sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Da leitura 31


Do TLS (nº 6072), e em versão despreocupada de Verão, vamos traduzir o início do artigo Pipe Dreams, de Abigail Green. Segue:

É um facto peculiar da vida inglesa que algumas das marcas mais intimamente ligadas ao fabrico da cultura nacional tenham começado com o negócio de uma família judaica. Marks & Spencer vem à cabeça da lista, hoje, seguida de muito perto pela Tesco. A geração anterior deve lembrar-se da Gestetner, cujas máquinas duplicadoras homónimas abundavam nos escritórios ingleses, tendo até dado origem a um verbo da cultura corrente. Ou talvez ainda se lembrem das casas de chá Lyons...

Pensar ao lado


Creio que há um tempo em que começamos a perder a validade.
Em que as coisas que enfrenesiam meio mundo nos parecem supérfluas, ligeiras e balofas.
Em que o nosso grupo de consenso cada vez se torna mais pequeno, frágil, quase secreto ou clandestino.
É quando um ponto de admiração se nos torna, muitas vezes, um excesso obsoleto. Quando, à exposição permanente, preferimos uma discrição quase monástica e recatada.
Se a juventude é a idade das certezas, a madurez da velhice (adjectivaria saudável) vem acompanhada de um tempo povoado de dúvidas infinitas. E de incertezas.
Há que rematar que, entre ortodoxia e heterodoxia, escolher uma terceira via nem sempre me parece sintoma de cobardia nem de neutralidade diplomática, mas apenas uma forma modesta e legítima de pensarmos pela nossa própria cabeça, por entre as estridências maniqueísticas das grandes maiorias.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Destinos


Deve ser bem complicado, para um ser humano, estar privado de exercer a sua actividade artística, durante mais de um terço da sua existência. Mas foi o que aconteceu ao pianista britânico Solomon Cutner (1902-1988) durante os últimos 32 anos da sua existência. Em 1956, ficou paralizado do lado direito e nunca mais voltou a gravar ou exibir-se em público.
Criança prodígio, a linhagem na Música importa sempre e muito. Solomon fez a sua aprendizagem musical com Mathilde Verne que, por sua vez, foi discípula de Clara Schumann. E não é por acaso que o grande pianista é conhecido apenas pelo seu primeiro nome - Solomon. Como Stravinsky ou Karajan são nomeados, normalmente, só pelos seus apelidos.
Considerado um dos grandes intérpretes de Beethoven, Schumann e Chopin, o pianista inglês está hoje, infelizmente, muito esquecido.
É por isso que hoje o venho lembrar.


A hemiplegia que o imobilizou em 1956 interrompeu a gravação que Solomon estava a fazer de uma integral das Sonatas de Beethoven, para a EMI Classics, que ficou incompleta, portanto. E é justo confessar também que, no meio da minha ignorância musical, foi também Solomon que me ajudou a gostar e apreciar a obra de Chopin. E que Brendel ajudou a reforçar com os seus argumentos sólidos e explicativos e muito claros para a minha relativa ignorância.


Chopin / Solomon

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Uso pessoal 15


Embora não seja esquisito nos utensílios de escrita, há coisas e matérias em que uso, exclusivamente, caneta de tinta permanente para as expressar no papel branco. Será talvez uma bizantinice tradicional e desusada, mas é também uma forma de dar uma importância especial a alguns conteúdos. Criar-lhes um ritual apropriado e conveniente.
Noutros casos do quotidiano, não faço questão de usar cargas e embalagens de blister, que abundam nas grandes superfícies, para encher outros dos meus apetrechos de escrita. Para fazer o sudoku e as palavras cruzadas não me importo sequer de usar uma banal esferográfica. O lápis já muito raramente o uso para o que quer que seja. Feitios...
Pois ontem, ao encher a minha caneta de tinta permanente, constatei que o meu tinteiro Parker estava quase no fim. Fiquei preocupado, embora não tanto quanto alguns automobilistas com a greve do passarão e seus acólitos, aqui há dias.
Hoje, pus-me em campo. Primeiro, nas grandes superfícies: nada!, só cargas e recargas em blisters. Depois na Staples, o mesmo. Até havia umas meninas que não sabiam o que era um tinteiro de tinta permanente... embora tivessem umas longuíssimas unhas de gel (para tocar guitarra?). Na minha tabacaria-quiosque quotidiano, o Ricardo penalizou-se por ter vendido o último tinteiro, há muito, e como não havia procura, não se reabasteceream.
Resta-me um loja na esquina do Rossio e a Papelaria Fernandes, como últimas soluções possíveis.
E, se tiverem, prometo, para me prevenir, que, desta vez, vou atestar o depósito!

Pinacoteca Pessoal 154


Creio que terá sido o historiador de arte britânico Kenneth Clark (1903-1983) quem, em 1936, a propósito de uma exposição de pintura surrealista, designou para essa escola alguns precursores. Referindo, para o efeito, entre outros, os nomes de Bosch, Giovanni di Paolo e Agostino Veneziano. Bem como de Goya.


Se Agostino Veneziano (c. 1490-c. 1540) é conhecido sobretudo pela sua extensa obra de gravador, provavelmente, foi pela sua gravura Lo Stregozzo, ou The Carcass como a nomearam os ingleses, pertencente ao acervo do British Museum, que Clark se inspirou e fundamentou para a sua tese.


Quanto a Giovanni di Paolo (1403-1482), pintor italiano, quero crer que o Salvamento de um náufrago por S. Nicolau de Tolentino poderia ter sido um dos quadros que Kenneth Clark tinha em mente para fazer a sua polémica afirmação.
No domínio da Arte, tudo são meras hipóteses e nenhum artista está isento de dívidas. Quero eu dizer: de influências.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Bibliofilia 179 (em jeito policial...)


É uma primeira edição talvez de um livro menor de Graham Greene (1904-1991), volume a que falta o que os ingleses chamam a dust jacket (sobrecapa) original. A obra Nineteen Stories, com 232 páginas, foi publicada, em 1947, pela William Heineman Ltd. (London - Toronto). Custou-me usada, há cerca de 2/3 anos, apenas 5 euros e vi na net ofertas do mesmo livro que iam de 8,5 a 35 euros. Mas o meu exemplar está muito manuseado e a lombada encontra-se parcialmente descolada do lombo da pasta. Daí, o preço.


Alguns sinais e o estado, porém, parecem sugerir um percurso acidentado e, pelo menos, algo curioso deste volume. Sei que pertenceu, antes de mim, a uma pessoa ainda viva e conhecida que se desfez de parte da sua biblioteca, provavelmente, por questões de espaço. Essa personagem terá recebido o livro de uma familiar, de nome Diana (mãe?), que lhe apôs, manuscrito, o nome e a data, bem como o local: Lisbon, 1991. Que eventualmente o recebeu de presente de uma tal Aunt Ba, no Natal de 47, conforme dedicatória.
Ou terá havido alguém pelo meio? Talvez.


Finalmente, no verso interior da contracapa há um misterioso carimbo ostentando os dizeres: The Bookin Book Club, Kensington W. B. Terá o livro sido desviado, subrepticiamente?
Nesse caso, e como diria um detective: cherchez la femme...

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Instantâneo


A meio da tarde, passa-me pelos olhos um poema antigo (2001) de Eugénio de Andrade, a mim que agora ando a ler, paulatinamente, Fernando Echevarría (Via Analítica).
A diferença de vozes é flagrante, mas ambos falam da água. Este último sobretudo do mar, Eugénio de uma bica, que vai perlando, como os seus últimos anos.
Em qualquer dos casos, é de grande poesia que se trata e que nos vai faltando, nos dias que correm, como da bica o fiozinho de água, que já só pinga escassamente. E de que Eugénio falava.

Interlúdio 70




Um poeta à margem


Já aqui falei dele algumas vezes. Até porque os poetas nem sempre são seres angelicais...
Nascido na Baía (Brasil) em 1633, Gregório de Matos veio a falecer em Pernambuco, no ano de 1696. Andou por Coimbra, onde se formou em Leis e começou a poetar de forma desbragada. Regressou ao Brasil, montando banca de advogado, mas não foi muito bem sucedido no negócio de causídico. Temiam-lhe talvez a língua viperina e daí o alcunharem de Boca do Inferno.
Por razões ignoradas foi deportado para Angola, por onde (Luanda) andava "boémio, quase louco, sujo, mal vestido... de viola ao lado, tocando lundus e descantando poesias obscenas...", segundo um contemporâneo, que o conhecia.
O folheto, que dá corpo às imagens, tornou-se raro, embora tenha tido uma tiragem de 1.000 exemplares, em Novembro de 1982. É o número 15 da colecção & etc / contramargem e tem uma nota introdutória de Aníbal Fernandes.
Na altura, o livrinho (32 páginas) custou-me Esc. 100$00.


domingo, 18 de agosto de 2019

Curiosidades 76


S. Miguel de Seide não seria um sítio ilustre e elegante para morrer, pelo menos, até Camilo o ter escolhido. Enquanto Veneza sempre foi mais chique ou mesmo Paris (Neuilly), onde Eça acabou os seus dias. Mas Genebra (Suiça) e as margens do Lago Léman recolheram os últimos suspiros de tantas celebridades, que bem mereciam estar no Guinness.
Atente-se nos nomes de escritores e personalidades que por lá faleceram: Rilke, Stefan George, Joyce, Musil, Thomas Mann, Chaplin, Ignazio Silone, Erich Maria Remarque, Irwin Shaw, Borges, Simenon, Graham Greene, Elias Canetti, Nabokov...E, se calhar, ainda faltam alguns que, por coincidência ou fuga aos impostos, ali vieram a exalar os seus últimos suspiros, mais suavemente. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Osmose 108


Até nos vários graus da diplomacia se podem encontrar diferenças abissais. Na sua prática, pelo menos. Mas é preciso dar por elas e, para isso, é necessário ter algum sentido crítico: pesar o português da escrita, o tipo de humor e motivos abordados, o sentido de mundo que revelam. Até talvez as imagens que utilizam, para estabelecer uma hierarquia de qualidade e de gosto estético.
É com alguma regularidade que frequento 2 blogues da aristocracia diplomática, já aposentada. De ambos colho proveito. Quer do hebdomadário Retrovisor, quer do quotidiano Duas ou três coisas... Têm perspectivas e mundos diferentes. E, naturalmente, não se podem meter no mesmo saco das Necessidades.
Diplomaticamente: até pela diferença de idades...

Citações CDXIII


A História ensina, mas não tem alunos.

Ingeborg Bachmann (1926-1973), in Malina (1971).

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Mercearias Finas 148


Não vem à colação o excurso pelo almoço, que foram costeletinhas de borrego, bem apaladadas, com esparregado e batatas fritas, acompanhadas por um Chardonnay estreme e francês. Mas porque, ao arrumar uns livros, me deparei, meio escondido, com este maneirinho (12 por 17 cm.) Caderno do Refeitório, editado em 1983, pela Barca Nova Editor e com notas de Luís Filipe Coelho.


A obrinha, com 106 páginas e ilustrações de Luís Ruas, reproduz um livro publicado, em 1887, por António Macedo Mengo e dado à estampa por David Corazzi, em Lisboa, que, por sua vez, salvava da obscuridade e esquecimento, um manuscrito conventual do século XVIII (1743?).
Para imagens e traslado, escolhi matéria prima de que gosto, particularmente.



Muito embora a época da Lampreia já tenha passado - Fevereiro e Março é o seu tempo certo - e as Perdizes, com sabor silvestre e autêntico, só lá para Outubro, com a abertura da caça, é que comecem a apetecer, regadas por um tinto com uns anitos e à maneira.

Desatinado



Vistos à distância, os anos 50 do século passado parecem estar cheios de uniformidade e de melodias harmoniosas, de vozes cálidas muito alinhadinhas, de muito sossego romântico - The Platters, Belafonte, Nat King Cole, até Sinatra... Mas que, entretanto, Elvis Presley veio interromper, estridente, e The Beattles continuaram de forma genial, para sempre (?).
Mas havia algumas raras excepções à ordem estabelecida. Esta canção (1961) de Pat Boone (1934) foge já um pouco à regra de continuidade. Talvez para sublinhar uns desenhos animados, ou porque sim...

TLS



terça-feira, 13 de agosto de 2019

De uma miscelânea manuscrita da B. G. U. C.


Não sendo normalmente de grande qualidade, sobra a uma boa parte da poesia portuguesa dos séculos XVII e XVIII uma certa irreverência, humor, fresca licenciosidade e até uma libertina ausência de preconceitos para tratar os mais insólitos assuntos. Nalguns aspectos a liberdade de expressão aproxima-se da dos cancioneiros medievais, em particular das cantigas de escárnio e maldizer.
Das horas proveitosas que passei na BGUC, consultei 3 ou 4 miscelâneas manuscritas do século XVIII. Tomei apontamentos, fiz algumas transcrições, embora muitas caligrafias sejam de difícil decifração. Em suma, pessoalmente, ocupei bem o tempo. E sorri, algumas vezes, do que li. Da miscelânea nº 1639 (pg. 45), intitulada "Collecção/ De/ Peças Poéticas/ De Bom Gôsto", com marca de posse manuscrita em nome de Miguel Justino de Araújo Gomes Álvares, vou transcrever (sic), de um autor anónimo, um soneto brejeiro e engraçado:

Senhor Doutor, que tem esta rapariga
Que não é como dantes? Tanto andeja,
Cóspe, vomita, mil coisas deseja,
Cresce-lhe o panno, incha-lhe a barriga:

Parou-lhe de repente a copia antiga
Do sangue, que por baixo se despeja;
Faz diligencia que ninguém a veja
Até se esconde da mayor amiga:

Será isto porventura do Demonio
Algum ardil, alguma trapalhada?
Se assim é vou leva-la a Santo Antonio.

«Não, Senhor, a Menina não tem nada,
Quiz effeitos provar do Matrimonio,
Para não estranhar sendo casada.» *


* apesar de imperfeito, creio que o soneto estava inédito.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Letras e imagens


Neste segundo episódio televisivo, ontem (11/8/2019), Hastings também não apareceu, mas ele consta, vindo da América, no policial de Agatha Christie. Nem o inspector Japp, substituído que foi pelo convencido Crome, também ele da Scotland Yard. Não é por isso literal e fiel esta adaptação de Sarah Phelps, do policial The A.B.C. Murders, para a Fox Crime. E não é que estou a habituar-me ao Poirot de Malkovich? Embora continue a pensar que o Poirot-Finney era melhor. O detective belga, nesta série, é um ser mais solitário.
Todos nos lembrámos das pequeninas zangas entre Agustina e Manoel de Oliveira, pelas infidelidades cometidas pelo realizador ao adaptar os romances da escritora  ao cinema. E será que Fitzgerald e Faulkner foram fiéis, quando andaram por Hollywood? Duvido. Assim, desculpemos a Sarah Phelps ter metido, na série televisiva, coisas da sua lavra. Como popularmente se diz: Quem conta um conto, acrescenta um ponto. É humano, e assim até parece história nova, esta, para quem a vê e já tinha lido o romance policial.
Por afecto às origens, e enquanto espero pelo terceiro e último episódio, no próximo Domingo, fui buscar à estante o número 167 da Vampiro (Os Crimes do ABC), para reconstituir a verdade ficcional que Agatha Christie imaginou em 1936. E que Sarah Phelps re-criou, agora, para a televisão.
Já  agora louve-se, na banda sonora, a breve entrada de Schubert (Trio op. 100). Copiada de Kubrick?
(Conhecem? Está por aqui [Arpose] a 3/1/2017. É uma peça musical lindíssima!)

domingo, 11 de agosto de 2019

Uma fotografia, de vez em quando... (130)


A obra fotográfica de Annie Leibovitz (1949) está repleta de retratos de celebridades. Norte-americana de ascendência judaica, a fotógrafa fez a sua aprendizagem profissional no San Francisco Art Institute, vindo a integrar, mais tarde, os quadros directivos da revista Rolling Stone e colaborou também na Vanity Fair. Foi companheira da escritora e activista Susan Sontag (1933-2004), até à sua morte.



As suas fotos nem sempre foram ortodoxas, nem pacíficas. Em 1975, acompanhou a tournée do grupo Rolling Stones tendo recolhido uma importante série de instantâneos que a documentam. Das suas fotografias mais polémicas e conhecidas, mas também mais originais e interessantes, destaco as do casal John Lennon e Yoko Ono, em 1981, e a de Demi Moore, grávida, que fez capa na Vanity Fair (1991) e que provocou desencontradas reacções. 
Mas que veio a originar uma série de epígonos, repetitivos e pouco imaginativos, de 2ª e 3ª ordem, depois, em vários países, até mesmo em Portugal...



sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Coreografias literárias

"... Uma noite, no Vikings, comi frango com airelas enquanto uma orquestra tocava a melodia em voga: Pagan love song. Sabia que o festim não me houvera maravilhado se não fosse excepcional. A própria modéstia de meus recursos servia a minha felicidade. ..."

Simone de Beauvoir (1908-1986), in pg. 14 de La force de l'âge (1960).




Comentário: quero crer que a canção homónima, que encantou Simone de Beauvoir, tenha sido menos kitsch do que esta coreografia do filme de Robert Alton (1906-1957), com o mesmo título, em que entrava Esther Williams (1921-2015) que, normalmente, representava a nadar...



Últimas aquisições (16)


Nem sempre acertámos nas compras. E isso acontece com muitas coisas, até com livros. A obra de João Gaspar Simões (1903-1987), de 1941, A Unha Quebrada é um conjunto de novelas fraquinhas e muito datadas na sua inocência romanesca - juvenil, em suma. Tem no entanto uma curiosa capa de Roberto Araújo. Comprei-a por engano e por coscuvilhice nobre julgando tratar-se da efabulação da ruptura de Isabel da Nóbrega (1925) com o também crítico literário do DN que, afinal só vem a ser tratada, como tema de base e desforço, por Gaspar Simões, em As Mãos e as Luvas, de 1975. Fui assim punido pelo destino e bisbilhotice... A desatenção cronológica fez o resto.
Apesar da tradução ser brasileira, foi compensadora, entretanto, a compra de Na Força da Idade (1961), em 2 volumes,  usados, de Simone de Beauvoir (1908-1986). Com o que dei pelos 3 livros pouco mais poderia comprar do que um maço de cigarros. No conjunto, acabou por valer a pena a aquisição conjunta.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ideias fixas 52


Há duas formas extremas de terminar a leitura de um livro. Ou ler as últimas páginas muito devagarinho, porque estamos a gostar e queremos que dure esse prazer, ou apressar o ritmo de leitura, por já estarmos fartos do livro. A situação normal e mais frequente é conservarmos a velocidade natural com que iniciámos a obra. Há ainda uma quarta via, que não tem final: o abandonarmos o livro a meio e para sempre, sem o acabar de ler.
É por aqui - medindo o ritmo - que, em caso de dúvida, eu me apercebo, de forma cabal, se aderi e gostei do que li, ou não. Porque, às vezes, subsistem dúvidas e só mais tarde chegaremos a uma conclusão definitiva sobre o gosto e utilidade da leitura ou a pura perda de tempo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Bach / Koopman

Um CD por mês (4)


Quando eu era criança pensava que o Órgão era o instrumento musical mais próximo da voz de Deus.
O seu troar, no interior das igrejas, infundia-me, simultaneamente, prazer e respeito. Posteriormente vim a travar conhecimento com a música de Bach e Buxtehude.
Em Agosto ou Setembro de 1963, comprei em Bona (Alemanha), dois singles com Fugas de Bach, da Telefunken, interpretadas por Anton Nowakowski (1897-1969) e gravadas num órgão de uma igreja da Dinamarca. Ouvi estas gravações dezenas e dezenas de vezes, sempre com muito gosto.


Só mais tarde vim a escutar execuções de Albert Schweitzer e, pelo início dos anos 80, as magníficas interpretações do holandês Ton Koopman (1944). Talvez tenha ouvido, pelo caminho, também Karl Richter. Mas é de Koopman, meu preferido organista, hoje em dia, a gravação do Archiv Produktion que adquiri por volta de 1986 e cuja capa de CD abre, em imagem, este poste.


As obras musicais de Bach, incluídas neste CD, supõe-se que terão sido escritas por volta de 1720.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

História e diplomacia


Tenho vindo a ler ( a princípio, imaginei que fosse fastidiosa...), com crescente curiosidade e interesse, a correspondência diplomática de J. F. Borges de Castro (1825-1887), representante português na corte de Turim, endereçada para as Necessidades, durante os anos sessenta do século XIX. Esta correspondência diplomática, publicada, termina em 4/10/1870. É uma época crucial para a mini-Itália recém criada, que ainda não tinha englobado o Veneto (pertença ainda do império austro-húngaro) nem os territórios pontifícios de Pio IX. Mas já Garibaldi e os seus guerrilheiros ameaçavam estes últimos.
A correspondência foi coligida e seleccionada por Eduardo Brazão (1907-1987), para a revista Biblos (vol. XXXVIII, 1962), com cuidadosa inteligência. E ocupa 534 páginas da publicação da FLUC.
É também por esta altura (1862) que se começa a tratar do casamento de Maria Pia, filha de Vitor Emanuel II (1814-1878), com o nosso rei D. Luís. E a Itália, apesar de muitíssimo endividada (como hoje, aliás...), ainda ajusta um dote de valor considerável para a nossa futura rainha. Procurando insistentemente o apoio da Prússia e de Bismarck, para equilibrar a defesa aguerrida que Napoleão III, da França, faz do Papa e seus territórios, Vitor Emanuel II desenvolve, cumulativamente, uma rede de contactos com a Rússia e a Inglaterra.
Os relatórios e correspondência de Borges de Castro são de uma meridiana clareza, em todos os aspectos, definindo até as individualidades italianas que deveriam ser agraciadas com comendas portuguesas, por altura do casório régio (dantes como agora, muitas...). E ainda mais umas quantas, quando, 2 anos depois, os reis portugueses vão a Itália mostrar ao avô Emanuel, o seu neto Carlos de Bragança, nosso futuro rei.
Mas o que mais me surpreendeu, foi o retrato que Borges de Castro traça de Garibaldi (1807-1882). Um autêntico antecessor de Che Guevara e já incómodo, na sua irrequietude belicosa, para os políticos conservadores italianos. Um pouco como depois Guevara terá sido, algo incómodo, para Fidel... A história repete-se, com algumas semelhanças, nos comportamentos humanos.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Policialmente falando


Já tive mais paciência para ver uma série policial na televisão, mas às vezes reincido.
Por outro lado já li o que havia para ler de S. S. van Dine, e não era muito. E de Conan Doyle. Os Maigret, de Simenon, também já foram todos. Estes são para mim os escritores de primeira água. Quanto à segunda divisão, classifico Stanley Gardner, Ellery Queen, Rex Stout e Agatha Christie.
Desta última Senhora, nunca consegui suportar a voz adamada e os tiques afectados da representação estereotipada de David Suchet, nas séries televisivas. Em cinema, creio que o melhor Poirot ainda foi Albert Finney.
Mas ontem, por mero acaso, na Fox Crime, deparei-me com John Malkovich na figura do detective belga. Sempre achei este actor de segunda ou terceira categoria e não me merece grande entusiasmo. E a série é uma adaptação em três episódios do romance The A. B. C.  Murders, de Agatha Christie, que foi traduzido para a colecção Vampiro, portuguesa, sob o número 167, com o título Os crimes do ABC.


A representação dos actores é banal, Malkovich incluído, que compõe um razoável Poirot, sem tiques de maior e alguma sobriedade. A re-criação televisiva alterou algumas coisas da trama original do romance policial. Nesta versão, o inspector Japp, da Scotland Yard, já morreu, após breve reforma. Neste primeiro episódio, pelo menos, o capitão Hastings, fiel amigo e companheiro de Hercule Poirot (qual alter ego do dr. Watson), também não apareceu.
Mas nota-se a marca e o dedo miraculoso da roteirista Sarah Phelps, que permite boas expectativas.
Por isso, no próximo domingo não vou perder, às 22h00 na Fox Crime, o segundo episódio da série.

domingo, 4 de agosto de 2019

A casa que foi de Malhoa, a Picoas


Uma filigrana, quase perdida entre algumas torres feias de betão, a casa, hoje, cuja planta foi encomendada pelo pintor José Malhoa (1855-1933) ao arquitecto Norte Júnior (1878-1962), teve o prémio Valmor em 1905. Foi adquirida em 1932, pelo oftalmologista Anastácio Gonçalves (1855-1965) que haveria de ter como seus pacientes da vista Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, bem como Calouste Gulbenkian que também gostava de ver as preciosidades que o médico tinha em casa. Como o quadrinho de Delacroix que Anastácio Gonçalves tinha pousado sobre a sua secretária, representando um cavalo.


Por testamento a casa, já na posse do Estado português, veio a abrir ao público em 1980. Em anos recentes, foi objecto de remodelação que finalizou este ano de 2019, pelo mês de Abril. E eu, que de há muito a queria ver, fui a meio da semana visitar a Casa-Museu Anastácio Gonçalves, finalmente. Interessava-me sobretudo ver pintura, que o pequeno museu possui ainda significativos acervos de porcelana chinesa, mobiliário e ourivesaria.
Como seria natural vi telas de Malhoa, mas a obra de Silva Porto pareceu-me mais representada. Lá está também o célebre "Convite à Valsa" de Columbano e uma delicada aguarela de D. Carlos,  "Praia de Cascais", que me deixou encantado.


Discreto e mal iluminado, no patamar intermédio das escadas que dão para o primeiro andar, há um grande quadro, "Narciso" que, atribuído timidamente a Courbet, não dão por garantido...
Nota dissonante e incompreensível, uma grande parte das telas, que talvez estejam um pouco mal arrumadas pelas paredes, não tinham qualquer identificação dos pintores, nem dos títulos.
Não sei como se terá havido um família chinesa que, paralelamente, me acompanhou na visita à Casa-Museu Anastácio Gonçalves. Nem se percebe que o IMC e o Ministério da Cultura não corrijam esta incongruência ou desleixo continuado.
Por isso, não lhe posso dar nota máxima...

Para acordar o Domingo

sábado, 3 de agosto de 2019

Recomendado : oitenta e um


Não sendo fruto de historiadores consagrados, alguns artigos do último número de L'Obs (nº 2856) propõem-nos, ao menos, uma temática original. Abordando a importância decisiva do ano de 1519, na história da Humanidade. E em que se fala, também, de Portugal. Os textos não chegam para contrariar a sólida argumentação do historiador inglês Arnold Toynbee (1889-1975), mas, que diabo!, estamos a atravessar a silly season e, por isso, há que ter complacência mesmo com opiniões ligeiras. E leituras despretenciosas.
Venho, assim, chamar a atenção para este número recente da revista francesa.



p. s.: a imagem superior representa, parcialmente, o portulano de Jorge Reinel.

Citações CDXII


Uma dificuldade para a Inglaterra é sempre uma oportunidade para a Irlanda.

Daniel O'Connell (1775-1847), in Tribune (19/1/1846).

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Filosofia de bolso


Terei que ficar grato aos 26 visitantes que, ontem, frequentaram o Arpose ou lamentar os 87 que faltaram para completar os 113, da média habitual mais recente?
E terão ido à praia, ao campo ou para o estrangeiro? Ou ter-se-ão cansado, desgostados com o humor insólito de 3 postes mais acerbos que lancei, ultimamente?
Talvez estejam ocupados a fazer as malas e sem tempo para minudências internáuticas.
Por isso, boas férias aos ausentes. E que tenham uma silly season à sua medida.

Do que fui lendo por aí... 30


Em 2018, Alberto Manguel (1948) foi agraciado com o Prémio Gutenberg. Recentemente saído, o Gutenberg-Jahrbuch de 2019 transcreve o discurso de aceitação do escritor argentino em que ele refere, naturalmente, Jorge Luis Borges, mas também Franz Kafka e a Bíblia. Despertaram-me a atenção algumas considerações que Manguel tece a propósito de leituras, de que vou transcrever um pequeno extracto que me pareceu curioso e mais significativo. Segue:

O ofício da leitura é misterioso. Ninguém sabe (certamente nem os próprios leitores) como é que as palavras da página, captadas pelo olhar, se transformam em experiência, reflexão, memória e, algumas vezes, até em novas criações. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Giovanni Battista Viotti (1755-1824)

Das ferramentas


Do clip publicitário de Scream and Scream again (1969):

Os dentes são de uma vital importância no equipamento de um actor de cinema. Eu tenho em casa cerca de 30 escovas de dentes e conservo sempre um bom suprimento delas em estúdio.

Peter Cushing (1913-1994).

Adagiário CCXCIX


Bem sabe a burra diante de quem zurra.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Comic Relief (150)


Casaquinho

A ursa polar fez uma promessa à filha: se tirasse boas notas, oferecia-lhe um casaquinho de pele de menina para as noites mais frescas de verão.

Caçador de Estrelas

Há meses que o miúdo tentava, em vão, alvejar estrelas com uma pressão-de-ar.
Preparava-se para desistir quando, após um novo tiro pouco convicto, uma estrela cadente riscou o céu.


Bernardo Monteiro (1969), in Galáxia de Berlindes (2012).

terça-feira, 30 de julho de 2019

Desabafo (47)


Já sabemos como o Google é popularucho. Mas, ao menos, podia ter o sentido das proporções.
Por motivos futuros e objectivos, quis ter uma perspectiva visual da obra do pintor caldense José Malhoa (1855-1933). Usei, assim, o motor de busca. Resultado: por cada quadro que vi do Pintor, tive que suportar, bem à vontade, cerca de 10 fotos de um cantor pimba nacional, que usa o mesmo nome...
Irra!

Pinacoteca Pessoal 153


Nascido a 5 de Março de 1938, em Montpellier, a obra do pintor francês Vincent Bioulès, sobretudo a partir de 1970, por um seu lado, que eu chamaria camaleónico, tem o condão de me parecer convocar outros nomes de pintores do passado, numa assimilação actualizada de técnicas e estilos, alheios. Vêm-me à ideia, ao ver as suas telas singulares e aparentemente ingénuas, os nomes de Seurat, Dufy e até mesmo Chirico. E fico-me por aqui, para não parecer excessivo e injusto...


Em 1970, Bioulès abandonou definitivamente a abstracção, iniciando uma nova fase de arte figurativa e, em conjunto com um grupo de artistas, fundou o grupo Support/Surfaces. Em 1982, integrou a Escola de Belas Artes de Nîmes como professor.
A sua obra desdobra-se sobretudo em motivos paisagísticos e retratos. Mas a arquitectura também aflora algumas das suas telas como fonte inspiradora.


E é por aqui que me lembro de Chirico...