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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Fórmula 1


Na Net há coisas extraordinárias... e muitos cibernautas sobredotados.
Ontem, por exemplo, um brasileiro paulistano-turbo, provavelmente amante de poesia japonesa, veio ao Arpose consultar haiku, e encontrou 14. Generosa e fulminantemente, leu-os em 54 segundos. E foi-se à vida...

domingo, 15 de setembro de 2019

Ao público, em geral, e ao Brasil em particular


Por súbita indisposição do conferencista, motivada por uma inscrição desusada e antecipada de surdos-mudos (presságio de tumultos, silêncios desmesurados e atropelos vários), que iriam assistir à sua exposição sobre poesia neorrealista portuguesa, mas também pelo inusitado número de inscritos, amigos de uma associação Braille (facto concreto que augurava o pior...); bem como pela recusa peremptória dos artistas que iriam acompanhar, com música, o evento cultural, a Gerência do sítio lamenta informar o público em geral que o espectáculo previamente anunciado, para hoje, não se realizará.
Mas há mais blogues, felizmente...

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O lugar de João Guimarães Rosa


Desarranjar a língua tem as suas virtualidades novas, a quem lê. Cria outras aberturas ao real, através de junções, à partida, incompatíveis de palavras que não se adaptam de todo ao discurso clássico ou normal de todos os dias. Tal como acontece em poesia. Na poesia maior, evidentemente.

A releitura de Grande Sertão : Veredas (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967) tem vindo a reforçar a ideia que eu já tinha da grande qualidade da sua prosa, sem esquecer todavia que o romancista brasileiro não será muito conhecido e apreciado em Portugal. Atente-se, porém, na riqueza sugestiva da sua prosa, por este breve excerto:

"... Como deu uma moça, no Barreiro-Novo, essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta, em redor dela começaram milagres. Mas o delegado-regional chegou, trouxe praças, determinou o desbando do povo, baldearam a moça para o hospício de dôidos, na capital, diz-se que lá ela foi cativa de comer, por armagem de sonda. Tinham o direito? Estava certo? Meio modo, acho que foi bom. Aquilo não era o que em minha crença eu prezava. Porque num estalo de tempo, já tinham surgido vindo milhares desses, para pedir cura, os doentes condenados: lázaros de lepra, aleijados por horríveis formas, feridentos, os cegos mais sem gestos, loucos acorrentados, idiotas, héticos e hidrópicos, de tudo: criaturas que fediam. Senhor enxergasse aquilo, o senhor desanimava. Se tinha um grande nojo. ..."

( Grande Sertão : Veredas, pg. 48)

O livro (460 páginas) é um longo monólogo animado do jagunço Riobaldo que conta as suas perpécias e deambulações a um ouvinte não-interveniente. Três personagens ( Compadre Quelemém de Góis, Diadorim e o chefe do bando, Medeiro Vaz) têm destaque principal na narrativa, em que cada parágrafo funciona quase como um pequeno conto.
Para além de uma efabulação prodigiosa, com momentos próximos da prosa poética, o romance é pródigo em criação e re-recriação de palavras, mas também num léxico abundante de variedades botânicas e zoológicas brasileiras.
Em suma e na minha opinião, uma das obras maiores, em língua portuguesa, de todo o século XX.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Recomendado : oitenta


Não serei pioneiro, neste particular encómio. Já muita gente e vários blogues elogiaram esta Livraria da Travessa, na rua da Escola Politécnica, nº 46 (Lisboa), que abriu recentemente. Limito-me a confirmar a sua qualidade e diversidade dos livros à venda, em espaço de bom gosto e agradável. De origem brasileira, a empresa parece europeia de alma e conteúdo.
Eu levava dois nomes, debaixo da língua: João Guimarães Rosa e E. M. Cioran. Deste último escritor romeno-francês, trouxe Entretiens (2012), da Gallimard. Quanto a Rosa, havia apenas Sagarana, que eu já tinha. E, pela empregada da livraria, soube de um pormenor caricato: por força legal ou disposições da família (ela não sabia qual), as obras de Guimarães Rosa estão proibidas de serem vendidas fora do Brasil. O mesmo acontece com os livros de J. C. de Melo Neto. Que disparate!
A Livraria da Travessa não tem culpa desta bizantinice brasuca, por isso recomendo uma visita, vivamente.


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Da leitura 30


Com as comodidades de hoje em dia, dificilmente conseguiremos imaginar as atribulações de uma longa viagem marítima no início do século XIX (1807), que foi preparada à pressa, em aflição, desorganizada, como foi  a da ida da corte e da família real, na sua fuga para o Brasil, para escapar ao exército napoleónico.
Mas esta obra, Império à Deriva (Editora Civilização, 2004)), de Patrick Wilcken (1982), com bom trabalho de investigação (30 páginas de bibliografia) e pesquisa histórica, que me parece séria, dá-nos uma aproximação realista do que terá sido esse calvário para cerca de 10.000 pessoas, habituadas a mimos e conforto, muitas das quais nunca tinham feito viagens por mar.
Dou, em seguida, um pequeno excerto (pg. 54) para se ter uma visão parcelar do estilo do livro:

"No geral, porém, o registo histórico dá-nos muito pouca ideia dos pensamentos e experiências da família real portuguesa e do seu exército de criados nas longas semanas passadas a atravessar vagarosamente o Atlântico. Fica à imaginação de cada um os cheiros que se elevavam do fundo dos porões - as colunas de ar putrefacto que subiriam através das escotilhas de navios que, em muitos casos, não serviam há anos, as longas filas para usar as «cabeças», uma plataforma fixada ao bojo da ré e deixada suspensa sobre o rasto do navio, que servia de casa de banho ao ar livre; o tédio, a vergonha e a angústia dos que tiveram de abandonar os amigos e a família numa hora de grande aflição. As acomodações seriam rudimentares, a privacidade inexistente, o sono difícil senão impossível no convés descoberto, com borrifos de água do mar a molhar regularmente as filas de nobres estendidos nas tarimbas. E, durante o dia, o constante balanço dos navios terá sujeitado respeitáveis cortesãos à indignidade de crises públicas de enjoo marítimo."

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Idiotismos 45


Ora, hoje, que se anunciam para o almoço jaquinzinhos, pus-me a pensar se a alcunha se deve a algum Joaquim com que fossem parecidos esses carapauzinhos pequenos, a exemplo dos Oscares de Hollywood, que assim foram crismados por a bibliotecária da Academia, Margaret Herrick (1902-1976), ter achado a estatueta do prémio, em 1931, muito parecida com o seu Tio Oscar. A história correu mundo e assim lhes ficou o nome.



Petinga fia mais fino. Que é sardinha miúda, sabem-no todos, mas donde lhe virá o nome?
Diz Houaiss, referindo Nascentes, que provirá do tupi (pe'tinga), com significado de pele branca.  Morais já antes o tinha referido, acrescentando que, no Brasil, a esse peixinho pequeno lhe chamavam: petitinga. E mais não disse o estudioso da língua portuguesa.
Por isso, nós, simples ignorantes, teremos de nos ficar por aqui.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pinacoteca Pessoal 146


Tradicionalista no modo, a pintura do brasileiro Rodolfo Amoedo (1857-1941) situa-se por entre o Romantismo e o Neo-classicismo, quanto a escolas. Frequentou, na juventude, a Academia Imperial de Belas Artes e, de 1879 a 1887, fixou-se e estudou em Paris, onde teve por mestre Puvis de Chavannes (1824-1898).
Alguns dos seus retratos têm uma consistência estética notável.


As cores nas suas telas são suaves, normalmente, e os temas são clássicos, bíblicos, mas abordam também o indianismo brasileiro, de que o exemplo mais perfeito é o seu quadro intitulado "O último Tamoio", pintado em 1883.
Obras suas decoram também o Supremo Tribunal Federal e a Biblioteca Nacional do Brasil.




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

De Francisco Manuel de Melo, estando no Brasil, degredado


Soneto LXXV (da Tuba de Calíope)


São dadas nove. A luz e o sofrimento
me deixam só nesta varanda muda,
quando a Domingos, que dormindo estuda,
por um nome que errou, lhe chamo eu cento.

Mortos da mesma morte o dia e o vento,
a noite estava para estar sesuda,
que desta negra gente, em festa ruda,
endoudece o lascivo movimento.

Mas eu que digo? Solto o tão sublime
discurso ao ar, e vou pegar da pena
para escrever tão simples catorzada?

Vêdes? Não faltará pois quem m'a estime,
que a palha para o asno ave é de pena,
falando com perdão da gente honrada.


Francisco Manuel de Melo (1608-1666), in As segundas três Musas.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A estultícia humana e a inteligência artificial


E já que falei de algoritmos, no poste anterior, em sequência gostaria de dar conta de uma das últimas search words que veio desaguar, estupidamente, ao Arpose.
A (?) cibernauta, muito provavelmente brasuca, prolífica em palavras e desleixada, escreveu ao Google, assim: "eu quero ver o casamento de Fabíola Aguiar do programa de bolo de Maceió".
E o motor de busca, na sua proficiente infalibilidade mecânica, mandou-a dar uma volta por todos os postes do Arpose do mês de Dezembro de 2015...
Juntou-se, deste modo, a fome com a vontade de comer. Ou a palermice com a estupidez.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Reactivar o passado


Tenho por costume, e quando isso é possível, averiguar, pelo rasto, para onde se dirigiram as visitas ao Arpose, ou daquilo que andavam à procura. Dos visitantes brasileiros, com raras excepções, é previsível a frequência intensiva e recorrente de 4 ou 5 postes*, que os atraem, irremediavelmente. Decerto, iscados, também, pela iconografia.  E o que revela, quanto a mim, um perfil estereotipado.
Outras vezes, e porque o poste está esquecido por mim, vou revisitá-lo. Reconstituo o passado, de certo modo, recordando uma data e pormenores que se passaram nesse dia, alguns anos atrás. Até por esse facto, um blogue pode ser útil. Tal como se fosse um percurso, um diário ou biografia virtual do efémero esquecido, relembrado e reanalisado. À luz do presente, com todas as suas consequências.

* concretizem-se os 2 postes mais visitados, pelo Brasil, e quase diariamente:
1.  Uma santa barbuda : a Santa dos Cuidados (poste de 11/5/2011).
2. "A incerteza do poeta" de Giorgio de Chirico (poste de 20/11/2011).

domingo, 4 de novembro de 2018

O contraditório, inesperadamente com a ajuda de Chico Buarque e Edu Lobo...

Um cartaz brasileiro de propaganda, de 1932


Os símbolos repetem-se, muitas vezes adaptados a novas conjunturas. O cartaz brasileiro de 1932 destinava-se a despertar consciências para combater a ditadura de Getúlio Vargas (1882-1954). Mas inspira-se, flagrantemente, nos seus antecessores, inglês e norte-americano, que foram concebidos com motivos e razões distintas, para objectivos semelhantes.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Epigrama


Epigrama


Entre unhas, bruxas e touros
se faz passado e presente
de notícias importantes.

Dos jagunços em Brasília
já se passou adiante...


domingo, 28 de outubro de 2018

Do Brasil, com Drummond


História Natural

Cobras cegas são notívagas.
O orangotango é profundamente solitário.
Macacos também preferem o isolamento.
Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
Andorinhas copulam no vôo.
O mundo não é o que pensamos.


Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), in Corpo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Reflexões, a propósito de um poema de Pessoa e das Presidenciais brasileiras


É peregrina a ideia, embora possível, que um eleitor, à boca das urnas, possa mudar de intenções e, num golpe de rins manifestamente improvável, possa vir a votar, arrependido, num candidato mais limpo, mais apropriado à sua condição de proletário, mais digno e mais democrata, à partida.
Mas também eu sou dado a utopias, não desdenho o idealismo das convicções, também sonho com um mundo melhor, embora o presente aconselhe o prudente pessimismo, pelo que vai acontecendo neste universo pequenino que é a Terra que habitamos. Se o século XX foi mau, este XXI parece vir a ser ainda pior.
Ingenuamente, afadiguei-me nos últimos dias em postes preventivos, a propósito das próximas eleições brasileiras. Cerca de 15% das visitas ao Arpose, chegam do Brasil. É certo que grande parte delas vêm às imagens (sobretudo, insólitas e extravagantes, ou primárias), procuram coisas infantis, não buscam cultura nem pensamento muito elaborado. 
Mas eu tinha grande esperança no poema (quadra) do Pessoa (Álvaro de Campos):

The Times

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
do Times, claro, inclassificável, lido,
supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...
.................................................................................
Santo Deus!... E talvez a tenha tido!


Decerto, estúpida e inutilmente, o fiz. E perdi o meu tempo, por entre cegos, bárbaros e ignorantes suicidas.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Como íamos transcrevendo...


A prosa de Graciliano Ramos (1892-1953) é seca. Melhor dizendo, enxuta e essencial, sem desperdícios de adorno ou rodriguinhos de estilo, para fazer batota com o leitor e o seduzir, por aspectos secundários. No fundo, prosa honesta de homem sério.
Com Machado de Assis e João Guimarães Rosa ele pertence, para mim, à trindade magnífica e maior da ficção brasileira. Daí o facto de o ter escolhido, nesta temática sobre o passado-presente-futuro do País-Irmão, como ilustração exemplar daquilo que se pode vir a repetir, por lá.
Por isso, e como íamos transcrevendo:
                                                                                                                                                    
"... Agadanhavam-me e, depois de uma noite de insónia, despachavam-me para o Recife? Capricho. Certamente me forçariam a interrogatórios morosos, testemunhas diriam cobras e lagartos, afinal me chegaria uma condenação de vulto. Sem dúvida. Quais seriam os meus crimes? Não havia reparado nos enxertos em 1935 arrumados na constituição. Num deles iria embrulhar-me. A conjectura de que me largariam ao cabo de dois ou três dias, por falta de provas, sumiu-se. Aquela transferência anunciava demora.
Em frente de mim, os cotovelos na mesa, Tavares, sonolento, bocejava com dignidade bovina. Nenhuma aparência de cão de guarda: um boi. De espaço a espaço mugia uma questão, a que eu respondia por monossílabos, afirmando ou negando com a cabeça. Voltei ao carro de primeira classe, diligenciei entreter-me com as divagações do meu companheiro. Não conseguia, porém, dispensar-lhe atenção: mudo e chocho, isento de curiosidade, andava aos saltos no tempo, brocas agudas verrumando-me o interior. ..."


Graciliano Ramos, in Memórias do Cárcere (pgs. 39/40).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
                                              
                                                                                                                                                                                                                              

domingo, 21 de outubro de 2018

Glosa (14)


Na entrevista de hoje, no jornal Público, Vasco Pulido Valente refere, peremptório : "Os portugueses têm uma segurança que ninguém tem. Inabalável."
Parece-me um clamoroso erro de palmatória. Quando muito, oscilamos. Entre insegurança e confiança em nós mesmos, duvidosos e bipolares. Almejando, do exterior, um apoio incondicional que nos subscreva ou confirme. Esperando, tímidos, um aval externo e simpático.
Que povo haverá no mundo que, em leilões de livros tanto privilegie a temática : Portugal visto por estrangeiros. Ou que, outrora francesismos, presentemente, use tantos anglicismos (e americanismos), para explicar as coisas mais simples... Será por provincianismo endémico? Para, erroneamente, tentar reforçar o que se diz, com um cosmopolitismo parolo? Ou para alardear cultura?
Eu julgo que é por insegurança. Falta de vocabulário e pobreza de imaginação. Ou será por vergonha da sua língua pátria?
Lá nisso, os brasileiros são muito mais criativos e desavergonhados. Honra lhes seja!

sábado, 20 de outubro de 2018

Outros tempos, mesma temática


"...O congresso apavorava-se, largava bambo as leis de arrocho - e vivíamos de facto numa ditadura sem freio. Esmorecida a resistência, dissolvidos os últimos comícios, mortos ou torturados operários e pequeno-burgueses comprometidos, escritores e jornalistas a desdizer-se, a gaguejar, todas as poltronas a inclinar-se para a direita, quase nada poderíamos fazer perdidos na multidão de carneiros.
Pensando nessas coisas, desci do automóvel, atravessei o pátio, que, em 1930, vira cheio de entusiasmos enfeitados com braçadeiras vermelhas. Numa saleta, um rapaz me recebeu em silêncio, conduziu-me a outra saleta onde havia uma cama e desapareceu. O mulato fez a última viravolta e desapareceu também. À porta ficou um soldado com fuzil. ..."

Graciliano Ramos (1892-1953), in Memórias do Cárcere (pgs. 29/30).

O sexo dos anjos e a nova ignorância


Enquanto por cá, alguns estultos ociosos discutem e decidem sobre se as criancinhas devem ou não ser ensinadas e obrigadas a dar beijinhos aos avós, no Brasil (e em Portugal, alguns descuidados emigrantes), preparam-se para dar o seu voto a um jagunço.
Deus tenha piedade dos pobres de espírito!