Contradigam-me se eu estiver errado, mas tenho como certo que o piano é o instrumento musical privilegiado, por excelência. Daí talvez algumas etiquetas discográficas terem criado colecções dedicadas aos grandes pianistas do século XX. A Philips não se excluiu desta iniciativa, editando uma série que abarca um grupo seleccionado de mais de 70 intérpretes que inclui, entre outros, Arrau, Brendel, Cortot, Gieseking, Gilels, Gould, Lipatti, Maria João Pires, Richter, Schnabel, Solomon. E Jorge Bolet (1914-1990).
Com Brendel, o pianista cubano Jorge Bolet é o meu preferido para ouvir a obra de Franz Liszt (1811-1886). Se o canadiano Lortie ou o húngaro Jandó me agradam, as execuções do australiano Howard são, no meu ignorante parecer, para esquecer, simplesmente.
A carreira de Jorge Bolet não foi linear nem isenta de percalços e de críticas, pelo seu aparente e excessivo virtuosismo. E apenas em 1974, depois do célebre concerto no Carnegie Hall, a excelência e qualidade do seu profissionalismo foi de facto reconhecida. Merecidamente, aliás.
O seu repertório era amplo, mas privilegiava sobretudo Bach e Chopin. E Liszt, naturalmente.
Das múltiplas transcrições elaboradas por Franz Liszt (1811-1886), eu destacaria a mestria do seu trabalho sobre a Norma (1831), de Vincenzo Bellini (1801-1835). Que já aqui consta, no Arpose, numa execução de Alfred Brendel (1931). Esta interpretação de Jorge Bolet (1914-1990), com a sua pátina característica do tempo, foi gravada para a televisão francesa.
Dizia Sá de Miranda, na sua écloga Basto: "...bebemos das bem-querias/ que cada um consigo tem..."
E daí, normalmente, não abdicámos. Frequentes são as escolhas de cada um, a nível literário, as tais 10 obras que se levariam para uma ilha deserta. No que à Música diz respeito, não é habitual perguntarem-se, no entanto, as escolhas pessoais. Eu não hesitaria, porém, em seleccionar 3 das obras que mais gosto de ouvir, e que são, por ordem cronológica:
- A Sarabanda, de Händel, que Kubrick usou na banda sonora de "Barry Lindon".
- O allegretto, da 7ª Sinfonia de Beethoven, interpretado por Alfred Brendel, e/ou dirigido por Karajan.
- De Schubert, a maravilhosa Lied "Auf dem Wasser zu singen", interpretada ao piano por Jorge Bolet.
Este último, grande pianista cubano, já falecido, elegia como sua escolha pessoal, umdos Scherzo de Chopin, tocado pelo seu antigo professor, Josef Hofmann (1876-1957). É o vídeo dessa interpretação que deixo a encimar o poste, neste Domingo que amanheceu soalheiro. Pelo menos, por enquanto...
Jorge Bolet (1914-1990) é para mim, depois de Alfred Brendel, o intérprete de Liszt que mais aprecio.
A minha menor e provável disponibilidade, nos próximos dias, leva-me a aqui deixar um vídeo de maior extensão do que é habitual: a Sonata em si menor, gravada por Jorge Bolet, em 1960. E que é uma das obras capitais do grande compositor húngaro.