Creio que alguns de nós, uma vez por outra, temos a tentação de ser árbitros de gosto. E acontece surpreendermo-nos com algumas escolhas dos outros, ao supervalorizarem obras que nos parecem medíocres. Pessoalmente, abomino o uso do verbo adorar, para exprimir uma predilecção. É um verbo de uso litúrgico, de que a imprensa rósea abusou, pecaminosamente, e, de tão usado, hoje pouco vale ou nada significa, na minha modesta opinião.
Emitirmos uma opinião ou uma crítica, seja ela favorável ou não, sobre alguma coisa, parece colocar-nos, ainda que teoricamente, numa posição superior ao objecto, ou - o que é pior - num patamar de avaliação de aparente superioridade em relação ao autor-criador dessa obra.
Quando o faço, muitas vezes sinto, momentaneamente, um certo mal-estar, ou incomodidade interior que demora algum tempo a passar. Tudo isto se passa na esfera do racional, às vezes até com argumentos suficientemente lógicos que justificam essa avaliação que fizemos.
Um poema, um romance, uma pintura, um filme que suscitem uma clarificação do nosso gosto ou desapreço, podem assim também desencadear, por reflexo, um problema ético de justiça, nosso, subjectivo. E penso que dizer apenas gosto ou não gosto, torna tudo muito mais simples. E anódino.
Perdoa-se, quase sempre, tudo melhor ao sentimento...