio. Sobretudo com o silêncio a dois - seja num elevador, num táxi, num consultório de espera interminável, ou num simples caminhar paralelo. Mesmo que sentimentos ou pensamentos transpirem: e, às vezes, temos quase a certeza deles.
Foi assim que eu me calei, também, quando fizeste silêncio - tendo razões para não fazeres. São, talvez, os equívocos da vida. Mas, para além da minha aparente truculência, sou também susceptível como tu. E até sou capaz de adivinhar as razões do teu silêncio.
Mas, ontem à noite, alguém que me é muito querida e que te é muito próxima, disse-me que estavas de luto. Para além deste abraço de silêncio com breves palavras de explicação, deixo aqui gravado, no Arpose, o teu poema de que gosto mais:

"Senta-se à mesa no meio da casa.
As portas fechadas. Vigia o futuro
devagar. Come, chama as crianças
para o centro do mundo. O vapor
sobe dos pratos, a educação alastra
os móveis lentamente se desfazem
ao contacto das mãos. Como um cão de caça
o vento galga a vedação dos campos.
Maravilhoso galgo. Avança contra
a mãe dentro da mãe dentro da casa."