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sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Pinacoteca Pessoal 170

 


O pai tinha-lhe destinado a carreira de farmacêutico, mas o bávaro Carl Spitzweg (1808-1885) tinha outros talentos artísticos, que o levaram até à senda da poesia, fazendo-se também notar como um pintor dotado. O seu quadro O Poeta Pobre explica, de forma muito linear, o que ele pensava das perspectivas que a poesia destinava aos seus cultores.

É no entanto como poeta romântico ou pré-romântico que Spitzweg é mais conhecido, mas terá sido, creio, tal como Máro Cesariny, que ele, como pintor, acabou por ganhar satisfatoriamente a vida...

sábado, 18 de março de 2017

Pot-pourri sobre as coisas e o seu tempo


Os autores são inevitavelmente, e como diria La Palice, do seu tempo. As suas obras marcam um gosto, uma necessidade, atavios de moda, preocupações que andam no ar. E, a maior parte das vezes, ficam marcadas, pelos tiques dessa época. Sobrevivem os clássicos, em suma, desta quantidade inúmera que se publica e vai sendo lida, descricionariamente (tijolos ou não), pelos transportes públicos, em substituição do antigo crochet, que se fazia, ou da renda (Talvez mais úteis, quem sabe?...). Isto quanto a senhoras, que alguns cavalheiros, normalmente, iam lendo o seu jornal, até chegar ao emprego.
O livro, com cuja capa (de Manuel Rosa) abri este poste, é talvez a obra de Cesariny mais próxima do temperamente lúdico dos livros de O'Neill (Mais coerentes no seu todo, é certo.), embora muito mais anos cinquenta. E, do meu ponto de vista, não é das melhores do autor-pintor surrealista. Prefiro, de longe, a sua Pena Capital (Contraponto, 1957), mais coesa e séria, tanto quanto pode ser uma obra surrealista dessa época. Às vezes, até penso, malevolamente, que Cesariny fez a opção certa. Bem vistas as coisas, a poesia não dá para viver, mas a pintura, até pela falta de sentido crítico luso, compensa, muitas vezes.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Colagem comparativa


Tudo está
eternamente
escrito
(Spinosa)

Tudo está
eternamente
em Quito
(Uma Rosa)

Mário Cesariny
As capas de livros, em imagem, foram produzidas por 2 editoras (respectiva e cronologicamente, Editorial Inquérito e Alfaguara), com um intervalo de cerca de 70 anos, entre si.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Memória (112)


Por um acaso aparente, o nome de Mário Cesariny de Vasconcelos, nos últimos dois dias, cruzou-se várias vezes comigo. Inicialmente, e num Blogue amigo, em comentário, citei dele um pequeno poema. Depois, à noite, zapeando na TV, apanhei o falecido realizador Fernando Lopes, num programa antigo, a chamar-lhe Mago. Finalmente ontem, num jornal, vinha a notícia de que a Câmara de Lisboa lhe iria disponibilizar um jazigo individual, no Cemitério dos Prazeres. Lembro que ele tinha sido sepultado, anteriormente, no Talhão dos Artistas.
Há reconhecimentos que chegam tarde à nossa vida. Dei por Turner na meia idade, quando, por exemplo, comecei a gostar da obra de Soutine, na adolescência. Quanto a poetas, e surrealistas, sempre privilegiei mais, e desde cedo, Alexandre O'Neill, que tinha uma irreverência mais viva e criativa. Depois, não levei muito a bem que Cesariny tivesse trocado a poesia pela pintura (necessidades?) que, aliás, nunca me despertou grande interesse. Mas aqueles dedos trémulos, segurando o eterno cigarro, em dois leilões de livros, em que lhe fiquei ao pé, comoveram-me...
E, estando tão esquecido, há que lembrar que era um bom poeta.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Bibliofilia 136


Vou referir vários poetas, tenham paciência...
A minha opinião sobre Teixeira de Pascoaes (1877-1952) foi sempre um pouco ambígua. E a leitura dos seus poemas poucas vezes me entusiasmou. Menos ainda a sua prosa. E, se Eugénio de Andrade pouco me falou dele, é bem certo que vários textos admiráveis escreveu sobre o Poeta do Gatão. Como alguns também escreveu Cesariny. Poetas que eu aprecio e cuja opinião costumo ter em conta.





Também Jorge de Sena lhe dedicou estudos com a sua habitual agudeza crítica, gabando-lhe o estro, com algum entusiasmo. Mas nem sempre podemos coincidir nas afinidades electivas. Também Sena estudou Florbela com devoção e eu nem por isso lhe consagro a minha adoração, muito embora, em arroubos de juventude eu gostasse de ler os seus apaixonados versos. Como a José Régio também, aliás. Ambos, ousaria eu dizer, devedores ou familiares, se não dos temas, pelo menos do tom exclamativo de Junqueiro que, na adolescência, muito frequentei...



Os livrinhos, que ora se apresentam, são o fruto da dedicação que o poeta vimaranense Guilherme de Faria tinha por Teixeira de Pascoaes, impressos em 1924 e 1925, com mimosos cuidados estéticos e pequena tiragem de muito boa qualidade. D. Carlos, em tiragem especial, custou-me, nos anos 80, Esc. 1.900$00. Os restantes fui-os comprando por cerca de metade do preço, em anos posteriores.


Por curiosidade, posso informar que a caricatura de Teixeira de Pascoaes, que encima este poste, é da autoria do também poeta, de origem moçambicana, Rui Knopfli.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Burlesca e sentimental


Vai-se-me acabando o livro ( Categorias e outras paisagens, de F. Echevarría), pela tarde (17h40), enquanto a Lua, na sua crescente meia calote fosca, já visível, de Leste, se opõe frágil ao Sol que vai declinando para o mar de Oeste.

Tornou-se, aos poucos, sensível
a tez da velhice. A mágoa
recolheu-se ao doce timbre
de azular-se na palavra.

E a palavra desceu
ao halo feliz da tez,
com a velhice a crescer
dentro da luz que se fez.

Quando saio para a estrada, já a noite começou, discreta a cair. Há ainda dois escravos (vide Il Surpasso, de Dino Risi), devocionalmente, a passear os cães, pela rua. E parecem felizes...

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Lembrete 9 (com algumas divagações despropositadas)


Em Agosto, é recorrente: lembro-me sempre de férias passadas. Normalmente, à beira-mar. E da procissão de Nossa Senhora da Assunção (15 de Agosto), a que se seguia um foguetório intensíssimo, que durava, no mínimo, 20 minutos. Os foguetes eram lançados de vários barcos engalanados, do mar da Póvoa de Varzim, nesta data festiva. Paga de milagres de salvamentos, em perigos de mar. Mas o que nunca esqueci e, na altura, adorava ver e ouvir, era um mesário da confraria que, ladeando o andor da Virgem, e com a sua bolsa de veludo para as esmolas, lançava um pregão velocíssimo e tonitroante: "Quem se lembra, com a sua esmola misericordiosa, para Nossa Senhora da Assunção?!"
E, hoje, dei-me a pensar em: quem se lembrará de António Maria Lisboa? Que nasceu, precisamente, a 1 de Agosto de 1928, e foi uma espécie de D. Sebastião, para os surrealistas portugueses. Obra curta, como lhe foi a vida (morreu a 11 de Novembro de 1953), poemas e prosa um pouco crípticos, mas interessantes. Ergueram-lhe altares, hoje desfeitos - creio. Por isso, aqui o decidi lembrar, agora, através duma obrinha pouco frequente (ver imagem), que foi editada, postumamente, por Mário Cesariny de Vasconcelos, em 1958. O meu exemplar terá sido oferecido, pelo editor, a Artur Portela Filho. Daí a dedicatória manuscrita.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Miscelânea, sem imagens

Há pequenos pormenores em que nos perdemos, sem remédio, num dissipação efusiva, mas contente.
Recapitulando: três narizes aduncos que falam francês; cinco ou seis manequins decepados onde nem sequer podemos adivinhar os sentimentos; vários encontros felizes, de todo imprevistos.
Martelando a realidade: os quiosques da Catarina ( Portas) não vendem cerveja, mas têm vinho  modesto para turistas sequiosos - acho que chega; as atendedoras são poliglotas e simpáticas, embora distraídas.
Geografia: do Jardim da Estrela ao Chiado.
Há dias tão cheios que não se podem contar, nem resumir. É deste modo que se cheira a eternidade.
Pena que Cesariny ou O'Neill já não possam glosar estes fragmentos lisboetas...
(Comentário: a modéstia, hoje, não será o meu forte.)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Memória 64 : Luiz Pacheco


Com tanto desregramento, dissipação física e abusos, com frequentes carências de diversa ordem, é difícil imaginar que Luiz Pacheco (1925-2008) andou por cá quase 83 anos. Morreu a 5 de Janeiro, faz hoje 4 anos. O "Jornal do Gato" (1974), publicado por Mário Cesariny, dá conta desta vida, quase vil e mesquinha, feita de expedientes pouco nobres, promíscua na libertinagem pequena, à boa maneira portuguesa. Mas Luiz Pacheco é também uma figura singular: um notável intuidor de talentos, um frenético editor de obras de vanguarda, bom tradutor quando se empenhava nisso, um andarilho incansável - um guloso da vida que tentou saborear até ao fim. É de "Diário Remendado / 1971-1975" (Dom Quixote, 2005), o excerto que se segue:
1/1/74
Agora a luta é comigo. Se quero aguentar mais uns tempos é dominar os meus demónios interiores, a moleza d'alma, o impedir pelos meios ao meu alcance a repetição dos erros do ano passado, que alguns deram frutos mas nem sei se compensadores.
E não me resignando à velhice e ao silêncio, aceitar os desgastes da idade, dizer adeus às metas (e às conas) já impossíveis de alcançar. Enfim, conhecer os meus limites e tentar superá-los apenas se a ousadia valer os riscos e em plena consciência. Não pela força do álcool que julgo - para já - o meu pior inimigo.
Amanhã, mudar de programa. Vai ser um combate incerto que derrotas, desânimos, mesmo períodos de crise, poderão comprometer definitivamente. A ver vamos. (pg. 149)