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quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Um poeta menor, bem tratado

 

Comprei há pouco tempo, e não muito barato, num alfarrabista, um volume desencadernado de Poezias - Parte I, impresso em Lisboa, no ano de 1793 e na Officina de Filippe José de França e Liz. (sic). O seu autor José Maximo Pinto da Fonseca Rangel foi um poeta menor, mas na carreira militar atingiu o posto de major, tendo sido governador do Castelo de S. João da Foz, no Porto. O vate terá nascido, por volta de 1773, em Santa Marinha do Zêzere (Baião), vindo a falecer no ano de 1832, em Lisboa.
Publicou vários livros, quase todos eles raros hoje, nomeadamente o volume de poesias referido acima; terá sido maçom, partidário e implicado na chamada conspiração de Gomes Freire de Andrade, em 1817, esteve preso por isso, e ainda foi ministro da Guerra, por breves dias, no ano de 1823.




Como poeta, alguns dos seus sonetos prenunciam sinais do pré-romantismo e alguma vivência bucólica.
Em tempos, o alfarrabista Richard C. Ramer tinha um volume igual ao meu, à venda por 217,86 euros.
Para melhor o proteger, HMJ deu-lhe um tratamento próprio em invólucro (capa) preto adequado.



quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Bibliofilia 194

 

Com cerca de 204 anos, estas provas tipográficas  que conservei intactas na forma por que, então, as adquiri, têm o seu lado original, para não dizer exótico, a que nem todos os blogonautas estarão habituados. Ou eventualmente poderão conhecer. O livro, saído da Impressão Regia, viria a ter, rearrumado e cortado, 111 páginas numeradas. Atrás do pseudónimo de "Moço Academico", albergava-se um setubalense de nome Rodrigo Ferreira da Costa (1776-1821), formado em Leis por Coimbra e mais tarde (1804) em Matemáticas, que, na minha modesta perspectiva, não seria poeta muito prendado, embora tenha obra registada por Inocêncio (T. VII), com alguma dimensão...
Esta segunda edição de A Lyra Ingenua (1818), muito aumentada, teve a sua impressão primeira em Toulouse, no ano de 1804. Encontrei pela Net exemplares, da segunda, que se vendiam entre US$ 23,49 e US$ 58,19, consoante o seu estado de conservação.





segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Bibliofilia 184


Não são muito abundantes os elementos biográficos ou dados críticos sobre o poeta José Maria da Costa e Silva (1788-1854), que foi também tradutor e historiador de literatura. Óscar Lopes dedica-lhe apenas duas entradas mínimas na sua obra maior, apesar do escritor ter uma bibliografia extensa, como aliás Inocêncio refere nos volumes V (pgs. 25, 450), VII (120) e XIII (90) do seu Dicionário.

Se a tradução, em 1850, de Os Argonautas, de Apolónio de Rodes, foi bem recebida pelos seus leitores, o poema O Passeio, cuja segunda edição, aumentada, saiu em 1844, foi elogiado por José Agostinho de Macedo e Almeida Garrett. Dono de uma importante biblioteca, que contava cerca de 16.000 livros, sobretudo de poesia, Costa e Silva dedicou-se, já nos últimos anos de vida, à escrita do Ensaio Biographico-Critico sobre os Melhores Poetas Portuguezes ( 1850/9).


Obra monumental em 10 volumes (os 2 últimos livros são já póstumos) que, apesar de algumas inexactidões, lhe grangearam fama e prestígio, no final da vida. Consta de uma análise por escolas literárias, cronológica, e da recensão interpretativa dos vários poetas portugueses, com transcrições de muitas poesias. Este notável trabalho merecia ser mais bem conhecido. E lido...

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Bibliofilia 181


Terá sido, seguramente, um dos primeiros livros antigos e usados que eu comprei. Com certeza, ainda nos anos 60 do século passado, mas já não me consigo lembrar onde. E é o único livro da área de Medicina, existente na minha biblioteca. Editado no Porto (1756), na Oficina Episcopal do Capitão Pedroso Coimbra, o livro é de autoria do cirurgião Manoel Gomes de Lima Bezerra (1727-1806).
Seria talvez um livro de estudo de medicina e há inscrições manuscritas, pelo menos, de dois anteriores proprietários: Apolinário Domingos Soares e João Ignacio Borges. Este último, cirurgião, que terá comprado O Practicante do Dialogo Chirurgico... em 28 de Junho de 1805, por 260 réis.
A obra tem algumas, poucas, ilustrações, mas bastante toscas ou ingénuas, ao menos.


Quanto ao autor, minhoto, Manoel Gomes de Lima Bezerra, que começou a estudar medicina já tarde (1764), aos 37 anos, na Universidade de Coimbra, é sobretudo conhecido pela conceituada obra (rara), em 2 volumes,  Os Estrangeiros no Lima  (1785-1791), que aborda factos e aspectos da história do Alto Minho. Recentemente, a obra foi reeditada.
Voltando ao nosso volume, de especialidade cirúrgica, encadernado em pele e em razoável estado,  embora algo garatujado nas folhas de guarda, Inocêncio (volume V, pgs. 444/5) diz não ter visto nenhum exemplar. Numa anotação antiga, escrevi que, num catálogo (nº 94) da Livraria Morais, em Abril de 1940, (lote 37136), e com a indicação de "rara", a obra tinha o preço de Esc. 35$00.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Bibliofilia 171


Estes trabalhos líricos encomiásticos têm, habitualmente, duvidosa qualidade poética. E, embora João Xavier de Matos (1730?-1789) fosse um estimável poeta com versos de acentos camoneanos, um tanto ou quanto fora de época, e tendo até Garrett gabado o seu estro, esta Canção não foge muito à regra referida, na primeira frase.
Editado o folheto sem data de impressão, na Oficina de António Rodrigues Galhardo (Lisboa), Inocêncio data-o de 1784.


O que faz algum sentido, pela dedicatória do poema à rainha D. Maria I (1734-1816) que nesse ano, a 17 de Dezembro, completar(i)a 50 anos. A referência a Pina Manique explica-se pela protecção que dele gozou Xavier de Matos. Assim como a teve de Cenáculo, bispo de Beja, a quem dedicou inúmeras poesias. Desta relação amistosa e mecenática, existe vasto espólio manuscrito e de impressos na BPE.
O folheto de 8 páginas, confirmadas por Inocêncio, que teria tido mais 2 finais, em branco, foi impresso em bom papel com marca de água de cavalo e as iniciais G C B.
Em muito bom estado e margens largas, o meu exemplar custou-me 12 euros, no passado ano de 2018.

sábado, 21 de julho de 2018

Bibliofilia 163


Recentemente adquirido, por 18 euros, este folheto O Novo Janeiro de 1831, de 24 páginas, publicado na Impressão Regia, em 1830, por José Daniel Rodrigues da Costa, é um dos últimos editados em vida do autor que terá falecido em 1832. O seu prefácio põe, no entanto, em dúvida, a indicação de Inocêncio, repetida a partir daí por vários publicistas, que dá Rodrigues Costa como tendo nascido, nas imediações de Leiria, a 31 de Outubro de 1757. No antelóquio, escrito em 1830, José Daniel refere: Desde a idade de dezeseis annos me avezei, não com vaidade, mas com amor ás Bellas Letras, a compor, e a imprimir; acho-me hoje com os meus setenta e quatro... Fazendo fé nesta sua afirmação, ele teria nascido no ano de 1756. E não em 1757, como Inocêncio escreveu.

Como já por aqui referi, no Blogue, a propósito de outras publicações de José Daniel Rodrigues da Costa, que são muitas, a sua obra não é erudita, nem de grande cultura, mas é divertida e irreverente, sendo muito popular, na época. Por outro lado, dá-nos uma visão viva dos costumes lisboetas de então, usando com frequência expressões populares e um vocabulário rico, algum do qual, hoje, raramente é usado, ou caiu mesmo em desuso.
Durante a leitura do folheto, fui tomando nota das palavras que não conhecia e, depois fui procurar-lhes o significado, nos dicionários que tinha à mão. Das 6 que anotei, apenas 1 não consegui esclarecê-la. Aqui as compartilho, com quem visitar o Arpose:

pg. 11 - côvo = cesto comprido de vime usado na pesca.
pg. 12 - martinetes = espécie de martelão movido a água ou vapor empregado nas indústrias mecânicas; martelo de piano.
pg. 13 - atafaes = o que cobre a retranca das cavalgaduras.
pg. 15 - giribanda = termo popular para designar descompustura, reprimenda.
pg. 20 - bovinete = (foram infrutíferas as minhas tentativas para saber o significado desta palavra).
pg. 23 - alicantina = astúcia, manha, trapaça, velhacaria.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Bibliofilia 161


No passado ano de 2017, o nome de Jozé Mazza (?-1797?) nada me diria, mas a compra recente e leitura de uma sua écloga, editada em 1776, fez-me tentar saber alguma coisa sobre a sua vida e acções terrestres.
Inocêncio Francisco da Silva, no seu Dicionário de autores, dá-o como filho de italianos (Giovanno Tomaso Mazza e Maria Catharina Judici). O pai teria pertencido à orquestra de câmara de D. João V, onde ele teria ingressado, também, posteriormente. Jozé Mazza terá conhecido na corte o futuro bispo de Beja, Frei Manuel do Cenáculo, iluminista e mecenas, e, talvez por isso, viria a ser, mais tarde, professor de italiano no colégio deste seu protector, com quem se correspondeu, por cartas que lhes sobreviveram. O músico e poeta teria falecido em Faro, no ano de 1796 ou 1797. (Será que os Júdices algarvios, hoje grandemente lisboetas, terão a ver com esta semente musical e lírica?)



Grande parte da poesia que se fez, durante o século XVIII português, não merece grande atenção, se exceptuarmos algumas sátiras bem conseguidas e com umas pinceladas realistas de ambientes e costumes domésticos que pontuam uns poucos versos inspirados (de Garção e Jazente, por exemplo). Mas não foi pela qualidade de execução poética que eu adquiri este folheto de 24 páginas, de Jozé Mazza, impresso em Lisboa por Caietano Ferreira da Costa, em 1776, integrando uma écloga, antecedida por um castiço antelóquio de 9 páginas, do autor. O corpo principal do poema, abre com uma sábia epígrafe de Diogo Bernardes:

De condição humana he não ver traves
Em nossos próprios olhos, nos alheios
Arestas leves nos parecem graves.





Acontece que me enfeiticei, um pouco, pela primorosa e original encadernação em pele, com ferros a ouro, apesar do miolo do folheto ter sido excessivamente aparado, embora sem prejudicar o texto. O voluminho custou-me 20 euros, no meu alfarrabista de referência, no passado mês de Fevereiro. E não me arrependi, até hoje...


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Bibliofilia 123


Corografia, em explicação sucinta dos dicionários, é a descrição de um país.
Não parece ser nossa vocação, de portugueses, o trabalho extenso, moroso e aturado, no que diz respeito a obras de investigação profunda e ampla. O Dicionário de Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876), completado por Brito Aranha, com mais de 20 volumes, é uma das poucas excepções laboriosas, no abarcar alargado de escritores portugueses e suas publicações. A pioneira Biblioteca Lusitana, trabalhada pelo Abade de Sever, Diogo Barbosa Machado (1682-1772), entre 1741 e 1758, é outra obra de fôlego, nesta mesma temática.
Outro incansável investigador terá sido Augusto S. A. B. Pinho Leal (1816-1884), professor e combatente do Buçaco, que dedicou os seus últimos anos de vida à elaboração do seu Portugal Antigo e Moderno, obra maior em 12 volumes, de que, por morte, deixou o décimo tomo a meio. O remate foi efectuado pelo seu amigo Pedro Augusto Ferreira, abade de Miragaia.
A obra (1873-1890), com uma tiragem de 500 exemplares, foi em grande parte para o Brasil e é, por isso, rara na sua edição original. Em 1990, foi executada uma edição fac-similada, que é a que possuo. Muito completa, a obra dá descrições muito detalhadas sobre as cidades, vilas e muitos lugarejos portugueses. As informações vão dos aspectos históricos e arqueológicos até heráldicos e etimológicos. E é utilíssima.

Adenda pitoresca: quando o escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990) tomou posse como director do Museu Soares dos Reis, ao consultar a lista do pessoal deu conta de um contínuo que tinha um grande nome, e pomposo, terminado em Pinho Leal. Quis conhecê-lo, ficando então a saber que ele era sobrinho neto do autor de Portugal Antigo e Moderno. O Escultor falou-lhe com grande entusiasmo da obra magna de corografia, gabando-a sobre vários pontos de vista.  E o modesto contínuo comentou: "Talvez fosse por isso que, lá na aldeia (Vimieiro?), nos chamavam, por alcunha, os Portugais..."

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Bibliofilia 109


Estes poetas portugueses do século XVIII (e o XVII ainda é pior...), temos que os depenicar e ler com cuidado, deitar fora os bagos podres, triá-los com frieza, senão é uma grande sensaboria a leitura. Mas há uma boa meia dúzia deles que vale a pena conhecer, embora não integrem, muitas vezes, o cânone oficial, até porque, para tudo, é preciso ter sorte e cair em graça, para ser lembrado. Este vate, Joaquim Fortunato de Valadares Gamboa, bem merecia uma referência nos compêndios de literatura, ainda que fosse breve. Mas nem Inocêncio lhe concede muito espaço, no seu Dicionário, e muito menos dá informação sobre as datas de nascimento e morte, embora avance que Valadares Gamboa talvez tenha falecido logo no início do século XIX.
Por umas Endexas (pg. 80), que constam do II Tomo (Rollandiana, 1804), das suas Obras Poéticas, vê-se que o Poeta estava muito a par da Agricultura (e o Gamboa do apelido até permite fantasiar...), conhecia bem as diversas especialidades de cada fruto, bem como as castas das uvas portuguesas:

Tenho vinha velha,
Mas bem casteada;
De uvas primorosas
Será regalada.
Bastardo excelente,
Temporão leirem,
Branca trincadeira
E preta também.
Doce moscatel,
Bom déba, e boal;
Tenho malvasia
Que não tem igual.

Mas esta simplicidade, que está próxima da quadra popular, não lhe ocupa a totalidade da obra. Porque nela há poemas bem sucedidos e versos de alguma qualidade, semeados pelos dois livros publicados.
Tudo isto para concluir que, nos anos 80 do século passado, tive imensa dificuldade em conseguir comprar os dois tomos da obra poética de Valadares Gamboa, ambos impressos na Tipografia Rollandiana. E se o segundo tomo (1804) que possuo é da primeira edição, já o o Tomo I é da segunda impressão (1791). Não tenho qualquer apontamento sobre o preço que dei pelos livros, que estão em bom estado, mas posso afirmar com segurança que as Obras Poéticas, deste vate neo-clássico, não aparecem com frequência à venda. E, creio, que também nunca foram reeditadas.

Actualização devida: por lapso, não me lembrei do trabalho meritório de Pedro da Silveira sobre o Poeta. Onde propõe 1745 e 1815, como datas de nascimento e morte, de Valadares Gamboa. Refiro estes elementos num anterior poste de 10/10/2010.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Bibliofilia 98


Este folheto de 30 páginas não numeradas, considerado "muito raro", por Inocêncio (Tomo I, 88), publicado em Hamburgo, provavelmente no ano de 1799, graças ao patrocínio do Morgado de Mateus (D. José Maria de Sousa), inclui, em edição bilingue, a tradução da Ode para o dia de Santa Cecília, de John Dryden (1631-1700), bem como mais três odes do poeta, também inglês, Thomas Gray (1716-1771). As versões para português foram feitas por Antonio de Araujo de Azevedo (1754-1817), natural de Ponte de Lima, conde da Barca, diplomata (Holanda, Rússia, França) e homem de estado, que desempenhou altos cargos na corte portuguesa, durante a sua permanência no Brasil.
O folheto brochado, em bom estado de conservação, é de papel encorpado e de boa qualidade. A abrir tem uma Advertencia do Morgado de Mateus, à guisa de introdução, com considerandos sobre a dificuldade das traduções. O livrinho, já no século XXI, custou-me 18 euros, e nunca tinha visto, nem vi depois, nenhum outro exemplar para venda, posteriormente, a o ter adquirido. A BNP tem no seu acervo 3 exemplares, um dos quais nos Reservados.

domingo, 3 de junho de 2012

Bibliofilia 64 : mais um folheto sobre o terramoto


Deste barcelense com veleidades poéticas, Inocêncio não dá notícia no seu "Dicionário", nem encontrei elementos para a sua vida, ou bibliografia. Joseph de Almeida Castello-Branco Bezerra glosou em XIV oitavas o soneto de um anónimo, sobre o terramoto de Lisboa de 1755, e ainda lhe acrescentou um Epitáfio e um Soneto a um "paçarinho", em moldes barrocos. O folheto não é o original, mas apenas uma edição fac-similada feita, em 2006, sobre o exemplar que terá, provavelmente, pertencido à biblioteca de Francisco Martins Sarmento. A edição foi feita com o patrocínio da Sociedade Martins Sarmento (Guimarães) de parceria com a Universidade do Minho. O meu exemplar tem o número 173 de 200, e custou 9,00 euros.

sábado, 28 de abril de 2012

Bibliofilia 62 : Píndaro



Este pequeno folheto de 16 páginas de bom e encorpado papel, embora com impressão excessivamente carregada, é o resultado de uma parceria poética entre dois primos, e foi editado há quase duzentos anos. António Maria do Couto (1778?-1843) de quem já falamos aqui (Bibliofilia 25, em 11/8/2010) traduziu, em prosa, esta ode de Píndaro, e Manuel Pedro Tomás Pinheiro e Aragão (1773-1838), seu primo, pô-la em verso português. Em parceria, também, compuseram um soneto em dedicatória ao doutor Francisco José de Almeida, provavelmente porque terá sido ele o mecenas que pagou esta edição de 1816.
Nem todos conseguiriam perceber e ler, em grego, esta obra de Píndaro, por isso o trabalho foi, sem dúvida, meritório, muito embora Inocêncio, no tomo VI (pg. 77) do seu Dicionário, classifique Manuel Aragão de "poeta medíocre", na sua habitual franqueza crítica.
O folheto encontra-se em magníficas condições de conservação e custou-me, há dias, 3,50 euros. Ao preço a que estão os livros e mais barato do que um maço de tabaco, achei o dinheiro, que dei por ele, por bem empregue.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Livrinhos 8



Terceira edição, mas única em 16º, esta obra teve, em 10 anos nada menos de 3 impressões (1817, 1818 e esta, de 1827). Todas elas póstumas. Lia-se muita poesia no início do séc. XIX, como se pode ver. O seu autor, Thomaz António dos Santos e Silva, nasceu em Setúbal, a 12 de Abril de 1751, e era culto. Sabia latim, inglês, francês e italiano. Foi prolífico em composições literárias e várias peças dramáticas suas foram representadas no Teatro do Salitre. Já nessa altura vivia em Lisboa, para onde tinha vindo por volta de 1830 - segundo Inocêncio (Tomo VII, 328). Cegou em 1798, e veio a morrer 1816, também na Capital. Com benevolência, Inocêncio acha as suas obras um pouco desequilibradas. É, na verdade, um poeta menor.
O livrinho é que é maneirinho e simpático, bom de transportar e fácil de ler, nos seus inúmeros tercetos. Comprei-o recentemente, porque achei o preço, em conta: 12,00 euros.

sábado, 31 de março de 2012

Barbosa Machado


Cumprem-se hoje 330 anos sobre o nascimento de Diogo Barbosa Machado (1682-1772), abade de Sever, verdadeiro iniciador e pai da bibliografia portuguesa, através da sua monumental Bibliotheca Lusitana, iniciada em 1741, e composta por 4 grossos volumes. Antes dele houve, é certo, tentativas parcelares ou muito incompletas, mas que ficaram muito aquém do propósito e ambição do projecto, como por exemplo a carta 414 (Cartas Familiares, 1664) de Francisco Manuel de Melo, datada de 24 de Agosto de 1650, escrita da prisão do Castelo de S. Jorge.
Depois de Barbosa Machado, teremos o notável Dicionário bibliographico portuguez, iniciado por Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876), que veio a atingir os 23 volumes, mas que tomou como ponto de partida o trabalho pioneiro do abade de Sever, e o desenvolveu.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Salão de Recusados XL : um poeta menor do Turcifal



O século XVIII e os primeiros anos do séc. XIX são um tempo de convergência de várias correntes e escolas de poesia, em Portugal. Desde o barroquismo tardio de um Pina e Melo, passando pelo neo-classicismo de um João Xavier de Matos, até ao pré-romantismo de Anastácio da Cunha, tudo coexiste, quase tranquilamente, no país. E os poetas diversos vão tendo leitores e devotos admiradores dos seus versos. A primeira edição das "Poesias" (1786, Porto), do Abade de Jazente, esgotou a sua tiragem de 2.000 exemplares, em menos de seis meses. Compreende-se: era uma voz nova e um poeta singular.
Por outro lado, verifica-se que uma boa parte dos poetas não estava particularmente interessada em publicar, em livro, as suas obras. Não fora a insistência de algum editor fervoroso, ou amigo desinteressado que ia juntando os manuscritos ou insistindo com o vate, e muitas obras teriam ficado inéditas ou ter-se-iam perdido. Xavier de Matos e Jazente, são dois exemplos de obras que foram publicadas graças ao interesse de amigos e impressores. Noutros casos, os livros foram editados postumamente: Correia Garção, Dias Gomes, Cruz e Silva cujo "Hissope" só foi publicado em 1802, três anos após a sua morte, porque havia muitos manuscritos do poema na mão de amigos.
Mas houve também muita obra poética de medíocre qualidade que se publicou, na época, por força e vontade dos seus autores, alguns deles mendigando o alto patrocínio de aristocratas que teriam dinheiro, mas pouco sentido crítico em relação à poesia. Este poeta menor, João Sabino dos Santos Ramos, que nasceu no Turcifal, termo da vila de Torres Vedras, era, segundo Inocêncio (Tomo IV, pg. 32), proprietário e lavrador, tendo nascido a 11 de Julho de 1789, e talvez por ter bens próprios mandou imprimir a obra à sua custa na Oficina de Simão Thaddeo Ferreira, em 1815. Também segundo Inocêncio, João Sabino cegou a meio da vida e veio a falecer em 1855. Devia saber latim, tinha alguma cultura e admirava Bocage.
A sua poesia é medíocre, mas o livrinho tem algumas curiosidades. Ficamos, por exemplo, a saber que, no dia em que Bocage foi sepultado (soneto XVI, nota 2), "chovia mansa, mas desusadamente". Também há um poema dedicado ao "senhor Oliva, editor do Telegrafo" (pg. 185). E há também uma pomposa " Canção Heroica dedicada na restauração de Badajoz, ao excellentissimo senhor marechal general Lord Wellington, pelo novo, honorífico título de Marquez de Torres Vedras".
O livrinho deste poeta obscuro, menor e esquecido, custou-me, nos anos 80 do século passado, Esc. 1.400$00 (cca. 7,00 euros), no Centro Antiquário Alecrim, Lda., na rua do mesmo nome, nº 48-50, em Lisboa. O livro, brochado, está em bom estado, embora tenha algumas anotações a lápis dos sécs. XIX e XX.  

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Bibliofilia 51 : Tomás Pinto Brandão


O livro, cujo frontispício se mostra em imagem, não é meu: confiou-mo um Amigo, a quem o pedi emprestado, para ler. Mas não desdenhava possuí-lo pois, em tempos e leilões passados, cheguei a licitar outros exemplares desta obra, muito embora não lograsse adquiri-la - até porque não é muito frequente aparecer à venda.
O seu autor, Tomás Pinto Brandão nasceu no Porto, em 1664. É um poeta de cariz essencialmente barroco e as composições (46 sonetos, oitavas, romances...), deste "Pinto Renascido...", caberiam bem e por mérito próprio na "Fenix Renascida" ou no "Postilhão de Apolo". A frescura e jovialidade de alguns poemas ultrapassam, porém, a circunstancialidade cultista da época. Esta segunda (?) edição de 1733 (não referida por Inocêncio que data a primeira de 1732) teve uma terceira (?) edição, em 1753.
Tomás Pinto Brandão foi grande amigo de Gregório de Matos, e teve, além de palavra fácil e atrevida, uma vida turbulenta. Esteve preso várias vezes, uma delas por acção judicial da sua sogra, e de que há um reflexo, em poema: "...A doce liberdade se malogra,/ De todo o paraízo se desterra,/ E de viver, em fim, os termos erra:/ Porque em vida se enterra, se se ensogra:...". O Poeta, que andou por Angola e pelo Brasil, era porém realista e objectivo, como se pode ver por este "Epitáfio" que compôs:

Aqui jaz quem nos intima,
Que a morte é pequeno mal,
por muito que a vida opprima;
Pois o Sabio em Portugal,
Só quando falta, se estima.

Tomás Pinto Brandão morreu em Lisboa, em Outubro de 1743. Este seu livro, em presença, encontra-se em razoável estado de conservação, embora com alguns sinais de traça que quase atingem o texto. Foi comprado em Lisboa, a 18 de Junho de 1993, por Esc. 6.200$00 (cca. 31,00 euros). O que me parece ter sido um preço justo.

Com agradecimentos ao Emprestador e Amigo. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

Bibliofilia 48 : Leonarda Gil da Gama


Leonarda Gil da Gama, anagrama de Maria Madalena Eufémia da Glória, nasceu em Sintra, a 11 de Maio de 1672, e terá morrido por volta de 1750. Entre 1733 e 1749 fez imprimir, pelo menos, 5 obras em que o virtuosismo barroco atinge o seu esplendor, em loas a santos e santas, em louvor da religião, mas não só. A autora tinha professado, com 16 anos incompletos (1688), no Convento da Esperança, segundo Inocêncio.
Os seus livros são raros, ou muito pouco frequentes. As suas obras nunca foram reeditadas, e é pena: dariam um case study singular, sobre o barroco português. Apenas uma antologia (incluindo excertos de obras, também, de Violante do Ceo e Maria do Ceo), organizada por Mendes dos Remédios, em 1914, foi publicada em Coimbra, com prosa e versos de Leonarda Gil da Gama.
Pelo prólogo, em imagem, de "Orbe Celeste..." (1742) se poderá fazer uma pequena ideia do virtuosismo e domínio que a autora possuía sobre as técnicas da escrita barroca. O livro, em presença, custou 45,00 euros, muito recentemente. E, embora haja vários vestígios de traça, nas páginas, o texto nunca é afectado.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Bibliofilia 47 : "Ulyssea, ou Lisboa Edificada"


Gabriel Pereira de Castro (1571-1632), autor desta "Ulyssea, ou Lisboa Edificada", nasceu em Braga e foi Doutor em Cânones. A primeira edição do poema foi já póstuma, e foi publicada pelo irmão do Autor. Almeida Garrett, no seu "Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa", não poupa a qualidade menor da obra, e chama-lhe: "quixótica e sesquipedal" (excessivamente grande). É realmente um poema extenso (10 cantos), de leitura morosa e cansativa, embora o verso seja corredio. A edição miniatura, que se apresenta, é a 5ª (na sequência de Inocêncio, III, 109), muito embora a Tipografia Rollandiana tenha publicado outra, no mesmo ano (1827). Esta, da Impressão Régia, encontra-se em bom estado de conservação embora, no trabalho de encadernação, lhe tenham colado muito rente a folha do frontispício. O voluminho custou-me, em 1991, Esc. 2.000$00, em Lisboa. Recentemente, a Livraria Luís Burnay, no seu Boletim Bibliográfico 50 (de Maio de 2011) tinha um exemplar (lote 110) igual ao meu, também encadernado, mas com "pequeníssimos picos de traça na lombada e pasta superior", que vendia por 48,00 euros.  

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Em redor da Bibliofilia



É um conselho que se costuma dar aos bibliófilos: nunca comprar obras incompletas. Porque raramente se conseguem os volumes que ficam a faltar. Mas eu, às vezes, sou atrevido com a sorte. E paciente - não me tenho arrependido muito, de não seguir o conselho. O "Dicionário..." de Inocêncio, fui-o comprando aos bocadinhos, até só me faltar o volume 7 que, em boa hora, a IN-CM reeditou, e eu comprei e completei, finalmente. O único caso bicudo, que tenho em mãos e em aberto, é o vol. IV das "Poesias de António Diniz da Cruz e Silva", editadas pela Typografia Lacerdina e a Impressão Régia, entre 1807 e 1817. Dos 6 volumes, espero há uns quinze anos, para encontrar e comprar o IV.
"A Fénix Renascida" creio que me demorou cerca de 10 anos a completar, mas consegui-o (ver, aqui no Arpose, "Bibliofilia 26"). Outro desenlace feliz, este, de mais curta duração, foi a 2ª edição (1761-1770), pouco frequente (a 1ª edição é cara e raríssima), da obra poética, em três volumes, de Diogo Bernardes. O volume que me faltava ("Rimas Várias...") comprei-o na Livraria Olissipo, de José Vicente. Os outros dois tinha-os adquirido, 4 ou 5 anos antes, num leilão de José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária de Calhariz).
Tudo isto a propósito de, ontem, ter conseguido o II volume, que me faltava, da "Vida, e Feitos de Francisco Manoel Gomes da Silveira Malhão" (1794), de que há uns bons dez anos tinha comprado, na Livraria Histórica e Ultramarina, os tomos I e III. Este segundo volume foi adquirido na Rua do Alecrim, afortunadamente, e está em muito bom estado (ver imagem do frontispício).
Este Silveira Malhão que nasceu em Óbidos, em 1757, era um poeta menor, chocarreiro q. b., mas singular. Era advogado, mas também cantava e tocava modinhas, e terá morrido por volta de 1816. A sua "biografia" está entremeada de poesias e, no volume I das suas obras, faz o seu auto-retrato, num soneto saboroso, que também se reproduz na imagem.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Salão de Recusados XXX : cabeleireiro e poeta jocoso


Por informação de Inocêncio (I, 159), fez ontem anos que faleceu (16 de Novembro de 1817), na maior pobreza, octogenário e quase cego, este poeta, hoje praticamente desconhecido, e que dava pelo nome de António Joaquim de Carvalho. Morreu na Rua do Crucifixo, onde morava, era viúvo e fora cabeleireiro de profissão. Como fora Domingos Reis Quita, mais conhecido, que pertencia à Arcádia Lusitana e era amigo de Garção. Pelos vistos o ritmo das tesouras cruzava-se, na altura, com os ritmos poéticos... António Joaquim de Carvalho, ainda segundo Inocêncio, tem obra vasta. Que tinha o verbo fácil, nota-se. Vai um soneto brejeiro, de amostra:

Que usem as Damas de compradas cores
Por fingirem que são alvas e rosadas;
Que afectem as cinturas delicadas
Com barbado espartilho autor das dores.

Que as frentes ornem de fragantes flores,
Porque as faz mais vistosas, e engraçadas:
Que assemelhem co'as grenhas emprestadas
Seu gentil rosto aos monos brincadores:

Tudo tolero às Damas indiscretas,
Que a afectação é sempre o seu regalo,
Por tecerem de Amor ervadas setas.

Em ridículas modas eu não falo;
Mas engrossarem nádegas e tetas,
O que isso explica, por modéstia calo.

P. S.: para JAD, em troca do provérbio, que eu não conhecia.