Esta voz de dicção clara e este timbre puro das cordas deixam-me sempre surpreendido. Quase me obrigam, comovido, a fazer as pazes com a Lusa Atenas. O mérito, evidentemente , é todo de Luís Gois (1933-2012).
Este fado, algo insólito e heterodoxo pelo tema, com letra de Gabriel de Oliveira sob mote e versos de Augusto Gil (1873-1929) e música de Frederico de Brito, dá pelo nome de Maria Madalena. É, de algum modo, o contraponto lisboeta do Samaritana, fado de Coimbra (com letra de Álvaro Cabral) que, até 1974, estava proscrito das serenatas públicas na cidade do Mondego. Só se podia ouvir no recato das Repúblicas conimbricenses - onde a Censura não entrava - como de facto o ouvi por duas vezes, pelo menos. Por ser um dos meus poucos fados-fetiche, arquivei-o no Arpose, em poste de 12 de Agosto de 2010.
É tempo, no meu entender, de dar voz a Lucília do Carmo (1919-1998), nesta belíssima interpretação de Maria Madalena, incluindo-a no Blogue.
Quando nos despedimos, ontem, de uma estudante alemã que, durante um mês, teve o privilégio de viver - e conviver - com os portugueses para aprofundar a sua aprendizagem da língua e do país, estava longe de prever qualquer coincidência entre a sua partida e acontecimentos posteriores.
Um facto triste e não imaginado foi o falecimento de Luiz Goes (ou Luís Góis). Assim como ela se preparou com o estudo da gramática portuguesa para enfrentar o "falar ao vivo", houve quem me tivesse proporcionado, e bem, há mais de quarenta anos, uma aprendizagem suplementar, fornecendo discos de fados de Coimbra e canções de José Afonso.
Hoje, e recordando esse tempo a propósito da morte de Luiz Goes, tentei recuperar algo da memória musical do passado, entrando no "Youtube" à procura de discos do fadista. E foi assim que descobri esta maravilha - ou mistério virtual - de coincidência sem par:
O que se vê na imagem é, de facto, uma fotografia da minha autoria, inserida na capa do disco "Chamo-te Nina", tirada a uma boneca que faz parte do meu universo há muitos anos!
O fado de Coimbra "Samaritana" era proibido cantá-lo nas serenatas públicas até ao 25 de Abril de 1974. Mas era tocado e cantado nalgumas "Repúblicas", clandestinamente. Ouvi-o umas duas ou três vezes na "República Baco", e sempre gostei muito dele.