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terça-feira, 7 de maio de 2024

Antologia 19



Deu-me hoje para reler Ruy Belo (1933-1978), um dos poetas portugueses de que nunca deixei de gostar. Dos sete livros que folheei, fiz uma pequena colheita de dois poemas que aqui deixo registados. Para o lembrar.

Saint-Malo 63

Eu curvo ante a infância a face embaciada

A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a primavera
e muito pequeninamente adormecemos

in Boca Bilingue (pg. 21)

O Valor do Vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que eu gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

in Homem de Palavra(s) (pg.100)

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Para lembrar três poetas



Em 24 de Julho de 2004, o suplemento Mil Folhas do jornal Público editou um dossiê sobre o poeta Gastão Cruz (1941) que incluía esta foto acima e, do lado direito, um poema que evocava Ruy Belo (1933-1978) e Sophia Andresen (1919-2004). Aqui ficam.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Antologia 5

 

Morte ao Meio-Dia


No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência
                                    [cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
(...)

Ruy Belo (1933-1978)

(excerto inicial de poema de País Possível, 1973) 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Uma fotografia, de vez em quando... (124)


Todo o movimento tem ritmos. Acelerações e pausas. Os ideais também esbarram muitas vezes com prosaicas realidades não previstas, que podem vir a ser caricaturas dos sonhos iniciais ou, pelo menos, esboços inacabados do possível. Talvez, no fundo, a miragem fosse grande demais para o país e os homens excessivamente pequenos para levar a cabo a tarefa. Cansaram-se, pelo caminho...
A esta foto-metáfora, de Alfredo Cunha (1953), eu daria o título de: o repouso do guerreiro. Há 3 apelidos que gostaria de juntar: Maia, Antunes e Cardoso. O militar, o ideólogo e o político que mitificam, para mim, o 25 de Abril. Depois, há mais 6 ou 7 nomes modestos ou anónimos que nem sequer chegaram à História, mas permanecem na minha memória.
Evito a ladainha das canções que, por esta altura se repetem, numa cacofonia babélica e as palavras grandiloquentes que é habitual virem à tona, neste dia. Não há, por aqui, pessimismo, mas a realidade de um país possível, de que falava Ruy Belo (1933-1978), em livro homónimo.

sábado, 6 de abril de 2019

Memória de Belas


De Belas, eu poderia dizer muita coisa, mas vou ater-me ao essencial que me ficou, definitivo. Até porque - pecado meu original - não consigo lembrar-me da primeira vez que lá fui. Mas sou ainda do tempo em que, por Setembro, lá iam estadiar, em quintas frondosas, algumas famílias ricas de Lisboa, até venderem os terrenos para urbanizações selvagens e mais rendosas aos empreiteiros saloios que já tinham destruído a natureza primitiva e singular do Monte Abraão. Onde num Agosto solitário veio a morrer Ruy Belo - acrescente-se - num andar anónimo por entre a floresta de betão, alcantilada.
Depois, vem-me à memória, e em caminho, um chalet derruído, debruçado sobre a ribeira do Jamor, que foi pertença ancestral da família do meu amigo J. N.. Por essas bandas, tive também lições de condução, por dias e dias que me pareceram, na altura, intermináveis e fastidiosos. Adiante.
Agora, há um tempo que por lá não passo. Nem sei se o pitoresco mercado ainda existe ou se a estação de Correios, em cenário antigo de decoração datada, ainda funciona. A modesta pastelaria dos Fofos de Belas é que ainda pode adoçar a boca dos passantes, se por lá pararem, antes de seguirem pela estrada da Idanha ou, em retorno, quiserem voltar a Queluz. Percurso este que me traz afectuosas recordações de um princípio de tarde primaveril...



Por Belas andei, também, em busca de vestígios de António Nobre, para um artigo que foi publicado no nº 8 dos "Cadernos do Tâmega", de Dezembro  de 1992. Um velho barbeiro, ainda em exercício, localizou-me o edifício de um dos hotéis (modestíssimo) onde se hospedara o poeta do , quando, em busca de ares lavados e de saúde para a sua tuberculose terminal, por lá se aboletou. Expulso, devido às hemoptises frequentes, e por causa de outros clientes, viera depois hospedar-se na York House, às Janelas Verdes, em Lisboa.
Da torre antiga dos Coelhos, e do Paço de D. Pedro I, mas que D. Duarte ainda habitou, julgo-a hoje integrada na Quinta do Senhor da Serra que, outrora, era anualmente franqueada ao povo, para uma romaria afamada. Até que os senhores Marqueses de Belas se cansaram da devastação a que os seus campos eram sujeitos sob pretextos religiosos. E do lixo que ficava dos piqueniques populares, nesses domingos de reinação ruana...


Entretanto, a vila ganhou o sossego dos condomínios fechados e o golfe aristocrático dos campos relvados a perder de vista, em zonas reservadas, tornando-se cada vez mais igual a outros espaços, que abundam por aí.
Foi perdendo, aos poucos, o seu encanto primitivo e que eu apreciava tanto.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em torno de uma fotografia


Por que se calam os poetas?
Eu diria que por várias razões, como dizia Camus, a propósito do suicídio, que ele apontava ter, normalmente, mais do que um motivo. Mas voltando à questão inicial, creio que os poetas emudecem por já ser ralo e intermitente o fiozinho de água que lhes resta (como disse, poeticamente, Vergílio Ferreira, por outras palavras), por amor ao silêncio (referido por Eugénio de Andrade, num arroubo confessional, em entrevista), mas por desencanto, também. E tão só pela simples desaparição física - método mais frequente e natural.
Pensei, hoje, em Antonio Gamoneda, em Echevarría, em Manoel de Barros, como poetas que me apetecia reler. Como poderia ter pensado em Sá de Miranda ou Ruy Belo. Porque me vão sempre dizendo coisas novas, apesar de os já ter lido muitas vezes. E também me lembrei de um Amigo.
A fotografia serviu apenas para fechar o círculo virtuoso.

para A. de A. M..

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Bibliofilia 149


Não é fácil acompanhar a vida passada ou monografias de antigas revistas portuguesas. Muitas delas com vida breve ou efémera deixam habitualmente um rasto ténue.
Desta revista de cultura portuguesa Rumo, dirigida por Mário de Albuquerque (1898-1975), que foi professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, ter-se-ão publicado 6 números no ano de 1946. Que, muito bem encadernados, vi à venda, num catálogo de alfarrabista, por 250 euros, recentemente. Números soltos, brochados, podem adquirir-se à volta de 10 euros, em média.
De pendor conservador e com colaboradores simpatizantes do Estado Novo, a revista abordava a filosofia, economia e também temas literários. O número 1, que possuo e surge em imagem, tem capa de Manuel Lapa. De destacar, entre a página 100 e a 101, um extra-texto com um belíssimo retrato, a lápis, do poeta Afonso Lopes Vieira (1878-1946), executado pela multifacetada artista Alice Rey Colaço (1892-1978). O desenho está datado de S. Pedro de Muel, e do Verão de 1947(?).

No C. V. do poeta Ruy Belo (1933-1978) surge, por volta dos anos 60, a indicação de que teria sido chefe de redação da revista Rumo (ressurgimento?); de 1958, na mesma revista (?) há também referências à colaboração de António Quadros (1923-1993).


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Lembrete 29


Para quem goste de Poesia, a não perder, hoje, anunciado para as 23h55, na RTP 2, um programa sobre Ruy Belo (1933-1978). Um dos grandes poetas portugueses do século XX.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Glosa


"...O mundo condena os mentirosos que não fazem senão mentir, até sobre as coisas ínfimas, e vai premiando os poetas, que só mentem sobre as coisas grandíssimas." 
Umberto Eco, in Baudolino (pg. 46).

Depois de Pessoa, é muito difícil dizer, ou mentir, melhor. Ruy Belo tentou, Gamoneda também, talvez com mais autêntica sinceridade, mas não foi longe. Sem o dizer, fazendo da mentira seu voto de castidade poética, Herberto Helder experimentou uma segunda via, com alguns resultados menores, embora de poesia maior. Os melhores poetas são, em última instância, grandes fantasistas, oscilando entre o malabarista talentoso da metáfora, e o mágico truque para consumo doméstico. Buscam um equilíbrio subjectivo por compensação externa. Por extremo, sendo bem sucedidos, conseguem criar uma nova linguagem. Ou uma outra realidade virtual, mas possível.
Se eu disser: o Polo Norte há-de vir a ser o sexto continente - talvez esteja a admitir uma verdade provável. Mesmo que esteja a mentir, no presente. Com o aquecimento global, esta constatação é, apenas, uma mentira menor. E sem grande qualidade poética.

domingo, 11 de maio de 2014

Da toponímia regional


Da Consolação (praia) há marcas e vestígios numerosos em poemas de Ruy Belo e J. M. Fernandes Jorge. De S. Bartolomeu dos Galegos ou A-da-Gorda, porque excessivamente ruanos, não conheço memórias em escritos de gente ilustre.  Em relação a Atouguia da Baleia ou Baleal, que fica perto, há referências históricas longínquas, talvez pelos cetáceos que, por esses tempos antigos, visitavam estas paragens marítimas. Mas de Paimogo, palavra e nome de terra de que eu gosto particularmente, pouco se diz. Aprecio-a, porque me lembra o trovador Pero Meogo dos cancioneiros medievais; e, se eu estiver bem disposto, não posso deixar de me recordar das lentes garrafais de Mr. Magoo. Uma coisa não vem sem a outra...
Embora, hoje, Paimogo seja, apenas ou quase só, um forte do séc. XVII, bastante derruído. E é pena.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Ainda Ruy Belo : dois poemas


Inverno e Verão

Tu trazes até mim a tua longa mão
estende-la como uma ponte entre nós dois inverno e verão
garantes que ela tem por trás o coração
e no entanto só te chamo irmão
Cada um de nós é como antes uma solidão
e nada significa a nossa saudação

.....................
Um prato de sopa

Um prato de sopa um humilde prato de sopa
Comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos

Ruy Belo, in Homem de palavra(s).

Recomendado : trinta e seis - Ruy Belo


Por mero acaso, coincidente, uma parte do meu dia fez-se à volta de Ruy Belo (1933-1978).
Na rua Anchieta, logo pela manhã e na Feira dos Alfarrabistas, dei com o terceiro volume, que não sabia existir, da Obra Poética de Ruy Belo (Editorial Presença, 1994), de que já tinha os números 1 e 2. O livro, usado, estava em magníficas condições de conservação e custou-me 5,00 euros. Achei bom, o preço.
Depois, já próximo do meio-dia, na banca do quiosque, onde costumo comprar o jornal, vejo que a revista Ler lhe dedica uma boa parte do seu número (121) de Fevereiro. Também a acabei por comprar, curiosamente, pelo mesmo preço que dera pelo livro.
Aqui fica o aviso para quem, como eu, goste de Ruy Belo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ruy Belo (1933-1978)


Para a Dedicação de um Homem

Terrível é o homem em quem o Senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina.
Não há conspiração de folhas que atapete
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima.
A morte é a grande palavra desse homem:
não há outra que o diga a ele próprio.
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia.

Ruy Belo, in Aquele Grande Rio Eufrates (1961).

sábado, 15 de dezembro de 2012

Carta de Ruy Belo para Eugénio de Andrade


Nunca mais soube nada da Fundação Eugénio de Andrade, envolta que tem estado num plúmbeo silêncio (de auto-dissolução?), depois do litígio interno de que foi objecto, infelizmente. O Eugénio não merecia isso.
Mas, há dias e por mero acaso, encontrei num alfarrabista lisboeta o nº 5 da revista "Pretextos" - cuja existência desconhecia - que terá sido, provavelmente, sobre o Poeta, a última publicada. Tem data do Inverno de 2004, e documentação expressiva e interessante. Dela retirei esta carta de Ruy Belo para Eugénio de Andrade. Aqui fica.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Em sequência desportiva, com Ruy Belo


Creio que não erro se disser que, nos anos 50 e 60 do século XX, em Portugal, os desportos preferidos eram, por esta ordem: futebol, ciclismo e hóquei em patins. Deste último, fomos campeões europeus e mundiais, várias vezes, e os nossos rivais mais fortes seriam: a Espanha, a Suiça e a Itália. Hoje, quem acompanhará, com atenção, o Hóquei em patins? Julgo que muito pouca gente...
Mas o ciclismo, nem se pagava para ver. E o povo acorria à estrada, com paixão, para ver passar os ciclistas na Volta a Portugal - era um acontecimento! Idolatravam José Maria Nicolau, Alves Barbosa, Joaquim Agostinho... Achei por isso oportuno trazer, hoje e aqui, a palavra de Ruy Belo para recordar um dos nossos grandes ciclistas, José Maria Nicolau (1908-1969), aquando da sua morte, em poema singelo, mas bonito:

José maria nicolau fugiu. Quem o apanha?
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha

Ele que várias vezes deu a volta a portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real

Que média fez num terreno tão mau
É tudo serra custa muito subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor josé maria nicolau


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...


Dentro de 11 dias passará mais um ano sobre a morte (8 de Agosto), aos 45 anos, de Ruy Belo (1933-1978). Sozinho, em Queluz, numa zona incaracterística de betão profuso, mas que dá pelo nome bíblico de Monte Abraão. Tal como a sua poesia, singularíssima e original, batia ao hausto longo de ressonância bíblica. Ontem, estive a reler o seu "Na senda da Poesia" (1969) e, no prefácio, ele fala com autenticidade dos gostos e amores perdidos de juventude. Vou passar-lhe a palavra:
"...Não escreveríamos hoje o ingénuo estudo sobre Sebastião da Gama nem a crónica jornalística sobre a poesia italiana, apesar de não deixarmos de sentir alguma saudade de um entusiasmo que passou e talvez não volte mais. ..."

sábado, 27 de novembro de 2010

Ruy Belo, por este Outono frio


As Impossíveis Crianças

Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Ruy Belo (1933-1978)


A Rapariga de Cambridge

Queria conhecer intimamente conhecer
a rapariga anónima estendida no relvado
ao sol distante de um colégio de cambridge
Perdida na distância nem sei bem
se é uma mulher se rapariga
mais uma das amadas raparigas
Sei apenas que lê não sei o quê
e é simples objecto recortado
na margem verde intensamente verde
após a água mansa que reflecte os edifícios
Urgente é conhecer aquela que só veio num postal
mandado por alguém que certamente não sabia
o que essa rapariga ao sol para mim significaria
Ela devia saber um português profundíssimo
ou talvez as coisas que eu tinha para lhe dizer
as conseguisse de repente dizer num inglês
que fosse a melhor parte de mim
Definitivamente todo este dia-a-dia
contra o qual esmago a minha melhor lança
como que um sobressalto passaria

Ruy Belo, in Homem de Palavra[s], pg. 61.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Música e Poesia XXI : Ruy Belo/Tim Hecker



Efeitos Secundários
É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
O outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes
Rente às arvores vamos, humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para o nome das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem? ...
(Ruy Belo, in Boca Bilingue, pg.44)

Nota: para eventuais dúvidas se confirma que a distorsão do som do piano é propositadamente provocada por Tim Hecker.
P. S.: obrigado, ms.