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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Basílio da Gama, e as Epopeias


Os tempos que correm não se compadecem com a leitura de Epopeias. Até "Os Lusíadas" foram encurtando, timidamente, nos programas escolares. E, embora haja muitos leitores de livros("-tijolo", H. N.), em matéria de poesia, a situação é outra e fia mais fino. Julgo que a vida actual beneficia os haiku (japoneses, e não só), e os poemas menos longos. E não me parece que quem lê, normalmente, os tais calhamaços (nos transportes públicos), goste, na realidade, de ler poesia. Muito menos epopeias rimadas. (Tenho cá a minha teoria [entre leitores de calhamaços e epopeias], mas é insuficientemente fundamentada, por isso a não desenvolvo.)
Partilhamos com o Brasil, país irmão, do tempo colonial, vários poetas estimáveis. Um deles é Basílio da Gama, nascido em 1740, mas dia incerto, que veio a morrer a 31 de Julho de 1795. Tinha um hausto e estro longo, este brasileiro que se formou na Lusa Atenas, porque são dele os longos poemas: "O Uraguay" (sic) de 1769, "A Declaração Trágica" (1772) e "Quitubia" (1791), todos impressos, originalmente, em Lisboa. O Marquês de Pombal engraçou-se dos seus versos e, numa altura de infortúnio para o Poeta, protegeu-o. E Basílio da Gama, mesmo depois da "Viradeira", pagou-lhe com gratidão. Era um homem íntegro.
Não recomendaria a um amigo a leitura de "O Uraguay" porque, como diria Garrett, é sesquipedal, e tarefa nobre de académicos. Mas, catando muito a epopeia, ainda se encontram alguns versos estimáveis que, no caso do excerto que se segue (morte de Lindoya), me lembram o quadro de Da Vinci, "Leda e o Cisne", não sei muito bem porquê. E aqui vão:

"...Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido,
Para morrer, a misera Lindoya.
Lá, reclinada, como que dormia.
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um funebre cypreste, que espelhava
Melancolica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a vêr assim sobresaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamal-a e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse, no fugir, a morte. ..."

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Decantação


Eu teria que dizê-lo um dia.
Houve em Portugal, sobretudo nos anos 80 e em meios universitários, principalmente, uma excessiva benevolência crítica para com as obras escritas que nos chegavam, ou tinham chegado, nos anos 70 do século passado, das ex-colónias portuguesas. Penso haver 3 razões capitais para este "deslumbramento" acrítico:
1. um certo gosto parolo pelo exotismo, que foi uma moda da modernidade em sequência de alguns bons romances sul-americanos;
2. remorsos reflexos de alma dos ex-colonizadores;
3. num universo rarefeito de autores de língua portuguesa, alguns professores universitários sem matéria em que se debruçassem, descobriram a árvore das patacas e novas pastagens, e cadeira: "Literaturas Africanas de Língua Portuguesa". Este maná também chegou ao Brasil.
Assim, autores de terceira ou quarta ordem, e de muitíssimo duvidosa qualidade literária, passaram a merecer monografias detalhadas, estudos bacocos e medíocres, atenção idolatrada. E, deste modo, alguns mestres universitários engordaram com estas novas pastagens.
Quem se lembrará hoje de Basílio da Gama, ou lerá Cláudio Manuel da Costa, senão no Brasil?
Mas no meio do joio de que falava acima, para ser justo, há também autores de primeira água, como, por exemplo, José Craveirinha que morreu há precisamente 8 anos (6/2/2003). Mulato moçambicano, filho de pai branco português e mãe negra, nasceu a 28 de Maio de 1922. Foi Prémio Camões, em 1991. E é um bom poeta de língua portuguesa. Lembrêmo-lo:

Gumes de Névoa

Lágrimas?

Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?